Mostrando postagens com marcador conversão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conversão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Padre Pio e as estratégias de Deus

Fonte: Tradición y Acción
Tradução Livre: Vladimir Lachance

Hoje a Igreja celebra o dia de São Pio de Pietrelcina, um grandioso santo do século XX. Em homenagem, traduzimos um texto do site Tradicíon y Acción que relata um grande milagre deste maravilhoso santo. Segue o texto:
***
Uma das múltiplas formas de intervenção divina nos acontecimentos humanos, para atrair as almas para o bem e apartá-las do mal, são os milagres.

Uma resposta de Deus à impiedade revolucionária

Em nossa época de impiedade e amoralidade avassaladoras, poderia supor-se que os feitos milagrosos fossem raros ou quase inexistentes. Mas, é justamente o contrário: desde que a Revolução Francesa fez do agnosticismo e do ateísmo uma verdadeira “religião do Estado”, vêm ocorrendo, a maneira de réplica divina à irreligiosidade revolucionária, os maiores milagres da história da Igreja. Vejamo-los:

1. As mais de 7.000 curas inexplicáveis em Lourdes, iniciadas em 1858 e que continuam até hoje, constituem, como dizia o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, um milagre “por assim dizer, em série e a título permanente”;

2. As imagens em negativo do Santo Sudário de Turim, captadas pelo fotógrafo turinês Secondo Pia em 1898, apontaram provas concludentes da veracidade da Paixão e morte de Jesus Cristo e do “milagre dos milagres”, sua Ressurreição. E desde então o precioso Sudário não deixa de surpreender com provas adicionais de sua autenticidade, obtidas através de novas especialidades da ciência;

3. Já no século XX o chamado “milagre do Sol”, ocorrido em Fátima aos 13 de outubro de 1917 para certificar a veracidade das aparições da Santíssima Virgem, foi visto por mais de 100 mil espectadores, o maior número de testemunhas diretas de um milagre em toda a História da Igreja. Foi, ademais, o único milagre da História anunciado com dia e hora;

4. Quando caiu a primeira bomba atômica sobre Hiroshima, aos 6 de agosto de 1945, vários sacerdotes jesuítas que se encontravam a menos de 1000 metros do centro da explosão, particularmente devotos à Virgem de Fátima, sobreviveram à hecatombe de maneira absolutamente milagrosa, sem ter sofrido o menor dano físico. Sua residência foi o único edifício que permaneceu em pé, numa área de 12 km2. [1]

Março de 2008: a grande surpresa do Padre Pio

Estes e outros memoráveis prodígios ocorreram nos séculos XIX e XX. Mas, poderão ocorrer feitos assim no nosso século XXI?

Respondemos: sim, definitivamente. Tanto as curas de Lourdes, como as obtidas por intercessão de santos ou fiéis defuntos em processo de beatificação ou canonização, prosseguem sem interrupção neste terceiro milênio.

Um exemplo estupendo desta ação sobrenatural ofereceu o Padre Pio de Pietrelcina, religioso capuchinho falecido em 1968 depois de uma vida sulcada de feitos prodigiosos, entre os quais ter recebido em seu corpo os estigmas da Paixão de Cristo. Canonizado pelo Papa João Paulo II em 2002, ao cumprir-se o 3 de março de 2008 (40 anos de sua morte) seu cadáver foi exumado, e, ante o assombro da multidão presente – entre eles o Arcebispo de São João Rotondo, Mons. Domenico D’Ambrosio e vários médicos forenses -, seu rosto e mãos apareceram maravilhosamente incorruptos, como os de um homem que acaba-se de adormecer poucos momentos antes.

O extraordinário feito se soma à larga lista de prodígios obrados pelo Padre Pio no século atual, um dos quais sobressai por seu especial significado.

Quando tudo parecia perdido...

Pesceana é um remoto povoado da Romênia, nos confins da Europa oriental. Seus habitantes são em sua maioria da religião greco-cismática, chamada “ortodoxa”. O sacerdote cismático local, Victor Tudor, ali residia com sua mãe setuagenária, Lucrecia, que no ano de 2002, sentindo-se mal de saúde, se submeteu a exames médicos. Foi-lhe diagnosticado um tumor canceroso no pulmão esquerdo, e anunciaram-lhe que teria poucos meses de vida.

O padre Victor comunicou o triste feito a seu irmão Mariano, pintor e restaurador de obras de arte residente em Roma, e este acudiu a um dos cirurgiões mais famosos do mundo (que operou - entre outras celebridades - Bill Gates). O médico lhe disse: “Manda vir a sua mãe a Roma e farei tudo para salvá-la”. Mas, ao examiná-la, considerou que seu mal não tinha cura. Desistiu de operá-la, e só pode indicar-lhe alguns remédios para mitigar as dores que a esperavam.

Mariano decidiu então reter em Roma a sua mãe pelo tempo que lhe restasse de vida. Ele trabalhava na restauração de mosaicos de uma igreja romana. Começou a levar Lucrecia a seu trabalho, para não deixá-la só em uma cidade que lhe era completamente estranha.

Na igreja há uma grande imagem do Padre Pio. A senhora se sentia misteriosamente atraída por aquele personagem do qual nada sabia, e Mariano foi lhe contando a história do franciscano, seus estigmas, seus milagres. Ela, impressionada, passava os dias sentada largas horas diante daquela imagem. Além disso, absorta, lhe falava a meia voz, como a uma pessoa real e concreta. Assim transcorreram várias semanas, até que Mariano a levou a um hospital para seus controles. E então veio a surpresa: para assombro dos médicos, o tumor havia desaparecido completamente. Lucrecia estava curada! Emocionada, não duvidou um instante em atribuir sua cura àquele frade barbado de olhar penetrante, a quem havia confiado suas penas.

Fruto do milagre: conversão coletiva dos cismáticos

Ao inteirar-se da súbita cura, o padre Victor não cabia em si de admiração e gratidão. “Comecei a ler a vida do santo italiano. Contei aos meus paroquianos o que havia sucedido”. Todos quiseram então saber mais deste santo católico tão poderoso. “Líamos tudo que encontrávamos sobre ele. Sua santidade nos conquistava”, diz o sacerdote. “Outros enfermos de minha paróquia receberam graças extraordinárias do Padre Pio... Entre minha gente se espalhou um grande entusiasmo, e pouco a pouco, decidimos fazer-nos católicos”. O passo da religião cismática à Igreja Católica não foi sem tropeços; mas o Pe. Victor e seus paroquianos estavam decididos, e foram até o fim. Agora estão empenhados em construir um templo católico no povoado, dedicado ao Padre Pio. No 27 de novembro passado (de 2008) o Arcebispo de Alba Julia, Mons. Lucian Muresan, presidente da Conferência Episcopal da Romênia, assistiu à colocação da primeira pedra, junto com a agradecida Lucrecia, completamente curada.

Que lições nos deixa este milagre? – Primeiro, se seu principal efeito tem sido a conversão à fé católica de uma paróquia cismática inteira com seu pároco encabeçando, com essa cura o Padre Pio nos da uma lição de verdadeiro ecumenismo. O qual não consiste em acercar-se dos membros de outras religiões buscando somente semelhanças com eles e ignorando – por sentimentalismo, respeito humano ou falsa prudência – os erros que os separam da verdadeira Fé, mas sim em fazer resplandecer com convicção, ufania e tato a divina superioridade da Igreja Católica, única Igreja verdadeira do único Deus verdadeiro; ou seja, em mostrar que só dela pode vir o sopro de vida que regenerará a Terra.

Mas também, o desenlace do maravilhoso feito deve-nos induzir a confiar em que, por maiores que sejam os perigos que ameaçam em nosso século à Barca de Pedro, Jesus Cristo não deixa de assistir a sua Igreja, conforme a promessa que Ele mesmo fez de protegê-la até o fim dos tempos (Mt. 28, 19-20); e, se necessário, cumprirá essa promessa de maneira milagrosa, até levá-la ao esplendoroso triunfo anunciado em Fátima.

[1] www.corazones.org/articulos/testimonios/rosario_bombaatomica.htm

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O Caminho da Conversão – Parte III: A mulher faz o homem

Por Vladimir Lachance

É sempre difícil começar um texto, ainda mais difícil quando se pretende escrever sobre um assunto que lhe é próximo. Parece que é o tipo de artigo mais fácil de escrever, mas a verdade é que é o contrário. Quanto mais próximo mais difícil de distinguir os contornos do que se quer tratar. Sinto que este texto pode ser considerado como parte de um conjunto, um fragmento que só encontra o sentido completo quando encaixado a outros fragmentos. Ainda não existe a parte II deste conjunto de textos, mas logo será escrito e completará o quadro. Por enquanto os leitores ficarão com este texto, que é uma homenagem à mulher que me fez. Não a que me gerou, ser humano, que me colocou no mundo, mas a que me fez filho adotivo de Deus, que me trouxe a luz de nosso Senhor Jesus Cristo, e deu verdadeiro sentido à minha vida.

Eu estava em tempos de relativismo quando a conheci, Luciana Lachance; vivia numa plena incerteza de tudo, numa perfeita ignorância que imaginava ser o caminho correto para conhecer o mundo. Achava que quanto mais duvidasse mais perto da verdade estaria, pois me parecia que por trás de todas as coisas tinha uma outra realidade que era suja e perversa, mas que não queria se revelar diretamente. Certas idéias para mim eram absolutas, como fórmulas universais que serviam para interpretar qualquer texto, filme, reportagem, etc. Nunca me considerei comunista, tinha certa ojeriza pela figura do velho Marx, aquele homem barbudo de cara enfezada, mas ainda assim tinha uma pequena simpatia por suas críticas da sociedade burguesa. Me sentia mais próximo das idéias anarquistas – hoje penso que não tanto por uma questão de afinidade pessoal, mas porque o comunismo vermelho mesmo, com foice, martelo e boina, já não convencia muito bem. As leituras mais comuns nessa época eram de textos de alguns autores menos conhecidos como Naomi Wolf e Hakim Bey. O que constava principalmente era a leitura dos zines: pequenas brochuras, que normalmente tem menos de cinqüenta páginas; os mais lidos eram textos de grupos ativistas, sobre veganismo, anarquismo, feminismo. Eram nesses textos que me baseava para entender o mundo, para fazer a minha “crítica” da sociedade. É engraçado lembrar que nesse período eu não duvidava em absolutamente nada desses textos – exatamente porque eles me pediam para duvidar de outros textos e idéias, desviando minha atenção para os sofismas absurdos que eles mesmos apresentavam (o relativismo só pode ser utilizado como mecanismo de análise em relação àquilo que você já desconfia, as outras coisas podem continuar absolutas). Era esta a atmosfera em que eu estava envolvido na época, numa confusão geral de idéias, e completando o quadro vivia uma mistura de ateísmo e panteísmo.

Luciana surgiu nesta época, e simplesmente, pela sua presença, me transformou. Certas idéias mudaram de maneira radical; não por ela dizer: “isso é errado”, ou “isso é certo”, mas pelo que trazia consigo, pelo tesouro acumulado no coração. Ela me perguntou: “o que você pensa em relação ao aborto?”. Eu acreditava que era um direito da mulher, que ninguém deveria se intrometer nisto. E foi mais ou menos isso que respondi. Foi quando ela, com apenas quatro palavras, me sacudiu por inteiro, e me mudou completamente. Ela disse: “eu ia ser abortada”. Não houve dúvida: eu passei a repugnar a idéia do aborto. Algumas pessoas podem alegar que essa foi uma decisão extremamente passional, e que eu a tomei para agradar a Luciana, mas a tomei não para meramente agradar, mas por amá-la – e só quem passou por isto pode entender do que se trata. Uma pessoa pode mudar a vida de alguém, ou mesmo o mundo. Quantas pessoas deixaram de existir, e fazer parte da sua vida, (ou precisamente aquelas que mudariam tudo), por terem sido abortadas? Essa é uma questão razoável a ser colocada, mas que muitos encaram com profundo desprezo. E a esses eu respondo, com toda a certeza: Luciana mudou a minha vida, e se ela não existisse eu poderia demorar muito para conhecer a verdade, o amor, Deus.

Ela agora é minha noiva, e foi o meu divisor de águas. Um dia eu fui um adolescente, arrogante, que não suportava os mais velhos e rechaçava os mais novos; agora eu volto a ser criança e começo a ser adulto. Um dia fui um ateu que entoava hinos anti-cristãos, inconformado com o sofrimento no mundo; hoje sou um recém convertido, um catecúmeno, um filho de Deus. Não meus amigos, eu não fui doutrinado como vocês imaginam. Eu fui amado. Éramos dois quando nos conhecemos, e agora estamos muito perto de ser um. Um só corpo e um só espírito. Ela não me trouxe cartilhas – como alguns podem pensar – de como ser um cristão, um conservador, um namorado; nada disso. Aprendemos tudo juntos. Ela me ensinou os primeiros passos do amor a Deus, mas depois continuamos a caminhada juntos.

O que escrevo hoje é difícil de explicar, pois o amor nunca precisou ser defendido. O mundo moderno perverteu as relações entre as pessoas, mesmo aquelas que se gostam, e por isso este texto pode não ser muito bem entendido. Hoje, é muito difícil conceber um relacionamento em que as pessoas realmente queiram se doar à outra, que queiram ser um com o outro. Elas imaginam que fazendo tal coisa estarão sendo submissas, subservientes: as mulheres, em grande parte, infectadas pela ideologia feminista, e os homens perdidos num misto de feminismo e permissividade. Mas eu me atrevo a dizer: não há nada melhor que querer ser um com quem se ama. Não no sentido de ter um pensamento idêntico, de gostar das mesmas comidas, de se vestir combinando. Não é nada disso. Mas de ser unido, da forma correta, como a Igreja Católica me ensinou: a unidade na diversidade. Nós não queremos ser radicalmente iguais, mas também abominamos a idéia de ser completamente diferentes. Há um equilíbrio, que não me cabe demonstrar por meio de palavras, que é exatamente o necessário para que um amor dê bons frutos, se tornando puro e sublime. É esse amor que devemos buscar, o amor que nos dá idéia do Eterno, que nos faz pensar como seria o amor no Reino dos Céus. Esse amor Luciana me deu.
Eu te amo meu amor. Este texto é para você. Fica com Deus e que nosso Senhor Jesus Cristo te dê muitas graças.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Caminho da Conversão - Parte I: Infância:Deísmo, Morte:Fé

Vladimir Lachance

Passei minha infância inteira como pagão. Meus pais haviam decidido não batizar nenhum dos seus filhos no Catolicismo, pois acreditavam não ser correto impor uma religião a qualquer pessoa que fosse. Em parte acho que isso ocorreu por influência do comunismo, que tanto meu pai quanto minha mãe apoiavam. Nessa época não era exatamente um ateísmo, mas um deísmo inocente – se assim podemos chamar – que vivia; que fazia aparecer de vez em quando um Deus comandante do mundo, mas que eu não fazia idéia de como descrever, nem sabia por que havia nos criado, ou criado o mundo e as demais coisas. Minha mãe foi criada no Catolicismo. Morava na cidade de Nazaré das Farinhas – na infância e começo da adolescência -, onde fazia parte do grupo de jovens da paróquia, participando do coral, dos grupos de evangelização; e quando vinha a Salvador passear ficava hospedada em um convento do qual não sei o nome. Por esse motivo tive algum conhecimento de quem era Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Virgem Maria, e algumas figuras importantes do Cristianismo. Meu pai também foi chegou a freqüentar a Igreja Católica, mas me parece – não sei muito sobre essa época – que nunca foi muito assíduo, era um católico relaxado. Minha mãe se afastou do Catolicismo quando veio morar em Salvador, deixando a religião, mas como a maioria das pessoas continuando a crer num Deus Criador de todas as coisas, em alguns santos católicos, na Virgem Maria, etc. Não me lembro se tive contato com uma Igreja na minha infância: esforço-me para lembrar se quando pequeno, pelo menos até os 12 anos, entrei numa igreja. Acho que não. Minha avó, mãe da minha mãe, era uma mulher católica, que não perdia as missas de domingo. Ela morou em Nazaré das Farinhas quase a vida toda, mas depois se mudou para Salvador também. Mesmo morando num bairro afastado nunca perdia as Missas de Domingo. Ela praticamente atravessava a cidade para ir à Missa: não porque não houvesse igrejas próximas à sua casa, mas porque dava preferência a uma que era celebrada no Centro da cidade. Com o passar dos anos, quando a idade foi avançando ela deu para roubar imagens de santos das igrejas, mas acho que não chegou a se constituir um sacrilégio propriamente dito, visto que ela estava com a saúde mental um pouco abalada. Pouco tempo depois morreu.

* * *
Minha infância foi de deísmo inocente até os oito anos, quando meus pais conheceram uma religião de doutrina espírita que surgiu na Amazônia. Quando passamos a freqüentar esta religião as coisas mudaram um pouco de figura: o deísmo se tornou mais elaborado, e tive um pouco mais de contato com o cristianismo, pois esta religião segue alguns preceitos bíblicos, mas não só. Meus pais começaram a nos explicar – tenho quatro irmãos – as doutrinas desta religião, dentre elas a doutrina da reencarnação, da Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao mesmo tempo aceitando à doutrinas advindas de diversas outras crenças, como budismo, hinduísmo, teosofia, etc. Era uma espécie de: “todas as religiões estão certas, e o deus de todas elas é o mesmo”.

Participei desta crença por cerca de sete anos. Foi nesta época que minha avó, mãe de minha mãe, morreu. Em 2001, 2002, já não sei exatamente. Foi um momento de muita dor para mim e para toda a família. Contava treze ou catorze anos; creio que estava na aula quando soube. Ela esteve hospitalizada por um tempo, devido a uma espécie de derrame – achei que não seria nada demais, mas a situação dela piorou bruscamente e pouco tempo depois morreu. Tive uma sensação bem esquisita quando me contaram: um misto de incredulidade e medo, um medo tremendo. Uma mistura que nos faz sorrir sem saber por que, e logo depois apagar o sorriso, meio sem graça por tê-lo colocado no rosto - foi a primeira vez que senti isso: não sabia como me comportar. Não sabia se ficava sério, se demonstrava tristeza, ou se, como alguns adultos me recomendaram na época, tentava ficar o mais natural possível, pois segundo eles era algo comum e que deveríamos encarar com tranquilidade. Bom, foi um misto de tudo isso. Quando saí da aula e voltei pra casa fiquei bem sério, pensando na morte. Pensando onde estaria minha avó, o que acontecia quando alguém morria, se era certo cremar um corpo ou não (acho que minha tia tinha pensado na idéia, ou talvez eu mesmo tenha pensado). Depois quando soube que tinha que ir ao enterro – não imaginava que ia ter que estar lá -, a vontade de rir voltou, com toda força. Fiquei imaginando como seria, pois nunca havia ido a um enterro; achei que seria uma coisa bem soturna, num lugar escuro, do cheiro esquisito... Fiquei pensando em tudo isso enquanto aguardava as ordens de minha mãe para me arrumar.

* * *
O enterro foi no período da tarde. Quando chegamos lá havia poucas pessoas na sala do velório, no próprio cemitério (do Campo Santo). As idéias anteriores foram se adequando à realidade: vi que não era nada daquilo que pensava. Era um lugar silencioso, bem iluminado, tranqüilo e muito bonito, cheio de estátuas e imagens. Ficamos um tempo, só eu, minha família e poucos parentes. No começo agi “naturalmente” – como haviam me ensinado -, tentando levar aquilo como algo comum, sem demonstrar muita tristeza, bem sério. Mas, depois de um tempo, movido por um impulso de ver mais uma vez a minha avó decidi ir ao caixão, olhar o seu rosto. Me deparei com o seu rosto sereno, de olhos fechados, com as mãos cruzadas, e o corpo coberto de flores. Senti um estremecimento terrível e me afastei; sentei num dos bancos dentro da sala, e lá fiquei por um longo período, me sentindo com um pé no mundo e outro fora dele – onde exatamente, não sabia -, quando entrou o padre e começou uma cerimônia. Eu não fazia idéia do que era, mas imaginava que fosse algo para rezar pela alma da pessoa morta, para que ela pudesse ir para o céu. Foram rezadas muitas orações – eu não sabia nenhuma delas -, o Pai Nosso foi repetido várias vezes, mas eu não sabia rezá-lo. Nem imaginava que era a oração ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo! Fiquei bastante constrangido por não saber de nada que acontecia lá, e por não saber fazer uma oração. Até aí não havia caído uma lágrima de meus olhos: existiam tantas emoções se confundindo que não havia sequer tempo suficiente para entender cada uma delas. Só quando o caixão foi levado ao túmulo que a “ficha começou a cair”: minha avó estava indo embora deste mundo, nunca mais a veria aqui; só ficaria a lembrança, misturada a tantas outras lembranças que carregamos na vida... foi um peso monstruoso que senti. Minha avó, que me chamava de “passarinho” quando ia à minha casa. Que carregava um cesto na cabeça com biscoito, mortadela, frutas, para levar à nossa casa, dizendo: “meus netos não vão passar fome não” (não lembro se na época passávamos por uma situação financeira difícil ou se era só mania de avó de achar que os netos estão mal alimentados). Ela não estaria mais aqui, entre nós. Que terrível! Ela, que fazia uma verdadeira festa quando os quatro netos iam visitá-la: ela tinha uma dessas barraquinhas azuis “tipo lanchonete” em frente à casa. Quando íamos lá ela comprova vários pacotes de bala, pirulitos, doces variados e colocava em potes e nos dava, para arrumarmos na barraquinha e ficar vendendo. O nosso próprio negócio! Era bem especial. Na casa tinha um quintal bem grande (para meus olhos de criança) com um pé de acerola enorme; às vezes passávamos horas arrancando acerolas: meus irmãos para comer, e eu mais pelo prazer de participar – sempre achei acerola bem azeda, ruim mesmo. No fundo da casa tinha outra área aberta, onde minha avó criava galinhas. Lembro que tinha medo delas, assim como tinha medo dos cachorros... Era nessa casa que tinha um contato um pouco mais próximo com o Catolicismo, mesmo sem o saber. Minha avó tinha imagens de santos, mas não era exatamente isso que fazia do lugar um lugar cristão. Era outra coisa, que na verdade até hoje não sei explicar muito bem. Tentarei aqui, mas tenho plena certeza de que não vou muito longe; e não vou por que se trata de um mistério, algo que por mais que expliquemos vai ficar sem explicação em algum ponto. Era como se alguma coisa fizesse a casa cheirar diferente – ainda consigo reconhecê-lo -, deixando um clima agradável, com uma paz única. Não sabia exatamente o que era isso, mas hoje tenho plena certeza que era o amor Cristão guardando a casa.

Minha avó foi para mim o primeiro contato com o Catolicismo, com a fé, mesmo que eu só viesse a perceber isso depois de sua morte. Primeiro com a sua presença, com a sua pessoa – em corpo e alma; e depois com a sua ausência, quando sua alma deixou este mundo: quando vi a cerimônia no seu velório, pois foi quando vi pela primeira vez uma celebração católica.

* * *
Algum tempo depois da morte de minha avó, estava passeando com minha mãe e um de meus irmãos pelo centro de Salvador (nós morávamos em Lauro de Freitas, uma cidade da região metropolitana de Salvador), quando de repente senti uma vontade, e disse a minha mãe: “Quero um terço!”. Minha mãe me olhou meio espantada e perguntou: “Pra que você quer um terço?”, e eu simplesmente respondi: “Pra rezar.”. Depois dessa resposta ela riu e não perguntou mais nada; disse que poderíamos comprar nas Paulinas – uma loja católica. Quando chegamos lá escolhi um terço de madeira bem bonito e a moça que estava nos atendendo recomendou que comprássemos também um guia de orações. Compramos. Ao voltarmos pra casa fui tentar rezar: peguei meu terço, meu guia de orações e li uma oração que havia lá. Li a mesma oração algumas vezes e depois fui dormir. Fiz isso por alguns dias, mas depois me senti desestimulado a fazer de novo: não tinha ligação alguma com a Igreja Católica, nunca havia ido a uma missa (só na cerimônia que ocorreu no velório – que não foi uma missa), não entendia nada daquilo tudo. Simplesmente me pareceu que não tinha sentido algum, e ninguém em minha família falou nada, nem quando comecei e nem quando parei – era algo indiferente a eles. Lembro bem que após rezar me sentia bem, aliviado, mas não sabia porque, e logo isso parou de acontecer. Nas últimas vezes que fiz essas orações já não me sentia bem, mas me forçando a fazê-las por que achava que já que tinha começado devia continuar. Mas pouco tempo depois parei sem me dá conta.

A igreja, a loja, o pedido

Olhando para este fato agora, percebo que o pedido não foi tão repentino assim: foi bem perto da morte de minha avó. É provável que a proximidade de sua morte tenha me deixado mais perto da fé sem que na época me desse conta disso. Lembro mais: a loja ficava bem perto da igreja em que ela ia assistir missa todos os domingos do ano; e foi perto bem dessa igreja que fiz o pedido. Descobri isso há cerca de dois meses, quando encontrei minha tia na praça onde fica essa igreja, e ela me contou. Na hora em que ela contava não liguei o pedido à igreja e à loja. Só agora percebo a ligação de todos esses pontos, e estou aqui rindo. Que alegria sinto em perceber que todos estes fatos estão ligados à figura de minha querida avó: a igreja, a loja, o pedido.

Conclusão da Parte I

Assim termina a primeira parte deste relato: estava com catorze anos, participando da crença espírita junto com minha família, pensando na morte de minha querida avó, procurando minha fé, procurando Deus.

Tinha chegado à porta da Igreja, mas no momento de entrar desisti.

Continua...