sexta-feira, 17 de outubro de 2008

I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal: A arte de desconhecer

Vladimir Lachance

“A revolução ecológica formará a ossatura das revoluções — ideológica, religiosa, ética e cultural — veiculadas pela ditadura pedagógica”. [Pascal Bernardin]

Não sei se damos a devida atenção às questões ambientais, referentes à chamada ética ecológica e ao ativismo animal. Assistimos a uma intensa manifestação desses supostos valores, integrantes do discurso politicamente correto, a uma defesa exacerbada e aparentemente inocente de protetores dos bichos indefesos. O veganismo é um problema central nesse debate – e eu voltarei a ele em outros artigos onde isto será colocado em evidência –, eu mesmo tendo feito parte dele. Basta pontuarmos que enquanto ativismo político é uma ideologia a serviço de um socialismo absoluto e universal.

Para melhor compreensão da relação entre ecologia/ideologia/religião/política, recomendo a leitura:

A Face Oculta do Mundialismo Verde: http://www.olavodecarvalho.org/convidados/bernardin2.htm

O Império Ecológico e o Totalitarismo Planetário: http://www.olavodecarvalho.org/convidados/empeco.htm

O relato abaixo é apenas um comentário acerca do evento ocorrido na Ufba (entre os dias 8 e 10 de outubro de 2008), I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal. Como era de se esperar, esteve presente o costumeiro amadorismo que permeia as pesquisas acadêmicas relacionadas aos temas da Escola do Ressentimento. Trata-se da política do “feriu o meu bucho”: questionamentos encarados como ofensas pessoais e, principalmente, intimidação dos palestrantes devido à própria falta de conteúdo – resultando numa má vontade ad infinitum.

Não era minha pretensão participar deste evento. Mas, na quinta-feira, após a reunião do Grupo de Estudos Conservadores, na Biblioteca da Ufba, resolvi dar uma olhada rápida no que estava sendo debatido no congresso.

Parte I: Incentivo ao Terrorismo.

Assim que entrei no auditório em que estava ocorrendo as palestras, me deparei com uma diversidade enorme de slogans estampados em camisas e tatuagens. A maioria das pessoas parecia já participar de algum grupo ativista ou coisa parecida, com algumas raríssimas exceções.

Sentei na última cadeira e tentei me concentrar no que o primeiro palestrante dizia. Do que pude decifrar de suas falas consegui concluir que este fazia parte da Animal Liberation Front, um grupo de “ativismo animal” – leia-se terrorismo –, e sua fala ia nesse sentido: incentivando aos defensores dos animais a praticar “ecoterrorismo”.

Isso mesmo, terrorismo. Uma das falas mais distinguíveis foi: “se você puder colocar um bilhete na mochila do filho do vivissector*, dizendo que se ele não mudar de emprego vai seqüestrar a criança, será maravilhoso”. Outra: “Não podemos praticar ações que causem danos a animais humanos e não-humanos. Por exemplo, destruir os laboratórios durante a noite, quando não houver ninguém no local é uma boa opção, afinal a propriedade não sente dor”. Esquece-se que os seguranças destes locais trabalham durante a noite, e num provável incêndio que venham a praticar seriam estes as possíveis vítimas. Esquece-se também que ainda é crime no Brasil violar a propriedade alheia – falando disso de forma tão banal que parece que já vivemos numa espécie de coletivismo onde violar a propriedade não constitui nenhum tipo de dano. Ainda comentou uma ação terrorista em que os ativistas envenenaram grandes quantidades de um remédio para impotência, fazendo a ressalva de que a ação tinha sido amplamente divulgada e ninguém corria risco. Vocês acreditam mesmo que não havia risco nenhum?

Comentou também, indignado, sobre algumas ações terroristas “mal-feitas” em que bombas foram colocadas em áreas residenciais. Mas, quando se tratou destas ações o palestrante disse defender a tese de que foram “plantadas pela própria indústria para nos incriminar”. Um fato curioso foi o argumento que o palestrante usou para defender a libertação de animais que vivem em cativeiro. Foi o seguinte: “É melhor que esses animais tenham a oportunidade de viver a liberdade, mesmo que eles possam, por acaso, ser atropelados e morrer”. Digo curioso porque no mesmo congresso havia quase que consenso em favor da legalização do aborto, e o argumento usado pelo palestrante foi muito parecido com o das pessoas contrarias a legalização. A apresentação deste palestrante fechou com “chave de ouro”, mostrando um vídeo de uma ação terrorista em que não se dava para enxergar nada. A única coisa perceptível era que alguém estava tremendo muito com uma câmera na mão e num local muito escuro. Assim, encerrou-se o primeiro ato.

A segunda palestra foi dada por uma integrante do grupo Gato Negro**, de Minas Gerais. Esta conseguia ser mais radical que o nosso primeiro companheiro. A garota passou boa parte da apresentação mostrando slides com frases de efeito do tipo: “Você gostaria que fosse com você?” ou “Todos são contra a escravidão humana. E quanto a escravidão animal?”. Quando não era isso, as frases eram polêmicas, mas a palestrante fazia questão de passar rapidamente dizendo que não entraria em discussão (um simples botão “delete” enquanto organizava a própria apresentação teria nos poupado). No tema “animais domésticos”, a palestrante deu um show nos dizendo que era preciso castrar todos eles o quanto antes, pois eram fruto de um “erro histórico” [sic]. Ao contrário do nosso primeiro palestrante, ela não defendia que era melhor que esses animais tivessem oportunidade de viver, mas sim de morrer, o quanto antes, pois haviam sidos criados para fins humanos, e por isso nem deveriam existir. Foi realmente um espetáculo!

Ademais as palestras foram pura propaganda do veganismo. “Seja vegan você também” e coisas do gênero.

Parte II: Mudança de Hábito.

Depois das duas apresentações abriu-se espaço para “debate” e “questionamentos”. Interessante que os palestrantes possuíam posições antagônicas em relação aos animais domésticos e de cativeiro, mas nenhum dos dois fez questão de defender seu posicionamento. Depois de alguns segundos de silêncio, um rapaz, fardado com uma roupa camuflada, aparentando ser agente do Ibama - junto com muitos outros vestidos da mesma forma - levantou a mão para fazer uma pergunta. Dirigiu-se à integrante do Gato Negro: “Você realmente está dizendo que devemos extinguir os animais domésticos?”. A resposta monossilábica foi: “Sim”. O rapaz prosseguiu: “Existem animais em nossa fauna, atualmente, que não faziam parte da fauna nativa, mas que foram inseridos aqui por humanos, o que podemos caracterizar também como erro histórico, pois deveriam estar num habitat mais apropriado à sua espécie. Sendo assim, você acha que devemos matar esses animais também?”. A garota ficou desconcertada, dizendo que essa medida seria um “mal necessário”, pois a situação não poderia se perpetuar eternamente. O rapaz ficou bastante espantado com o tipo de argumentação que a palestrante usava, achando, ingenuamente, que ele é que estava ouvindo errado ou que tinha feito a pergunta de maneira incorreta, e a repetia. E de novo a resposta hedionda. O rapaz se cansou, mas então um senhor próximo a ele disparou uma metralhadora de palavras contra os palestrantes, chamando-os de radicais, dizendo que tudo aquilo era absurdo, que não fazia sentido, e pedia maiores esclarecimentos da parte deles. Ao que o primeiro palestrante, disse, não percebendo que estava se contradizendo: “É necessário que esses animais deixem de existir”. O senhor perguntou novamente: “E não existe outro jeito?”. Réplica: “Não, não existe”. E de repente, o palestrante diz que as perguntas estão encerradas e coloca um vídeo para passar sem que o debate se conclua. E foi assim que, em menos de meia hora, mais um ativista “pró-animais” resolveu que era certo matá-los.

Mas no campus, eles bem sabiam com o que estavam lidando; eles, os comerciantes, que encheram as barracas com camisas de Lula, de grandes ícones da Revolução Sexual dos anos 60 e bottons do PT; produtos alimentícios caros destinados aos rebentos da classe média alta que insistem em posar de oprimidos (os herdeiros legítimos do proletariado); e tudo o que puder ser confeccionado com a imagem de Che Guevara – e olha que o cara nem de hispânicos gostava, que dirá de animais!

*Vivissector - No jargão vegan significa: indivíduo que trabalha nos laboratórios que testam diversos produtos em animais.

**Gato Negro – Grupo pró-vegan de Minas Gerais.

7 comentários:

Luciana Lachance disse...

A parte externa do congresso foi a caricatura da América Latina; um mini Fórum Mundial... cheio de meninos e meninas da classe média bem intencionados. Hahhahhahahahha

Rafael Oliveira disse...

Chocante. Esses doentes da escola de veteránaria e biologia conseguiram inviabilizar os experimentos de aprendizagem que faziamos com os ratinhos na caixa de Skinner.

koji disse...

Olá Vladimir Lachance e Acarajé Conservador!

Meu nome é Koji Pereira e faço parte do Gato Negro de Belo Horizonte. Gostaria de esclarecer algumas coisas:
- Adoramos Salvador, parabéns pela cidade linda! O acarajé sem camarão vegano é ótimo!
- Vladimir, houve um grande equívoco, em momento algum a Fabiane, do Gato Negro, que deu a palestra falou que deveríamos matar animais (sejam eles silvestres, domesticados ou qualquer outra coisa). Na realidade, nunca proporiamos tal absurdo. Para nós o que é (um mal) necessário é a castração para animais domesticados, uma vez que estes nas ruas correrão o grande risco de serem pegos pela carrocinha e aí sim serem mortos através da câmara de gás ou injeção letal pelo estado. A Fabiane explicou também que a domesticação é um processo de dominação, onde animais são manipulados geneticamente e selecionados para serem nossos servos, seja para proteger a casa ou para ser companheiros "obedientes". Quanto a questão de outros animais exóticos, cada caso precisa ser estudado com cautela e não temos a resposta para tudo. Mas, na realidade nossa proposta primeira, e isso você entendeu bem, mas não explicou o "porque", é o veganismo. Simplesmente porque comer animais e derivados é uma violência que podemos parar agora mesmo. Uma vez que com o veganismo, diminuimos a demanda diretamente do uso de animais e ainda por cima podemos ganhar saúde e diminuir o impacto ambiental. Essa é uma ação pacífica e muito fácil de ser feita.
- Rejeitamos veementemente a violência como método de ação. Que fique claro, não apoiamos a ALF e outros grupos que usem da força para alcançar seus objetivos. Nosso foco é a educação pelo veganismo e achamos que apenas assim podemos mudar a realidade dos animais, hoje nossos escravos. Em geral acreditamos que a ALF faz é um desserviço ao movimento de direitos animais e estamos inclusive preparando um slide show sobre isso.

Parabéns por publicar sua opinião sobre evento em seu blog, essa discussão é essencial.

Leia mais em:
www.gato-negro.org
www.direitosanimais.org

Vibrato disse...

Bom! eu naum consigo ser taum sangue de barata e manter a calma q nem Koji ai do gato negro.

Vladmir, acho q vc n entendeu muitas coisas nas palestras q vc disse q viu. E na minha opnião tentou direcionar sua resenha para um convencimento de q o evento foi uma merda gerido por pessoas q n sabem uq fazem...

n gosto da forma q vc passou a pensar, na verdade naum gosto nu q vc se tornou. mas qnt a isso n tenhu nada a ver! e por mim continuo falando com vc qnd encontrar, e esse tipo de coisa... mas, mais uma vez axei apelativa sua forma de expressar uq pensa!

poderiamos promover um debate com seu grupo conservador e com algumas pessoas q naum querem q os animais continuem como escravos dos seres humanos!!

Rodrigo

Luciana Lachance disse...

Vlad,
Rodrigo propondo um debate com você? Se eu bem me lembro, ele abandonou a discussão sobre aborto sem mostrar nenhum argumento [assim como fez TODOS os seus colegas, provavelmente esses que ele inclui nesse "poderíamos"], sem nem se dar ao trabalho de esclarecer o que havia dito anteriormente. Total perda de tempo aceitar debates com pessoas que não aguentam nenhuma pergunta como aperitvo; que ofendem as pessoas gratuitamente [na discussão sobre o aborto sim, pudemos ver tamanha apelação]; pessoas que, em suma, não tem como honrar o próprio debate que elas propõem.

Anônimo disse...

Olá!

Sou vegetariana, não ativista e estava no Congresso, certamente sou uma daquelas que vc incluiu nas raríssimas exceções. Foram quatro de dias de uma rotina incessante de palestra de pessoas dos mais variados lugares e com bases e argumentos completamente diferentes. E mesmo que assim não fosse, o fato de serem militantes de uma mesma causa,não os obriga a pensar uníssonamente. Pelo o que me parece vc assistiu apenas duas palestras e delas tirou suas conclusões acerca do congresso. Concordo com você em relação às primeiras palestras citadas, também achei aquela mesa um desastre, e a palestra do Dr. George Guimarães me decepcionou muito, pela falta de coerência e por uma certa deferência às ações da ALF, que também concordo têm um "quê" de terrorismo.Me surpreendeu, inclusive ele ser palestrante sobre desobediência Civil, uma vez que ele é nutricionista (muito bom na área dele, por sinal!)e não me parece ter o domínio necessário do assunto para palestrar sobre o mesmo.

Acredito que aquele era um espaço de discussões (ainda que algumas não tenham sido tão proveitosas)e não uma assembléia representativa. Não me senti ferida no meu vegetarianismo por não concordar com aqueles que palestravam. O ativismo, como ele é praticado, é inclusive incoerente com a causa vegetariana, afinal não acredito ser possível defender com violência (entendendo-se a violência de forma abrangente que vai desde o discurso até as ações) uma causa de amor. Entendo também que condenar e repudiar quem o faz, pelo simples fato de discordar fere um outro princípio que é anterior à causa animal e a qualquer outra causa: o respeito! Outras palestras mais coerentes e fundamentadas também foram ministradas. Pessoas com domínio do arcabouço teórico e que sabiam o que estavam dizendo. Exemplo disso é o Dr. Laerte Levai (MP-SP), que foi de uma coerência e lucidez fora de série, e mostrou que é possível fazer uma defesa do "direito animal" sem se fazer necessário estar à margem das leis. Sem falar em animal como sujeito, nem em ação direta e desobediência civil, transgredindo com uma elegância digna dos grandes. Poderia citar também as palestras do Steven Wise, Gary Francione, Marti Kheel, dentre outros.

Tenho muito medo das generalizações e dos radicalismos, pq elas sempre geram algum tipo de mal entendido. E tentar ridicularizar uma causa por conta de um ou outro militante da causa me parece no mínimo, injusto.

Quanto à tenda de camisetas, foi muito engraçado você tocar no assunto, pq tb estranhei a presença dela no Congresso por não ver muita relação entre as dicussões do Congresso e as camisas de Che Guevara. Depois do Congresso encontrei a mesma tenda em outros lugares como na "festa da paz" na UCSal. Me pareceu muito mais um "mapeamento" do dono dela que algo realmente ligado à causa vegetariana. Te juro que não vi ninguém vestido naquelas camisetas!

Acho que por enquanto é só isso!!

Um abraço!

Edu disse...

Olá, Vladimir, bom dia.

Respondendo a sua inquietação inicial - “Não sei se damos a devida atenção às questões ambientais, referentes à chamada ética ecológica e ao ativismo animal” - creio eu que não. Não damos a devida atenção.

Os motivos, entendo, são os mais diversos. Possivelmente o mais relevante esteja no fato de que tudo aquilo que é banalizado e constituiu um ato dito cultural de uma determinada sociedade, seja válido. Felizmente, há indivíduos que fazem voz de contestação. Ao longo da história esses indivíduos conseguiram confeccionar uma sociedade que rompesse com padrões fenotipistas, sócio-econômicos e sexistas de apropriação. Esses “valores” não foram extintos, mas sua reprodução é hoje vista com repúdio pela grande maioria de nós, ditos civilizados.

Lamento a sua falta de interesse no Congresso, mas compreendo. É uma temática que, a exemplo daquelas históricas e atemporais, rompe com um padrão onde nos sentimos confortáveis em reproduzí-los. Por que pensar nos pretos se sou branco? Por que pensar nos empregados se sou patrão? Por que pensar nas mulheres se sou homem? Por que pensar nas demais espécies se sou humano? Quando você proferiu “Não era minha pretensão participar deste evento. Mas, (...) resolvi dar uma olhada rápida no que estava sendo debatido no congresso”, você, infelizmente, fechou uma porta que lhe estava aberta. Eu procuro estar sempre inteiro em qualquer lugar que esteja, pois estou simplesmente me dando a possibilidade de apre(e)nder algo com o qual não tenha, necessariamente, familiaridade. Fica como conselho, não necessariamente para refletir sobre a conduta humana perante as demais espécies, mas em qualquer âmbito da vida.

Tenho opinião contrária a muito do que foi dito naqueles quatro dias de congresso, mas pude captar muitas idéias com as quais criei profunda identificação nos ideais de justiça, paz, amor, retidão e não-violência. São termos dos quais a sociedade neo-liberal vem se distanciando seja na linguagem, seja no agir ou mesmo no pensar. Os reflexos desse distanciamento estão na própria configuração social, espelho da nossa mente.

Acredito que se deixarmos aflorar esses valores em nós, e resolvermos democratizá-los a todos os seres que, assim como nós, são capazes de experienciar alegria, prazer, dor e sofrimento, o veganismo floresceria automaticamente como auto-regra de conduta. Um compromisso ético pessoal em consonância a uma consicência da responsbilidade.

Abraços.