quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

E se o Brasil fosse protestante?


E se o Brasil fosse protestante? Esta é uma pergunta muito pertinente, mas o seu real sentido é nos levar a refletir a respeito do papel fundamental do catolicismo na formação da identidade brasileira. Pensar, portanto, na Terra da Santa Cruz calvinista seria, então, arrancar as bases sobre as quais surgiu a nossa nação. Se o Brasil fosse protestante certamente teríamos uma sociedade racialmente sectarizada, talvez numa síntese entre o segregacionismo do sul dos EUA e o apartheid da África do Sul. A enorme quantidade de escravos e seus descendentes, unida ao altivo espírito nacional protestante contrário à miscigenação levaria, conseqüentemente, ao incremento das forças de oposição culturais entre brancos europeus e negros africanos. Assim, portanto, o Brasil aclamado e conhecido pelas suas manifestações culturais forjadas no encontro de três povos não existiria. 

O catolicismo luso-brasileiro, de acordo com Gilberto Freyre, não era "nem a religião dura do norte reformado, nem a religião dramática de Castela", mas sim "um doce cristianismo lírico". Dois aspectos, portanto, tornaram o catolicismo no Brasil de fundamental importância para o desenvolvimento do país: primeiramente o seu caráter universal, algo totalmente oposto à fragmentada identidade protestante muito associada às nações e aos estados nascentes. Outro fator de grande relevância foi a experiência católica portuguesa. A multiplicidade cultural ibérica fez com que, desde cedo, o povo luso estivesse habituado a uma religião que se manifestava ativamente em todos os aspectos com formas muito distintas, sem a rigidez e gravidade dos calvinistas holandeses, por exemplo. O encontro com o mundo maometano tornou o português mais tolerante ao outro e, como conseqüência, mais plástico culturalmente. Ademais, o regime do padroado, pelo qual os reis gozavam de autonomia na nomeação de bispos, possibilitou o surgimento de manifestações religiosas desde a construção de capelas até confrarias e irmandades, que não tiveram similar em toda a América Latina. 

Se "o catolicismo foi realmente o cimento da nossa unidade", como diz Freyre, a ligação da Igreja Católica com a identidade nacional é de caráter essencial. Os portugueses que atravessaram o Atlântico, que já carregavam fortes traços de miscigenação entre os povos que invadiram a península ibérica, estavam unidos na guerra de cristãos contra infiéis. Afirma o autor de "Casa-Grande e Senzala" que as "guerras contra os índios nunca foram guerras de branco contra peles-vermelhas, mas de cristãos contra bugres." A heresia, portanto, é o grande inimigo da colônia, não o estrangeiro: franceses, holandeses e ingleses convertidos serão tratados com a mesma doçura que um lusitano legítimo. O Brasil nasceu, assim, sob a urgência da ortodoxia – ainda que aparente. Destarte, na Terra de Santa Cruz o crivo se tornou o batismo católico e não a gota de sangue, como ocorrera nos EUA. 

Diz o pensador pernambucano que “a religião tornou-se o ponto de encontro e de confraternização entre as duas culturas, a do senhor e a do negro; e nunca uma intransponível ou dura barreira”. As festas religiosas eram os momentos nos quais os negros, com a autorização do clero ou no mínimo com o seu olhar permissivo, manifestavam com muita liberalidade as suas tradições agora unidas com a fé cristã. Sem abrir mão da força doutrinal, os escravos tornaram o catolicismo em sua versão popular o ambiente talvez mais profundamente marcado pelas facetas africanas. Assim como ocorrera com muito do catolicismo português aculturado com a cultura moura, no Brasil este catolicismo se abriu em seus elementos externos ao legado trazido pelos escravos. A religião teve um peso vital na edificação da colônia nos trópicos. O catolicismo luso-brasileiro, talvez o menos “europeu” entre todos aqueles nos domínios na América, gerou uma sociedade de maior plasticidade e mais aberta ao contato com indígenas e africanos, algo nunca visto na história dos povos colonizados. 

O protestantismo seria, portanto, o oposto cultural ao fermento católico. A identidade luso-católica, brasileira era o inverso da rigidez moral e ritual dos calvinistas. Utilizando de uma famosa construção dialética, ainda consciente da imprecisão dos termos, pode-se dizer que a sociedade brasileira, marcadamente dionisíaca, não existiria com a dureza apolínea reformada. As conseqüências históricas seriam ainda mais alarmantes. Como o calvinismo protestante em sua aversão à miscigenação, confrontado com a enorme massa de escravos libertos, se comportaria? A Igreja Reformada sempre esteve altamente atrelada à noção de nacionalidade e até então incapaz de produzir uma cultura além dos limites de suas paróquias, como fizera o catolicismo. Neste cenário as culturas africana e indígena seriam lançadas na clandestinidade ou, no máximo, reguladas e controladas pelas autoridades locais. O Brasil viveria um cenário não muito diferente do apartheid da África do Sul.

7 comentários:

Pedro Marcos disse...

Um texto sucinto e muito completo.
E sobretudo belo, sem fazer por isso.

Assim se combate a subversão cultural anglo-saxónica.

Anônimo disse...

Discordo que se o Brasil fosse protestante teriamos sociedade sectarizada. O que não faltam são negros e pardos nas igrejas evangélicas entre os brancos que também comungam a mesma fé.

Pedro Ravazzano disse...

Estimado Anônimo,

A questão não é puramente religiosa, mas é algo ainda mais profundo; as influências dos paradigmas da fé na formação cultural.

Certamente se o Brasil fosse protestante os indígenas e os negros seriam todos cristãos evangélicos. Entretanto, e aí que entra a razão da minha reflexão, a cultura própria seria inteiramente rechaçada ou, no máximo, lançada em ostracismo, restrita a guetos. Não haveria, portanto, o país orgulhosamente multicultural, mestiço, formado por três raças, mas sim uma establishment cultural branco com pequenos dois satélites para-culturais.


Abraços,

João Emiliano Martins Neto disse...

Subversão anglo-saxônica que salvou a Europa após a Segunda Guerra e que haverá de salvar, em sua versão amorenada, a América Latina que está sendo devastada pela dissolução imposta pelo imperialismo do falso Catolicismo luso-brasileiro via Foro de São Paulo criado pelo PT que é cria do Catolicismo cismático que não poderia deixar de ser o luso-brasileiro.

Mas o artigo é belo mesmo, amigo e irmão Reverendíssimo Padre Ravazzano, sua semântica é como a o livro dos Canticum Canticorum. O que eu só acho é que se só há um batismo como reza nosso Credo Niceno-Constantinopolitano, não bastou apenas batizar os bugres, mas evangelizá-los, apesar de ser catequese romana. Nesse ponto nossos pais lusitanos falharam e sem motivo, pois a ameaça moura que os acabrunhavam não existia no Brasil até porque o que são os, de fato, satélites culturais indígenas e africanos perto de grandes religiões como o Islão ou o Cristianismo?


JOÃO EMILIANO MARTINS NETO

dimitri disse...

Só achei que o título está parecendo o da Super... kkkkkkkkkkkkkkk!

Max Aizner disse...

Belo texto.

Anônimo disse...

Pedro,

Ótimo texto. De fato, havia um "espírito nacional protestante contrário à miscigenação" (não como algo da essência do calvinismo, mas acidental). Concordo que não teríamos um país "orgulhosamente multicultural, mestiço".

Mas, por outro lado, poderíamos ter produzido algo semelhante à Revolução Americana e ter libertado os escravos muito antes.