Tenho acompanhado com muito interesse os debates sobre o conflito Israel X Palestina. Ontem mesmo assisti duas discussões que, curiosamente, incidiam em três erros que acredito são cruciais para a acertada compreensão dos problemas no Oriente Médio e do mundo árabe e muçulmano.
1 - Existe uma certa má vontade no entendimento das nuances próprias do islamismo e, em especial, do islamismo xiita (shia). Desde o alvorecer da Revolução Islâmica do Irã em 1979 o xiismo passou a ser visto como a facção islâmica que mais profundamente encarnava o ideal da sharia. Ademais, esse imaginário foi alimentado pela resistência do Hizbollah aos ataques israelenses no Líbano. Entretanto, tal leitura é desprovida de sentido prático. Historicamente o xiismo sempre foi a ala mais crítica ao islamismo autocrático que se consolidou no califado omíada. A defesa radical pelo primado da Ahl al-Bayt, isto é, pelo governo muçulmano encabeçado pelos descendentes diretos de Maomé através da união de seu primo Ali com a sua filha Fatimah, transformou os xiitas em ardorosos combatentes dos desmandos do governo central. O ostracismo da comunidade shia ainda possibilitara que esta tivesse contato mais amigável com outras minorias, como os cristãos. Isso foi muito profundamente marcado durante a Revolução Iraniana, onde minorias religiosas - judeus, zoroastristas, católicos, cristãos armênios e assírios - passaram a gozar de respaldo constitucional. Obviamente algo muito distante da liberdade religiosa ocidental, já que não há legalidade para o apostolado externo, mas ainda assim uma clara amostra de respeito aos outros credos que fazem parte da nação persa. Ademais, o islamismo xiita, por não ter incindido na distinção entre a jurisprudência e a mística, como ocorrera com os sunitas, sempre foi mais reflexivo e aberto ao diálogo.
2 - Existe uma total ignorância quanto ao papel fundamental de Muhammad ibn Abd al-Wahhab e do seu salafismo na fundação do radicalismo islâmico como conhecemos. A Arábia Saudita, antes parceira da Inglaterra e hoje fiel aliada dos EUA na região, nasceu, justamente, da junção do pensamento reformista de Wahhab com a família Saud, orquestrada pelos agentes britânicos na região. O salafismo, como fora auto-proclamado, tenta se remeter às primeiras gerações de muçulmanos, resgatando a pureza primitiva que havia na fé islâmica. A novidade trazida por esse espírito reformista minou a filosofia e a arte islâmica, combateu sistematicamente tradições próprias do islam, dividiu a Ummah (comunidade islâmica) ao permitir o juízo privado sobre a fé alheia e, ainda sendo condenada pelas quatro escolas de jurisprudência islâmicas, se outorgou o supremo poder de definir os parâmetros essenciais da prática religiosa. O wahhabismo saudita, baseado nos petrodólares, disseminou a ideologia radical por vastas áreas muçulmanas. Dessa influência surgiram os grupos terroristas e movimentos como o deobandi, que originou o Talebã no Afeganistão. A aproximação da Arábia Saudita com os EUA, entretanto, fez com que o radicalismo saudita se focasse em perseguições internas, tornando-se menos interessado pelo controle do mundo islâmico. Ainda sendo considerado sunita, o salafismo wahhabita persegue nas fronteiras sauditas as escolas de jurisprudência que não se alinham com a sua cartilha. O xiismo, obviamente, sequer é considerado islamismo e não tem legalidade. Por anos os muçulmanos shias estavam proibidos de participar do hajj em Meca. A repulsa da Arábia Saudita ao Irã é integral e totalmente violenta. Qualquer analista do Oriente Médio que não compreende a gênese histórica do wahhabismo exclui da equação uma variante essencial. Assim, portanto, se o terrorismo islâmico moderno tem no salafismo a sua raiz primeira, não existe possibilidade deste ratificar uma união concreta com a nação que ostenta orgulhosamente o islamismo xiita, o Irã.
3 - A terceira questão que é muito pessimamente compreendida, talvez pelo desconhecimento do islamismo, é o papel do secularismo nas crises atuais. A Primavera Árabe levou aos países que antes viviam sob a dureza de regimes totalitários a esperança democrática. Contudo, a abertura ao sistema ocidental de governo levou consigo parâmetros liberais extremamente perigosos para a sociedade muçulmana. O secularismo ocidental possibilitará a desconstrução dos paradigmas religiosos, como já ocorre na Turquia, o que, por sua vez, alimentará o discurso dos radicais muçulmanos. Neste sentido o liberalismo e o radicalismo vivem num ciclo de retroalimentação, criando uma tensão viciosa entre ambas as forças. Se o cristianismo praticamente perdeu a sua batalha em defesa do estado confessional, como fora defendido pela Igreja, o islamismo corre o sério perigo de abrir espaço para a ardilosa filosofia iluminista com o seu trator anticlerical e secularizante. Ademais, o fanatismo religioso enxerga no alvorecer da democracia o combustível da sua árdua crítica contra a ingerência ocidental nos problemas internos das nações árabes. Assim, é necessário se alegrar com a queda de regimes totalitários, mas ao mesmo tempo se precaver da ilusão de que o remédio para o mundo se encontra na supremacia da democracia-liberal e seus frutos imediatos, como a perseguição sistemática à religião como fator concreto das decisões de um povo.

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