sábado, 5 de maio de 2012

Eu e o Cardeal

“Cor ad cor loquitur”! Esta é a frase escolhida pelo Cardeal John Henry Newman como o seu lema pessoal. Entretanto, tomo a liberdade, reconhecendo a grande audácia do que faço, de dizer que fora através, justamente, do coração desse gigante que Cristo falou ao meu coração. Através de Newman a minha conversão se consolidou; larguei o agnosticismo/ateísmo e retornei ao catolicismo real, não apenas fruto de certo idealismo juvenil.

Quando li pela primeira vez Apologia Pro Vita Sua estava em processo de conversão. A procura pela Verdade já me impulsionava na busca do Outro onde quer que se encontrasse. Recordo-me que depois de passar um tempo considerável flertando com o islamismo, deparei-me com o enorme prédio cristão construído no coração da Civilização Ocidental. Não estava mais diante da caricatura que parecia o cristianismo liberal hodierno, mas o oposto, ou seja, um legado concreto e transmitido pelas gerações. Seria verdade que a fé desses Apóstolos incultos no Cristo morto e ressuscitado foi capaz de converter o mundo? E se tudo procedia, esta era a mesma fé dos tempos atuais? Neste ínterim me aproximei da Igreja Ortodoxa, buscando viver, e não apenas teorizar, a experiência relatada nos Evangelhos, defendida pelos Santos Padres e testemunhada pelos mártires.

A Igreja Católica, contudo, sempre me parecera tristemente decadente e perdida em seu afã pela adaptação ao mundo moderno. Se o cristianismo me era atraente, certamente não tinha como razão a sua eterna capacidade de atualização. Até então a fé se confundia com um anseio de reconstruir o mundo patrístico e medieval. Não havia, pois, a compreensão de que Cristo, quando realmente experimentado como Deus encarnado, não se limitava pelo tempo e que a Sua mensagem, vivida como real, deveria justamente se tornar atual.

Na época da leitura do livro Apologia Pro Vita Sua a minha proximidade com o catolicismo era iminente. Ao final de tal processo se encontrava o ápice da minha procura; a confissão – a segunda da minha vida – seguida da comunhão, Cristo! O importante, e isto me lembro bem, é que através da obra do Cardeal Newman compreendi o percurso que passara, um caminho extremamente fatigante, mas recompensador. A conversão deste que fora fellow do Oriel College mostrou a profundidade da fidelidade da consciência à Verdade. Não importava o preço que deveríamos pagar, se encontramos o que buscamos, a quem buscamos, o Outro, tudo deve ser entregue; o orgulho próprio, a vida, a amada Oxford.

Cardeal Newman, então, foi um dos claros sinais que Cristo colocou em minha vida, um meio pelo qual Ele pôde mostrar até que ponto chega o homem apaixonado pela Verdade. O caminho não apenas se confunde com Ele, o caminho é o próprio Verbo feito carne, e quem se encontra diante dessa belíssima estrada deve conscientemente iniciar o percurso que tem como fim último a contemplação da Sua face. Newman, com a sua vida, mostrou como a Verdade não nos cobra nada, mas a consciência quando a encontra não tem outra reação a não ser despojar-se totalmente diante da grandeza da Sua majestade.

Um comentário:

Anônimo disse...

Maravilha, Pedro. Sabendo agora da importancia de Newman e da "leitura de Apologia pro vita sua" na sua conversão, me alegro muito. Reze por mim.

Jorge Dantas
dodiabr@gmail.com