terça-feira, 17 de julho de 2012

Missa Tridentina na CN, Tradicionalistas e René Girard


Alguns membros e dirigentes da Canção Nova assistiram à Santa Missa celebrada na forma extraordinária por Pe. Demétrio. Sem dúvida um momento marcante na história dessa comunidade. Entretanto, o que me chamou atenção foram as reações de perplexidade e entusiasmo, opostas, mas ambas fundadas em percepções radicais e nonsense.

Os entusiastas cantam odes à forma extraordinária como se o latim, o ad Orientem ou as alfaias fossem a tábua da salvação da humanidade. O centro do mistério, isto é, Jesus Cristo, é o núcleo principal da vocação cristã e eucarística. Transformar a força desse evento em algo além do que foi é trabalhar contra a causa. Não é a Missa Tridentina que irá salvar os cristãos ou a CN, mas a experiência feita por cada um com a pessoa de Cristo. O rito romano, em suas duas formas, só pode ser compreendido mediante essa anterior conversão, do contrário se transforma em mero ritualismo estético. O espírito da liturgia não está nas rubricas, mas no Espírito que as suscitou ao longo da história da Igreja e que impulsiona a cada um de nós.

Contudo, os perplexos e críticos se destacaram com larga vantagem. Alguns reclamaram da homilia de Pe. Demétrio, outros falaram que de nada adianta a celebração da forma extraordinária sem a demissão de Pe. Fábio de Melo, já outros protestaram com palavras de ordem. Interessante que em toda essa reação se encontra, além da mentalidade de seita, a noção da perda do domínio sobre a "Tradição". Vou me sustentar em René Girard para explicar. O pensador francês, ao estudar o desejo mimético, afirma que na mediação interna, quando o modelo do desejo se encontra próximo o bastante do sujeito - imitador, o objeto do desejo torna-se motivo de um conflito, ambos desejam o mesmo objeto, criando uma reciprocidade violenta. O desejo transcende a posse do objeto. Os duplos surgem quando existe a indiferenciação. O objeto some e os rivais tornam-se idênticos. O modelo passa a imitar seu próprio desejo por meio do discípulo ao descobrir no objeto o alvo da tensão mimética. Assim, se o discípulo passa a ser o modelo do desejo do seu modelo, este se transforma em discípulo do seu discípulo. O modelo é transformado em antimodelo e cria-se um ciclo de imitação e ódio retroalimentado. Surge, por fim, a crise mimética onde o objeto disputado na rivalidade mimética passa a ser alvo da cobiça e da atratividade mimética por parte da comunidade de indivíduos. Ou todo mundo se auto-destrói ou se usa o bode expiatório para tranquilizar a crise.

Agora voltando! A grande questão é que tais tradicionalistas-de-seita simplesmente estão percebendo a posse da "Tradição" escapando pelos seus dedos escorregadios. Se até mesmo a "carismática-e-modernista" Canção Nova, para não dizer poderosa e eficiente na divulgação da mensagem evangélica, celebra a forma extraordinária o que sobra para jovens que, no máximo, se reúnem para debater, muito "realisticamente", o fim da "apostasia pós-conciliar"? Uma Missa tridentina transmitida pela CN será mais frutífera para o apostolado "tradicional" do que anos de publicações e intrigas cibernéticas.

Eu poderia dizer simplesmente que o faniquito tradicionalista contra a CN foi apenas isso, chilique de criança que não quer dividir o brinquedo, mas apelar para René Girard torna tudo muito mais elegante!

4 comentários:

Boson disse...

No título, saiu "triNdentina". Legal a alegria do texto.

Anônimo disse...

Pedro,

Posso estar enganado mas acho que o espírito da liturgia também está nas rubricas,não ?

abraços,
lucas

Thiago Santos de Moraes disse...

Evidente que qualquer forma litúrgica trabalhada longe da fonte, da vida na graça e para a graça, se transforma em mero ritualismo. Contudo, entre o rito gregoriano e o rito paulino há uma diferença essencial: um foi estruturado ao longo dos séculos, sobre o sopro do Espírito, em torno do Sacrifício salvífico; o outro foi estruturado em torno de noções no mínimo duvidosas sobre a função da liturgia (tanto que não se falava em sacrifício na primeira edição tópica do Missal paulino) e em poucos meses. Não se pode falar de impulso pela história no que tange ao rito de Paulo VI, o que temos, antes de tudo, é um impulso ideológico.

Anônimo disse...

Excelente artigo, boa observação. Concordo plenamente.