sábado, 7 de dezembro de 2013

Quando o Brasil se torna num grande Esquenta!

Eu não tenho o costume de analisar festas e eventos, mas hoje vou me passar por colunista da Caras. O sorteio das chaves da Copa do Mundo foi de uma peculiaridade singularíssima. Um evento marcado por todas as notas características da brasilidade-cariocarizada, aquela mesma que está nas ruas das novelas da Globo e que tem em Regina Casé, a pomba gira dos domingos, o seu avatar.

Eu não sei que país é aquele que foi apresentado. Parece que os seus habitantes são agentes de turismo. Ok, faz parte da propaganda a criação do cenário encantado para inglês ver, mas qualquer brasileiro que pega ônibus, anda de metrô e enfrenta engarrafamento sabe que a realidade é um pouco diferente do pacote vendido. Ademais, seria menos custoso para a organização do evento se ao invés de vídeos sobre as nossas “belezas naturais e culturais” tivesse escolhido reprisar o Esquenta: samba, gente feliz, bundas, crianças super dotadas e também rebolativas etc.

Vale destacar, além disso, que esse evento foi profundamente marcado por momentos de vergonha-alheia. Até tive que colocar no mute para diminuir o constrangimento. Claro que grande parte dessa experiência foi devido ao eloquente dom retórico da nossa Presidente. Eu realmente gostei quando ela disse que o Brasil vai receber a Copa como “um único ser”. Não sei se a Sra. Dilma está estudando metafísica, mas o fato é que aquela conversinha com o marido da Fernanda Lima – da próxima vez seria bom não concentrar toda a beleza e feminilidade numa mulher só. A Presidente agradece – foi um momento mui marcante.

Contudo, se algum gringo falasse que o Brasil é a terra do bunda-lê-lê, o Domingão do Faustão way of life, haveria até pronunciamento oficial do Chanceler e protestos em redes sociais. Entretanto, quando num evento transmitido para bilhões de pessoas o próprio Brasil escolhe se apresentar como se fosse um grande Rio de Janeiro – com um bairro chamado Salvador – habitado por uma “gente bronzeada” que dança axé e tem samba no pé todos, ou quase todos, se sentem dignamente representados. Onde está a verdadeira brasilidade e a verdadeira diversidade cultural?


Já passou da hora do Brasil escolher qual imagem quer passar mundo afora. Ou sua versão carnavalesca cariocarizada, aquela que é vendida pela Globo em sua programação, cheia de gente cheirosa sambando seminua ao som das baterias das escolas de samba, ou o Brasil profundo que é composto por brasileiros reais que realmente sabem se divertir, mas que são mais que bundas com um sorriso de photoshop.

3 comentários:

Flávia Jorlane disse...

Não podemos esquecer que a indumentária da modelo-mãe de família-pornosexy Fê Lima rendeu reprimendas no mundo árabe. Este Brasil é uma vergonha! Mas como cantam dois sertanejos acéfalos: se agora a mulherada já topa, imagina na Copa. Onde estão aquelas juízas e promotoras que sempre embargam esses versinhos nessa hora? Desse jeito teremos uma Codoma e Comorra!

César Guerra disse...

Pedro, se o Brasil não é o Rio, tampouco é o Rio com um bairro chamado Salvador. Sou de Campinas e morei 6 anos em Salvador. Tenho um carinho imenso por esse lugar e sua gente mas, sinceramente, se fôssemos vender o Brasil como Salvador, não seria muito melhor que vendê-lo como Rio. O Brasil real também não interessa a esses eventos. Questão difícil. Sobre as "reprimendas do mundo árabe", eles não têm moral para repreender ninguém.

Pedro Ravazzano disse...

Estimado César,

Releia o texto! Eu estou justamente criticando a redução do Brasil, a sua transformação num grande Rio de Janeiro, onde no máximo tem espaço para Salvador. O Brasil não é samba e axé.