quarta-feira, 6 de maio de 2009

O Esquerdista Inexistente

1. Introdução

Uma das patalogias mais graves que já assolaram este pobre mundo chama-se "síndrome do esquerdista inexistente". Atinge a quase totalidade dos estudantes universitários mas pode se manifestar, nas suas primeiras fases, em jovens impúberes. O locus em que tal moléstia surge varia imensamente mas está, de resto, associada a alguma forma de transmissão de conhecimento institucionalizada. Ou seja, escolas, institutos, universidades, instituições de ensino em geral, são lugares privilegiados de contágio.

Foi por mim batizada de "síndrome" a referida doença por guardar com estas semelhanças notáveis no que diz a sintomatologia, embora não se enquadre de forma estrita na definição clínica. Foi notada pela primeira vez na escola primária, quando uma professora de História, cujo nome me absterei de citar, inadvertidamente me forneceu o material ideal para sua diagnose na forma de uma aula. Aula esta em que a doença se manifestou com viva intensidade nos jovens, sob os estímulos da sábia universitária que, por sua vez, contraíra a mesma doença quando havia lustrado os bancos do saber no ambiente algo tenebroso da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de São Lázaro - um dos focos endêmicos da moléstia, em nosso Estado.

A guisa de introdução, diremos por fim que a tal doença, para cujo tratamento nunca se receitou qualquer remédio e cujo nome nunca foi inscrito na lista da OMS, acomete jovens aparentemente saudáveis, inteligentes e até instruídos. Não há um grupo de risco determinado. Mas, e isto veremos adiante, uma certa formação moral e educativa favorecem sua emergência contribuindo também para disseminá-la entre aqueles que tiveram contato com os doentes.

2. Descrição

Esta doença não diagnosticada furta-se a todas os tratamentos terapêuticos conhecidos; por ela passaram os nomes mais célebres na medicina nacional sem ver-lhes os sintomas. Obscura e impenetrável, a referida patologia permanece além da nossa capacidade de compreensão e cura. Permanece, não. Mudemos o tempo do verbo, pois nova aurora da ciência se anuncia. Permanecia, diremos agora, além da nossa capacidade, antes do golpe de gênio que me fez intuir a gravidade e as características de tal síndrome.

Dito isto, faço-vos uma anunciação solene neste blog.

Anuncio finalmente a constatação da "síndrome do esquerdista inexistente" dentro dos rigores do método científico, após anos de pesquisa. Duras e custosas foram estas pesquisas. Realizadas em condições adversas, quase fiz-me nova vítima sua por não saber, à época em que a identifiquei, defender-me contra seu contágio deletério. Minha constituição naturalmente forte me salvou de ter sucumbido a ela. Agradeço a Deus por isso. Amém

Na terceira parte do presente estudo, fornecer-lhes-ei os métodos inventados por mim para conter a doença e, circunscrita em limites bem demarcados, eliminá-la para sempre. Todas estas benesses totalmente de grátis! Com tal gesto de nobreza inaudita me elevo ao status de Herói da Humanidade. Agradeço desde já os louros sobre minha augusta cabeça. Mas vamos logo entrar no mérito da coisa.

A "síndrome do esquerdista inexistente" é uma doença singular. De ordem psíquica, ela se manifesta em condições muito especiais. Se um jovem durante sua vida escolar recebeu a educação uniforme ministrada nas escolas e jamais duvidou da direção que lhe apontavam na formação do seu "pensamento crítico"; se vendo a imagem dos EUA ele sintiu vontade de juntar-se a Al Qaeda ou, numa versão mais soft, a endossar as vituperações anti-americanistas de Michael Moore; se ele identificou desde a mais tenra idade os interesses maliciosos e manipulatórios da Igreja Católica; se ele enxergou, com sutileza de raciocínio ímpar, a máquina de opressão burguesa - então este jovem terá altíssimas chances de ser portador da síndrome.

A síndrome provoca um deslocamento da perspectiva do doente a respeito da sua própria realidade e da realidade que o circunda. Esta descrição decerto é compartilhada por muitas doenças psíquicas. Entretanto, a nota específica que a diferencia de outras doenças é o fato de que nela o deslocamento acontece no plano da identificação da ideologia alheia e apenas da ideologia, especialmente da ideologia daqueles não o cercam de perto, mas cuja referência nas opiniões do paciente vem entremeada de críticas claramente direcionadas ao exagero, ao excesso, a superabundância de conservadorismo, de direitisto, de reacionarismo - três ismos temíveis, figurações demoníacas nos delírios do doente.

Assim, mesmo em um congresso do PSTU, com faixas escritas "Abaixo a Propriedade Privada"; mesmo numa ocasião em que se invoque a memória de Mao; mesmo quando se mencione em um recinto, entre meneios de cabeça dos presentes sinalizando aprovação entusiasta, a genial estratégia política do autor de "Que Fazer?" - o acometido pela grave moléstia se considerará um dos poucos, senão o único ali a ser realmente esquerdista.

De fato, para o pobre coitado os esquerdistas autênticos (e entram aí mil distinções herméticas para determinar quem é autenticamente esquerdista) são raríssimos. Últimas e gloriosas espécies de pessoas esclarecidas. Buscar um esquerdista na universidade é algo como brincar de "Onde está o Wally?"*. Eles não existem, ou quando existem, são oprimidos pelo cruel mecanismo burguês de manipulação para que lhes seja cerceado o direito a se manifestarem e deste modo possa prosperar o discurso único da direita, dominante e onipotente, do alto de sua superioridade econômica esmagadora. Imbuído destas crenças que lhe são mais doces do que o suco de Marlene**, o jovem doente olha, para os de fora do grupo de oprimidos esquerdistas, com a condescendência de um iluminado que tenha alcançado enfim o entedimento do modo como opera o mecanismo de manipulação capitalista.

Todavia, e isto é sintomático, a quase totalidade dos universitários julga-se livre de manipulação e assume o papel - se não de esquerdista confesso e orgulhoso da sua condição - de centrista supostamente equidistante dos termos e moderado nos discursos. E os alienados tampouco são de direita em verdade, embora o sejam na mente torta do doente. São apolíticos por inércia e flutuarão de acordo com a maré - a menina que dança fank e nunca leu Foucault, o rapaz que não se interessa pelas lutas em prol das plantinhas, dos pretos, dos pobres, dos gays, do aborto... Jamais se ouvirá dentre eles alguém proclamar-se, em alto e bom som, liberal clássico ou conservador. E, nunca, nem sob tortura chinesa (as gotinhas, as gotinhas...), reacionário - talvez o pior xingamento do vocabulário politicamente correto.

Outro dia continuarei. A ocasião é solene, bem sei, mas estou com preguiça.

Até.

* Nas edições russas do jogo ele aparece como espião soviético nos EUA, de maneira que a URSS soube explicar com certa coerência o porque da extravagante furtividade do personagem. Fora isto - e, é claro, a camisa vermelha - não há outras diferenças entre as edições ocidentais e comunistas de "Onde está Wally?"

** Para quem não sabe é o suco servido na barraca da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de São Lázaro, único lugar, aliás, a prosperar ali.

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