terça-feira, 19 de março de 2013

Francisco, mensageiro do Cristo Crucificado e Libertador


O Papa Francisco já em poucos dias de pontificado vem destacando algumas idéias que, acredito, tornar-se-ão em pontos centrais do seu magistério. O Santo Padre, além do explícito e recorrente testemunho de caridade, insiste em uma exposição catequética, simples e ao mesmo tempo profunda a respeito do caráter querigmático da fé. Apenas no testemunho do Cristo Crucificado encontra a Igreja o seu mais profundo sentido de existir. Assim, pois, a renovação não passa pela reconstrução, mas pela configuração a Cristo mediante a contínua conversão do coração.

De certa forma muito do enfraquecimento das missões foi reflexo da politização da fé. Sem o aspecto confessional o apostolado perde a sua pedra fundamental. A secularização do ardor missionário simplesmente arranca o que é mais essencial nessa vocação: Cristo. O Papa Francisco, consciente do modo sorrateiro como a religião foi transformada em instrumento da ideologia na América Latina, reconhece que sem a confissão de Jesus Cristo a Igreja se torna em uma "ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor". Claro que os trabalhos humanitários têm seu valor no processo de valorização de povos explorados. Contudo, existe um grande abismo que separa a ambição de ampliar a vivência das virtudes humanas e a consagração pela expansão da mensagem evangélica. Esta última missão vai além do aspecto material e se debruça sobre a angústia existencial do homem e do aspecto redentor do testemunho do Cristo Crucificado.

Entende-se, pois, o esforço do Santo Padre em tornar novo aquela missão dada pelo Senhor aos Apóstolos: o anúncio de Cristo como o único Salvador "do homem todo e de todos os homens". O cristianismo tem, como um das suas incumbências, a melhoria da dignidade do homem em sua realidade política, econômica e social, mas, isto sim, se lança em uma empreitada que vai além da materialidade e atinge o âmago da própria alma humana. Cristo, portanto, salva o homem elevando a sua condição existencial e, assim, abre as portas da salvação para todos aqueles que reconhecem os limites da condição pecadora, levantado os olhos aos Céus em louvor, adoração e contrição. Nesse sentido, "a verdade cristã é fascinante e persuasiva, porque responde a uma necessidade profunda da existência humana", disse o Papa.

A atualidade deste anúncio "permanece válido hoje como o foi nos primórdios do cristianismo, quando se realizou a primeira grande expansão missionária do Evangelho". O Papa Francisco, desde já, revitaliza o ímpeto missionário que sempre fora marca característica da Igreja em sua ação. O enfraquecimento deste anúncio é proporcional à rejeição do caminhar "na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor". Sem a cruz não há, pois, Jesus, como já havia dito o então Cardeal Bergoglio. E sem Jesus não há Igreja e não há o que anunciar. Volta-se, portanto, ao dilema do cristianismo convertido em um humanismo ateu incapaz de apresentar ao homem as realidades sobrenaturais. 

A Igreja dos pobres se forma quando o homem reconhece a sua condição pecadora e volta-se para o Senhor. Destarte, por meio da dinâmica de entrega aos desígnios de Deus, é possível perceber que o "verdadeiro poder é o serviço" e que o exercício desse poder está fundamentado naquele "vértice luminoso na Cruz". Não é de se estranhar, portanto, que o Papa Francisco seja, ao mesmo tempo, o Papa da humildade e da pobreza e o Papa do Cristo Crucificado e Libertador. A sua alegria estampada em todas as suas aparições, o seu convite para que não tenhamos medo da "bondade" e da "ternura", assim como a sua esperança de que o homem, quando vigia o o seu "coração", substitui as más intenções pelas boas, tudo isso é conseqüência do amor que brota ininterruptamente da Cruz que se tornou em Árvore da Vida.

O Papa Francisco vem, pois, com o seu carisma pessoal apresentar uma faceta sempre nova do rosto de Cristo e da missão da Igreja. O seu amor aos pobres e o seu entusiasmo só podem ser corretamente compreendidos mediante o olhar da fé. Que o Santo Padre, com as suas palavras e com o seu exemplo, desperte muitos jovens para esse chamado de Deus, na adesão a aventura que é a missão aos povos, principalmente aos homens que vivem na "periferia do nosso coração", mas, para os quais, o Cristo Crucificado os fita com um olhar complacente, bondoso e cheio de misericórdia.

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