A eleição de ACM Neto para Salvador foi, além da vitória sobre Pelegrino, a derrota pessoal de Lula e de Dilma. O DEM, no ápice da sua crise política, agravada com a debandada de muitos correligionários para o recém-fundado PSD, saiu vencedor da batalha contra o PT e a sua máquina no governo do estado da Bahia. Entretanto, infelizmente, como já é sabido de muitos, a concepção dialética dos petistas desfavorece o reconhecimento da soberania popular no jogo democrático. ACM Neto foi escolhido pelo povo, a sua eleição foi reflexo do livre exercício do voto pela população soteropolitana.
O PT pretende alegar, entretanto, que ACM Neto foi eleito pelas elites. Porém, estatisticamente, a famigerada elite representa um porcentual mínimo da população soteropolitana. A sua vitória com cerca de 54% seria, então, fantasiosa? A sua vitória em zonas eleitorais como os mais miseráveis bairros de Salvador no subúrbio ferroviário seria desmerecida? O que está por detrás da crítica petista é o modo autoritário como a esquerda pretende monopolizar a causa dos mais pobres.
Os grandes pensadores da esquerda quase sempre nascem e se formam nos ambientes mais elitizados da sociedade. Entretanto, rompendo com o ciclo de opressão e alienação, libertam-se chegando, finalmente, ao ideal de revolução e redenção. O curioso, contudo, é que este polilogismo, isto é, o condicionamento do homem através de fatores externos, no caso em questão a classe, é desmentido pelos seus mais ardorosos defensores. Assim como Marx era proveniente de família burguesa e durante toda a sua vida fora custeado por amigos e parentes, mas passara a sua existência criticando a burguesia e pontificando em nome do proletariado, do mesmo modo muitos petistas soteropolitanos demonizaram as elites, isto é, os seus vizinhos.
A vitória de ACM Neto é uma oportunidade única para o fortalecimento da política na Bahia. Chamá-lo de "carlista" - ao menos no modo como a esquerda entende o termo - seria falacioso, ainda mais quando muitos dos antigos arautos do Cabeça Branca hoje compõem o governo de Wagner, considerá-lo o candidato dos ricos seria desmerecer os seus votos nos bairros pobres e miseráveis da capital baiana. O PT, contudo, encontra-se hoje totalmente “blindado” de críticas morais e lógicas. Se outrora eram os “companheiros” que emitiam juízos sobre aqueles que votavam e elogiavam políticos como Antônio Carlos Magalhães, ou até mesmo versões mais modernas como FHC e Luís Eduardo Magalhães, hoje eles não sentem nenhum remorso na defesa de corruptos condenados como Dirceu e Genoíno. Ora, com tamanha relativização do próprio ideal de política resta, ainda, algum pudor?
ACM Neto é herdeiro do avô. Antônio Carlos Magalhães, entretanto, não pode ser enquadrado como um político ao estilo moderno, se aproximava, nesse sentido, muito mais da figura do estadista do que do arauto da democracia. Assim, ao colocar os interesses da Bahia em primeiro lugar, automaticamente descobriu as vantagens da economia liberal, por exemplo. Para minar os investimentos estrangeiros no Rio Grande do Sul e no resto do Nordeste, ACM transformou o nosso estado num canteiro de indústrias que buscavam as concessões fiscais dadas pelo governo. Ademais, o seu trato com a religião, ainda não sendo nada exemplar, era como ver uma descrição de Freyre da vida de fé e piedade dos Senhores de Engenho do Brasil colonial: uma religião pessoal, de práticas devocionais pontuais, mas sem adesão integral no dia-a-dia. ACM Neto já leva consigo os tratos modernos da política atual, mas tem, sem dúvida alguma, a defesa de Salvador como fundamento das suas ações. O bairrismo soteropolitano sempre foi a força motriz da nossa política, até a esquerda surgir com seu discurso "internacionalista".
Em meio a muitos Golias – Dilma, Lula, terrorismo psicológico – o Davi soteropolitano saiu vencedor!

Um comentário:
Pedro,
Salvador é uma cidade eminentemente oposicionista. Foi assim quando elegeu Fernando José e Lídice, na época da Bahia governada por Antonio Carlos. Assim também o foi na eleição de João Henrique em 2004, contra o governo Paulo Souto e em 2008, contra - não na aparência, mas de fato- o governo de Jaques Wagner. O discurso do alinhamento político, pregado por Pelegrino, Dilma e Lula pode ter dado resultado em muitas cidades do Brasil, mas em Salvador isso não "colou". Nossa história é essencialmente libertária e não aceita qualquer forma de mandonismo, autoritarismo ou criação de Prefeito como um mero " secretário do governo do Estado".
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