
Pedro Ravazzano
Ao longo da história da Igreja é possível contemplar uma diversidade de relacionamentos de Deus com os Seus filhos. Desde as arrebatadoras experiências místicas até a mais profunda aridez espiritual, o Senhor age de maneiras inexplicáveis e desconhecidas. Entretanto, no outro lado se encontra uma alma sedenta da água viva e que responde aos desígnios do alto. Santa Teresinha do Menino Jesus e o Beato John Henry Newman são dois grandes testemunhos de como a intimidade pessoal com Cristo também acontece na solidão do abismo. Solus cum solo!
O coração fala ao coração, já dizia o lema do Cardeal Newman, também no deserto da alma ávida por Deus. A vida desse convertido é uma clara amostra dos frutos que podem ser colhidos no homem que ruma em direção à Verdade. Ademais, dentro da experiência do beato inglês é notório como as provações e a aridez foram claros instrumentos pelos quais pôde ele se aproximar do Senhor. Pensar que a relação com Deus se faz exclusivamente através das erupções sentimentais é desconhecer a grandeza da oração que brota da alma enamorada e que independe da resposta do Amado. O processo de busca de Newman, que teve como coroa a sua conversão, refletiu não apenas a busca intelectual, mas, principalmente, a dinâmica espiritual na qual ele, solitariamente, sem o auxílio direto dos artifícios eclesiais, identificou a sua incapacidade de fazer-se a si mesmo. Apenas no Outro, naquele que o faz, pode a vida gozar de pleno sentido.
It is face to face, "solus cum solo,"Only this I know full well now, and did not know then, that the Catholic Church allows no image of any sort, material or immaterial, no dogmatic symbol, no rite, no sacrament, no Saint, not even the Blessed Virgin herself, to come between the soul and its Creator. It is face to face, "solus cum solo," in all matters between man and his God. He alone creates; He alone has redeemed; before His awful eyes we go in death; in the vision of Him is our eternal beatitude.”
Santa Teresinha, do mesmo modo, encontrou o Senhor na aridez do Carmelo e na corrida pela perfeição dentro da pequena via. No convento, a infância espiritual, como inspirada por Deus, foi alvo de incompreensões e dificuldades. Quando finalmente encontrou alguém que a compreendera, Pe. Alexis Prou, tivera que se afastar por conta das proibições da Superiora. Assim entende-se a razão pela qual as próprias irmãs da santa reconheciam a sua secura em certos hábitos recorrentes na vida carmelitana; Exercícios Espirituais, orações vocais, penitências e até mesmo o rosário. Santa Teresinha repetidamente falara que não tendo a compreensão de confessores e diretores espirituais, fora justamente na solidão com Deus – “o Diretor dos diretores” – onde encontrara repouso para o seu coração. Estava, pois, sozinha com o seu querido, a sós com o Só.
Tanto o Beato John Henry Newman como Santa Teresa de Lisieux, cada um com experiências únicas, buscaram o encontro com Cristo mediante o silêncio da vida interior. A Doutora da Igreja ensinava que através da solidão da interioridade era possível contemplar a Deus; “Take silence, for example, what good it does to the soul, what failures in charity it prevents, and so many other troubles of all kinds.” Assim, entende-se a visão pequena – mas não inferior - que Santa Teresinha tinha da santidade. A aparente dialética entre “águias” e “passarinhos”, “grande via” e “pequena via”, “pequena santidade” e “grandes santos”, não era reflexo de um olhar distorcido, quiçá herético porque quietista, mas, na oposição a qualquer heterodoxia, partia do senso de que o homem poderia, lançando mão da vida como louvor de glória, buscar a santidade através de gestos e atos de pouco valor, mas agora totalmente providos de razão em Cristo: "Sanctity does not consist in performing such and such acts; it means being ready at heart to become small and humble in the arms of God, acknowledging our own weaknesses and trusting in His fatherly goodness to the point of audacity."
John Henry Newman, pois, com o seu “solus com solo” não apenas vai compreender a profundidade desse encontro “face-a-face”, apenas a alma com Deus, como vai tornar essa experiência o substrato da sua reflexão a respeito da consciência. No livro “Authority,Dogma and History : The Role of Oxford Movement Converts and the Infallibility Debates of the Nineteenth Century,1835 – 1875” Jay Hammond III diz que “It was from the foundational experience of solus cum solo that Newmans emphasis on conscience throughout his works can be traced. Conscience was the compass that guided Newmans actions; to act against his conscience was simply inconceivable.” Ora, a consciência que encontra o Seu Criador se lapida e cresce na sua capacidade de olhar a realidade com a pureza e equilíbrio. A pequena via de Santa Teresinha do mesmo modo entende que o homem, ainda – e principalmente - se reconhecendo pecador, pode e deve encher os pequenos gestos com o olhar dirigido ao céu, como “gritos de gratidão e de amor”.
Hars Urs Von Balthasar, grande devoto e entusiasta de Santa de Lisieux, afirmara que a pequena via, continuamente acusada de incidir no quietismo protestante, afastava-se totalmente do rigorismo recorrente e das premissas adotadas pelos Reformadores. “Therese's little way is a way to perfection, a way for those who have courageously resolved to love and to do nothing else but love. And the faults of which she speaks are not the sins which Luther had in mind; they are ‘faults which do not offend God’” Assim, pois, em Teresinha, diferentemente de Lutero, “ the drama of sin never entwines itself round her soul.” Ademais, “she recognizes the drama of God's descending into the nothingness of the creature and the flame of love with which the Absolute, God, unites himself to his creature's nothingness.”
“Um abismo invoca outro abismo” O nada do homem se encontra com a totalidade abissal que é Cristo numa relação que em Newman e Teresinha realizou-se na solidão da interioridade. O Cardeal e a Doutora da Igreja, de maneiras distintas, puderam reconhecer a pequenez da condição pecadora através da contemplação da grandeza de Deus. O Outro que o faz é confessado quando o homem distingue que não é capaz de se fazer. Teresinha, na vida claustral, compreendera que a estrutura carmelitana muitas vezes se tornava num obstáculo para a superação da vaidade espiritual. John Henry Newman, por sua vez, com a sua caminhada intelectual, descobriu que o conhecimento da Verdade só seria possível com a ciência da condição pecadora e imperfeita do homem que, mediante uma árdua virada, remete ao reconhecimento do amor de Deus. Ambos, pois, numa vida espiritual aparentemente insossa, sem arrebatamentos místicos e luzes esplendorosas, conseguiram descobrir a beleza da existência permeada pelo amor ao Senhor em todos os atos e gestos. Deus, então, escolhera um simples reverendo anglicano e uma pequena garota francesa, e fez deles em vida atores coadjuvantes e incompreendidos para que, na glória celeste, gozassem da contemplação da Sua face! Solus cum solo!
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