A Revolução no mundo moderno age de maneira silenciosa e sorrateira. Se antes nós víamos revolucionários pegando em armas e ostentando bandeiras com a foice-e-martelo, hoje estes mesmos revolucionários atuam nos gabinetes políticos, nas salas de aula e na Academia.O processo revolucionário se expande de forma pontual, conquistando fatias e impondo, em doses homeopáticas, um novo paradigma. O fim último é a descontrução, muito mais danosa do que a destruição, da mentalidade cristã do homem ocidental. Vejamos, por exemplo, a questão do aborto. Existem os dois naturais grupos; contra e a favor. O primeiro grupo pouco se interessa pelas discussões morais, já que para os seus membros a vida não começa na fecundação.
Entretanto, os contrários se dividem em dois subgrupos; os "radicalmente contra" e os "contra porém...". Esses últimos servem como exemplo da atuação da Revolução já que estão, de forma inconteste, infectados pelo espírito revolucionário. Os membros de tal ala já fizeram concessões morais que, pela razão, os transformaram em abortistas práticos. O que os difere dos promotores escancarados do aborto é que esses são, ao menos, honestos dentro da realidade em que se inserem.
Os "sou contra, porém..." vivem uma contradição tamanha; dizem que se opõem ao aborto assegurando que a vida começa desde a concepção, e portanto deve ser protegida, entretanto, quando lançam mão de falácias retóricas para defender a interrupção da gravidez em caso de anencefalia, estupro, contra-testemunham aquilo que, teoricamente, defendem. Seria, então, a vida do feto menos vida que a vida da mãe, dos irmãos? Isso é um eugenismo doentio, quando a "qualidade" do ser vivente é definido pelas suas características físicas e mentais. Agora me lembro daquela velha história da mãe que foi ao médico dizendo que queria abortar, que não aguentava ter mais filhos, aí o médico propôs que matasse o seu filho de cinco anos. A mãe, obviamente, se assustou, mas o que o médico estava ensinando era que a vida do seu filho no útero valia tanto quanto a do garoto que estava sentado com ela.
A Revolução soltou rojões de alegria quando do caso do estupro da menina em Pernambuco. Foi uma grande vitória para os arautos da cultura de morte. Boa parte da opinião pública se colocou contra Dom José, em defesa da legalidade do aborto, da sua coesão moral. O entristecedor foi perceber que brasileiros que pareciam lutar contra esse crime, que diziam assegurar que a vida começava na concepção, estavam, na prática, comungando do discurso abortista, afirmando que a vida no ventre da garotinha era menos vida que a nossa e, portanto, a interrupção da gravidez não seria configurada como morte, assassinato.
Assim, a Revolução conquistou uma fatia, angariou a simpatia de homens e mulheres que, no passado, repudiavam vigorosamente o aborto enquanto hoje já colocam um "porém..." no fim da frase.




