sábado, 19 de maio de 2012

A admirável honestidade de Mons. Fellay


As polêmicas cartas trocadas entre os Bispos da FSSPX fortaleceram ainda mais o indício de que é iminente a solução para o fim do cisma iniciado por Mons. Lefebvre. O interessante, entretanto, é o belíssimo tom usado por Mons. Fellay na sua resposta aos seus três irmãos de Fraternidade. Não obstante, fica claríssimo como em muitos guetos tradicionalistas, quiçá em todo o seu corpo, existe uma relação quase fetichista com a revolta e a desobediência.

A carta de resposta escrita por Mons. Fellay é digna de um Cardeal da Santa Igreja. Fundamentada numa realista sensibilidade católica, o Superior da FSSPX mostra que, diferentemente do que parecia, há sim um forte sensus ecclesiae no modo como olha a Igreja visível de Cristo. Ademais, os três outros Bispos, de maneira encarniçada, manifestaram mais uma vez como o radical-tradicionalismo, quando não movido pela caridade, transforma-se numa vocação rebelde por excelência.

Obviamente a verdadeira caridade encontra-se na Verdade, ou seja, não apenas se fundamenta em Cristo como deve ser vivida baseada no Senhor. Entretanto, a caridade é, antes de tudo, uma virtude que transforma, que é objeto dos nossos pedidos e alvo da nossa conquista diária. Assim, pois, o amor cristão, mas do que um discurso teórico, realiza-se na prática da vida marcada pelo encontro pessoal com Cristo. Infelizmente, contudo, muitos dentre nós são levados a uma radical teorização do discurso cristão onde não há espaço para outra coisa que não seja a visão burocrática da fé. Nesse cenário a sobrenaturalidade é simplificada no aparato litúrgico, doutrinal e moral, isto é, o cristianismo deixa de ser a Religião da vida, assistida pelo Espírito Santo, para se transformar na crença de um manual.

Os tradicionalistas radicais, tendo hoje os três Bispos da FSSPX como símbolos fulgurantes, não apenas incidem num sedevacantismo prático negando qualquer possibilidade de emendo daquilo que consideram a Roma pós-conciliar, como parecem olhar para a Igreja com uma visão horizontal na qual não cabe nenhuma crença na ação sobrenatural do Espírito Santo. A rebeldia e a desobediência de tão entranhadas se tornam, então, em algo próximo aos carismas infundidos por Deus na figura dos Fundadores. Assim, pois, Mons. Lefebvre teria transmitido aos seus nada menos que espiritualidade da desconfiança infalível diante da "Roma modernista" e o carisma da revolta contra a "Igreja pós-conciliar".

Mons. Fellay, assim, ao buscar solucionar o cisma trairia não apenas a causa “da Tradição” como mostraria sua radical infidelidade ao legado de Lefebvre. Dentro da lógica tradicionalista é este o raciocínio que permeia e funda a dura crítica ao número um da FSSPX. Entretanto, o que o Bispo suíço vem mostrar a todos os católicos é a crença sobrenatural na graça de Deus naquela que É a Sua Igreja – e isto é fundamental, do contrário seria cair no sedevacantismo com a negação da assistência divina – e também a percepção realista de que o contexto atual difere profundamente dos tribulados tempos pós-conciliares.

Rezemos de verdade pelo Superior Geral da Fraternidade e por todos aqueles envolvidos em tal processo. O retorno da FSSPX primeiramente beneficiará a própria FSSPX, que gozará da plena comunhão com a Igreja. Entretanto, o Corpo Místico de Cristo também recebe um novo vigor quando as suas fileiras são fortalecidas por bravos soldados na luta contra o Inimigo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Quando sair o acordo prático da FSSPX com a Santa Sé os rad-trads, sedevacantistas teóricos, comunidades amigas, etc... não poderão mais se esconder atrás da fraternidade. Vão ter que assumir e sumir !

abraços,
lucas