sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Nova Evangelização: o homem tem sede de infinito


O homem tem em si uma sede de infinito, uma capacidade inerente de abertura diante do transcendente. Entretanto, esta sua aptidão não se faz unicamente mediante elucubrações racionais, mas, e principalmente, através da vida como presença dAquele que é fundamento. Muitos pensadores estruturaram uma reflexão na esteira desse raciocínio  Destaca-se, contudo, Xavier Zubiri com a sua ideia de religação. Porém, o que aqui nos interessa é captar a dramaticidade existencial da vida como sinal, ou seja, reflexo imediato do próprio aconchego de Deus. 

O homem é o que Xavier Zubiri definiu como um ser religado – religatum esse, religio - , isto é, religado ao fundamento. Destarte, ao se encontrar entre as coisas, o homem é impelido a, com as mesmas coisas, fazer-se. Assim, a realidade é o fundamento “possibilitante” do homem na estruturação mesma da sua personalidade. Apreendendo, à vista disso, o poder da realidade como deidade, ele é conduzido à divindade. Deus, então, encontra-se nas coisas reais de modo fundante. Não obstante, ainda sendo absolutamente diverso, mas não apartado das coisas reais e da totalidade destas, as constitui formalmente como reais. Portanto, toda coisa real é realidade justamente por ser fundada em Deus. O homem, de tal sorte, angaria a força para viver do princípio fundante. Assim, a busca do fundamento não se inicia a partir de uma saída de si, mas sim de acatar desde onde viemos no que se refere à aceitação da realidade humana. 

De forma menos rebuscada e mais concreta, Bento XVI dirá que “o homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus. E o homem sabe, de qualquer modo, que pode dirigir-se a Deus, sabe que lhe pode rezar”. Esta abertura inerente ao sujeito que está na realidade, como já afirma a teoria zubiriana, encarna-se, contudo, não apenas na oração contemplativa. A vida espiritual é impulsionada pela graça, levando o crente a buscar a intimidade com Deus. Entretanto, a procura, sendo intrínseca à própria condição existencial humana, mostra-se no mundo em sua complexidade e contradição. A realidade é, portanto, obra de Deus e deve ser percebida através do olhar de oração

Essa abertura se realiza tanto na vida do jovem que busca a felicidade plena como na alegria da monja apaixonada por Cristo. Ambos estão vivendo na consequência dessa inquietação que, para muitos, torna-se fundante da vida. O homem, ainda que consiga abafar a voz que clama dentro dele, tem a natural espera pelo Outro. Contudo, diante do mundo no qual os símbolos se encontram esvaziados, em meio a uma sociedade incapaz de compreender a democracia dos mortos chestortiana, o sujeito se percebe desorientado nessa busca. Quando o mundo exalta o tempo presente pelo seu caráter atual, esquece que o presente se torna passado a cada instante. A grandeza da experiência cristã é, justamente, a percepção da atualidade concreta da existência tendo em vista o seu sentido vertical, isto é, eterno. 

A Igreja, com a Nova Evangelização, pretende, justamente, anunciar ao homem moderno que a sua sede de verdade pode ser saciada em Cristo. A Igreja tem a missão de levar cada “indivíduo” à comunhão com os outros e com o totalmente Outro. Nas dificuldades e paradoxos da vida atual, o Santo Padre reconhece a importância de, ao mesmo tempo em que se mantém o olhar aberto proposto pelo Concílio Vaticano II, incitar na modernidade o reconhecimento de Deus como realidade mais real do que nós mesmos, como fundamento do ser e fonte de todos os anseios que inquietam o coração.

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