sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Alta Igreja e o Luteranismo


Pedro Ravazzano

O movimento da Alta Igreja (High Church) não é uma exclusividade anglicana. Claro que na Igreja da Inglaterra as diferenças entre as “alturas” são bem estruturadas, com definições próprias e concepções distintas; existe, de fato, uma identidade High Church (Alta Igreja) e uma identidade Low Church (Baixa Igreja), não apenas maneiras particulares de enxergar a fé, mas formas opostas, e até contraditórias, de viver a religião. A Igreja Luterana também desenvolveu as mesmas polaridades, ou seja, o amadurecimento de grupos organizados que defendem e enfatizam a necessidade e relevância de práticas devocionais e conhecimentos doutrinários rechaçados quando da invasão do pietismo e do racionalismo no luteranismo. Desse modo, se aproximam da ala anglo-católica.

A Igreja Luterana tem uma unidade muito mais acentuada que a Comunhão Anglicana, vários fatores influenciam, mas destaco o fato de ter nascido com um novo paradigma doutrinário, essencialmente vinculada a uma forma de entender a fé. A Igreja da Inglaterra, diferentemente, sabia que era reformada mas não sabia o que significava aderir à Reforma. Desse modo era campo aberto para a influência da teologia calvinista, luterana e até mesmo católica – afinal muitos Bispos só entendiam o rompimento do Reino britânico com Roma como uma aversão ao papado e não, necessariamente, à doutrina romana. Por isso, através dessa falta de produção de uma teologia anglicana própria ou, ao menos, sem uma definição clara dos propósitos reformistas na Inglaterra, o nascente anglicanismo tornou-se um ambiente propício ao desenvolvimento de concepções distintas de entender o ethos (natureza característica) reformado. A unidade – ou menos heterogeneidade – do luteranismo se deve à forte centralização doutrinária ao redor do Livro de Concórdia que contém a essência da profissão de fé luterana. Os documentos reunidos no Livro são: o Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano, a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, os Artigos de Esmalcalde, o Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa, o Catecismo Menor e o Catecismo Maior de Lutero e a Fórmula de Concórdia. Os dois primeiros credos foram escritos por Padres da Igreja, reunidos em Concílio, para manter imaculada a sã doutrina que vinha sendo atacada pela heresia. O terceiro credo foi escrito por Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria (para mais informações a respeito SUGIRO VISITAR O LINK: http://www.veritatis.com.br/article/5536/simbolo-atanasiano-quicumque) – o mais irônico de tudo isso é que os Santos Padres reconheciam a Unidade da Igreja, a legitimidade e origem divina da Tradição, além de acatarem a devoção aos santos, a adoração de Jesus-Hóstia etc. Os Catecismos e os Artigos de Esmalcalde vieram da pena de Lutero; servem para aprofundar e fundamentar a fé cristã luterana. Os outros escritos são de Filipe Melâncton, a não ser a Fórmula de Concórdia, redigida por um apanhado de teólogos luteranos. A nascente Igreja Luterana, então, se enxergava como legitimamente católica e não, necessariamente, protestante – “Somos tanto evangélicos quanto católicos, ao ponto de muitos luteranos chamarem-se de "evangélicos católicos". De fato, o assunto básico da Confissão de Augsburgo é que o real católico é luterano! Mas acima de tudo, não somos protestantes.”, disse no seu artigo “Luteranos não são protestantes” Dare. E. Paul

Assim definiu a Igreja Luterana – Sínodo de Missouri:
Se, no entanto (como é frequentemente o caso hoje em dia), o termo "protestantismo" é vagamente e simplesmente associado a diversas visões teológicas Reformadas, Anabatistas ou “Fundamentalistas”, muitas das quais não correspondem ao que os luteranos acreditam e ensinam, então, obviamente, o termo não seria apropriado ou corretamente aplicado aos luteranos.
O que deve ser levado em conta é que com a forte expansão da teologia calvinista – que foi amplamente usada por grande parte das denominações reformadas – essa, inevitavelmente, se chocou com o luteranismo no sul da Alemanha. Os calvinistas tinham uma posição muito mais radical em relação à condenação da Tradição, da Presença Real (do corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo nas espécies eucarísticas pão e vinho consagrados), da manutenção de tradições de devoção e adoração Os luteranos, por sua vez, mesmo defendendo a Sola Scriptura, levavam em conta, ao menos na nascente igreja, a relevância do desenvolvimento doutrinário ao longo dos tempos, daí que aceitassem algumas heranças católicas. Desse modo, os adeptos de Calvino diziam que a Igreja Luterana deveria se livrar desse ranço papal que ainda persistia nas suas fileiras.

Lutero já havia tido uma controvérsia com os Sacramentários, ou seja, os adeptos das teorias de Zwinglio e Ecolampádio que negavam não só a Transubstanciação defendida pela Igreja Católica como a União Sacramental defendida pela Igreja Luterana:
"Cremos, ensinamos e confessamos que o corpo e o sangue de Cristo são recebidos, em virtude da união sacramental, com o pão e o vinho não só espiritualmente, pela fé, mas também oralmente, não, porém, de modo cafarnaítico, mas de maneira sobrenatural, celeste" (FC, Epítorne VII, 15)
Além desses conflitos desde o nascimento do luteranismo, outras problemáticas teológicas se estruturaram desde os primórdios do desenvolvimento doutrinário do pensamento luterano. Depois da morte de Lutero, seu principal amigo, Felipe Melâncton, tornou-se o grande líder da teologia nascente. Entretanto, talvez devido a sua flexibilidade em busca da unidade com outras confissões reformadas, fez concessões que foram vistas como conseqüências do seu cripto-calvinismo: rejeitou a doutrina da ubiqüidade e fez mudanças no ensino de questões como o livre-arbítrio, predestinação e a ceia do Senhor, se distanciando da ortodoxia luterana – partindo da premissa de que a ortodoxia se encontra em Lutero. Vejamos a edição da Confissão de Augsburgo, preparada por Felipe Melâncton, de 1530:
Da ceia do Senhor ensinam que o corpo e sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes e são distribuídos aos que comungam na ceia do Senhor. E desaprovam os que ensinam de maneira diferente.
Na edição Variata, de 1540, já dizia:
Da ceia do Senhor ensinam que com o pão e o vinho estão verdadeiramente expostos o sangue e o corpo de Cristo aos que comungam na ceia do Senhor.
A reformulação é muito clara, há uma diferença essencial na forma de enxergar a Presença Real de Cristo na Ceia. Se a concepção luterana já era imperfeita, depois dessas mudanças adotadas por Melâncton ela se distanciava ainda mais da ortodoxia tradicional, ou seja, ficava mais longe dos ensinamentos cristãos que chegavam até nós por meio da Escritura e da Tradição, sendo corados com os belos e profundos escritos dos Padres da Igreja. Por meio dessa atenuação dos ensinamentos luteranos dois grandes grupos se formaram dentro da igreja; os filipistas, adeptos das novidades de Melâncton, e os gnesioluteranos, que se diziam fiéis aos ensinamentos do Reformador. O foco do nosso artigo não é a controvérsia dentro do luteranismo nascente, por isso vamos nos distanciar dessa abordagem.

Se a Igreja Luterana já trazia essa polaridade, mesmo que não explicita, no séc. XVII a presença calvinista se fortaleceu através da expansão do pietismo. Esse se caracterizava por se opor ao cristianismo teológico, defendia a praticidade cristã, uma fé bastante individualizada, onde a estrutura hierárquica era totalmente descartada ou, ao menos, subvalorizada. A forte defesa da práxis religiosa tornava o pietismo deveras empobrecido o que, somada a sua destacada oposição à disputa teológica, fazia dele a porta de entrada do pentecostalismo. Desse modo, por meio do triunfo do espírito pietista e racionalista dentro do luteranismo, houve uma simplificação, um empobrecimento, as vezes até mesmo eliminação, dos elementos tradicionais que dignificavam as cerimônias, os momentos de oração e, principalmente, glorificavam a celebração da Ceia do Senhor. A difusão do ethos pietista, em oposição ao que se considerava ortodoxia luterana, o esvaecimento do que restava da Tradição nos ambientes reformados, chegou a ponto de lançar ao segundo plano a própria Eucaristia; não mais era celebrada com freqüência, ficando restrita a momentos específicos. A análise feita por Jonh Henry Newman, no seu livro Apologia Pro Vita Sua, em relação ao forte peso do pensamento evangélico e puritano na Igreja Anglicana, também serve, por conta do mesmo contexto, ao passado pela Igreja Luterana:
Analisando, porém, o que eu chamava religião evangélica ou puritanismo, confesso que tinha maiores razões para temer. Por esse motivo, fazia notar qual era a sua organização. Mas, em compensação, faltava-lhe uma base intelectual, uma idéia interna, um princípio de unidade; em uma palavra carecia de uma teologia. "Seus aderentes, dizia eu, separam-se uns dos outros e fundem-se como os montículos de neve. Não há uma opinião franca sobre nada que eles ensinam. Para disfarçar tanta pobreza vestem-se de palavras.”
O que tem acendido nos ambientes luteranos a vontade de reforma – uma reforma da reforma, ou seja, reformando o pietismo que reformou o luteranismo – é o desejo de reavivar a discussão teológica, trazendo a tona a ortodoxia luterana, os clássicos do pensamento reformado, para que assim, por meio de um sincero embate, haja produção e aprofundamento na doutrina da fé. Do mesmo modo, há um forte clamor eclesiológico; desde o triunfo do pietismo a Igreja Luterana perdeu sua identidade institucional, sendo levada pela concepção puritana e calvinista trazida por Spener. Assim como o Movimento de Oxford os desejos da Alta Igreja Luterana também perpassam, muitas vezes, pela dissociação da religião do Estado. As Igrejas nacionais, como reflexo da burocracia política, apenas refletem as vontades dos governantes, dessa maneira, como conseqüência imediata, tornam-se meios de propagação das decadências e imoralidades ratificadas pelas autoridades estatais.

Claro que a idéia de Alta Igreja, dentro do luteranismo, não se define com tanta particularidade como no anglicanismo. Além de ser alvo de muitas críticas – consideram a definição de “Alta Igreja” como uma forma de rompimento com a tradição luterana – muitos teólogos acreditam que as suas práticas são opostas às compreendidas nos documentos essenciais do luteranismo – Confissão de Augsburgo, Apologia da Confissão de Augsburgo, Artigos de Esmalcalde, Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa etc. Entretanto, o que se coloca em questão é justamente se o triunfo do pietismo não teria corrompido a ortodoxa hermenêutica luterana, rejeitando tradições caras para Lutero e para os primeiros reformadores. Ademais, a Alta Igreja Luterana sofre por conta da perseguição em países com Igrejas Estatais, como a Dinamarca; nessas nações os anseios desses religiosos e fiéis são identificados como extremamente católicos, logo em regiões que são, infelizmente, tradicionalmente opostas à fé romana. Outro ponto que distancia a Alta Igreja da grande massa luterana é a onda de relativismo que assola a sua comunidade; a ordenação de mulheres ao sacerdócio e episcopado é mais um motivo que aumenta, radicalmente, as diferenças entre a igreja aceita – liberal, “baixa” – e a igreja “reacionária” – tradicional, “alta”. Daí, por exemplo, o surgimento da Igreja Católica Nórdica – de confissão luterana, que declara aderir à fé ortodoxa e católica da indivisa Igreja -, formada por Bispos que se separaram da Igreja da Noruega por não concordarem com essas novidades anti-tradicionais e anti-bíblicas acatadas pelo establishment religioso. Surgiu com a ajuda da Igreja Católica Nacional Polonesa, um cisma católico que ocorreu nos EUA. Dentro da Alta Igreja Luterana, ou ao menos nos movimentos que vivem sob seu espírito – afinal, como já foi dito, não há uma estruturação individual, como na High Church inglesa – ainda há a preocupação em relação à perda da noção do episcopado e, para piorar, à crise na Sucessão Apostólica. Além disso, outro fator que a impulsiona é o desejo pela sacra estética; paramentos e belas cerimônias. Assim se expressou Dare. E. Paul – mais tarde convertido ao catolicismo:
A intenção de Martinho Lutero e daqueles que estão escritos na Confissão de Augsburgo era de Reformar, não Rejeitar, a Igreja como ele a tinha achado. À parte as adições hiperbólicas de sentimentos anti-católicos por parte dos contemporâneos de Lutero, estes seguiram Lutero partilhando muitas práticas e pontos teológicos com Roma. Lutero travou batalhas intensas contra os "entusiastas" e "sacramentarianos" que recusavam o batismo infantil e a validade de um ministério ordenado, rejeitando a Real Presença de Cristo na Eucaristia, e de fato rejeitando todos os sacramentos como significado da graça de Deus.
Dentro do luteranismo existem concepções distintas acerca do episcopado e da noção do mandato divino da Igreja. Na “Comunhão de Porvoo” Igrejas Anglicanas da Inglaterra, Escócia, Irlanda, País de Gales, Portugal e Espanha celebraram a Eucaristia com Igrejas Luteranas da Finlândia, Islândia, Noruega, Suécia, Estônia e Lituânia. Entre elas há a mesma estrutura episcopal, todavia, não entram em consenso quando o assunto é a definição doutrinária sobre o poder sobrenatural do Pastor. As seis igrejas luteranas que participaram do encontro defendem e acreditam na sua Sucessão Apostólica. Do mesmo modo, dentro do luteranismo, existem maneiras diversas no governo eclesiástico; desde o Sínodo de Missouri – Missouri Synod, segunda maior denominação luterana dos EUA - que centraliza o poder na Congregação, passando pela Igreja Evangélica Luterana na América – maior denominação luterana dos EUA, é a união da Igreja Luterana na América, Igreja Luterana Americana e Associação das Igrejas Evangélicas Luteranas – que elege um Presidente-Bispo por seis anos e, por fim, a Igreja Católica Anglo-Luterana que tem uma rigorosa estrutura episcopal composta por um sínodo de Bispos e um Metropolita e que, buscando a Sucessão Apostólica, ordenou e (re)ordenou diáconos, padres e bispos usando o Ordinal católico para exprimir a plenitude da intenção sacerdotal e sacrificial da ordenação, com cerimônias presididas por Bispos cismáticos vindos do Vétero-Catolicismo ou de outras Igrejas fora da plena comunhão – a principal linhagem da Sucessão Apostólica dos anglo-luteranos deriva de Carlos Duarte da Costa, o fundador da ICAB (Igreja Católica Apostólica Brasileira). Ademais, vale frisar, é uma denominação bem “particular”; ao mesmo tempo que segue os Catecismos de Lutero, a Confissão de Augsburgo, o Livro de Concórdia etc, aprecia o ‘Livro de Oração Comum’ e os ’39 Artigos’ interpretados por Newman e, além disso, os ensinamentos do Magistério Católico e do nosso Catecismo.

A entrada do liberalismo na Igreja Luterana apenas tem acentuado a necessidade da aproximação com a Tradição católica. Bem sabemos que a teologia liberal nasce como conseqüência natural do espírito da própria reforma. Assim percebeu teólogos luteranos destacados como Richard John Neuhaus e Reinhard Hütter, convertidos ao catolicismo – o primeiro era pastor e depois tornou-se sacerdote – e Jaroslav Pelikan que se converteu à ortodoxia. Gunnar Rosendal, em “The Catholic Movement in the Swedish Church”, aborda a crise na Igreja Sueca. A sua análise vale para todas as igrejas de confissão luterana:
Na época do Iluminismo, no século XVIII, muitas das características católicas na Igreja da Suécia foram negligenciadas. A Igreja como tal as havia preservado, ainda que os clérigos as negligenciassem e, muitas vezes, as utilizassem com a sua própria interpretação. E assim verificou-se que a liturgia sueca, no início do século XIX, se tornou mais pobre na sua expressão e a teologia sueca, na segunda década deste século, chegou ao seu mais baixo volume (nível). A vida sacramental da Igreja sueca se tornou mais pobre em todo o mundo, as igrejas fechadas, exceto para os serviços, o espírito de oração comum extinto, os serviços estéreis e enfadonhos. Mas foi até o momento do reavivamento evangélico de intensa piedade. Estes foram os principais sinais de vida na Igreja Sueca. Tivemos alguns proeminentes nomes na Alta Igreja, mas eles foram mais diplomáticos e políticos do que hierárquicos nos seus pontos de vista. Eles nunca expressaram o espírito da Alta Igreja nas liturgias, vida sacramental, ou doutrina do ministério, mas conservaram uma profunda veneração pelos episcopado e sacerdócio.
Os “evangélicos católicos” no luteranismo buscam se apropriar das tradições perdidas quando da invasão pietista, puritana e até mesmo iluminista na Igreja. O resgate do legado litúrgico, devocional e doutrinário, para esses religiosos, se encontra na perfeita continuidade histórica com a indivisa Igreja de Cristo: católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos. Essa concepção, mesmo que heterodoxa – afinal a Igreja é Una desde sempre – resgata, ao menos, a Tradição que existia na nascente igreja luterana. A valorização da teologia dogmática e sacramental vem dessa linha, em oposição ao simplismo instaurado. Do mesmo modo a revisão da própria visão institucional, através da recuperação da hierarquia, do episcopado e do sacerdócio. Assim disse Reverendo Rolf Preus, Pastor Luterano do Sínodo de Missouri, na National Conference on Worship, Music & the Arts:
As pessoas esperam, quando vão à igreja, que certas coisas devam acontecer. Certas palavras devam ser ditas. Certas ações devam ser seguidas. Estou falando de coisas como a confissão e a absolvição, o canto do Kyrie, seguido do Gloria in Excelsis, ouvindo os ensinamentos, e confessando o Credo. Isto é o que aconteceu e é isto que pessoas esperam que aconteça. Hinos serão cantados. Um homem vestindo uma túnica e estando no púlpito irá pregar um sermão baseado em um texto da Bíblia. Você irá cantar os familires Salmos e Cânticos da igreja, rezar a Oração do Senhor, ajoelhar no altar do Senhor e comer e beber o corpo e o sangue de Cristo. Você não irá sair antes de ouvir as palavras da Benção de Aarão que irão garantir que Deus, que o serviu com a Sua Santa Palavra e Sacramento, agora dá-lhe Sua paz. O que ocorre no Domingo de manhã vai fazer você se sentir em casa (...) Você falou com Deus e ouviu Ele falar com você. Isso é o que está procurando. É por isso que você vai à igreja.

E agora você vai à igreja e tudo é diferente. Vai com a expectativa de encontrar algo que já não existe. Talvez seja o canto do Kyrie. Ou talvez o Credo que seja substituído por uma versão caseira que não é realmente muito boa. Em vez de um sermão, há uma espécie de prebistério dramático. Os cânticos familiares sumiram. Os corais luteranos deram lugar às rasas e repetitivas músicas de “louvor”. A bênção é substituída por uma extensa e longa exortação de como ser cristão de qualquer tipo que esteja em voga na temporada. Vocês não querem criticar. Querem saber se as suas expectativas foram um pouco exageradas. Afinal, deve haver muitas maneiras diferentes de adorar a Deus. A Bíblia, na verdade, não define para a igreja do Novo Testamento as instruções detalhadas sobre o que fazer num domingo de manhã. E, se tais instruções não estão previstas nas Escrituras, e se as Escrituras por si só têm de ser para nós a norma e juiza de todas as doutrinas e práticas na igreja, por isso você deve se lamentar se você deve sofrer mudanças? Talvez você esteja apenas sendo antiquado. Mesmo assim, você tem a sensação de que algo definitivo foi e é importante e que você quer de volta. A Igreja já não é a sua casa ".
Esses luteranos buscaram, desse modo, resgatar os escritos e os trabalhos de grandes nomes da sua religião e que foram, com o tempo, rechaçados ou colocados de lado. Se os anglo-católicos restauraram William Laud, Herbert Thorndike etc, os similares luteranos trouxeram a tona Johann Gerhard, os gnesiosluteranos etc. Foi desse renascimento que surgiu, por exemplo, o “Kyrklig förnyelse", um manifesto composto por Gunnar Rosendal onde se defende a renovação litúrgica na igreja da suécia, assim como o resgate da Eucaristia como o cerne da vida cristã, além da revitalização do episcopado, da vivência da fé por meio da graça sacramental e do sacerdócio. Rosendal ainda pontuou que sem essa restauração tradicional os fiéis iriam buscar a Igreja de Cristo, sem o liberalismo e o relativismo que começavam a assolar o luteranismo, na Igreja de Roma, assim sendo, via essa reforma como uma necessidade essencial para a própria existência do protestantismo – o que se mostrou verdade depois da crise na Igreja da Suécia que acabou aumentando o número de convertidos ao catolicismo. Sustentada nesse manifesto nasceu a Arbetsgemenskapen Kyrklig Förnyelse, a União Sueca, a Alta Igreja no luteranismo da Suécia. Essa denominação tem relações estreitas com ramos similares, anglo-católicos e evangélicos-católicos, na Igreja da Inglaterra, Noruega, Alemanha e Dinamarca, onde eles mantém bispos e sacerdotes. Na nação germânica foi redigido o Stimuli et clavi, escrito pelo pastor Heinrich Hansen; consiste em 95 teses, clara referência às 95 teses de Lutero, em defesa da restauração do luteranismo alemão. Inspirada nessa obra brotou a União da Alta Igreja da Confissão de Augsburgo. Ela foi muito influenciada por Friedrich Heiler, teólogo alemão convertido ao luteranismo – era católico – que enxergava a Igreja Luterana como a verdadeira Via Média – não o anglicanismo – por conta do zelo doutrinário e sacramental, assim como a manutenção das tradições litúrgicas. Heiler lançou mão de uma concepção modernista para perseverar em algumas doutrinas católicas ao mesmo tempo em que adotava o luteranismo, chegando a afirmar que a Igreja incluía todos os não-cristãos, esperançoso de uma síntese entre todas as religiões do mundo.

Desse modo, através do resgate tradicional, nasceu, na Igreja Luterana, o anseio pela restauração dessas práticas litúrgicas e, principalmente, um maior aprofundamento doutrinário. Esses movimentos, mesmo que sem nenhuma organização comum, lutam pelo mesmo ideal; tornar o luteranismo mais próximo da plenitude da fé cristã, para isso buscam a centralidade não na Bíblia, mas sim na Eucaristia, no sentido sacrificial da Missa:
Na Ordem da Igreja [Luterana da Suécia] lemos: "Não é proibido chamar este Sacramento de Sacrifício, como tem sido sempre feito na cristandade, porque o sacrifício de Cristo, que foi oferecido pelo nosso Senhor na cruz, é oferecido na missa" Essas palavras na Ordem sueca foram escritas pelo arcebispo Laurentius Petri (1499 – 1573), o primeiro arcebispo, após a reforma. Ele escreveu uma Dialogus acerca da Santíssima Eucaristia, onde diz que pode chamar a missa de sacrifício, porque "significa ou representa o sacrifício de nosso Senhor na cruz" e porque "o padre e a congregação o oferece (o Sacramento, isto é, o Corpo e Sangue), entre os nossos pecados e a ira de Deus. " É evidente que temos aqui uma completa e explícita doutrina do Sacrifício da Missa. Isso também implica que o sacerdote ordenado para a oferta desse sacrifício é um verdadeiro sacerdote, vindo do mesmo Sacerdócio de nosso Senhor, o celestial Sumo-Sacerdote. Esta doutrina sempre tem sido a doutrina da Igreja e os sacerdotes suecos sempre foram ordenados para executá-la. O Movimento Católico fará essa doutrina vivida, amada, e conhecida em sermões e na vida devocional da Igreja.
Além disso procuram dignificar os momentos de oração, usando do rico simbolismo sacro como uma ponte de santificação do mundo. Esse resgate vai das coisas simples até as mais complexas; desde o retorno dos atos cotidianos, como um sinal da cruz ou uma genuflexão, até a minuciosa defesa da Presença Real ou a revisão do sentido do episcopado. Os movimentos tradicionais que pululam nas denominações protestantes nascem como a conseqüência do entendimento, mesmo que inconsciente, das contradições que povoam toda a fundamentação da fé reformada. Como entender a Escritura sem a Tradição? Como entender a fé cristã imaculada sem os Concílios Ecumênicos? Como seguir os Concílios sem acatar os Padres da Igreja? E como ler os Santos Padres sem enxergar a riqueza mariológica, eucarística, eclesiológica, dogmática, contida nas suas palavras?

A crise no protestantismo, com o triunfo do relativismo e do liberalismo, na verdade é inerente à própria estruturação da sua crença. A Sola Scriptura abre o espaço para o subjetivismo hermenêutico, um individualismo que de tão acentuado modifica a fé cristã, a rebaixando aos desejos próprios; não é o indivíduo, enquanto crente, que se santifica através da penitência, oração e mortificação, mas a própria Revelação que parte das premissas particulares do fiel para então se encaixar num cristianismo feito à encomenda. Claro que não acredito que tenha essa sido a idéia clara de Lutero, mas é inegável que foi o que se tornou a “Somente a Escritura” e todo o protestantismo. O círculo vicioso é tão forte que não há nenhuma autoridade que lance anátemas e condene o erro. As heresias na religião reformada surgem de hermenêuticas corrompidas, formas heterodoxas de interpretar a Bíblia. Mas como saber se é heterodoxia se a própria Escritura, no protestantismo, além de auto-autenticável pode ser interpretada pessoalmente? A noção de heterodoxia só existe por conta da noção de ortodoxia, e como saber qual é a ortodoxia bíblica se a própria Bíblia se encontra submissa à Sola Scripitura? Ora, se não existe uma interpretação única e absoluta todas as interpretações tornam-se licitas e genuínas. Entretanto como pode haver Deus onde há contradição? Como um Livro inspirado pode ser base para entendimentos tão distintos e contraditórios? Existe sim uma Única hermenêutica, assim como existe um Uno Deus e uma Una Igreja.

2 comentários:

Anônimo disse...

Nuoosssa...Muito bom esse artigo...excelente!!!!
Deixa bem claro como os movimentos posteriores a Lutero enfraqueceram e se distanciaram da verdadeira fé...empobreceram a riqueza litúrgica e teológica...
Graças a Deus...esses movimentos da Alta Igreja (Luterana e Anglicana) buscam restaurar o que esse mar relativista trouxe para o cristianismo...
Excelente artigo...

Anônimo disse...

Excelente artigo um lavar na minha alma luterna que há tempos se debate com questões relativas à hermenêutica. A desgraça é que se confundiu livre acesso às Escrituras com livre interpretação.Bem como uma inversão do sacerdócio geral, hoje os rebanhos pastoreiam os pastores pois estes são reféns das comunidades e seus dirigentes.