sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Uma nova Palestina?

Com a elevação da Palestina de órgão observador para "Estado observador não-membro" se complicou as discussões sobre o conflito no Oriente Médio. A posição tomada por Israel e pelos EUA foi uma ação de desespero diante da movimentação da comunidade internacional e da possibilidade concreta da Palestina entrar com ações no Tribunal Penal Internacional contra as incursões israelenses na Cisjordânia e em Gaza. Entretanto, infelizmente, a causa da Palestina foi sequestrada pelos partidos de esquerda que, desde o início do conflito armado, lançaram suas influências nos braços seculares com a OLP e as diversas siglas que a compunham. 

Historicamente o Oriente Médio sempre foi uma região de trânsito entre diversos povos. De fato, faz parte do processo de amadurecimento cultural a dinâmica migratória. Se olharmos com todo o rigor nenhuma nação é natural da sua localidade, mas, isto sim, foi formada ao longo da construção da identidade pelo tempo. Judeus são migrantes, assim como os árabes se lançaram para além dos limites do deserto da península arábica. Até mesmo os milenares persas (iranianos) migraram para o Grande Irã por volta de 2000 a.C. O caso dos turcos, hoje estabelecidos por toda a Anatólia, é ainda mais enigmático: saíram da Ásia Central, o local natural de todos os povos turcomanos, e entraram no Império Seljúcida (também com laços étnicos com os turcos) galgando altos postos na estrutura hierárquica. Com a decadência e a derrota do império só restou o Sultanato de Rum, que foi minado internamente através da ascensão do principado encabeçado pelos Osmanoglu, ou seja, Otomanos.    

O Oriente Médio, portanto, foi o local do choque entre diversos povos, culturas e religiões. Isso é fundamental para reconhecer que a reivindicação de algum direito natural sobre as terras palestinas, como é feito corriqueiramente pelos israelenses, é um absurdo histórico sem precedentes. Assim como é prejudicial esse tipo de argumentação, não há mais espaço para a crítica feita por facções radicais que protestam contra a existência do estado de Israel por ter sido criado através da ingerência da ONU já no séc. XX. As duas nações, portanto, devem aprender a conviver pacificamente dentro de dois estados distintos que estão inseridos em fronteiras historicamente conturbadas. 

Entretanto, o que se destacou com a elevação da Palestina ao status de "Estado observador" foi a reação do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Para ele isso "terá consequências", usando de um claro tom ameaçador contra o povo palestino. Que o governo israelense tenha medo dos ataques do Hamas contra as cidades do país, é um sentimento lícito. Contudo, o que temos visto é a intromissão completa de Israel nas decisões internas da Palestina. Israel, inclusive, ameça bloquear os impostos que recolhe para a Autoridade Palestina na Cisjordânia. 

Israel, diante da nova categoria internacional da Palestina, não terá a mesma liberdade com que sempre tratou o povo palestino em suas ações. De fato, diante dessa lógica a paz se torna ainda mais distante já que Israel não teria o completo poder de barganha como sempre ocorreu. A tensão se complica quando as duas nações passam a ser vistas pelas ideologias vigentes como os reinos do capitalismo ou da resistência coletivista. Que os dois estados se consolidem, entretanto, que não seja por meio da polarização entre povos e culturas, mas através da conscientização do direito de auto-determinação. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Três pontos esquecidos quando falam do conflito Israel-Palestina

Tenho acompanhado com muito interesse os debates sobre o conflito Israel X Palestina. Ontem mesmo assisti duas discussões que, curiosamente, incidiam em três erros que acredito são cruciais para a acertada compreensão dos problemas no Oriente Médio e do mundo árabe e muçulmano. 

1 - Existe uma certa má vontade no entendimento das nuances próprias do islamismo e, em especial, do islamismo xiita (shia). Desde o alvorecer da Revolução Islâmica do Irã em 1979 o xiismo passou a ser visto como a facção islâmica que mais profundamente encarnava o ideal da sharia. Ademais, esse imaginário foi alimentado pela resistência do Hizbollah aos ataques israelenses no Líbano. Entretanto, tal leitura é desprovida de sentido prático. Historicamente o xiismo sempre foi a ala mais crítica ao islamismo autocrático que se consolidou no califado omíada. A defesa radical pelo primado da Ahl al-Bayt, isto é, pelo governo muçulmano encabeçado pelos descendentes diretos de Maomé através da união de seu primo Ali com a sua filha Fatimah, transformou os xiitas em ardorosos combatentes dos desmandos do governo central. O ostracismo da comunidade shia ainda possibilitara que esta tivesse contato mais amigável com outras minorias, como os cristãos. Isso foi muito profundamente marcado durante a Revolução Iraniana, onde minorias religiosas - judeus, zoroastristas, católicos, cristãos armênios e assírios - passaram a gozar de respaldo constitucional. Obviamente algo muito distante da liberdade religiosa ocidental, já que não há legalidade para o apostolado externo, mas ainda assim uma clara amostra de respeito aos outros credos que fazem parte da nação persa. Ademais, o islamismo xiita, por não ter incindido na distinção entre a jurisprudência e a mística, como ocorrera com os sunitas, sempre foi mais reflexivo e aberto ao diálogo.

2 - Existe uma total ignorância quanto ao papel fundamental de Muhammad ibn Abd al-Wahhab e do seu salafismo na fundação do radicalismo islâmico como conhecemos. A Arábia Saudita, antes parceira da Inglaterra e hoje fiel aliada dos EUA na região, nasceu, justamente, da junção do pensamento reformista de Wahhab com a família Saud, orquestrada pelos agentes britânicos na região. O salafismo, como fora auto-proclamado, tenta se remeter às primeiras gerações de muçulmanos, resgatando a pureza primitiva que havia na fé islâmica. A novidade trazida por esse espírito reformista minou a filosofia e a arte islâmica, combateu sistematicamente tradições próprias do islam, dividiu a Ummah (comunidade islâmica) ao permitir o juízo privado sobre a fé alheia e, ainda sendo condenada pelas quatro escolas de jurisprudência islâmicas, se outorgou o supremo poder de definir os parâmetros essenciais da prática religiosa. O wahhabismo saudita, baseado nos petrodólares, disseminou a ideologia radical por vastas áreas muçulmanas. Dessa influência surgiram os grupos terroristas e movimentos como o deobandi, que originou o Talebã no Afeganistão. A aproximação da Arábia Saudita com os EUA, entretanto, fez com que o radicalismo saudita se focasse em perseguições internas, tornando-se menos interessado pelo controle do mundo islâmico. Ainda sendo considerado sunita, o salafismo wahhabita persegue nas fronteiras sauditas as escolas de jurisprudência que não se alinham com a sua cartilha. O xiismo, obviamente, sequer é considerado islamismo e não tem legalidade. Por anos os muçulmanos shias estavam proibidos de participar do hajj em Meca. A repulsa da Arábia Saudita ao Irã é integral e totalmente violenta. Qualquer analista do Oriente Médio que não compreende a gênese histórica do wahhabismo exclui da equação uma variante essencial. Assim, portanto, se o terrorismo islâmico moderno tem no salafismo a sua raiz primeira, não existe possibilidade deste ratificar uma união concreta com a nação que ostenta orgulhosamente o islamismo xiita, o Irã.

3 - A terceira questão que é muito pessimamente compreendida, talvez pelo desconhecimento do islamismo, é o papel do secularismo nas crises atuais. A Primavera Árabe levou aos países que antes viviam sob a dureza de regimes totalitários a esperança democrática. Contudo, a abertura ao sistema ocidental de governo levou consigo parâmetros liberais extremamente perigosos para a sociedade muçulmana. O secularismo ocidental possibilitará a desconstrução dos paradigmas religiosos, como já ocorre na Turquia, o que, por sua vez, alimentará o discurso dos radicais muçulmanos. Neste sentido o liberalismo e o radicalismo vivem num ciclo de retroalimentação, criando uma tensão viciosa entre ambas as forças. Se o cristianismo praticamente perdeu a sua batalha em defesa do estado confessional, como fora defendido pela Igreja, o islamismo corre o sério perigo de abrir espaço para a ardilosa filosofia iluminista com o seu trator anticlerical e secularizante. Ademais, o fanatismo religioso enxerga no alvorecer da democracia o combustível da sua árdua crítica contra a ingerência ocidental nos problemas internos das nações árabes. Assim, é necessário se alegrar com a queda de regimes totalitários, mas ao mesmo tempo se precaver da ilusão de que o remédio para o mundo se encontra na supremacia da democracia-liberal e seus frutos imediatos, como a perseguição sistemática à religião como fator concreto das decisões de um povo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O incrível poder da Ummah


Sempre que eclode conflitos no Oriente Médio a comunidade internacional se surpreende com a comoção gerada em toda as nações islâmicas pelo mundo. Esse efeito emocional quase automático é consequência do incrível poder da Ummah, isto é, da comunhão prática dos muçulmanos mediante uma fraternidade que transcende os limites territoriais. Tão grande novidade trazida por Muhammad numa península arábica violentamente dividida em tribos, possibilitou a coesão dos fiéis da nova crença fazendo com que pouco tempo após a sua morte uma grande parte do mundo conhecido estivesse sob o poder dos minaretes.


Muhammad sabia que para a sobrevivência da sua fé era necessária a profunda mudança de mentalidade por parte dos árabes convertidos. A primeira Ummah que se consolidou em Medina foi marcadamente simbolizada pelo espírito de paz e comunhão. Entretanto, após a morte de Maomé e com o fim do califado dos rashidun, isto é, quando este fora guiado pelos quatros companheiros de Muhammad,  Abu Bakr, Umar ibn al-Khattab, Uthman ibn Affan e, por fim, o grande Ali ibn Abi Talib, iniciou-se um período de expansão ainda mais amplo com os omíadas. Durante essa etapa as conversões ao islamismo eram desencorajadas entre os dhimmis - os judeus e cristãos que viviam no território islâmico - e os muçulmanos viviam em cidades quase inteiramente cristãs, como Jerusalém. As conversões, quando ocorriam, ainda tinham um forte caráter étnico. Havia, de certa forma, uma confusão entre islamismo e arabismo. Os neo-convertidos eram, portanto, associados a alguma tribo árabe acarretando que fossem, quase naturalmente, ainda vistos como cidadãos de segunda classe. A discussão terminou com o fim do regime omíada e a ascensão dos abássidas que levavam com ele todas os clamores dos muçulmanos xiitas contra o regime dos descendentes de Abu Sufyan.

No mundo recente a Ummah foi fundamental para a proteção do mundo islâmico quando da chegada das nações europeias. Os ingleses enfrentaram duras dificuldades na sua tentativa de tomar a Índia e o Irã. Os seus esforços se chocavam com a força da comunidade muçulmana que se unia contra os invasores. Os britânicos buscaram, então, minar a comunhão através da fé, com o financiamento de dois movimentos reformistas, como o bahaísmo e ahmadiyya. Mirza Ghulam Ahmad e Mirza Husayn Ali tentaram instaurar crenças que desconstruiriam a capacidade da Ummah de se unir contra os kuffar, os incrédulos, mas foram incrivelmente ineficientes. Na península arábica os ingleses também custearam outro movimento reformista. A doutrina de Muhammad ibn Abd al Wahhab foi rapidamente taxada pelos mais eruditos jurisprudentes islâmicos como herética. A sua novidade estava no seu afã de purificar o islamismo de versões corrompidas: o muçulmano poderia sim emitir um takfir, um julgamento sobre a fé do outro. Esse tipo de comportamento atacava o cerne da Ummah, da comunhão entre os fiéis. Se era permitido dizer quem era bom ou mau muçulmano, a comunidade islâmica corria o risco de entrar em profunda crise. Ademais, para Muhammad al Wahhab os turcos, senhores do Oriente Médio e de Meca e Medina, eram exemplos máximos da degeneração do islamismo. Assim, era fundamental que os bons muçulmanos se levantassem contra os otomanos. Quão feliz foi para a Inglaterra essa novidade. Da junção de Wahhab com a família Saud, que na época era salteadora de caravanas, surgiu a moderna Arábia Saudita. 

A Ummah, entretanto, ainda hoje mostra o seu poder e eficiência. Para o muçulmano de fé a agressão da comunidade islâmica é proporcional aos sacrilégios eucarísticos para o católico. Esse senso de pertença protegeu o islamismo ainda na época de Maomé e foi o fator de unificação das tribos árabes. Através desse processo a crença de Muhammad se expandiu e conquistou a Ásia, a África e chegou até a Espanha e no ápice do Império Turco-Otomano em terras austríacas. A Ummah foi historicamente fundamental e até hoje é o que possibilita aos muçulmanos se unirem quase automaticamente quando uma parte dessa grande comunidade é agredida. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O pluralismo como fato e não como princípio

O pluralismo da sociedade atual é um fato que não pode ser negado. A consequência natural é a consolidação do relativismo nas relações morais e religiosas do homem moderno. Entretanto, a gravidade se encontra quando ambos são reconhecidos como princípios nos quais o sujeito desenvolve o seu modo de percepção da realidade. Assim, não há mais possibilidade de diálogo sobre a verdade das coisas, restando apenas um conhecimento convencional sem validade universal. Ademais, quando este espírito entra na Igreja gera consequentemente a desconstrução dos mais basilares paradigmas da fé, como a derrocada do ardor missionário e da noção de ortodoxia. 

A consciência moderna percebe a existência de uma sociedade plural na quais opiniões diametralmente opostas gozam da mesma validade aos olhos dos homens. Diante desse cenário existem duas posições: ou se reconhece como realidade de fato ou, então, como princípio. As consequências da segunda opção são opostas ao modo como a Igreja entende a fé e a estruturação teológica da Revelação. As teologias pluralistas e reinocêntricas, cada uma ao seu modo, buscaram desconstruir os paradigmas fundamentais da fé. O relativismo seria, portanto, apenas a concretização prática do relacionamento do homem como uma sociedade plural. A diversidade religiosa, considerada benéfica em si mesma, gera a subvalorização do Evangelho. Assim, portanto, a verdadeira plenitude do homem se dá na realização das virtudes humanas na cultura e na religião na qual nasceu. 

Obviamente tal premissa renega todo o ardor missionário da Igreja e o modo enfático como o Magistério, ao longo da sua história, defendeu a necessidade da conversão dos povos. O Beato João Paulo II, em sua encíclica Redemptoris Missio, combateu, justamente, essas teologias pelo modo como concebiam a relação entre Cristo, Igreja e anúncio. Diz, ademais que “uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida, infelizmente também entre os cristãos, frequentemente radicada em concepções teológicas incorrectas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a pensar que ‘tanto vale uma religião como outra’”. O relativismo religioso, como a chave para o indiferentismo e o tanto-faz doutrinário, age nas consciências e no modo como o homem de fé concebe o seu compromisso com a religião. 

O relativismo nos ambientes eclesiásticos possibilitou a desconstrução da comunhão dos fiéis na Igreja. Resta apenas o individualismo que alimenta a soberba subjetiva agora elevada como autoridade plena. Na esteira desse comportamento é pertinente pensar como a ideia de heresia simplesmente não incomoda mais às mentes modernas. A aceitação do pluralismo como princípio torna a noção de ortodoxia, isto é, da doutrina correta, ou, partindo da acertada concepção cultural elioteana, o exercício livre da consciência do homem em defesa e expansão do legado tradicional recebido, obtusa e enfadonha. Se não há, portanto, ortodoxia a ser defendida e se, ademais, só há uma sociedade diversa com uma multiplicidade de experiências religiosas e devocionais, só resta ao homem reconhecer a riqueza desse cenário e afirmar que a realização plena não se encontra na aceitação de Cristo, mas na fidelidade ao próprio eu. Com tamanho subjetivismo as teologias pluralistas buscam aliviar os pesos da consciência: não diz, como se ensina a ética, que a consciência pode abraçar o mal acreditando ser o bem, mas desconstrói o juízo sobre a maldade do mal, impossibilitando qualquer tipo de análise objetiva sobre os atos humanos. Tudo, desse modo, ficaria restrito a um âmbito unicamente individual. 

De fato, a Igreja, especialmente no Concílio Vaticano II, no decreto Ad Gentes, reconheceu a existência das “sementes do Verbo” nas mais diversas culturas e religiões. Com isso não pretendia instaurar o relativismo como princípio, mas reconhecer o modo misterioso como Deus provê com facetas da verdade, portanto verdades imparciais e desprovidas de plenitude, os mais diferentes povos e etnias. Buscava incentivar nas missões o olhar zeloso, isto é, um modo novo de relacionamento com os não-cristãos tendo em vista o enriquecimento da Igreja mediante a elevação e florescimento dessas sementes em Cristo. O exemplo e ardor missionários são fundamentais para que, através da ação de Deus e da Sua Revelação, “os não-cristãos, sob a inspiração interior do Espírito Santo, se convertam livremente à fé no Senhor, e adiram sinceramente Aquele que, sendo «caminho, verdade e vida» (Jo. 14,6), cumula todas as suas esperanças espirituais, mais ainda, supera-as infinitamente”. Se o decreto Ad Gentes afirmou que “ a actividade missionária [conserva] ainda hoje e haja de conservar sempre toda a sua eficácia e a sua necessidade” o resultado fora, justamente, o oposto: a transformação da vocação missionária num assistencialismo humanitário desprovido de significado transcendente. 

O pluralismo da sociedade, então, ao ser visto como fato lança um grande desafio na nova evangelização e na necessidade de uma nova paideia. Por mais difícil que esteja o cenário, não é lícito achar que a multiplicidade de crenças se torna um princípio norteador das relações de fé do homem consigo e com o outro. A diversidade, nesse aspecto, torna-se riqueza quando dotada de significado em Cristo. Do contrário o senso católico se fragmenta e perde a sua unidade. Assim como o homem é um espírito encarnado, tendo uma unidade substancial, a Igreja, como Corpo Místico de Cristo, tem como uma de suas notas a unidade entre os membros. Contudo, o pluralismo pensado desse modo torna a relevância da Igreja no anúncio evangélico extremamente criticável. Faz-se necessário, portanto, a renovação da teologia e a redescoberta do tesouro da Igreja. Entretanto, anterior a tudo isso precisamos de homens eclesiais, isto é, unidos a Cristo e que estão na comunhão com o Seu Corpo Místico. O fiel que, humildemente, abre mão das suas opiniões para aderir àquilo que sempre foi e é crido, tornando, assim, a mensagem cristã universal não apenas no tempo, mas através dele.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Chegou a hora de defender Salvador!

A eleição de ACM Neto para Salvador foi, além da vitória sobre Pelegrino, a derrota pessoal de Lula e de Dilma. O DEM, no ápice da sua crise política, agravada com a debandada de muitos correligionários para o recém-fundado PSD, saiu vencedor da batalha contra o PT e a sua máquina no governo do estado da Bahia. Entretanto, infelizmente, como já é sabido de muitos, a concepção dialética dos petistas desfavorece o reconhecimento da soberania popular no jogo democrático. ACM Neto foi escolhido pelo povo, a sua eleição foi reflexo do livre exercício do voto pela população soteropolitana.

O PT pretende alegar, entretanto, que ACM Neto foi eleito pelas elites. Porém, estatisticamente, a famigerada elite representa um porcentual mínimo da população soteropolitana. A sua vitória com cerca de 54% seria, então, fantasiosa? A sua vitória em zonas eleitorais como os mais miseráveis bairros de Salvador no subúrbio ferroviário seria desmerecida? O que está por detrás da crítica petista é o modo autoritário como a esquerda pretende monopolizar a causa dos mais pobres.

Os grandes pensadores da esquerda quase sempre nascem e se formam nos ambientes mais elitizados da sociedade. Entretanto, rompendo com o ciclo de opressão e alienação, libertam-se chegando, finalmente, ao ideal de revolução e redenção. O curioso, contudo, é que este polilogismo, isto é, o condicionamento do homem através de fatores externos, no caso em questão a classe, é desmentido pelos seus mais ardorosos defensores. Assim como Marx era proveniente de família burguesa e durante toda a sua vida fora custeado por amigos e parentes, mas passara a sua existência criticando a burguesia e pontificando em nome do proletariado, do mesmo modo muitos petistas soteropolitanos demonizaram as elites, isto é, os seus vizinhos.

A vitória de ACM Neto é uma oportunidade única para o fortalecimento da política na Bahia. Chamá-lo de "carlista" - ao menos no modo como a esquerda entende o termo - seria falacioso, ainda mais quando muitos dos antigos arautos do Cabeça Branca hoje compõem o governo de Wagner, considerá-lo o candidato dos ricos seria desmerecer os seus votos nos bairros pobres e miseráveis da capital baiana. O PT, contudo, encontra-se hoje totalmente “blindado” de críticas morais e lógicas. Se outrora eram os “companheiros” que emitiam juízos sobre aqueles que votavam e elogiavam políticos como Antônio Carlos Magalhães, ou até mesmo versões mais modernas como FHC e Luís Eduardo Magalhães, hoje eles não sentem nenhum remorso na defesa de corruptos condenados como Dirceu e Genoíno. Ora, com tamanha relativização do próprio ideal de política resta, ainda, algum pudor?  

ACM Neto é herdeiro do avô. Antônio Carlos Magalhães, entretanto, não pode ser enquadrado como um político ao estilo moderno, se aproximava, nesse sentido, muito mais da figura do estadista do que do arauto da democracia. Assim, ao colocar os interesses da Bahia em primeiro lugar, automaticamente descobriu as vantagens da economia liberal, por exemplo. Para minar os investimentos estrangeiros no Rio Grande do Sul e no resto do Nordeste, ACM transformou o nosso estado num canteiro de indústrias que buscavam as concessões fiscais dadas pelo governo. Ademais, o seu trato com a religião, ainda não sendo nada exemplar, era como ver uma descrição de Freyre da vida de fé e piedade dos Senhores de Engenho do Brasil colonial: uma religião pessoal, de práticas devocionais pontuais, mas sem adesão integral no dia-a-dia. ACM Neto já leva consigo os tratos modernos da política atual, mas tem, sem dúvida alguma, a defesa de Salvador como fundamento das suas ações. O bairrismo soteropolitano sempre foi a força motriz da nossa política, até a esquerda surgir com seu discurso "internacionalista".

Em meio a muitos Golias – Dilma, Lula, terrorismo psicológico – o Davi soteropolitano saiu vencedor!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Servo de Deus Pierre Mermier, Fundador dos Missionários de São Francisco de Sales



Os distúrbios políticos no país, especialmente a Revolução Francesa, tiveram o seu impacto também no reino espiritual, isto é, no modo como deixou o povo numa profunda crise de fé e de indiferença para com os seus deveres religiosos. Sentindo os sinais do tempo, Pe. Mermier tomou para si a tarefa de uma renovação espiritual em seu povo, pregando missões paroquiais. Este apostolado especial, por sua vez, deu origem a uma comunidade de pregadores reunidos em torno do Padre Mermier. 

Seu firme zelo missionário se encarnou de modo muito claro através do seu lema: “Eu quero as missões”. 

Pierre Marie Mermier nasceu em 28 de agosto de 1790, em Vouray na freguesia de Chaumont em Genevois, na Saboia. A Revolução Francesa havia atingido profundamente a Igreja em Saboia e muitos padres deixaram o país, enquanto alguns viviam escondidos. Os pais de Pierre, que eram cristãos fervorosos, arriscaram suas vidas e bens, acolhendo sacerdotes. Entre a idade de quatro e dez anos Pierre teve o raro privilégio de assistir à Santa Missa celebrada secretamente em sua casa. A fé e a coragem de sua mãe e a dos ousados sacerdotes o motivaram a fazer uma escolha decisiva pelo Senhor. 

Os revolucionários tinham fechado Igrejas e escolas. Assim, portanto, Pierre Mermier fizera toda a sua educação primária por conta da própria mãe. A paz voltou à Saboia em 1800. Ele fez seus estudos secundários como pensionista em Melan. Em 1807, ele foi recebido no Seminário Maior de Chambery. Mermier era fervoroso em oração, duro trabalhador e pensativo em relação aos seus colegas. Ele foi ordenado sacerdote em 21 de marco de 1813, com a idade de vinte e três anos e meio. Sua primeira incumbência foi em Magland como vice pároco do Cônego Desjacques. Como um jovem padre, ele era um trabalhador incansável. Ensinava aos pequenos de dia e continuava seus estudos teológicos pela noite. Depois de três anos, ele foi convidado a ensinar na Faculdade de Melan e ser Prefeito de Disciplina. O Arcebispo de Chambery o nomeou Pároco de Le Chaterlard em 1819, com a idade de 30 anos. 

Pe. Pierre Marie Mermier era um sacerdote austero e de zelo sem limites. Mas a maioria das pessoas eram indiferentes à fé e às práticas católicas, devido à influência do jansenismo, do galicanismo e da Revolução Francesa. Destarte, com o objetivo de animar as pessoas na verdadeira fé, Mermier contatou Joseph-Marie Favre. Com grande sucesso organizaram as missões na diocese de Chambery. Eles se conheceram em 1821 e, nesse sentido, esse encontro foi muito importante para o Padre Mermier já que, assim, enamorou-se com o apostolado da missão paroquial. No mesmo ano, com a ajuda de alguns sacerdotes diocesanos, dedicaram-se exclusivamente a esta tarefa. Eles foram de paróquia em paróquia permanecendo entre 4 a 6 semanas em cada igreja. Eles rezavam, pregavam e motivavam as pessoas a construir a sua fé. Foi uma maravilhosa oportunidade para a instrução religiosa sólida e para a reconciliação. 

Mons. de Thiollez, bispo de Annecy, o nomeou diretor espiritual do Seminário Maior, em 1823. Entretanto, em 1826 o Bispo permitiu dedicar-se inteiramente à missão. Gradualmente um pequeno grupo de missionários foi se formando. Enquanto isso Pe. Pierre Marie Mermier percebera o papel insubstituível das missões paroquiais; a necessidade de uma Congregação religiosa de missionários que estivesse sob o patrocínio de São Francisco de Sales. Pierre Joseph Rey tornou-se o novo bispo de Annecy em 1832. Ele permitiu que os missionários, na época seis ao todo, se transferissem para uma casa em La Roche, em junho de 1834. Em 29 de setembro de 1836, Mons. Rey deu aprovação provisória para sua regra, quando até então eram conhecidos como Missionários de Annecy. Eles montaram uma casa mãe em Annecy em um lugar chamado La Feuillette, em 8 de agosto de 1837. Tornou-se uma casa de oração e estudo. Era o local onde o jovem religioso recebia a sua formação na vida apostólica e salesiana. A aprovação civil para a nova sociedade religiosa, por parte do duque de Saboia, veio em 15 de outubro de 1838. Assim, pois, os missionários foram aprovados sob o título de São Francisco de Sales. Em 24 de outubro de 1838 o Bispo Rey emitiu um documento oficial com aprovação canônica da Congregação fundada pelo Pe. Pierre Mermier. Agora Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales. 

Pe. Pierre Marie Mermier fundou a Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales para a missão paroquial, para a missão estrangeira e para a educação da juventude. Seu zelo missionário o levou a pedir ao Santo Padre uma missão além fronteiras, aceitando, em seguida, um vasto território de missão na Índia, quando a Congregação estava em sua infância, com apenas 11 membros professos. Quanto à educação, Mermier ensina que se deveria ser uma mãe para o aluno pela ternura e um pai pela prudência. Ele aceitou a gestão do colégio de Avian em 1856 e do colégio de Melan em 1857. Em Chavanod, em 1837, entrou em contato com Claudine Echernier que queria viver uma vida humilde, recolhida, dedicada ao apostolado dos pobres. Isso resultou na fundação da Congregação das Irmãs da Cruz de Chavanod para a educação das meninas carentes. Eles tiveram que trabalhar nos círculos mais pobres e mais humildes do país. 

Entre 1828 e 1857, Pe. Mermier administrou cerca de 90 missões. Ele considerava o sermão como o principal meio de proclamar a palavra de Deus. Ademais, buscava cuidadosamente estar preparado para uma pregação simples. Ele falava com fé e convicção usando um tom de voz paternal marcado com uma compreensão gentil dos pecadores, como São Francisco de Sales. Ele guiou os missionários a viver uma vida agradável e na caridade em seu ministério apostólico e no relacionamento diário. Ele considerava a devoção a Nossa Senhora das Sete Dores uma devoção eminentemente salesiana. 

Apesar de sua idade avançada Pe. Mermier assumiu a Paróquia de Pougny como sacerdote encarregado em 26 de Junho de 1857.Mesmo na sua velhice ele manteve uma mente viva e curiosa. Seus últimos anos foram um tempo de purificação e edificação. Ele ficou gravemente doente em Pougny e foi levado para La Feuillette. Sua visão e capacidade de raciocínio estavam enfraquecidos. Quando ficara um pouco melhor, realizou uma peregrinação a Nossa Senhora de La Salette, em julho de 1859. Ele sofreu um feroz ataque em 6 de junho de 1860 e tornou-se totalmente cego. Enquanto isso, a Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares aprovou os Missionários de São Francisco de Sales como uma congregação de votos simples. 

Em 10 agosto de 1862 Pe. Pierre Marie Mermier sofrera uma queda, o que causou uma dupla fratura em sua perna direita. Ele partiu para a morada celeste em 30 de setembro de 1862.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A missão fransalesiana na Índia



Até meados do século 19, o cristianismo era quase inexistente na Índia Central. Os cristãos nesta área eram principalmente os soldados de Goa, Tamil, assim como os irlandeses que trabalhavam nas guarnições da Companhia das Índias Orientais. Os sacerdotes goeses da missão Golcoda os visitiva ocasionalmente. 

Os MSFS ou congregação Fransalesiana foi fundada por Pe. Pierre Marie-Mermier (1862) na França em 24 de outubro de 1838, sob o patrocínio de São Francisco de Sales. O vasto território de missão em Visakhapatnam na Índia foi confiada aos MSFS em 1845. Pe. Mermier enviou seus melhores seis homens para a nova missão. Pe. Jacques Martin, o padre Joseph Lavorel, o padre Jean Marie Tissot, Pe. Jean Thevenet, o Ir. Pierre Carton e o Ir. Sulpice Fontanel embarcaram no navio em 8 de junho de 1845 e chegaram a Pondicherry em 8 de setembro de 1845. 

A missão em Visakhapatnam então incluía partes dos estados atuais de Andhra Pradesh, Orissa, Madhya Pradesh, Maharashtra e Chattisgarh. Seus centros de missão eram quatro: Visakhapatnam, Yanam, Kamptee e Aurangabad. 

Muitos dos missionários que vieram para a Índia aprenderam muitas línguas indianas e algumas deles até escreveram livros neste idiomas. A missão Visakhapatanam foi dividida em duas em 1887, formando a nova diocese de Nagpur, com Alexis Riccaz (MSFS) como seu primeiro bispo. Durante os últimos 125 anos, a diocese Nagpur foi ainda desmenbrada para formar várias dioceses, incluindo Nagpur (1887), Amravati (1955) e Aurangabad (1978). Durante esses anos, os Fransalesianos também se espalharam para outras partes da Índia. Esta congregação religiosa tem hoje cinco províncias na Índia, nomeadamente Visakhapatanam, Sul-Oeste, Nordeste, Nagpur e Pune. 

Os primeiros missionários Fransalesianos, Pe. Jean Thevnet e Pe. Joseph Lavorerl, chegaram na Índia Central em 1846. Naquela época, havia apenas três sacerdotes em todo o centro da Índia - Pe. Murphy, capelão irlandês em Kamptee, seu assistente Tamil Pe. Emmanuel e Padre O'Driscoll, um capelão militar em Jalna. 

Os missionários fransalesianos fizeram várias tentativas para abrir centros de missão na Índia central, mas não houve êxito. Pe. Lavorel tentou trabalhar em Mandla em Madhya Pradesh. Pe. Benistrand tentou trabalhar entre os Kunbis e os Mang no Deccan e entre os Kurkus no Vidarbha. Um orfanato foi aberto também em Nagpur perto de Thana em 1865, mas com sucesso limitado. 

A descoberta veio em 1892, quando o primeiro centro da missão para a população local foi inaugurado em Ghogargaon no distrito de Aurangabad. Há uma história interessante revelando como as sementes do cristianismo foram semeadas na região, agora chamada Marathwada.

A missão entre os Mahars tinha sido aberta pelos jesuítas no distrito vizinho em Ahmednagar, do outro lado do rio Godavari, em 1878. Outros centros de missão jesuíta se seguiram em Kendal, em 1879, Walan, em 1889, e Sangamner, em 1892. Por esse tempo, o número de católicos Mahars no distrito de Ahmednagar subiu para 1.000 sobre o impulso dos Padres Marcel D'Souza, Otto Weishaupt e Kraig. 

Cerca de 16 milhas de Kendal estava a aldeia Ghogargaon, no lado esquerdo da Godavari. Ela tinha uma meia-dúzia de casas de pedras e alvenaria e cerca de cem casas de taipa. Fora da aldeia viviam os mahars e os dalits, que eram uma das comunidades intocáveis durante esses dias. Um jovem órfão mahar de Ghogargaon, Nathu Raphael Shingare, havia se casado com uma garota de Walan. Lá, ele viu a missão jesuíta, tornou-se católico e, posteriormente, catequista do Padre Weishaupt. Em seu retorno a sua vila em Ghogargaon em 1892, Nathu Raphael fez um relato glorioso da missão em Walan para os seus vizinhos e parentes. O povo local, ao qual foi negado o desenvolvimento e progresso por gerações, ficou realmente impressionado. Eles imediatamente enviaram uma delegação para Walan com um pedido para os padres jesuítas para começar um centro de missão em Ghogargaon. 

O pároco de Walan, Pe. Kraig, fez uma visita à aldeia para ver a situação. Como Ghogargaon então pertencia à diocese Nagpur, informou ao capelão de Aurangabad, Pe. Montagnoux, do desejo da população local de se tornar cristã. Pe. Montagnoux encaminhou a solicitação para Nagpur. Naquele tempo não tinha Nagpur bispo depois da recente morte do bispo Riccaz. Assim, em outubro de 1892, Pe. Pelvat, o administrador diocesano de Nagpur, recebeu uma carta dizendo que várias pessoas da aldeia de Ghogargaon estavam pedindo uma escola e desejando tornar-se cristãs.

O Bispo Riccaz queria abrir um centro de missão entre os não-cristãos. Pe. Pelvat acolheu a proposta e nomeou o Pe. Thomas Marian para abrir a primeira missão católica em Moghulai.