sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Considerações sobre o veganismo.

Vladimir Lachance
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Já que o texto do I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal levou algumas pessoas a tecerem considerações interessantes acerca do assunto, sinto a necessidade de escrever uma defesa de como penso o vegetarianismo – veganismo, ou qualquer ramificação do tipo – e suas implicações. Como Luciana Lachance mencionou, um texto da autoria de Túlio Xavier chegou às nossas mãos, e o título da “réplica” apresentada por ele foi: “A arte de deturpar”, onde dizia que aquilo que presenciei não havia acontecido de tal forma, mas ele só poderia saber disso se não tivesse aparecido apenas no momento das perguntas; durante o período em que os trabalhos foram apresentados, ele passou a maior parte do lado de fora da sala, conversando. Como ele mesmo não se fez presente, foi incapaz de refutar os pontos que não tem certeza se realmente aconteceram, de maneira que sua ressalva defendia o congresso como um todo, cheio de “doutores, mestres, e graduandos”, impossíveis de serem medíocres, em sua opinião, graças ao “santo” diploma, como se isso fosse atestado de competência ou legitimidade. Peço a Túlio maior atenção aos links que recomendei no texto anterior, pois o site é de um filósofo brasileiro que não tem formação acadêmica alguma, mas que é o melhor filósofo brasileiro vivo, na minha opinião, e de muitos outros; aí também ele poderá encontrar “de onde eu tirei” que o veganismo “é uma ideologia a serviço de um socialismo absoluto e universal”. O ato em si de não comer alimentos de origem animal não torna ninguém melhor ou pior, nem eu me incomodaria com a dieta de quem quer que seja, a menos que eu fosse um nutricionista. Não há problema algum em São Francisco de Assis ter decidido que não devia comer nada que viesse de animais, assim como também não há nada de errado em São João Batista comer gafanhotos. O problema é transformar uma escolha dessas numa ideologia que pretende ser mais que uma simples decisão de não colocar na boca um pedaço de carne, e transformar quem o faz em algoz.

Olhar um pouco para essa discussão é importante, até porque eu não sou a única pessoa que faz criticas ao movimento. Fui vegetariano por quase um ano, e o que me incomodava constantemente era a incoerência do discurso verde, o fato de que o veganismo não se sustenta. Túlio defende que “veganismo e ativismo são coisas diferentes, dizer o contrário é papo furado, qualquer pessoa pode ser, e muitas são, vegans sem serem ativistas políticas”. Segundo sua própria definição o vegetariano é aquele que não come nenhum derivado de animal, ao passo que vegan surgiu como contraponto a vegetariano, pois além de compartilhar a mesma dieta “abstêm-se do consumo de qualquer coisa que implicou ou implique em sofrimento a animais – carnes, ovos, leite, mel, lã, couro, produtos testados em animai, rodeios, etc”. Ora, se o vegan não é apenas aquele que decide adotar certa postura alimentar, mas quem, através das ações pretende eliminar a exploração animal como um todo, este é o momento em que se torna muito tênue a linha que separaria o veganismo do ativismo político. Alguém cujo paladar é bastante peculiar pode não se interessar por nenhum alimento de origem animal, mas considero política a decisão de se abster destes, tendo em vista uma posição pretensamente moral (defesa dos animais). Quando um vegan decide não comprar um determinado produto porque a empresa faz teste em animais, esta conduta é necessariamente política. Acho que Túlio confundiu o termo ativista político com terrorista. O ativismo, qualquer que seja, é uma forma de engajamento, e os vegans são engajados - eles defendem a causa que abraçaram. A definição de vegan, aliás, como alguém que se abstêm do consumo de qualquer coisa que implique sofrimento aos animais acaba se esgotando, uma vez que é impossível ao ser humano atingir tal plenitude: Túlio teria que abrir mão do próprio computador em que digitou esta resposta. Levando isso em conta, talvez os vegetarianos estejam em melhor situação.

Meu texto sobre o congresso também foi discutido na lista de e-mails “Veg-Brasil”, e lá não foi encarado como um manifesto anti-vegetariano, e nem as pessoas se sentiram ofendidas por ele, pelo contrário, os vegetarianos de lá concluíram que o congresso deveria ter sido mesmo “borocochô”, para usar um termo do membro Claudiney Morais (vejam os comentários aqui). As pessoas desta lista conseguiram fazer a diferenciação entre o quão caricato um congresso pode ser e o que poderia ser algo contra elas enquanto indivíduos. A julgar pela frase de Túlio no texto - “É praticamente impossível viver sob o sol capitalista sem infligir dano ao mundo em que vivemos”-, nós já sabemos para quem as barracas com camisas de Che Guevara foram montadas no evento. Seu discurso didático o levou a um reducionismo simplório da palavra radical remetendo seu significado apenas a etimologia, propondo que hoje o termo seja interpretado como era antes de Cristo: algo como ir à raiz, “que busca a origem do problema”. Partindo do pressuposto que radical realmente significa apenas isso, podemos representar a raiz da civilização ocidental remontando às origens do Cristianismo. Nesse sentido, posso ser radical, posto que busco ir até esta raiz para regá-la a fim de que ela se expanda e possa se firmar, mantendo a árvore, que é o Ocidente, de pé. Já radicais como Túlio querem ir até a raiz para cortá-la, como se se tratasse da origem do problema, sem perceber que cortando a raiz ele derruba a árvore inteira. Túlio ignora o próprio didatismo ao afirmar que “Gandhi era radicalmente contra a violência”. E não é mesmo necessário que eu faça uma biografia do movimento vegan – como ele nasceu, se desenvolveu, etc. -, mesmo porque eu não preciso ir na raiz deste problema, pois como ensina Nosso Senhor: é conhecendo os frutos que se conhece a árvore.

Para Koji e Dona, que deixaram comentários no meu texto anterior, espero ter esclarecido alguns pontos com o que expus acima. Agradeço as contribuições, e considerei suas opiniões pessoais sobre o congresso – na verdade cada pessoa pode ter interpretado de uma maneira diferente e aquela foi a minha. Para Edu, que também deixou um comentário, sugiro a leitura do texto: Patrulha Ideológica, pois sua mensagem tem alguns pontos parecidos. O texto de Luciana acima do meu, aliás, poderia ajudá-lo quando ele se refere às preocupações de negros, brancos, mulheres, empregados, patrões.

* Quando estava na cozinha começando a elaborar este texto ocorreu um fato engraçado: na sala, uma criança, vizinha daqui, fazia o dever de casa e lia para minha sogra a Declaração Universal dos Direitos dos Animais presente no seu livro didático. Pedi o livro para averiguar uma suspeita: pois bem, minha suspeita foi confirmada quando, ao olhar o índice do livro, descobri que essa criança estava aprendendo primeiro que os animais tinham direitos, para só depois vir a descobrir que ela também tinha algum.

Um comentário:

koji disse...

Vladimir,

O que é preciso entender é que o veganismo é uma forma de boicote ao uso de animais. Isso tem uma dimensão política, claro, porém por mais que eu não seja conservador, é preciso esclarecer que o veganismo é baseado em ética, não em posições políticas.

O vegetarianismo que fala, sem dúvida é o ovo-lacto-vegetarianismo, aquele que só não consome carne, mas como ovos e leite, por exemplo. Este é provalvemente por saúde unicamente. A lista veg-brasil, provavelmente - e eu faço parte desta também - é composta por ovo-lacto-vegetarianos em sua maioria.

Quando o Túlio disse que o veganismo não é um movimento uniforme ele quis dizer as pessoas adotam o veganismo por motivos diferentes. Claro que todas as pessoas de alguma forma acreditam que os animais não devem ser explorados, mas isso não faz do veganismo uma ideologia, penso eu. Há muitas divergências entre veganos, há bem-estaristas e há abolicionistas (que lutam por direitos animais).

Nosso grupo, por exemplo, o Gato Negro, acredita na abordagem de direitos animais (o que é diferente de direito animal, isso já é outra coisa...). Acreditamos que os animais não deveriam ser usados como meios para fins humanos, independentemente dos benefícios gerados para terceiros, pois são seres dotados de senciência, a senciência, capacidade de sentir pelo menos dor e prazer é o que gera interesses ou preferências. Os animais não querem morrer, sofrer, é fato que preferem viver suas vidas e traçar seu próprio destino. Animais sentem dor e querem evitá-la a todo custo, e a morte é a consequência desta dor, que querem igualmente evitar. Assim como acreditamos que os seres humanos não deveriam ser usados. Isso é ética e está bem além de posicionamentos de direita ou esquerda, acredito que praticamente qualquer pessoa pode apoiar os direitos animais e veganismo, independente de opção religiosa, política ou qualquer outra coisa. Note que os direitos animais também não tem agenda política definida, não existe qualquer menção sobre o que deve ser instituído ou derrubado, na realidade a única coisa que essa corrente acredita que é necessário abolir é o status dos animais como propriedade.

Por outro lado há bem-estaristas como a PETA citada em outros textos do seu blog, estes divulgam que os animais podem ser usados de alguma forma, desde que traga um bem maior para humanidade ou para outros animais. Por isso a PETA mata animais, como ela parte de um preceito utilitarista, ela acredita que os animais preferem morrer a ter qualquer outra chance de sobrevivência nas ruas. Eles não consideram a morte algo tão ruim. Para os abolicionistas, por outro lado, a vida dos animais pertence a eles e nada deveria ousar tomá-la.

Há ainda os ambientalistas ao velho estilo que nem bem-estaristas são. Esses não ligam pros animais de fato, como indivíduos, e sim querem preservar as espécies, em geral para que elas possam ser usadas em algum momento. Aí temos a WWF, Greenpeace, etc...

Volto a repetir, nosso movimento de direitos animais está numa luta primordialmente educacional e PACÍFICA. Não vejo como a ALF pode representar os interesses abolicionistas, uma vez que faz contra-propaganda ao invés de divulgar o veganismo. A luta pelo veganismo é uma luta não-violenta, pois luta pelo fim da violência contra os animais.

PS: Não sou nem um pouco conservador, mas não quero passar uma falsa impressão sobre o que é direitos animais. Acredite há conservadores veganos sim.

Abs
Koji

http://www.gato-negro.org
http://www.direitosanimais.org