domingo, 23 de dezembro de 2012

A Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales e o seu carisma




A congregação dos Missionários de São Francisco de Sales nasceu sob o impulso da espiritualidade salesiana e fundamentada no ardor de Pierre Mermier. Como se sabe, São Francisco de Sales, além de fundar a Ordem da Visitação de Santa Maria, tinha o intuito de congregar padres missionários, mas faleceu antes de poder realizar o seu desejo. Alguns séculos depois, o seu sucessor em Annecy, Monsenhor Riley, juntamente com o Servo de Deus Pierre Mermier, concretizam a vontade do Doutor do Amor Divino. Eles tinham como foco primeiro o combate à "ignorância religiosa" dos franceses depois da Revolução. Como reflexo do amadurecimento espiritual, a Congregação resolvera partir para a missão ad gentes. O Fundador requisitou territórios de missão na África, mas o Papa os queria na Índia, e para lá foram enviados os melhores confrades. 


Historicamente é impossível dissociar a Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales do caos revolucionário. Com o advento da Revolução Francesa sobreveio um cisma não-oficial na igreja local entre os padres juramentados e não-juramentados, chamados refratários. Os não-juramentados eram os que se negavam a jurar pela Constituição anticlerical do novo estado francês. Iniciou-se, assim, uma dura campanha de descristianização em todo o território: substituição de nomes cristãos por nomes laicos, culto à “Deusa Razão”,  destruição de igrejas não-juramentadas etc. Em 1792, dois anos após o nascimento do Pierre Mermier, houve o Massacre de Setembro, onde diversos padres e religiosos foram brutalmente assassinados.


Os pais do Fundador acolhiam padres não-juramentados em sua casa onde celebravam a Santa Missa às escondidas. Nesse ambiente de perseguição ao cristianismo e ao clero o pequeno Mermier presenciou testemunhos vivos de fé.  Certamente diante de tal cenário pôde ele entender, desde jovem, o peso da vocação sacerdotal. Deste modo, a Revolução Francesa teve um papel fundamental na formação da personalidade de Pierre Mermier e, ademais, construiu o cenário no qual, anos mais tarde, trabalhará. 


Quando Pierre Mermier fora ordenado sacerdote em 1813 a Revolução Francesa já havia acabado há quatorze anos. Entretanto, a sociedade tinha sido profundamente marcada pelos dez anos de terror. A prática da religião decaíra gravemente, o que se acentuava graças aos resquícios jansenistas que ainda se faziam presentes por todo o território. Pode-se dizer, portanto, que este ambiente em pleno séc. XIX não diferia muito do mundo secularizado atual. Pierre Mermier estava diante daquilo que chamou de “ignorância religiosa”. Em meio a este quadro Deus concedera a graça e, pela mão do bispo de Annecy, anos mais tarde, em 1830 se iniciara a fundação dos Missionários de São Francisco de Sales.


Destarte, a Congregação é erigida sobre a urgência da nova evangelização dos homens afastados da fé. A ignorância religiosa deveria ser combatia através de sacerdotes instruídos, cultos e bem formados, capazes de pregar e anunciar a Boa Nova em todos os recantos da França. Estes seriam, então, pregadores itinerantes, visitando paróquias e reanimando a Igreja francesa que parecia moribunda. O diferencial desses novos Missionários, além da instrução, era a vivência radical da espiritualidade de São Francisco de Sales: o amor a Deus e aos homens. Esta experiência, numa França altamente influenciada pelo rigor jansenista, era algo avassalador. 


O amadurecimento do carisma nas missões paroquiais inflamou ainda mais o coração do Pe. Pierre Mermier. Ele agora queria que seus filhos espirituais, baseados no exemplo do Doutor do Amor divino, anunciassem o Cristo amoroso aos povos incrédulos. Foi assim que o Fundador pediu junto ao Papa Gregório XVI missões no continente africano. Entretanto, a África era, até então, um local adverso para os missionários e, ademais, as potências europeias ainda disputavam a partilha dos territórios das suas novas colônias. Foi assim que, providencialmente, a Propaganda Fide, atual Congregação para Evangelização dos Povos, concedeu territórios de missão na longínqua e exótica Índia. Pierre Memier aceitou de bom grado e enviou os melhores missionários entre os onze que compunham naquele tempo a Congregação. A experiência da missão ad gentes foi fabulosa e rendeu frutos que são colhidos até hoje. Ainda em vida Pierre Mermier administrou cerca de 90 missões e do seu esforço surgiram diversas prelazias e futuramente dioceses indianas. 


Neste mesmo processo de maturação, os Missionários de São Francisco de Sales perceberam que a melhor forma de combater a ignorância religiosa e o método mais eficaz para construir uma sociedade cristã era através da educação. Surge, então, o terceiro paradigma do carisma fransalesiano: o ensino como ferramenta de elevação cultural, transmissão de conhecimento e criação de homens nos quais a mensagem evangélica se encarna profundamente. Pierre Mermier já sabia que era pela pregação que o Sacerdote atingia os corações, assim, portanto, por meio do ensino poderiam os missionários forjar uma juventude renovada e fundada na experiência com Cristo.


Destarte, tanto as missões paroquias, passando pelas missões ad gentes e chegando, por fim, na educação da juventude, definem o carisma da Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales e o modo como Deus foi revelando ao Pe. Pierre Mermier a identidade da sua fundação. Todas as três formas estão alicerçadas na urgência da nova evangelização e na propagação da fé pelo mundo descrente. Com missionários edificados no amor salesiano e instruídos na razão será possível levar conhecimento onde há ignorância religiosa e luz para onde só habita as trevas.

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