Estava lendo um texto sobre a história do cristianismo em Uganda e me deparei com um trecho muito interessante. O Islã em Buganda, antigo reino que deu origem ao país africano, suplantou as religiões animistas e abriu a população local aos conceitos fundamentais das religiões monoteístas. Teria, portanto, preparado o terreno para a chegada do cristianismo fazendo, assim, que o islamismo se tornasse numa religião minoritária. Segue o trecho traduzido:
"No século XIX duas "religiões mundiais" - Islã e Cristianismo - levaram a significativos avanços na África. Muitas vezes, eles estavam em séria disputa, e este fato foi o caso em Buganda. Mas isso não deve ofuscar a realidade que tanto o islamismo como o cristianismo eram, em muitos aspectos, complementares. Ambos foram chamados de "dini", em contraposição ao patrimônio religioso tradicional africano. Ambos os credos ofereceram uma "visão de mundo", uma explicação universal da vida com todas as suas oportunidades e problemas. Tais sistemas pareciam cada vez mais relevantes para as sociedades, como Buganda, que estavam sendo arrastadas para um mundo maior. Neste sentido, o Islã em Buganda, apesar de sua rivalidade, preparou o caminho para o cristianismo de diversas maneiras. Na verdade, o cristianismo chegou num momento estratégico - quando o Islã tinha despertado para as necessidades e as aspirações de Baganda. O Islã se tornou arraigado na sociedade de forma que o cristianismo não conseguiu encontrar um ponto de apoio. O Islã, por exemplo, criou uma sede pela alfabetização, especialmente entre os jovens (bagalagala) na corte. O cristianismo foi capaz de através desse interesse, e com suas prensas de impressão e distribuição de livros baratos em vernáculo ou suaíli, satisfazer tal busca com uma extensão muito maior do que o Islã era capaz de fazer.
Mas o Islã havia preparado o caminho de outras maneiras. A idéia de um livro sagrado, de um dia santo, de um Deus acima de todos os deuses que estava interessado nos negócios desta vida e na vida moral do indivíduo, a espera pela ressurreição do corpo e de um julgamento após a morte. Esses conceitos foram trazidos a essa região pelo Islã, mas recebeu maior ênfase com a vinda dos missionários cristãos.
Entretanto, até que ponto Baganda já reconhecia a existência de um Deus supremo? Certamente nem o Islã nem o Cristianismo precisavam importar um nome estrangeiro a fim de proclamar o seu Deus. Baganda já conhecia Katonda, o Criador. Mas o status de Katonda tem sido objeto de controvérsia dentro da historiografia religiosa de Buganda. Katonda fora apenas um lubaale muito insignificante? Ou ele sempre foi considerado como superior ao balubaale, acima de Mukasa, Kibuuka e Muwanga, mas distante da vida da nação e do indivíduo, e, portanto, não sendo o foco de um forte culto? Seja qual for a resposta a estas perguntas, é certo que o Islã deu uma nova importância para Katonda e que o cristianismo na região foi construído sobre esta crescente importância.
Assim, em uma sociedade já aberta a novas idéias, sensível à influência tecnológica, cultural e religiosa do mundo exterior, o Islã e depois o cristianismo causaram um impacto sobre Buganda, na segunda metade do século XIX. Mas se Buganda era tão receptiva à mensagem de uma "religião mundial", por que não simplesmente permaneceu com o Islã? Como poderia o cristianismo não só se tornar num grande desafio para o Islã, mas, eventualmente, se tornar o dini dominante em Buganda, forçando o Islã a uma posição de uma minoria (mas tenaz) de pequeno porte?"

Um comentário:
Parabéns pela boa leitura.
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Observação:
"Eventually" é um falso cognato.
Significa "finalmente, no fim das contas, ao fim (de uma sequência)."
Naõ li o texto original, mas traduziria assim:
"Como pôde o cristianismo não só se tornar num grande desafio para o Islã, mas, no fim, se tornar o dini dominante em Buganda, forçando o Islã à posição de uma pequena(mas tenaz) minoria?"
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