Antes mesmo de conceber a identidade do conservador brasileiro é, pois, necessário compreender os dois modos distintos de se pensar o conservadorismo. Ademais, o Brasil tem uma bela tradição de autores que se enquadram no espectro conservador/tradicional. A Terra de Santa Cruz se insere, portanto, num paradigma muito restrito de países que nasceram da junção de diversas origens culturais. A sua identidade tropical torna o Brasil distinto da Europa, da África e, em certos aspectos, da América. O que aqui se formou não foi a multiculturalidade desprovida de unidade, mas uma nação que carrega dentro de si diversas facetas da amálgama brasileira. Cabe, portanto, ao pensamento conservador reconhecer essa raiz e fazer dela o motor da sua reflexão. Entretanto, existe o risco iminente da deturpação da proposta conservadora e da sua transformação numa importada caricatura americana.
É possível, portanto, fazer a distinção entre dois tipos de pensamento conservador. O primeiro seria o conservadorismo da agenda política, voltado para a construção da sociedade baseada nos pressupostos teóricos, algo não muito distante da prática marxista. Este conservadorismo - ou neoconservadorismo - seria, assim, tão revolucionário quanto as ações progressistas porque, usando da chave de leitura concebida por Eric Voegelin, deformaria a primeira realidade - o mundo real - buscando criar a segunda realidade - o mundo ideal, a gnose. A práxis desse conservadorismo, ainda que pretensamente se fundamente em princípios verdadeiramente conservadores, os deforma na medida em que o projeto de poder se coloca como o seu objetivo primeiro. A própria noção de homem, com a sua individualidade e personalidade, dissolve-se em meio à concepção ideológica.
O segundo conservadorismo, ou o verdadeiro conservadorismo, muito na linha do seu maior teórico moderno, Russell Kirk, é menos uma práxis e mais uma visão de mundo. Esta concepção parte da noção de que o homem enquanto homem, em sua composição antropológica-ontológica, o é na medida em que reconhece o seu eu, a sua capacidade subjetiva de contemplar a realidade. Entretanto, essa identidade pessoal não brota repentinamente, mas é fruto da identificação das experiências morais transmitidas ao longo das eras. O homem, portanto, que não faz a si mesmo, é o homem inserido na comunidade e que na comunidade recebe e lapida a própria personalidade. Assim, a defesa da ordem interna e espiritual - e espírito aqui entendido não estritamente do ponto de vista religioso, mas sim com a capacidade do homem de alçar voos além da imanência - deve ser o objetivo de todos os homens, afinal sem ela restaria o caos e a desconstrução da noção de humanidade.
Contudo, desde o alvorecer da modernidade, e em especial com a concretização deste ideal na Revolução Francesa, princípios fundantes da identidade humana foram colocados em discussão e rejeitados. O verdadeiro conservadorismo seria, portanto, não um projeto ideológico ou político, mas sim a restauração da ordem perdida ou deformada. Destarte, sem a carga romântico-gnóstica e, ao contrário, atento ao homem em sua plenitude, o pensamento conservador não busca projetos de poder ou cartilhas universais. Este conservadorismo pode ser defendido com o mesmo ardor em nações como EUA e Brasil, mas será, se realmente conservador, logo atento às tradições herdadas, vivido de formas extremamente distintas.
Desse modo, o que é necessário destacar é que o conservadorismo não pode ser concebido como sinônimo de refinamento europeu ou intelectualismo americano. O pensamento conservador é capaz de se aplicar a todos os cantos do mundo respeitando e elevando a diversidade das culturas e das tradições. O seu interesse não é a construção de ideais, mas a defesa de princípios que estão presentes e, graças ao advento do espírito missionário cristão, espalhados por todos os cantos do mundo. Os conservadores, portanto, que querem moldar o Brasil de acordo com o modelo americano/europeu incidem na mesma caricatura dos aristocratas brasileiros e complexados do séc. XIX que substituíam os
deliciosos quitutes africanos por uma insossa comida inglesa, unicamente para
forçar uma elegância e pomposidade à européia. O conservadorismo do Brasil deve ser como os
soteropolitanos que, aderindo aos costumes do Velho Mundo, não abriram mão da cartola, mas substituíram o preto
calorento das calças pelo branco tropical.

Um comentário:
Mas ainda bem, Reverendíssimo Padre, que um outro calor só que de bíblias protestantes encadernadas em couro preto é fruto do fogo do Espírito Santo que inspirou homens a escreverem a Bíblia e haverá de inspirar nós, os protestantes amorenados a refundarmos o Brasil em bases realmente cristãs: bíblica e reformada.
Parabéns pelo artigo.
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