
Com alguns spoilers!
Desde que vi o trailer de Promotheus sabia que o filme teria um forte aporte filosófico. Ou cairia no niilismo radical, mostrando a vacuidade da existência, ou, todavia, abriria a possibilidade da reflexão a respeito da vida como existência fundamentada em algo inerente ao próprio homem. Estava certo! A obra é marcadamente permeada por tais premissas, entretanto, quem assim quiser, pode apreciá-la como mais um excelente filme de ficção científica, mero entretenimento. A arte tem a capacidade de se abrir para uma diversidade de leituras, muitas delas sequer conjeturadas pelos seus autores.
A busca por respostas que endossavam a existência humana se encontrava na compreensão do mistério da nossa criação. O darwinismo desfavorecia qualquer concepção criacionista, contudo, dentro da teoria pensada pela Dra. Elizabeth Shaw, esta fé que ela escolheu acreditar, o homem era fruto de um encontro extraterrestre, os nossos deuses não eram astronautas, mas eram moradores do universo! Assim, pois, todo o desenvolvimento do filme se fundamenta na mentalidade cientificista-positivista. Por mais estapafúrdia que fosse a tênue crença dos pesquisadores, era uma crença na vacuidade da própria existência; as respostas existiam e estavam em outra galáxia, era só uma questão de tempo, disposição e dinheiro para encontrá-las.
Não obstante, ficou claro que as perguntas não seriam respondidas tão facilmente. O desenrolar do filme, com ações dignas de um grande blockbuster, mostra como os “deuses” não eram tão divinos e que as respostas não eram tão óbvias e facilmente achadas com o grande devotamento cientifico. Mortes assustadoras e a perda de controle são os sintomas do desespero diante da incompreensão da existência e da busca. Resta alguma coisa? A fé na objetividade positivista da humanidade se encontrava em frangalhos, não sobrava outra atitude que não o nada. Peter Weyland, o grande investidor da pesquisa, estava motivado pela busca da imortalidade, reflexo certamente da existência baseada na frieza egoística da imanência. O seu interesse era totalmente distante do nobre anseio da Dra. Shaw, esta sim insuflada pela fé que escolhera nos seus deuses alienígenas, impulsionada pelo ardor de encontrar sentido no existir.
Dentro da dinâmica própria do filme é possível fazer um paralelo entre as duas frases de mais impacto. O ancião Weyland, indo ao encontro do último dos nossos criadores, sobrevivente do aparente extermínio da raça causado pelas armas que estes criaram para nos destruir, pretendera encontrar a cura para a sua morte mais do que iminente. Não obstante, depara-se com um ser raivoso e inflamado de ódio contra os homens, suas criações. Ao ser brutalmente assassinado, jazendo dolorosamente no chão, diz, pois, “que não resta mais nada”. Se o filme acabasse neste instante certamente seria a maior ode niilista já produzido pelo cinema. Fomos criados por seres alienígenas, criados pelo DNA sacrificial dos extraterrestres, como mostra a primeira cena do filme, mas agora somos alvos da fúria “divina”. Há sentido no existir? Há razão para voltar os olhos para o alto ou sequer para si mesmo? Sobra o nada e só há o nada.
Entretanto, na última cena há uma reviravolta totalmente surpreendente e digna de ser meditada. Dra. Shaw, a única sobrevivente depois que a nave Promotheus propositadamente se chocara com a nave alienígena que pretendia destruir a Terra, ao se deparar com o desespero da morte e da solidão, com o fracasso da expedição e o fracasso da sua fé científica, parece redescobrir a razão mais intima da sua essência, isto é, aquilo que de mais profundo e radical habita no coração do homem. Se, pois, os extraterrestres nos criaram, quem os criou? “Eu vou continuar a buscar!”, disse. Esta é, portanto, a vocação humana, esta é a cruz que a Dra. Shaw toma de volta, buscar o sentido do existir, um senso de abertura, de ligação, de religação e, portanto, de religião, que só pode ser saciado quando o nosso ser se reconhece no Outro que nos faz.
O filme acaba estupendamente com o Prelúdio Op. 28, No. 15, de Chopin, esta obra que Mons. Luigi Giussani, ao comentar sobre a nota constante que persiste em toda a obra, diz; “A nota que domina desde o início ao fim e decide o sentido da toda a peça de Chopin, esta é a nota do começo ao fim que decide o que é a vida humana: é a sede de felicidade. (…) Havia uma nota que permanecia intacta, embora com alguma mutação ligeira, do começo ao fim permanece intacta na sua profundidade e na sua simplicidade absoluta, e, na sua singularidade, domina a vida: a sede de felicidade”
O titã Promoteu deu aos homens o fogo e, com isto, possibilitou que fossem superiores aos animais. Entretanto, fora punido pelos deuses e sofreu todos os dias enquanto esteve preso no Monte Cáucaso onde seu fígado era continuamente dilacerado pelo corvo. Entretanto, muito além da humana mitologia grega, devemos reconhecer que o homem só encontra sentido na sua existência ao perceber a força que o move, ao reconhecer a presença de quem nos fez e nos faz, daquele que não apenas nos deu fogo, mas nos deu vida e redenção, que nos deu o seu sangue.
Desde que vi o trailer de Promotheus sabia que o filme teria um forte aporte filosófico. Ou cairia no niilismo radical, mostrando a vacuidade da existência, ou, todavia, abriria a possibilidade da reflexão a respeito da vida como existência fundamentada em algo inerente ao próprio homem. Estava certo! A obra é marcadamente permeada por tais premissas, entretanto, quem assim quiser, pode apreciá-la como mais um excelente filme de ficção científica, mero entretenimento. A arte tem a capacidade de se abrir para uma diversidade de leituras, muitas delas sequer conjeturadas pelos seus autores.
A busca por respostas que endossavam a existência humana se encontrava na compreensão do mistério da nossa criação. O darwinismo desfavorecia qualquer concepção criacionista, contudo, dentro da teoria pensada pela Dra. Elizabeth Shaw, esta fé que ela escolheu acreditar, o homem era fruto de um encontro extraterrestre, os nossos deuses não eram astronautas, mas eram moradores do universo! Assim, pois, todo o desenvolvimento do filme se fundamenta na mentalidade cientificista-positivista. Por mais estapafúrdia que fosse a tênue crença dos pesquisadores, era uma crença na vacuidade da própria existência; as respostas existiam e estavam em outra galáxia, era só uma questão de tempo, disposição e dinheiro para encontrá-las.
Não obstante, ficou claro que as perguntas não seriam respondidas tão facilmente. O desenrolar do filme, com ações dignas de um grande blockbuster, mostra como os “deuses” não eram tão divinos e que as respostas não eram tão óbvias e facilmente achadas com o grande devotamento cientifico. Mortes assustadoras e a perda de controle são os sintomas do desespero diante da incompreensão da existência e da busca. Resta alguma coisa? A fé na objetividade positivista da humanidade se encontrava em frangalhos, não sobrava outra atitude que não o nada. Peter Weyland, o grande investidor da pesquisa, estava motivado pela busca da imortalidade, reflexo certamente da existência baseada na frieza egoística da imanência. O seu interesse era totalmente distante do nobre anseio da Dra. Shaw, esta sim insuflada pela fé que escolhera nos seus deuses alienígenas, impulsionada pelo ardor de encontrar sentido no existir.
Dentro da dinâmica própria do filme é possível fazer um paralelo entre as duas frases de mais impacto. O ancião Weyland, indo ao encontro do último dos nossos criadores, sobrevivente do aparente extermínio da raça causado pelas armas que estes criaram para nos destruir, pretendera encontrar a cura para a sua morte mais do que iminente. Não obstante, depara-se com um ser raivoso e inflamado de ódio contra os homens, suas criações. Ao ser brutalmente assassinado, jazendo dolorosamente no chão, diz, pois, “que não resta mais nada”. Se o filme acabasse neste instante certamente seria a maior ode niilista já produzido pelo cinema. Fomos criados por seres alienígenas, criados pelo DNA sacrificial dos extraterrestres, como mostra a primeira cena do filme, mas agora somos alvos da fúria “divina”. Há sentido no existir? Há razão para voltar os olhos para o alto ou sequer para si mesmo? Sobra o nada e só há o nada.
Entretanto, na última cena há uma reviravolta totalmente surpreendente e digna de ser meditada. Dra. Shaw, a única sobrevivente depois que a nave Promotheus propositadamente se chocara com a nave alienígena que pretendia destruir a Terra, ao se deparar com o desespero da morte e da solidão, com o fracasso da expedição e o fracasso da sua fé científica, parece redescobrir a razão mais intima da sua essência, isto é, aquilo que de mais profundo e radical habita no coração do homem. Se, pois, os extraterrestres nos criaram, quem os criou? “Eu vou continuar a buscar!”, disse. Esta é, portanto, a vocação humana, esta é a cruz que a Dra. Shaw toma de volta, buscar o sentido do existir, um senso de abertura, de ligação, de religação e, portanto, de religião, que só pode ser saciado quando o nosso ser se reconhece no Outro que nos faz.
O filme acaba estupendamente com o Prelúdio Op. 28, No. 15, de Chopin, esta obra que Mons. Luigi Giussani, ao comentar sobre a nota constante que persiste em toda a obra, diz; “A nota que domina desde o início ao fim e decide o sentido da toda a peça de Chopin, esta é a nota do começo ao fim que decide o que é a vida humana: é a sede de felicidade. (…) Havia uma nota que permanecia intacta, embora com alguma mutação ligeira, do começo ao fim permanece intacta na sua profundidade e na sua simplicidade absoluta, e, na sua singularidade, domina a vida: a sede de felicidade”
O titã Promoteu deu aos homens o fogo e, com isto, possibilitou que fossem superiores aos animais. Entretanto, fora punido pelos deuses e sofreu todos os dias enquanto esteve preso no Monte Cáucaso onde seu fígado era continuamente dilacerado pelo corvo. Entretanto, muito além da humana mitologia grega, devemos reconhecer que o homem só encontra sentido na sua existência ao perceber a força que o move, ao reconhecer a presença de quem nos fez e nos faz, daquele que não apenas nos deu fogo, mas nos deu vida e redenção, que nos deu o seu sangue.
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