A congregação dos Missionários de
São Francisco de Sales nasceu sob o impulso da espiritualidade salesiana e
fundamentada no ardor de Pierre Mermier. Como se sabe, São Francisco de Sales,
além de fundar a Ordem da Visitação de Santa Maria, tinha o intuito de
congregar padres missionários, mas faleceu antes de poder realizar o seu
desejo. Alguns séculos depois, o seu sucessor em Annecy, Monsenhor Riley,
juntamente com o Servo de Deus Pierre Mermier, concretizam a vontade do Doutor
do Amor Divino. Eles tinham como foco primeiro o combate à "ignorância
religiosa" dos franceses depois da Revolução. Como reflexo do
amadurecimento espiritual, a Congregação resolvera partir para a missão ad
gentes. O Fundador requisitou territórios de missão na África, mas o Papa os
queria na Índia, e para lá foram enviados os melhores confrades.
Historicamente é impossível
dissociar a Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales do caos revolucionário.
Com o advento da Revolução Francesa sobreveio um cisma não-oficial na igreja
local entre os padres juramentados e não-juramentados, chamados refratários. Os
não-juramentados eram os que se negavam a jurar pela Constituição anticlerical
do novo estado francês. Iniciou-se, assim, uma dura campanha de descristianização
em todo o território: substituição de nomes cristãos por nomes laicos, culto à “Deusa
Razão”, destruição de igrejas
não-juramentadas etc. Em 1792, dois anos após o nascimento do Pierre Mermier,
houve o Massacre de Setembro, onde diversos padres e religiosos foram
brutalmente assassinados.
Os pais do Fundador acolhiam
padres não-juramentados em sua casa onde celebravam a Santa Missa às
escondidas. Nesse ambiente de perseguição ao cristianismo e ao clero o pequeno
Mermier presenciou testemunhos vivos de fé.
Certamente diante de tal cenário pôde ele entender, desde jovem, o peso
da vocação sacerdotal. Deste modo, a Revolução Francesa teve um papel
fundamental na formação da personalidade de Pierre Mermier e, ademais,
construiu o cenário no qual, anos mais tarde, trabalhará.
Quando Pierre Mermier fora
ordenado sacerdote em 1813 a Revolução Francesa já havia acabado há quatorze
anos. Entretanto, a sociedade tinha sido profundamente marcada pelos dez anos
de terror. A prática da religião decaíra gravemente, o que se acentuava graças
aos resquícios jansenistas que ainda se faziam presentes por todo o território.
Pode-se dizer, portanto, que este ambiente em pleno séc. XIX não diferia muito
do mundo secularizado atual. Pierre Mermier estava diante daquilo que chamou de
“ignorância religiosa”. Em meio a este quadro Deus concedera a graça e, pela
mão do bispo de Annecy, anos mais tarde, em 1830 se iniciara a fundação dos
Missionários de São Francisco de Sales.
Destarte, a Congregação é erigida
sobre a urgência da nova evangelização dos homens afastados da fé. A ignorância
religiosa deveria ser combatia através de sacerdotes instruídos, cultos e bem
formados, capazes de pregar e anunciar a Boa Nova em todos os recantos da
França. Estes seriam, então, pregadores itinerantes, visitando paróquias e
reanimando a Igreja francesa que parecia moribunda. O diferencial desses novos
Missionários, além da instrução, era a vivência radical da espiritualidade de
São Francisco de Sales: o amor a Deus e aos homens. Esta experiência, numa
França altamente influenciada pelo rigor jansenista, era algo avassalador.
O amadurecimento do carisma nas
missões paroquiais inflamou ainda mais o coração do Pe. Pierre Mermier. Ele
agora queria que seus filhos espirituais, baseados no exemplo do Doutor do Amor
divino, anunciassem o Cristo amoroso aos povos incrédulos. Foi assim que o
Fundador pediu junto ao Papa Gregório XVI missões no continente africano.
Entretanto, a África era, até então, um local adverso para os missionários e,
ademais, as potências europeias ainda disputavam a partilha dos territórios das
suas novas colônias. Foi assim que, providencialmente, a Propaganda Fide, atual
Congregação para Evangelização dos Povos, concedeu territórios de missão na
longínqua e exótica Índia. Pierre Memier aceitou de bom grado e enviou os
melhores missionários entre os onze que compunham naquele tempo a Congregação.
A experiência da missão ad gentes foi fabulosa e rendeu frutos que são colhidos
até hoje. Ainda em vida Pierre Mermier administrou cerca de 90 missões e do seu
esforço surgiram diversas prelazias e futuramente dioceses indianas.
Neste mesmo processo de
maturação, os Missionários de São Francisco de Sales perceberam que a melhor
forma de combater a ignorância religiosa e o método mais eficaz para construir
uma sociedade cristã era através da educação. Surge, então, o terceiro
paradigma do carisma fransalesiano: o ensino como ferramenta de elevação
cultural, transmissão de conhecimento e criação de homens nos quais a mensagem
evangélica se encarna profundamente. Pierre Mermier já sabia que era pela
pregação que o Sacerdote atingia os corações, assim, portanto, por meio do
ensino poderiam os missionários forjar uma juventude renovada e fundada na
experiência com Cristo.
Destarte, tanto as missões paroquias, passando pelas missões ad gentes e chegando, por fim,
na educação da juventude, definem o
carisma da Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales e o modo como
Deus foi revelando ao Pe. Pierre Mermier a identidade da sua fundação. Todas as
três formas estão alicerçadas na urgência da nova evangelização e na propagação
da fé pelo mundo descrente. Com missionários edificados no amor salesiano e
instruídos na razão será possível levar
conhecimento onde há ignorância religiosa e luz para onde só habita as trevas.

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