quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O imamato no islamismo xiita

O xiismo é certamente a seita islâmica mais desconhecida e mal compreendida no mundo ocidental. Depois do advento da Revolução Islâmica no Irã, com a ascensão dos Ayatollahs ao poder, criou-se no imaginário popular, com grande suporte da mídia, a idéia de que o islamismo xiita é sinônimo de radicalismo. Tal raciocínio simplesmente ignora o fato de que, historicamente, o xiismo é a vertente mais mística do islã e devido aos eventos históricos também se transformou na seita mais próxima aos cristãos.

O islã xiita surge na convicção de que Muhammad deixou sucessores visíveis e responsáveis pela guarda e interpretação da Revelação. Os Imames, começando com Imam Ali ibn Abu Talib, descendentes do Profeta do Islã através de sua filha Fatimah Az-Zahra, são os luminares da religião, com a incumbência de reter a Tradição (Sunnah) e manter viva a mais profunda e mística noção do Corão.

A dimensão espiritual do Alcorão, que mais tarde o xiismo designará por “haqiqa” que por sua vez traduziria um dos sentidos do termo grego “essência”, é aquela que revela a verdade das coisas, esta especial sabedoria que não é de comum conhecimento. Se o texto sagrado não tivesse um sentido verdadeiro e fundante todos os preceitos da religião positiva, “al-Sharia”, não teriam consistência autêntica e se tornariam puro legalismo. Destarte, a religião positiva islâmica é o sentido exotérico (zahir) da essência (haqiqa) que, por sua vez, é o sentido esotérico (batin) do Corão. Há, pois, uma dialética entre o símbolo (mital) e o simbolizado (mamtul). Os xiitas, graças a esta perspectiva e mediante a primazia dado aos Imames na correta leitura dos dados da Revelação, admitem o desenvolvimento orgânico do aspecto legal da religião ao longo da história, ainda que o seu sentido verdadeiro seja permanente

“Todo versículo corânico tem quatro sentidos: exotérico (zahir), esotérico (batin), o limite (hadd) e o projeto divino (muttala). O exotérico para o sentido oral; o esotérico para a meditação interior; o limite são os princípios que estabelecem a licitude; o projeto divino é o que Deus propôs fazer em cada homem através de cada versículo”

Nesse hadith do Imam Ali ibn Abi Talib fica claro como o sentido verdadeiro do Corão converte os Imames em inspirados por Deus, ou seja, homens de Deus, conhecedores e iluminados, “Mantenedores do Livro” escolhidos pelo próprio Muhammad. Finalizada a profecia (al-nabuwwa) se inicia o imamato (al-walaya), que é o desenvolvimento esotérico da profecia. O Imam, portanto, torna-se no coração da religião que vive na história. O Imamato está intimamente associado com o sentido esotérico (batin) das palavras corânicas, o sentido que lança a luz sobre o Livro. Este “segredo” é justamente a walaya que se torna o constitutivo essencial do Imamato. Portanto, os doze Imames formam uma só luz e têm uma só essência verdadeira, compõem um só corpo de autoridade e sabedoria. Ademais, como epifanias da sabedoria divina, eles se identificam com os Nomes divinos. O Imamato é o que possibilita, assim, a continuidade profética sem a qual a humanidade perderia seu sentido religioso.

Talvez pareça que o xiismo, devido a esta clara estrutura gnóstica postule algum tipo de abolição do sentido literal do Corão e a negação da religião visível e positiva, da Sharia. Entretanto, a posição xiita é aquela que não entende que a religião deva se converter numa apanhado de dogmas e leis, de uma realidade normativa desprovida de essências verdadeiras e de sentido interior. Ainda que para a maioria dos homens as luzes do verdadeiro conhecimento estejam fechadas, faz parte da missão dos Imames e daquela minoria de iniciados manter viva a dialética entre zahir e batin.


Assim como a religião possui esse duplo aspecto, a realidade profética também a tem. O Imamato (walaya) é a dimensão esotérica da profecia eterna. Diz-se, pois, que a epifania das dimensões exotérica e esotérica correspondem respectivamente a Muhammad, Profeta do Islã, e a Ali ibn Abu Talib, Primeiro Imam. Ademais, os “amigos de Deus”, os Imames, não teriam comunicação divina direta (al-wahi), mas sim inspiração (ilham) mediante o desvelamento místico (al-kasf).  Utilizando uma construção já mais pendente para o xiismo ismaelita, se diz que o Imam histórico é ao mesmo tempo o espelho e o reflexo do Eterno Imam, a Palavra (Kalimah). Um espelho não possui nada e é pobre ante o objeto que reflete. O Imam histórico - como o espelho - é o mais humilde servo de Deus (Abdull\h), o amigo de Deus (waliyyullah) e Vice-gerente de Deus (khalifatullah) entre a humanidade.

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