terça-feira, 12 de maio de 2009

A Dialética das Raças

Pedro Ravazzano
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O nazismo é criminalizado no Brasil, mas por aqui triunfa uma análise sociológica genuinamente nacional-socialista; o polilogismo racial. Os nazistas, influenciados pelo polilogismo de classes dos marxistas, afirmavam que um não-ariano era condicionado, na sua essência, à produção de opressão e alienação, ou seja, o destino era determinado desde a infância, simplesmente pela “cor de pele”. Dentro da análise nazista não havia espaço para um política social; não importava se o judeu era rico ou pobre, se o eslavo era da elite alemã ou um miserável coitado do subúrbio de Berlim, qualquer raça ou cultura que não fosse “legitimamente” alemã trazia consigo a semente da dominação e da opressão – tinha que ser combatida.

No Brasil essa é a mentalidade difundida pelos movimentos e ONGs que discursam em defesa de cotas raciais – seguem piedosamente os ensinamentos de Stálin, que dizia que todos os conflitos de raça deveriam ser transformados em luta de classes. Obviamente, para qualquer pessoa sensata, o problema brasileiro é social em sua origem; 42% da população se diz parda, enquanto 7% se diz negra. Os populistas líderes “afro-brasileiros” acreditam que falam por uma comunidade preta, entretanto, vale frisar, essa identidade racial inexiste no país, e é isso que significa o fato da maioria da nação se considerar mestiça. Não obstante, chega a ser caricato ouvir militantes da causa negra construindo uma idéia de “povo negro” quando o dito “povo negro” sequer se entende como um povo distinto de todo a brasilidade e sequer elegeu seus porta-vozes raciais. Desse modo, hoje podemos refletir o questionamento lançado por Gilberto Freyre, ilustre sociólogo brasileiro: “A raça estará, então - raça, não no seu sentido justo mas como aquela super-realidade exaltada de modo mítico e místico pelos nazistas como a força física e mental com específica missão política e cultural - tomando o lugar de classe, como fator na política contemporânea?”

O cerne da argumentação do tais líderes raciais é que as políticas de afirmação negra surgem para reparar anos de escravidão. Pois bem, vamos relevar o fato de que a sociedade atual, com toda a sua complexidade, é totalmente diferente daquela do séc. XIX, o que eles pretendem é retomar uma percepção racial para dizer que o branco, no Brasil, representa o português escravista e que o negro brasileiro representa o africano escravizado. Primeiramente, é importante lembrar, ao longo da história nunca houve sucesso quando da adoção de parâmetros raciais por parte do Estado, seja quando o Estado nazista instaurou os campos de concentração, quando o Estado Sul-africano criou o apartheid ou quando o Estado americano estipulou a segregação e, posteriormente, obrigou a união forçada. O interessante do discurso dos populistas negros é que eles partem de um entendimento extremamente obtuso; a escravidão não foi construída sobre uma identidade racial, não havia a dicotomia de brancos X negros. Ora, os portugueses sequer capturavam os africanos, quase sempre compravam os escravos nas mãos dos grandes reinos e cidades negras que já nutriam uma cultura escravista. No próprio Brasil pré-abolicionista ex-escravos e mulatos tinham os seus escravos. Quem foi o maior traficante de escravos da nossa história? Francisco Félix de Sousa, um mulato que fez enorme fortuna, tornou-se extremamente poderoso e acabou morrendo em Uidá, no Benim, com o título de Chachá – possivelmente uma corruptela do seu próprio apelido – dado pelo Rei de Daomé. Hoje seus familiares africanos ainda gozam de prestígio político e cultural.

Existe uma crucial necessidade, por parte dos tresloucados líderes negros, de transformar a história brasileira numa história de raças. Obviamente, a maior facilidade de entendimento do processo dialético da luta de classes dentro de uma realidade dicotômica incentiva a deformação do conteúdo histórico do Brasil. Vamos supor que esse absurdo, esse pecado mortal intelectual, tem alguma validade, as tais políticas reparatórias iriam reparar o que? O negro que fenotipicamente parece descender do africano escravizado? Mas se esse jovem negro descende não de um negro escravizado, mas de um negro escravizador? E se, por acaso, o jovem branco carrega genotipicamente uma herança africana? Já que o modelo imposto parte da necessidade de uma reparação histórica, os beneficiados são os que descendem diretamente dos escravos, mas como saber quem são esses senão por uma profunda pesquisa historiográfica, documental e até genética? Afinal, se o jovem de pele clara carrega os genes do africano do Sudão escravizado ele tem os mesmo direitos do jovem de pele escura que, visivelmente, descende de negros – que não necessariamente eram escravos, vale frisar. Vamos deixar mais claro; os líderes dos movimentos e ONGs pretas afirmam, categoricamente, que as cotas, por exemplo, são justas por resgatarem a dignidade do negro em séculos de escravidão. Tudo bem! Agora vejamos, se o centro da discussão é a escravidão, de fato, apenas através de uma pesquisa profunda podemos reconhecer os herdeiros dos escravos do passado, e aqui, obviamente, serão colocados brancos e negros fenotipicamente. Se tal análise não é feita, a identidade negra escravizada é definida simplesmente por um concílio racial, embebido em ideologia, que constata a origem histórica da “raça” unicamente pelo tom de pele – pobre Mendel!

Claro que tais pesquisas não são feitas! Os chefes de ONGs e os caciques dos movimentos políticos estão pouco se importando se o jovem branco é geneticamente filho de um escravo do Golfo da Guiné ou se o jovem negro é geneticamente herdeiro de um senhor de escravos. A desonestidade aparece em dois pontos; primeiro quando criam uma falácia racial num país que não se identifica por etnias, é só perceber que nas grandes pesquisas a grande maioria dos brasileiros se diz parda. E, em segundo lugar, e não menos importante, se encontra esse absurdo de reparação; além de desconheceram a genética os hipócritas da raça criam uma nova história; os brancos de hoje são descendentes dos brancos do passado e os negros de hoje são descendentes dos negros do passado, além disso acreditam piamente – ou parecem acreditar – que predestinadamente os brancos do passado eram opressores e os negros do passado eram oprimidos. Querem “dar por implícito que todo branco é culpado pelos atos dos senhores de escravos, mesmo quando não tenha um só deles entre os seus antepassados e mesmo que tenha chegado ao Brasil, como imigrante, décadas depois do fim da escravidão.”(CARVALHO, Olavo de). Haja polilogismo, haja dialética – e Marx era racista, vamo que vamo!

Essa criação do mito da raça no Brasil, ainda mais quando pretendem que na mesma escola pública filhos de pais pobres sejam divididos entre negros e brancos, irá favorecer a consolidação do mais genuíno racismo. O Estado entrará nas escolas públicas e afirmará que os jovens de tez clara são descendentes de portugueses senhores de escravos e, por isso, não terão direitos às cotas, enquanto os seus colegas negros, por serem descendentes de africanos escravizados, gozarão de benefícios na entrada na Universidade. Detalhe a ser frisado, o jovem branco e o jovem negro não apenas dividem a mesma classe, mas o mesmo bairro e a mesma renda. Maldita história!

Um ponto que merece ser frisado; o Brasil se encontra no grupo dos poucos países que nunca aprovaram leis raciais, que nunca identificaram a cidadania com a etnia e a cor de pele. Esse fato é tão característico que a interferência do Estado na própria noção de raça, além de um grande contra-senso, se opõe ao processo de desenvolvimento do país. A nossa nação realmente não é racista, claro que com isso não quero dizer que ninguém tenha atitudes e pensamentos racistas, mas que inexiste uma estruturada rede discriminatória, com partidos, facções, ações populares etc, como em outras lugares do mundo. É fato que a instituição do papel social de brancos e negros é favorecida quando já existe uma dicotomia natural ou, então, quando já houve, na história nacional, um cultura de segregação pensada. Destarte, o estrago feito pelos líderes negros tem muito mais mérito, sejamos sinceros; eles conseguiram transformar – ou pretendem transformar – uma nação de pardos numa nação de brancos e negros. Claro que essa mudança de paradigma é feita com uma complexa e planejada tática a la terra arrasada; eles não deixam nada de pé. Qualquer um é acusado de racista, ultrapassado, opressor, desse modo instituem o patrulhamento ideológico - aquele mesmo, o do velho e embalsamado Lênin - que atinge desde as Universidades Federais até o Senado Federal. Tudo é muito bem financiado por grandes Fundações, como a Ford, que entra com milhões e milhões de dólares. A construção de uma identidade racial consolida um grupo político que se forma sobre essa comunidade que, a partir de então, se pensa de forma coesa e com interesses comuns. Os “novos líderes políticos na Ásia, África, América, (..) [demonstram] atualmente certa tendência, não para pôr a Raça a serviço de uma ideologia de Classe rígida, com ênfase total numa guerra de Classes, mas para por uma ideologia de Classe a serviço de uma mística racial revolucionária” (FREYRE, Gilberto)

Como bem frisou o sociólogo Demétrio Magnoli, as elites – negras e brancas – estão fora dessa realidade, elas têm renda para financiar uma educação internacional aos seus filhos. Essas políticas de cotas atingem a classe média e a classe pobre, aquelas que usam as Universidades e escolas públicas. A questão que não é levada em conta é a essência das leis. Pouco importa se na África do Sul o Estado definiu raças para segregar ou que no Brasil atual o Estado legisle sobre a cor de pele para agregar, as duas formas trazem intrinsecamente a idéia de uma “fronteira natural” entre negros e brancos e “Na hora em que os filhos dos trabalhadores não puderem mais olhar uns aos outros como irmãos e colegas, terá emergido um Brasil diferente daquele que conhecemos.”(MAGNOLI, Demetrio)

A América é um continente que, tirando os indígenas, foi construído por povos imigrantes; europeus e africanos. Entretanto, o grande diferencial, é que os fenotipicamente euro-descendentes não mais cantam saudades do Velho Continente, apenas mantém certos costumes culturais enquanto se identificam como brasileiros. Por outro lado, os tais “afro-brasileiros” choram a África e criam diversos entraves para a integração cultural no país. Hoje, qualquer um que experimente criticar alguma faceta da cultura africana - que não existe com essa unidade “africana” como pretendem certos líderes negros - será taxado de racista, no mínimo. Essa relação intrínseca que fazem entre raça e sociedade parte de uma identificação inseparável entre o homem e a cultura étnica, desse modo, cada raça tem um cultura específica, cada indivíduo, enquanto membro de uma raça, passa a ser destinado a viver atrelado ao arcabouço cultural da sua etnia. Esse estúpido determinismo é o tipico retrocesso sociológico que deságua no totalitarismo; um negro não pode personificar a cultura francesa, um judeu não pode representar a nação alemã, um polonês não pode encarnar o espírito americano?

Os movimentos negros têm conseguido transformar a questão racial em mais um tema da cartilha politicamente correta. Além disso, os seus militantes já se instalaram no poder, inclusive mantendo uma secretária federal só para tratar da temática. O triste dessa história é que o triunfo da ótica das raças estabelece uma sociedade que se enxerga por meio da cor de pele. Claro que existem brasileiros racistas, mas o país, como um todo, nas suas bases civilizacionais, jamais nutriu sentimentos discriminatórios organizados. Entretanto, com a ascensão do discurso vitimista, anti-histórico, hipócrita e simplório das causas raciais haverá, ao mesmo tempo, a transformação de uma sociedade mestiça numa sociedade bicolor – negros e brancos – mesmo quando sempre foi estranho ao povo brasileiro o sectarismo étnico. Hoje em dia a questão racial, com as tais “políticas públicas”, é discutida diariamente, além disso ganha força e poder dentro do sistema governamental. Agora mesmo o Senado já se prepara para votar a lei de cotas raciais nas universidades e escolas técnicas federais. Se aprovada será a primeira lei racial de segregação, com brancos e pretos separados pelo Direito.

O Brasil pode se tornar o primeiro país do mundo a realizar uma centrifugação racial, transformado uma nação de pardos na nação dos pretos e dos brancos, duas cores separadas pelo sentido da existência – os primeiros seriam oprimidos em essência e os segundos opressores em essência – e segregados pela legislação estatal. O movimento negro tenta fazer triunfar os seus paradigmas infantis de sociedade, partindo de um princípio determinista e polilógico que, em nada, se distancia das conclusões nazistas. Dessa modo, sobre essa base, constroem um discurso de vitimização e patrulhamento ideológico-racial, transformado um problema social em racial a partir do momento em que pensam que pretos são pobres porque brancos são burgueses. A balela de reparação histórica não faria sentido em nenhum país sério, mas por aqui não só é louvada como já se tornou ponto pacífico em qualquer discussão sociológica. Sendo sincero, eu vou achar engraçado quando daqui a dez ou vinte anos esses coitados do movimento negro estiverem protestando em oposição aos grupos realmente racistas, de identidade branca, engajados na luta contra a presença preta em seus bairros e escolas. Realmente, quem pariu Mateus que balance, quem criou as raças que agüente o racismo.

6 comentários:

Luciana Lachance disse...

Muito bom!

Vá se preparando para Letras... você vai ouvir muito de racismo e reparação nas matérias de Língua Portuguesa.

Semana passada, após a leitura de um texto, a professora concluiu que "isso prova a necessidade de reparação histórica" e por isso precisamos de cotas.


Vai ser duro...

Zadig disse...

Então além de "conservadores" nutrem também um apreço pelo autoritarismo? Digo, por exemplo: os comentários sobre o texto discorrido são examinados previamente para que você (ou vocês) aprovem previamente antes de poder ser postado, ou seja, é uma censura? São ditadores que não aceitam as críticas? Seria pelo receio de ter suas idéias refutadas ou, por outro lado, seria por consciência mesmo de que discursam com referencias teóricos e ideológicos obsoletos?
Acredito que ficaria bem interessamte se postasses isso que acabo de descrever e quiçá eu pudesse retornar para que o debate fique mais interessante tanto para mim quanto para você(s).
Espero poder retornar ao blog de vocês e constatar que as discussões tenham um caráter acadêmico e não mais com censuras, certo? Sejam éticos. Não sejam retrógrados (mais ainda). Os tempos são outros: "nada será como antes".

Adilson Boson disse...

O "Zadig" já tinha tido algum comentário censurado?

Bom, se o comentário for dentro do respeitável, acho que deve passar mesmo.

Se não, como costuma dizer o Reinaldo Azevedo no seu blog, que também tem os comentários "filtrados":

depois eu procuro a fase...

Zadig disse...

Acho que o problema está justamente no que vocês considerarão como sendo "respeitável".
Ter idéias debatidas, criticadas e refutadas seria um desrespeito?
Acho que não...concordam?

PECA disse...

realmente eu nao sei, engrcado que ao se referir aos negros como cor eles sao mesticos, e para se referir aos brancos estes sao brancos de verdade... esse texto é daquele tipo que voce ler e depois fala, meu deus perdi tempo lendo essa merda, que so trata das coisas superficialmente sem adentrar mais fundo na analise dos fatos expostos por ele mesmo, tenha paciencia esse texto foi feito para pessoas sem instrucao ler, que vao ser convencidas por essas fragéis evidencias sem nenhum rigor... o texto é tao fraco que parece que o autor aprendeu ou conheceu a palavra polilogismo logo antes de escrever o texto pois ela e seus derivados aparece mais de 5 vezes kkkkkk tenha santa paciencia ..T+ viu.. se quem esceveu isso for de ciencias coitado de Webber esses nao aprenderam de que nao a ciencia sem rigor conceituall kkkkkkkkk

Francisco Luis disse...

Primeiro, parabéns pelo texto Pedro, ficou muito bom.
Segundo, não falarei das idéias porque estão dentro do que concordo também.
Terceiro, os comentários de pessoas que não concordem são bem vindos, mas não nesse nível. Se for para debater idéias, tenho certeza que até eu entrarei, mas para escrever mal e falar, digamos, baboseiras, eu passo.