terça-feira, 29 de maio de 2012

Cadê o espírito da liturgia?


É notório que existe atualmente na Igreja um forte clamor pela retomada da estética. Entretanto, como já nos ensina o Santo Padre, esta busca não deve se transformar no esteticismo vazio, mas, isto sim, tem que ser consequência de algo anterior, da intimidade com Deus e da busca sincera pela vivência coerente da fé cristã.

Entretanto, também é notório que muitos se satisfazem nas rendas e nos brocados ou já consideram batalha ganha se os seminaristas usam batina. Contudo, a preocupação de Bento XVI se encontra muito mais na evangelização da cultura e na reflexão a respeito da crise da modernidade. Porém, em perfeita sintonia com o seu projeto, o Sumo Pontífice, em suas cerimônias, procura colocar em prática aquilo que já destacara em obras como “Introdução ao Espírito da Liturgia.”

Como o próprio título do livro do então Cardeal Ratzinger nos mostra, a liturgia tem um espírito, e certamente este não se encontra na vazia percepção horizontal. Reduzir a “reforma da reforma”, como alguns gostam de chamar o novo movimento litúrgico, ao uso de casula romana ou alva com renda de frivolité é, simplesmente, incidir no mesmíssimo erro tão comum nas décadas de 70 e 80. O esvaziamento do mistério pode ser feito tanto de túnica, estola e atabaque como com brocados, batinas e latim.

Deste modo, é mais do que urgente fortalecer as mais diversas frentes. Assim, se é necessário que a Igreja esteja refletindo sobre a cultura, também é importante que haja outros empenhados na defesa da liturgia. Entretanto, que todos saibam pelo que estão lutando e porque estão batalhando. Não há espaço para simplismos e idealizações românticas. Não se pode confundir tradição com uso de batina ou casula romana. Pode ser, porém, que o uso de batinas, rendas, brocados ou qualquer coisa do gênero seja uma faceta da tradição, mas seria extremamente inocente de nossa parte cantar odes de alegria ao se deparar com um sacerdote trajado com o seu hábito talar ou portando um barrete na Santa Missa. Preocupemos-nos primeiro com a coerência de vida e a com a busca sincera da santidade, o resto, sim, o resto, é consequência e fruto.

2 comentários:

José Juarez Batista Leite disse...

Na ação litúrgica a Igreja expressa a Sua Identidade de uma forma mais densa e concentrada.

Anônimo disse...

É uma reflexão importante. Entre os chamados "tradicionalistas" vejo manifestações de preocupação pela mera estética na liturgia e nada sobre espiritualidade católica e litúrgica.


Às vezes parece pura vaidade: A preocupação de logo decorar as preces em latim, geralmente rezadas sem um espírito de contemplação e devoção verdadeira. Rezadas "por rezar", às vezes, para "aparecer" entre os curiosos.

Pio XII diz na encíclica Mediador Dei que devemos nos oferecer como hóstias espirituais puras na Missa, agradáveis ao Senhor. Deus conhece nossas intenções e sabe se temos uma fé humilde, um coração amável e adoramos verdadeiramente Nosso Senhor Jesus; ou se usamos a nossa fé para aparecer entre os outros.

Isto é: Nada adiantará, para Deus, se na verdade, até se comunga as Espécies Sagradas de joelhos; se o altar no seu coração cultua o seu próprio ego.

Seus textos são ótimos.
Deus te abençoe sempre.

Pedro Augusto Siqueira Correia