por Marcio Antonio Campos
Como tive oportunidade de dizer anteriormente, 2009 é o Ano Internacional da Astronomia por comemorar os 400 anos das primeiras observações de Galileu Galilei com a luneta. Por isso, é mais que oportuno destacar no blog um livro recentemente lançado no Brasil que pretende relatar, com riqueza de detalhes, os problemas que o astrônomo italiano teve com a Inquisição, e as circunstâncias que levaram a esses problemas. Galileu – Pelo copernicanismo e pela Igreja foi escrito por Annibale Fantoli, italiano nascido na Líbia, mestre em Filosofia e Teologia, e doutor em Física e Matemática. Lançado já há alguns anos em uma coleção do Observatório Vaticano, só agora o livro ganhou uma edição brasileira, pela Editora Loyola. É com essa obra que inauguro a seção Para sua biblioteca, que trará sugestões de livros sobre ciência e religião.
Mesmo quem não é familiar com a Astronomia pode tirar muito proveito da leitura, pois logo no início Fantoli explica a cosmologia aristotélica-ptolomaica (que colocava a Terra no centro do universo) e conceitos astronômicos como o de paralaxe (que será importante nas argumentações sobre a posição dos corpos celestes) de maneira bem didática. Mas o maior valor que eu reconheço no livro é o de derrubar vários mitos sobre o processo de Galileu. No dia em que saiu o resultado do vestibular da UFPR, resolvi fazer um teste e, enquanto esperava a festa aqui na Praça Carlos Gomes, perguntei a alguns vestibulandos o que eles lembravam daquilo que foi ensinado sobre Galileu no ensino médio. Apenas um estudante recordou algo: que Galileu tinha sido perseguido por dizer que a Terra era redonda!
Nem de longe pretendo que vocês substituam a leitura do livro pelo resuminho que vai abaixo. Mas alguns fatos sobre o caso Galileu precisam ser conhecidos e divulgados o quanto antes:
• O primeiro aspecto a ressaltar é que o sistema copernicano foi recebido com frieza. Poucos astrônomos aderiram ao heliocentrismo, e o maior deles à época, o dinamarquês Tycho Brahe, defendia um sistema em que a Terra ficava no centro, a Lua e o Sol giravam em torno da Terra, e o restante dos planetas girava em torno do Sol (p. 49-52).
• Alguns textos católicos sobre o caso Galileu argumentam que o De Revolutionibus, de Copérnico, não foi colocado no Índice de Livros Proibidos desde 1543, quando foi lançado, até 1616, e que isso representaria uma aceitação, ou ao menos uma tolerância, por parte da Igreja em relação ao copernicanismo. Fantoli discorda, mencionando que ao menos uma autoridade eclesiástica mostrou disposição em condenar o De Revolutionibus, mas morreu antes de conseguir seu objetivo. Quanto ao Papa da época, Paulo III, estava ocupado demais com o Concílio de Trento (1545-1563) e, mesmo depois disso, não havia por que se preocupar em demasia com uma teoria que era vista com ceticismo até pelos próprios astrônomos (p. 46).
• Isso nos lembra que o timing de Galileu foi o pior possível. No início do século XVII, a Igreja estava em plena Contrarreforma, uma época de retração em que novas teorias eram naturalmente vistas como suspeitas e os teólogos se agarravam com ainda mais firmeza aos textos da Bíblia e à interpretação dos Padres da Igreja. Para complicar, especificamente em 1632 (um ano antes da condenação de Galileu), o Papa Urbano VIII era acusado pelos espanhóis de não ser assim tão zeloso na defesa da fé – a acusação era feita dentro de um contexto mais amplo provocado pela Guerra dos Trinta Anos (p. 310). Talvez em outras épocas, de maior abertura e flexibilidade teológica, o copernicanismo fosse melhor recebido pela Igreja.
• Ainda assim, é preciso ressaltar que a Igreja não chegou a condenar o copernicanismo como herético. Em 1616, ele foi declarado "falso e totalmente contrário à Sagrada Escritura" (p. 206). Em 1633, a sentença de condenação (p. 365) retomou as formulações anteriores e considerou Galileu "suspeito de heresia" – embora para o senso comum pareça tudo a mesma coisa, em Teologia os termos têm significados diferentes. E de fato, se considerarmos uma interpretação totalmente literal da Bíblia, o copernicanismo seria mesmo realmente contrário à Sagrada Escritura, que tem trechos como "O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo." (Eclesiastes 1,5).
Continue lendo em: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/tubodeensaio/?id=857570
Como tive oportunidade de dizer anteriormente, 2009 é o Ano Internacional da Astronomia por comemorar os 400 anos das primeiras observações de Galileu Galilei com a luneta. Por isso, é mais que oportuno destacar no blog um livro recentemente lançado no Brasil que pretende relatar, com riqueza de detalhes, os problemas que o astrônomo italiano teve com a Inquisição, e as circunstâncias que levaram a esses problemas. Galileu – Pelo copernicanismo e pela Igreja foi escrito por Annibale Fantoli, italiano nascido na Líbia, mestre em Filosofia e Teologia, e doutor em Física e Matemática. Lançado já há alguns anos em uma coleção do Observatório Vaticano, só agora o livro ganhou uma edição brasileira, pela Editora Loyola. É com essa obra que inauguro a seção Para sua biblioteca, que trará sugestões de livros sobre ciência e religião.
Mesmo quem não é familiar com a Astronomia pode tirar muito proveito da leitura, pois logo no início Fantoli explica a cosmologia aristotélica-ptolomaica (que colocava a Terra no centro do universo) e conceitos astronômicos como o de paralaxe (que será importante nas argumentações sobre a posição dos corpos celestes) de maneira bem didática. Mas o maior valor que eu reconheço no livro é o de derrubar vários mitos sobre o processo de Galileu. No dia em que saiu o resultado do vestibular da UFPR, resolvi fazer um teste e, enquanto esperava a festa aqui na Praça Carlos Gomes, perguntei a alguns vestibulandos o que eles lembravam daquilo que foi ensinado sobre Galileu no ensino médio. Apenas um estudante recordou algo: que Galileu tinha sido perseguido por dizer que a Terra era redonda!
Nem de longe pretendo que vocês substituam a leitura do livro pelo resuminho que vai abaixo. Mas alguns fatos sobre o caso Galileu precisam ser conhecidos e divulgados o quanto antes:
• O primeiro aspecto a ressaltar é que o sistema copernicano foi recebido com frieza. Poucos astrônomos aderiram ao heliocentrismo, e o maior deles à época, o dinamarquês Tycho Brahe, defendia um sistema em que a Terra ficava no centro, a Lua e o Sol giravam em torno da Terra, e o restante dos planetas girava em torno do Sol (p. 49-52).
• Alguns textos católicos sobre o caso Galileu argumentam que o De Revolutionibus, de Copérnico, não foi colocado no Índice de Livros Proibidos desde 1543, quando foi lançado, até 1616, e que isso representaria uma aceitação, ou ao menos uma tolerância, por parte da Igreja em relação ao copernicanismo. Fantoli discorda, mencionando que ao menos uma autoridade eclesiástica mostrou disposição em condenar o De Revolutionibus, mas morreu antes de conseguir seu objetivo. Quanto ao Papa da época, Paulo III, estava ocupado demais com o Concílio de Trento (1545-1563) e, mesmo depois disso, não havia por que se preocupar em demasia com uma teoria que era vista com ceticismo até pelos próprios astrônomos (p. 46).
• Isso nos lembra que o timing de Galileu foi o pior possível. No início do século XVII, a Igreja estava em plena Contrarreforma, uma época de retração em que novas teorias eram naturalmente vistas como suspeitas e os teólogos se agarravam com ainda mais firmeza aos textos da Bíblia e à interpretação dos Padres da Igreja. Para complicar, especificamente em 1632 (um ano antes da condenação de Galileu), o Papa Urbano VIII era acusado pelos espanhóis de não ser assim tão zeloso na defesa da fé – a acusação era feita dentro de um contexto mais amplo provocado pela Guerra dos Trinta Anos (p. 310). Talvez em outras épocas, de maior abertura e flexibilidade teológica, o copernicanismo fosse melhor recebido pela Igreja.
• Ainda assim, é preciso ressaltar que a Igreja não chegou a condenar o copernicanismo como herético. Em 1616, ele foi declarado "falso e totalmente contrário à Sagrada Escritura" (p. 206). Em 1633, a sentença de condenação (p. 365) retomou as formulações anteriores e considerou Galileu "suspeito de heresia" – embora para o senso comum pareça tudo a mesma coisa, em Teologia os termos têm significados diferentes. E de fato, se considerarmos uma interpretação totalmente literal da Bíblia, o copernicanismo seria mesmo realmente contrário à Sagrada Escritura, que tem trechos como "O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo." (Eclesiastes 1,5).
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Um comentário:
Prezado,
Gostaria de indicações de livros sobre a Inquisição. Conheço aquele do Michael Baigent, mas é totalmente agressivo e claramente mentiroso, dado que os livros desse autor são sempre desonestos.
Por favor, queira enviar para meu e-mail lucasmendes14@yahoo.com.br
Abraço e obrigado,
Lucas
www.meucatolicismo.blogspot.com
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