O Papa
Francisco já em poucos dias de pontificado vem destacando algumas idéias
que, acredito, tornar-se-ão em pontos centrais do seu magistério. O
Santo Padre, além do explícito e recorrente testemunho de caridade,
insiste em uma exposição catequética, simples e ao mesmo tempo profunda a
respeito do caráter querigmático da fé. Apenas no testemunho do Cristo
Crucificado encontra a Igreja o seu mais profundo sentido de existir.
Assim, pois, a renovação não passa pela reconstrução, mas pela
configuração a Cristo mediante a contínua conversão do coração.
De
certa forma muito do enfraquecimento das missões foi reflexo da
politização da fé. Sem o aspecto confessional o apostolado perde a sua
pedra fundamental. A secularização do ardor missionário simplesmente
arranca o que é mais essencial nessa vocação: Cristo. O Papa Francisco,
consciente do modo sorrateiro como a religião foi transformada em
instrumento da ideologia na América Latina, reconhece que sem a
confissão de Jesus Cristo a Igreja se torna em uma "ONG
sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor". Claro que os
trabalhos humanitários têm seu valor no processo de valorização de povos
explorados. Contudo, existe um grande abismo que separa a ambição de
ampliar a vivência das virtudes humanas e a consagração pela expansão da
mensagem evangélica. Esta última missão vai além do aspecto material e
se debruça sobre a angústia existencial do homem e do aspecto redentor
do testemunho do Cristo Crucificado.
Entende-se,
pois, o esforço do Santo Padre em tornar novo aquela missão dada pelo
Senhor aos Apóstolos: o anúncio de Cristo como o único Salvador "do
homem todo e de todos os homens". O cristianismo tem, como um das suas
incumbências, a melhoria da dignidade do homem em sua realidade
política, econômica e social, mas, isto sim, se lança em uma empreitada
que vai além da materialidade e atinge o âmago da própria alma humana.
Cristo, portanto, salva o homem elevando a sua condição existencial e,
assim, abre as portas da salvação para todos aqueles que reconhecem os
limites da condição pecadora, levantado os olhos aos Céus em louvor,
adoração e contrição. Nesse sentido, "a verdade cristã é fascinante e
persuasiva, porque responde a uma necessidade profunda da existência
humana", disse o Papa.
A
atualidade deste anúncio "permanece válido hoje como o foi nos
primórdios do
cristianismo, quando se realizou a primeira grande expansão missionária
do
Evangelho". O Papa Francisco, desde já, revitaliza o ímpeto missionário
que sempre fora marca característica da Igreja em sua ação. O
enfraquecimento deste anúncio é proporcional à rejeição do caminhar "na
presença do Senhor, com a Cruz do Senhor". Sem a cruz não há, pois,
Jesus, como já havia dito o então Cardeal Bergoglio. E sem Jesus não há
Igreja e não há o que anunciar. Volta-se, portanto, ao dilema do
cristianismo convertido em um humanismo ateu incapaz de apresentar ao
homem as realidades sobrenaturais.
A Igreja dos pobres se forma quando o homem reconhece a sua condição
pecadora e volta-se para o Senhor. Destarte, por meio da dinâmica de
entrega aos desígnios de Deus, é possível perceber que o "verdadeiro
poder é o serviço" e que o exercício desse poder está fundamentado
naquele "vértice
luminoso na Cruz". Não é de se estranhar, portanto, que o Papa Francisco
seja, ao mesmo tempo, o Papa da humildade e da pobreza e o Papa do
Cristo Crucificado e Libertador. A sua alegria estampada em todas as suas aparições, o
seu convite para que não tenhamos medo da "bondade" e da "ternura", assim
como a sua esperança de que o homem, quando vigia o o seu "coração",
substitui as más intenções pelas boas, tudo isso é conseqüência do amor
que brota ininterruptamente da Cruz que se tornou em Árvore da Vida.
O
Papa Francisco vem, pois, com o seu carisma pessoal apresentar uma
faceta sempre nova do rosto de Cristo e da missão da Igreja. O seu amor
aos pobres e o seu entusiasmo só podem ser corretamente compreendidos
mediante o olhar da fé. Que o Santo Padre, com as suas palavras e com o
seu exemplo, desperte muitos jovens para esse chamado de Deus, na adesão
a aventura que é a missão aos povos, principalmente aos homens que
vivem na "periferia do nosso coração", mas, para os quais, o Cristo
Crucificado os fita com um olhar complacente, bondoso e cheio de
misericórdia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário