quarta-feira, 20 de maio de 2009

Perguntas que permanecem

"Eu descobri que mesmo entre aqueles que não vão para a Catedral de Notre Dame, mesmo entre aqueles que não partilham a fé católica, existe uma expectativa, uma esperança, do que Notre Dame pode realizar no mundo. (Reverendo John Jenkins, C.S.C., 17 de maio de 2009)"

Por D. Charles Chaput, Arcebispo de Denver

Tradução de Pedro Ravazzano

A maioria dos discursos de formatura são uma mistura de piedade e de otimismo concebidos para facilitar os problemas dos alunos na vida real. Os melhores têm humor, alguns são genuinamente inspiradores, mas só uns poucos conseguem ser piedosos, otimistas, evasivos, tristes e atingindo a todos ao mesmo tempo. Padre John Jenkins, CSC, o presidente (reitor) de Notre Dame, é um homem de grande inteligência e habilidade. Isto torna o seu comentário introdutório ao discurso do Presidente Obama, no dia 17 de maio, mais embaraçoso.

Vamos lembrar que o debate sobre a visita do presidente Obama à Notre Dame não foi sobre se ele era um homem bom ou mau. O presidente é claramente um homem sincero e capaz. Em suas próprias palavras, a religião tem tido uma influência importante na sua vida. Devemos a ele o respeito que a Escritura nos pede a ter a todas as autoridades. Temos o dever de rezar para que ele tenha sabedoria e para o sucesso do seu serviço para o bem comum – na medida em que isso é guiado pelo correto raciocínio moral.

Temos também o dever de nos opor quando a autoridade se encontra errada sobre questões fundamentais como o aborto, pesquisas com células-tronco embrionárias e assuntos similares. Do mesmo modo, também temos o dever de evitar a prostituição da nossa identidade católica por conta dos apelos ao falso diálogo que mascara uma abdicação do nosso testemunho moral. A Universidade Notre Dame não apenas convidou o presidente para proferir um discurso, mas também conferiu um desnecessário e imerecido grau honorífico a um homem comprometido na defesa de uma das piores decisões da Suprema Corte na história da nossa nação: Roe v. Wade.

Ao convidar o presidente, a Universidade Notre Dame ignorou a orientação da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos na declaração Os Católicos na Vida Política, de 2004. Ainda ignorou as preocupações da embaixadora Mary Ann Glendon – indicada para a medalha Laetare da Universidade de Notre Dame em 2009 –, que, diferentemente do presidente, certamente merecia o prêmio, mas o recusou por conta da frustração pela ação da Universidade. A instituição ignorou os apelos do bispo local, do presidente da Conferência Episcopal, de mais de 70 outros bispos e de muitos milhares de alunos de Notre Dame e de centenas de milhares de outros americanos católicos. Mesmo aqui, no Colorado, tenho ouvido tantos apelos que nem posso contar.

Não havia nenhuma desculpa – nenhuma, excepto vaidade intelectual – para a universidade persistir em seu curso. Padre Jenkins agravou uma má decisão inicial com evasivas e dissimuladas explicações para justificá-la posteriormente.

Estas são palavras duras, mas são merecidas, precisamente por causa dos próprios comentários do Padre Jenkins em 17 de maio: até agora, os americanos tinham, realmente, “uma especial expectativa, uma especial esperança sobre o que a Notre Dame pode realizar no mundo.” Para muitos fiéis católicos – e não apenas um “pequeno, mas barulhento grupo”, descrito com tal indesculpável desdém e ignorância em revistas como Time – que mudaram domingo.

Os eventos de 17 de maio têm uma certa ironia, apesar de tudo. Quase exatamente 25 anos atrás, Notre Dame ofereceu o fórum para o governador Mario Cuomo delinear o “católico” caso de serviço público “pró-escolha”. Na época, o discurso de Cuomo foi aclamado na mídia como uma obra-prima do raciocínio católico legal e moral. Do mesmo modo é, claramente, um ilógico e intelectualmente miserável exercício da fabricação de desculpas. As explicações de padre Jenkins e a homenagem ao Presidente são um adequado encerramento em cadeia nacional para um quarto de século do amolecimento do testemunho católico no ensino superior católico. Juntos, eles deram à próxima geração de líderes católicos todas as desculpas de que eles precisam para “batizar” suas conveniências pessoais e ignorar o que é realmente necessário para ser católico na vida pública.

O cardeal-arcebispo de Chicago, Francis George, tem sugerido que Notre Dame “não entendia” o que significava ser católica antes destes acontecimentos começarem. Ele está correto, e Notre Dame se encontra praticamente sozinha nessa sua confusão institucional. Esse é o cerne da questão. A liderança de Notre Dame tem feito um verdadeiro desserviço à Igreja, e agora tenta superar as críticas, tratando-a como uma expressão de raiva. Mas o dano permanece, e os críticos de Notre Dame têm razão. A coisa mais importante que os fiéis católicos podem fazer agora é insistir – com as suas palavras, ações e apoio financeiro – para que as instituições que afirmam ser “católicas” realmente vivam a fé com coragem e coerência. Se isso acontecer, a falha de Notre Dame pode causar alguns involuntários bens.

2 comentários:

Fabrício Oliveira Soares disse...

Os americanos estão vendo quem Obama é, espero que os brasileiros também vejam - difícil, nós não somos donos da Folha... Espero que logo a internet possa ter no Brasil a importância que OdeC conta que ela passou a ter nos EUA. Agora, como o absurdo se manifesta em camadas, vemos como até essa reclamação do Arcebispo é lastimavelmente respeitosa em relação a Obama; o reitor é extremamente imbecil e cretino, mas inclusive o D. Chaput compartilha em certo grau da alienação obâmica nos EUA.
Triste...

Pedro Ravazzano disse...

Fabrício,

D. Charles é um Arcebispo, Obama é um Presidente. Não queira que um Sucessor dos Apóstolos trate o líder máximo da nação com o mesmo vocabulário que Olavo de Carvalho, por exemplo, usa. Achei tua afirmação extremamente leviana, até porque, no artigo, D. Charles faz um ataque direto ao Reitor Pe. Jenkins. O cerne da discussão não é Barack Obama - ele é abortista e liberal, todos sabem - mas sim o fato de uma Universidade Católica não só tê-lo convidado como honrá-lo com um título que não não merece.