terça-feira, 7 de outubro de 2008

Nossa Senhora do Rosário da Vitória de Lepanto

Recordando Lepanto
por Michael Novak
Publicado em 06 de outubro de 2006

O futuro autor da obra “Dom Quixote”, Miguel de Cervantes (1547-1616), serviu num dos navios cristãos no que chamou da maior batalha naval da história e a mais importante, naquela época, para a segurança de Europa.

Os turcos reuniram uma frota enorme para invadir a Itália. As preparações começaram a ser relatadas muitos meses antes. Era o ano 1571, quando uma frota turca reuniu-se próximo a um porto da Grécia, não muito longe do golfo de Lepanto.

Por mais de um ano, o Papa Pio V tentou alertar os poderosos da Europa da eminente ameaça. Mas a Inglaterra, a França, e os poderes regionais do que mais tarde se transformou na Alemanha estavam preocupados com os tumultos da Reforma Protestante.Somente Dom Juan da Áustria (1547-1578), filho bastardo do rei da Espanha, ficou agitado com o perigo. Apesar da juventude e da posição modesta, Dom Juan enviou para outros reinos requisições urgentes para reunir uma frota resistente, equipada com as novas tecnologias de guerra inventadas no ocidente – produzidas em massa rapidamente por estaleiros e pela incipiente indústria de armamentos do que posteriormente passou a ser chamado “capitalismo ocidental”.

Reuniu frotas de Veneza e de Gênova, da Espanha, e dos Cavaleiros de Malta. Com determinação, e abençoada pelo Papa Pio V, esta pequena frota saiu pelos mares para alcançar a armada turca antes dela deixar as águas da Grécia.Os venezianos, no flanco esquerdo da linha de batalha, foram especialmente passionais. Não muito antes, os turcos atacaram um porto de ilha mantido pelos venezianos (e outros) de modo tal que o comandante veneziano, Marcantonio Bragadino, pediu trégua.

Os turcos prometeram a ele e a seus homens passagem segura – fizeram-lhe prisioneiro, bateram-no, cortaram seu nariz e as orelhas, puseram-lhe coleira, e o fizeram rastejar como um cão diante do exército conquistador. Numa pequena gaiola, ele foi içado acima no mastro do navio de modo a que todos na frota e em terra o pudessem ver. Então, foi abaixado, esfolado sem dó, e a pele foi tirada de seu corpo com cuidado enquanto morria (mais tarde sua pele foi preenchida com palha e mandada para Constantinopla como um troféu).

Os milhares de venezianos e os outros foram assassinados no local, ou mantidos em cativeiro para o serviço nos navios turcos ou em haréns.Mas outros elementos das frotas cristãs também estavam irritados. Por décadas, os turcos tinham usado sua quase supremacia no Mediterrâneo para realizar constantes invasões nas comunidades cristãs próximas ao mar, carregando jovens mulheres e homens para os haréns, bem como levavam os homens mais fortes para os navios.

Certamente, muitos dos escravos dos navios remavam os navios da frota turca que navegavam orgulhosos e confiantes no golfo de Lepanto eram cristãos capturados desta e de outras maneiras. Viviam com fome, eram espancados, e ficavam em meio aos próprios excrementos, mas continuavam fortes o bastante para puxar os grandes remos a que estavam acorrentados. Com furor, abaixo das plataformas, alguns destes escravos dos navios tentavam romper as correntes uma vez que a batalha começasse. Alguns finalmente conseguiram, e saíram do convés inferior balançando as correntes, ferindo ainda mais os marinheiros muçulmanos que já estavam em batalha.

Duas das maiores forças navais jamais reunidas – duzentos e oitenta navios na armada turca, e uns duzentos e doze navios do lado cristão – se avistaram na brilhante manhã do dia 7 de outubro. O almirante turco, Ali Pasha Moezzin, estava tão confiante que navegava orgulhosamente no centro de sua armada, trazendo em embarcações menores toda a sua fortuna e até mesmo uma parte de seu harém.

Os historiadores dizem que por toda a Europa pairou uma sombra de morte. Poucos tinham esperanças de que a frota cristã pudesse evitar a fatalidade que parecia rondar a Itália. O Papa Pio V tinha incitado todos os cristãos à recitação diária do rosário em benefício da brava tripulação dos navios cristãos. O rosário é uma prece simples que pode ser feita em quase todos os lugares, e já tinha alcançado alguma popularidade entre povos humildes. Em cada dezena de Ave-Marias ensinaram-lhes a refletir sobre um evento diferente da vida de Jesus. As contas corriam pelos dedos, como o sangue corre pelo corpo, tão regular quanto o bater do coração e o ar nos pulmões.

Para encurtar a história, Don Juan apontou seu próprio navio diretamente no coração da armada turca, mirou nas velas coloridas do navio de Ali Pasha Moezzin, que tinha uma grande bandeira verde com o nome de Alá inscrito vinte e oito mil vezes em ouro. As embarcações venezianas avançavam ferozmente pela direita turca, e com a ajuda dos escravos revoltosos dos navios destruíram esse flanco. Seis das maiores embarcações cristãs tinham sido equipadas com uma plataforma elevada acima dos níveis normais, onde foram postas fileiras de canhões devastadores. As explosões destes canhões novos intimidavam, e em minutos eles afundaram dúzias de navios turcos. O mar, segundo testemunhas, ficou coberto de marinheiros mortos, turbantes flutuando, bem como pedaços de madeira e de velas.

A paixão para defender a própria civilização contra os cruéis invasores também fortaleceu os músculos daqueles que se empenharam numa luta sangrenta, violenta e com os punhos, quando as embarcações emparelhavam. Mas foi principalmente o novo poder de fogo da frota cristã que, apesar de ser menor, afundou rapidamente navio após navio até, que poucas horas depois, o centro da frota turca desmoronou completamente. O navio do almirante foi capturado, juntamente com duzentos e quarenta outros navios turcos. Somente no outro flanco algumas embarcações cristãs hesitaram, aproximaram-se do inimigo sem entusiasmo, e ainda assim ocorreram deserções das outras embarcações. Embora tenham ocorrido alguns atos de heroísmo, um grande número de embarcações turcas escapou por uma falha na linha de batalha.

A vitória cristã foi mais completa do que qualquer um tinha sonhado. A vitória pareceu a muitos, miraculosa, e a vitória foi atribuída imediatamente a Nossa Senhora Rainha do Rosário – que logo viria a ser chamada por um título novo, Nossa Senhora Rainha da Vitória. Por toda a Europa, de cidade em cidade, os sinos das igrejas soaram incessantemente quando chegou a notícia da impressionante vitória. Desde então, o dia 7 de outubro é comemorado pela igreja católica como um dia da festa.

Os enormes cômodos dos palácios da Europa meridional ficaram abarrotados de imensas pinturas comemorando os episódios dessa batalha épica. Toda a Europa, dizem os historiadores, suspirou de alívio e gratidão. Era como se uma nuvem opressiva tivesse sido levantada, escreveram alguns. O jornalista e escritor G. K. Chesterton (1874-1936) escreveu um vigoroso poema épico sobre o grande evento, uma magnífica obra para ser lida pelos jovens – e mesmo pelos adultos.

Já que Osama bin Laden e outros citam frequentemente estas batalhas, para a qual ainda está buscando vingança, não é de todo mal que os povos do ocidente as recordem. Além do dia 7 de outubro de 1571 – a grande vitória do calvário polonês de Jan Sobieski (1629-1693) sobre os turcos, às portas de Viena, em 11 e 12 de setembro de 1683, merece ser lembrada. Mas houve outras grandes batalhas – algumas vitórias e algumas derrotas – num período de mil anos que ainda estão vivos na memória do ocidente, ou deveriam estar.

Tradução de Márcia Xavier de Brito

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