segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Batina: entre os seus admiradores e perseguidores

Discute-se constantemente hoje em dia a importância do hábito eclesiástico na vida ordinária cristã. Existem muitos que transformam a batina na representação de toda a carga opressiva da doutrina e da lei da Igreja, entretanto, tão danoso quanto, outros realmente acreditam que pedaços de pano acrescentam uma dignidade ontológica aos que os trajam. Não obstante os opostos radicais, é necessário reconhecer, antes de qualquer coisa, a força simbólica que os hábitos carregam naturalmente. 

A lei da Igreja recomenda e indica o uso de hábitos que distinguem o consagrado dos homens comuns. Aqui já há uma ideia altamente colocada em discussão. Muitos dirão que esse tipo de distinção aumenta o abismo que separa o povo do clero, tornando as relações do laicato com a Igreja institucional extremamente burocrática e artificial. Outros, por sua vez, apreciam essa dissemelhança entre consagrados e leigos e, ademais, acreditam que tal hierarquização exprime o sentido mais profundo da essência do sentimento eclesial. 

O equilíbrio, contudo, se encontra no reconhecimento da distinção gerada pelo hábito, mas que deve ser entendida como serviço. O consagrado se veste de maneira diferente para anunciar ao mundo a existência de vidas separadas unicamente para Deus, porém que se oferecem aos homens através do testemunho da caridade. Assim, pois, o hábito não deve ser visto como a aristocratização do clero ou das comunidades religiosas, mas, isto sim, deve ser entendido como anúncio de existências entregues unicamente a Deus.

De forma muito interessante, num mundo altamente secularizado, com homens analfabetos para os sinais transcendentes, os símbolos perdem a sua riqueza. A Igreja, contudo, é chamada a reeducar os homens para a fé cristã, e parte integral desse processo é a comunicação da força simbólica que dialoga diretamente com a alma. O aparato usado para respaldar esse caráter dos sinais nos dá a fenomenologia da religião. Toda a estrutura religioso-mítica sempre foi profundamente marcada pela construção e uso abundante de ritos, paramentos, línguas, gestos etc que tiram o homem comum da sua situação ordinária. No cristianismo esse significado ganha a sua total plenitude já que o próprio Deus usou da linguagem humana para se comunicar.

Os regimes comunistas e revolucionários, desde o México maçônico, passando pelos anarquistas da Guerra Civil Espanhola e indo até a perseguição brutal dos regimes comunistas do leste europeu, sempre tiveram como uma das suas mais fortes políticas a proibição do uso dos trajes eclesiásticos. A razão era que, de forma muito correta, eles compreendiam a sua força simbólica. A presença cotidiana de padres e religiosos no mundo, anunciando de modo silencioso a gravidade da vida consagrada, era um grito da fé na sociedade. O pensamento Iluminista já lançava as bases dessa práxis quando pretendeu reduzir a experiência da fé ao ambiente privado. Os padres devem usar batina, isto sim, da porta dos templos para dentro. Entretanto, infelizmente, essa mesma percepção anticlerical e secularizante dos maiores inimigos da Igreja se tornou recorrente no discurso de muitos líderes católicos. 

É necessário, portanto, redescobrir o sentido do hábito eclesiástico: nem é sinal de opressão e nem é instrumento de aristocratização. O traje religioso é, acima de tudo, testemunho de consagração, expressão de um Deus que continua operando no mundo e escolhendo moças e rapazes que estão aptos a gastar sua juventude por Ele.

Nenhum comentário: