Pedro Ravazzano
A Teologia da Libertação é responsável direta pela destruição de séculos de trabalho missionário. A naturalização do sobrenatural, somada a uma análise materialista da fé, propicia a corrupção do sentido da conversão. Tamanho relativismo reduz todo o cristianismo a um mero assistencialismo onde não há necessidade de oração, penitência e mortificação. Cristo, dentro dessa leitura, não pediu a conversão e a crença evangélica, mas sim uma luta pelo bem e justiça social. Como disse o folheto “O Domingo”; "A páscoa de Jesus se realiza nos grupos e pessoas que, independentemente de credos, se doam em favor dos pequenos e procuram realizar o bem em meio à sociedade."
O trabalho missionário parte de uma compreensão honesta da fé, um entendimento sensato dos ensinamentos de Cristo, do amor ao próximo e no cumprimento do pedido de Nosso Senhor; “Ide e anunciai o evangelho a toda criatura.” A Teologia da Libertação (TL) reduz o anuncio do evangelho a uma ótica materialista, enxergando na religião a ferramenta de libertação social, daí que a “justiça social” e “fazer o bem” sejam os dogmas absolutos da fé. Obviamente, para uma noção tão simplória da crença, Cristo não precisaria da Encarnação, Crucificação e Ressurreição, muito menos fundado uma Igreja. Ademais, toda a religião católica parte da premissa básica de que perpetua os ensinamentos de Nosso Senhor – seria estupidez máxima crer em algo que sabe não ser de Deus, mas dos homens. Assim, a Eucaristia, o Papa, a Virgem SS etc, não são simples realidades doutrinárias acidentais, mas frutos diretos da mensagem deixada por Jesus.
Em concreto, o amor de Deus é misericordioso, e essa misericórdia se encarna na doutrina, justamente por ser esta um caminho objetivo de salvação. Seguir Jesus é seguir tudo aquilo que Ele nos deixou, afinal, é no Seu legado que entendemos a Sua mensagem. Ora, se cremos que a doutrina católica veio de Cristo e reconhecemos a necessidade de seguir a Cristo nos Seus ensinamentos, como colocar em terceiro plano a importância da fé na Igreja Católica? Podemos ir além. A prática maior do amor ao próximo se faz na pregação da Verdade, já que é o gesto máximo de caridade ao homem; mostrá-lo a Cristo. Se reconhecemos os ensinamentos católicos como originados diretamente do coração de Jesus, e sabemos que a comprovação do nosso amor ao próximo se faz na apresentação da Verdade, como, então, desmerecer a necessidade da conversão? Ou nós não amamos, de fato, o próximo - portanto não queremos apresentá-lo a Cristo – ou, então, não cremos na doutrina católica como originada no Senhor – logo, como nos consideramos crentes?
A redução feita pela TL é total e absoluta. A Eucaristia, a Virgem SS, o Papado etc, são pontos secundários da fé se comparados com a necessidade de praticar a “justiça social”. Além da verdadeira justiça se originar em Cristo e na Sua mensagem, toda a doutrina não se contrapõe ao amor de Deus. Tamanha falácia parte de uma compreensão relativista onde doutrina - e até mesmo a simples palavra “doutrina” – é interpretada como uma imposição férrea e fundamentalista da fé. Ora, não seria, justamente, o contrário? A doutrina é fruto da caridade de Cristo, um guia prático de salvação, muito mais edificante do que a ótica subjetivista que impera, onde ninguém sabe ao certo como viver o Evangelho, onde cada indivíduo segue uma fé particular e pessoal, distante da universalidade pretendida por Deus.
Dom Edson Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira, afirmou, em reportagem ao Jornal Nacional, que “São os índios que estão vivendo como viviam os primeiros cristãos que tinham tudo em comum, nós é que temos que nos converter a eles”. Agora é a Cruz que deve ser submetida aos chocalhos e flautas de Tupã? Esse é o relativismo em grandes proporções, não mais a conversão é desnecessária como agora somos nós, cristãos, que devemos nos paganizar. Ademais, vale frisar que, como destacou Jorge Ferrar no Deus lo Vult!, “Para afastar os maus espíritos, Sua Excelência parece preferir o Yaigê às orações católicas; para ser coroado no dia de sua sagração, Sua Excelência parece preferir um cocar indígena a uma mitra católica. Parece preferir o paganismo ao Evangelho”
Obviamente, o Bispo tem pleno entendimento acerca do caráter relativista e herético de tais afirmações. De fato, a sua insistência no modernismo é consciente e intencional. Dom Edson, mui provavelmente, deve conhecer a brilhante explanação feita por S.S João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio; “uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida, infelizmente também entre os cristãos, freqüentemente radicada em concepções teológicas incorretas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a pensar que « tanto vale uma religião como outra »...”
Além dos graves problemas doutrinais oriundos dessa postura relativista, que, logicamente, subentende um demérito a toda a crença católica, ainda há o choque com a própria história da Igreja e a vida espiritual. Gostaria de pontuar, nesse tocante, o testemunho da Sociedade de São Francisco de Sales no empenho do trabalho missionário. A diocese de São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, foi fundada e erigida por Sacerdotes filhos de Dom Bosco. Dom Edson, o Bispo do Cocar, é o primeiro não-salesiano feito Pastor daquelas terras. Desde cedo o Santo fundador alimentava o desejo de partir, para terras inóspitas, na pregação do Evangelho. Dom Bosco sonhava em poder caminhar com alguns missionários, apenas sustentados na fé em Cristo, mas a sua saúde e os enormes afazeres na Europa, com uma Congregação recém fundada, o impedia. Entretanto, logo tendo oportunidade enviou para a América aqueles que se tornariam peças fundamentais na propagação da fé nos países do Novo Mundo. Vejamos o relato feito por Dom Bosco do seu profético sonho:
Os sonhos de Dom Bosco profetizavam o esplendor da sua Congregação. Ademais, eram sinais claros da origem Divina dos anseios mais profundos da Sociedade de São Francisco de Sales. Afirmar, como é comum hoje em dia, que o trabalho missionário é desnecessário e inoportuno – falo de verdadeiro trabalho missionário que visa à conversão – se choca com a doutrina da Igreja e com a ação do Senhor na história. Os sonhos de Dom Bosco seriam falsas criações de mentes ultramontanas, refletindo apenas uma realidade temporal? Então a Virgem Santíssima se enganaria nas suas promessas feitas ao Santo?
Vejamos o teor de outro sonho, relatado por A. Auffray SDB na biografia de Dom Bosco, “A divina Pastora que aos nove anos lhe tinha feito ver com clareza a sua futura missão, mostrou-lhe nessa noite os pontos principais do caminho que iriam percorrer os seus missionários. Num instante sua fantasia foi transportada ao pé das Cordilheiras, a Santiago e a Valparaiso; de ai ao coração mesmo das matas da África; finalmente a Pequim, a capital do Celeste Império! Por mais robusta que fosse a fé de Dom Bosco, era difícil acreditar tais maravilhas. Evangelizar extensões tão grandes! Vencer tantos obstáculos! Percorrer espaços enormes! e com um exército tão exíguo e com meios tão. escassos! Não! Era um sonho apenas e nada mais! Porém a Dama misteriosa acalmou-lhe os receios: "Não temas disse-lhe ela. Não sómente os teus filhos, mas os filhos de teus filhos realizarão estes prodígios" Nesse sonho a Virgem mostra ao Santo os belíssimos frutos da sua Congregação; a conversão dos povos e das raças. Ainda promete que tais “prodígios” seriam perpetuados por todos os seus filhos.
Comparemos, nesse instante, a doutrina da Igreja e os sonhos de Dom Bosco com o posicionamento da Teologia da Libertação e o seu relativismo. Se somos católicos – e somos livremente – é porque cremos que a Igreja, enquanto instituição fundada por Cristo, reflete os ensinamentos deixados por Nosso Senhor. Entretanto, mesmo as revelações privadas não sendo de crença obrigatória, exprimem um caráter sobrenatural. Assim, se as experiências de Dom Bosco foram originadas em Cristo – e assim a Igreja acredita – reproduzem a imutabilidade inerente a Deus. Ou será que alguém crê que o Senhor transmite ensinamentos mutáveis e falíveis, escravos do tempo?
De um lado temos o Evangelho e a Igreja e, do outro, Bispos e religiosos relativistas. De um lado uma conversão sincera, com prática de oração e vida sacramental, do outro lado a práxis “evangélica” perpetuada na manutenção de crenças pagãs e no discurso assistencialista.
Quando Monsenhor Cagliero voltou da Patagônia, levou consigo uma jovem indígena convertida. No leito de morte, Dom Bosco experimentou uma sublime alegria. Não podendo ir até as terras de missão, o seu filho trouxe um fruto dos trabalhos salesianos em solo argentino. A jovenzinha, ajoelhada aos pés do Santo, falando um italiano carregado de sotaque, disse; "Pai, eu vos agradeço por terdes mandado vossos missionários para salvar a mim e a meus irmãos" Dom Bosco, extremamente comovido, verteu lágrimas de regozijo, lágrimas de caridade e de puro amor! Ele sabia que havia cumprido a sua tarefa na terra!
Infelizmente, essa é uma experiência que D. Edson Damian nunca vai passar! Afinal, para que converter?
A Teologia da Libertação é responsável direta pela destruição de séculos de trabalho missionário. A naturalização do sobrenatural, somada a uma análise materialista da fé, propicia a corrupção do sentido da conversão. Tamanho relativismo reduz todo o cristianismo a um mero assistencialismo onde não há necessidade de oração, penitência e mortificação. Cristo, dentro dessa leitura, não pediu a conversão e a crença evangélica, mas sim uma luta pelo bem e justiça social. Como disse o folheto “O Domingo”; "A páscoa de Jesus se realiza nos grupos e pessoas que, independentemente de credos, se doam em favor dos pequenos e procuram realizar o bem em meio à sociedade."
O trabalho missionário parte de uma compreensão honesta da fé, um entendimento sensato dos ensinamentos de Cristo, do amor ao próximo e no cumprimento do pedido de Nosso Senhor; “Ide e anunciai o evangelho a toda criatura.” A Teologia da Libertação (TL) reduz o anuncio do evangelho a uma ótica materialista, enxergando na religião a ferramenta de libertação social, daí que a “justiça social” e “fazer o bem” sejam os dogmas absolutos da fé. Obviamente, para uma noção tão simplória da crença, Cristo não precisaria da Encarnação, Crucificação e Ressurreição, muito menos fundado uma Igreja. Ademais, toda a religião católica parte da premissa básica de que perpetua os ensinamentos de Nosso Senhor – seria estupidez máxima crer em algo que sabe não ser de Deus, mas dos homens. Assim, a Eucaristia, o Papa, a Virgem SS etc, não são simples realidades doutrinárias acidentais, mas frutos diretos da mensagem deixada por Jesus.
Em concreto, o amor de Deus é misericordioso, e essa misericórdia se encarna na doutrina, justamente por ser esta um caminho objetivo de salvação. Seguir Jesus é seguir tudo aquilo que Ele nos deixou, afinal, é no Seu legado que entendemos a Sua mensagem. Ora, se cremos que a doutrina católica veio de Cristo e reconhecemos a necessidade de seguir a Cristo nos Seus ensinamentos, como colocar em terceiro plano a importância da fé na Igreja Católica? Podemos ir além. A prática maior do amor ao próximo se faz na pregação da Verdade, já que é o gesto máximo de caridade ao homem; mostrá-lo a Cristo. Se reconhecemos os ensinamentos católicos como originados diretamente do coração de Jesus, e sabemos que a comprovação do nosso amor ao próximo se faz na apresentação da Verdade, como, então, desmerecer a necessidade da conversão? Ou nós não amamos, de fato, o próximo - portanto não queremos apresentá-lo a Cristo – ou, então, não cremos na doutrina católica como originada no Senhor – logo, como nos consideramos crentes?
A redução feita pela TL é total e absoluta. A Eucaristia, a Virgem SS, o Papado etc, são pontos secundários da fé se comparados com a necessidade de praticar a “justiça social”. Além da verdadeira justiça se originar em Cristo e na Sua mensagem, toda a doutrina não se contrapõe ao amor de Deus. Tamanha falácia parte de uma compreensão relativista onde doutrina - e até mesmo a simples palavra “doutrina” – é interpretada como uma imposição férrea e fundamentalista da fé. Ora, não seria, justamente, o contrário? A doutrina é fruto da caridade de Cristo, um guia prático de salvação, muito mais edificante do que a ótica subjetivista que impera, onde ninguém sabe ao certo como viver o Evangelho, onde cada indivíduo segue uma fé particular e pessoal, distante da universalidade pretendida por Deus.
Dom Edson Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira, afirmou, em reportagem ao Jornal Nacional, que “São os índios que estão vivendo como viviam os primeiros cristãos que tinham tudo em comum, nós é que temos que nos converter a eles”. Agora é a Cruz que deve ser submetida aos chocalhos e flautas de Tupã? Esse é o relativismo em grandes proporções, não mais a conversão é desnecessária como agora somos nós, cristãos, que devemos nos paganizar. Ademais, vale frisar que, como destacou Jorge Ferrar no Deus lo Vult!, “Para afastar os maus espíritos, Sua Excelência parece preferir o Yaigê às orações católicas; para ser coroado no dia de sua sagração, Sua Excelência parece preferir um cocar indígena a uma mitra católica. Parece preferir o paganismo ao Evangelho”
Obviamente, o Bispo tem pleno entendimento acerca do caráter relativista e herético de tais afirmações. De fato, a sua insistência no modernismo é consciente e intencional. Dom Edson, mui provavelmente, deve conhecer a brilhante explanação feita por S.S João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio; “uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida, infelizmente também entre os cristãos, freqüentemente radicada em concepções teológicas incorretas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a pensar que « tanto vale uma religião como outra »...”
Além dos graves problemas doutrinais oriundos dessa postura relativista, que, logicamente, subentende um demérito a toda a crença católica, ainda há o choque com a própria história da Igreja e a vida espiritual. Gostaria de pontuar, nesse tocante, o testemunho da Sociedade de São Francisco de Sales no empenho do trabalho missionário. A diocese de São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, foi fundada e erigida por Sacerdotes filhos de Dom Bosco. Dom Edson, o Bispo do Cocar, é o primeiro não-salesiano feito Pastor daquelas terras. Desde cedo o Santo fundador alimentava o desejo de partir, para terras inóspitas, na pregação do Evangelho. Dom Bosco sonhava em poder caminhar com alguns missionários, apenas sustentados na fé em Cristo, mas a sua saúde e os enormes afazeres na Europa, com uma Congregação recém fundada, o impedia. Entretanto, logo tendo oportunidade enviou para a América aqueles que se tornariam peças fundamentais na propagação da fé nos países do Novo Mundo. Vejamos o relato feito por Dom Bosco do seu profético sonho:
"Pareceu-me, disse, encontrar-me numa região inóspita e totalmente desconhecida. Era uma imensa planície toda inculta, em que não se avistavam colinas nem montes. Mas nas extremidades, muitíssimo ao longe, perfilavam-se em toda a volta escarpadas montanhas. Vi nela multidões de homens que a percorriam. Andavam quase nus, eram muito altos, de aspecto feroz, de cabelo comprido e em desalinho, de cor bronzeada e escura, vestidos apenas com grandes mantos de peles de animais, que lhes desciam dos ombros. Andavam armados com uma espécie de lança comprida e com uma funda.
Estas multidões de homens, espalhados por todo o lado, ofereciam ao espectador cenas diversas: uns corriam à caça das feras; outros levavam na ponta das lanças pedaços de carne a deitar sangue. Outros ainda combatiam entre si, outros traziam presos soldados vestidos à europeia, e o terreno estava cheio de cadáveres. Eu tremia perante aquele espectáculo; e eis que despontam na extremidade da planície muitos personagens, que, pela forma de vestir e de se comportar, descobri que eram missionários de várias Ordens.
Estes aproximavam-se para pregar àqueles bárbaros a religião de Jesus Cristo. Fixei-os bem, mas não conheci nenhum deles. Foram para o meio daqueles selvagens; mas os bárbaros, mal os viram, com um furor diabólico, com uma alegria infernal, assaltavam-nos, matavam-nos, esquartejavam-nos com ferocidade, cortavam-nos aos pedaços e espetavam os pedaços daquelas carnes com a ponta das lanças.
Depois de observar aqueles horríveis massacres, disse para mim próprio:
− Como fazer para converter esta gente tão brutal?
Entretanto, vejo ao longe um grupo de outros missionários que se aproximavam dos selvagens de rosto muito alegre, precedidos por uma turba de jovenzinhos.
Eu tremia pensando:
− Vêm cá para ser mortos.
E aproximei-me deles: eram clérigos e padres. Fixei-os com atenção e vi que eram os nossos Salesianos. Os primeiros eram meus conhecidos, e embora não tenha podido conhecer pessoalmente muitos outros que seguiam os primeiros, dei-me conta de que eram também Missionários Salesianos, mesmo dos nossos.
− Como vai isso − exclamei.
Não queria deixá-los passar e pus-me à frente deles para os parar.
Receava que de um momento para o outro tivessem a mesma sorte dos antigos Missionários. Queria fazê-los voltar para trás, quando vi que a sua aparição encheu de alegria todas aquelas multidões de bárbaros, que baixaram as armas, puseram de parte a ferocidade e acolheram os nossos Missionários com todos os sinais de cortesia.
Maravilhado com isto, disse para mim próprio:
− Vamos ver como é que isto vai terminar!
E vi que os nossos Missionários avançavam em direcção àquelas hordas de selvagens; instruíam-nos e eles escutavam-nos de bom grado; ensinavam e eles punham em prática as suas instruções. Parei a observar, e dei-me conta que os Missionários rezavam o santo Terço, enquanto os selvagens, correndo de todos os lados, abriam alas à sua passagem e respondiam com gosto àquela oração.
Passado algum tempo, os salesianos dispersaram-se pelo meio daquela multidão que os rodeava e ajoelharam-se. Os selvagens, tendo deposto as armas por terra aos pés dos Missionários, ajoelharam também. E eis que um dos salesianos entoa: “Louvemos Maria…”, e todas aquelas turbas, a uma só voz, continuaram o cântico, tão em uníssono e com voz tão forte, que eu, quase assustado, acordei.
Este sonho fez-me muita impressão, pensando tratar-se de um aviso celeste"Esse sonho confirmou aquela misteriosa vontade que o Santo já nutria no coração. Assim, depois de alguns acasos da Providência, os salesianos foram enviados para a Patagônia, inclusive o futuro Cardeal Cagliero, Vigário Apostólico da Patagônia, confessor da Beata Laura Vicuña e amigo de Beato Zeferino Namuncurá. Os filhos de Dom Bosco logo chegaram ao Brasil. No Mato Grosso evangelizaram a tribo dos Bororos e, mais tarde, constituíram uma prelazia, a Prelazia do Registro do Araguaia. Entraram corajosamente na floresta amazônica, construindo verdadeiros oásis da fé. Desde 1908, Dom Frederico Costa, Bispo do Amazonas, queria a presença dos salesianos na região do Rio Negro. Em 1910 a Prefeitura Apostólica do Rio Negro foi criada e, posteriormente, confiada aos filhos de Dom Bosco – atualmente Diocese de São Gabriel da Cachoeira. Na região trabalharam junto aos Tucanos e outros tribos, tudo para a glória de Deus.
Os sonhos de Dom Bosco profetizavam o esplendor da sua Congregação. Ademais, eram sinais claros da origem Divina dos anseios mais profundos da Sociedade de São Francisco de Sales. Afirmar, como é comum hoje em dia, que o trabalho missionário é desnecessário e inoportuno – falo de verdadeiro trabalho missionário que visa à conversão – se choca com a doutrina da Igreja e com a ação do Senhor na história. Os sonhos de Dom Bosco seriam falsas criações de mentes ultramontanas, refletindo apenas uma realidade temporal? Então a Virgem Santíssima se enganaria nas suas promessas feitas ao Santo?
Vejamos o teor de outro sonho, relatado por A. Auffray SDB na biografia de Dom Bosco, “A divina Pastora que aos nove anos lhe tinha feito ver com clareza a sua futura missão, mostrou-lhe nessa noite os pontos principais do caminho que iriam percorrer os seus missionários. Num instante sua fantasia foi transportada ao pé das Cordilheiras, a Santiago e a Valparaiso; de ai ao coração mesmo das matas da África; finalmente a Pequim, a capital do Celeste Império! Por mais robusta que fosse a fé de Dom Bosco, era difícil acreditar tais maravilhas. Evangelizar extensões tão grandes! Vencer tantos obstáculos! Percorrer espaços enormes! e com um exército tão exíguo e com meios tão. escassos! Não! Era um sonho apenas e nada mais! Porém a Dama misteriosa acalmou-lhe os receios: "Não temas disse-lhe ela. Não sómente os teus filhos, mas os filhos de teus filhos realizarão estes prodígios" Nesse sonho a Virgem mostra ao Santo os belíssimos frutos da sua Congregação; a conversão dos povos e das raças. Ainda promete que tais “prodígios” seriam perpetuados por todos os seus filhos.
Comparemos, nesse instante, a doutrina da Igreja e os sonhos de Dom Bosco com o posicionamento da Teologia da Libertação e o seu relativismo. Se somos católicos – e somos livremente – é porque cremos que a Igreja, enquanto instituição fundada por Cristo, reflete os ensinamentos deixados por Nosso Senhor. Entretanto, mesmo as revelações privadas não sendo de crença obrigatória, exprimem um caráter sobrenatural. Assim, se as experiências de Dom Bosco foram originadas em Cristo – e assim a Igreja acredita – reproduzem a imutabilidade inerente a Deus. Ou será que alguém crê que o Senhor transmite ensinamentos mutáveis e falíveis, escravos do tempo?
De um lado temos o Evangelho e a Igreja e, do outro, Bispos e religiosos relativistas. De um lado uma conversão sincera, com prática de oração e vida sacramental, do outro lado a práxis “evangélica” perpetuada na manutenção de crenças pagãs e no discurso assistencialista.
Quando Monsenhor Cagliero voltou da Patagônia, levou consigo uma jovem indígena convertida. No leito de morte, Dom Bosco experimentou uma sublime alegria. Não podendo ir até as terras de missão, o seu filho trouxe um fruto dos trabalhos salesianos em solo argentino. A jovenzinha, ajoelhada aos pés do Santo, falando um italiano carregado de sotaque, disse; "Pai, eu vos agradeço por terdes mandado vossos missionários para salvar a mim e a meus irmãos" Dom Bosco, extremamente comovido, verteu lágrimas de regozijo, lágrimas de caridade e de puro amor! Ele sabia que havia cumprido a sua tarefa na terra!
Infelizmente, essa é uma experiência que D. Edson Damian nunca vai passar! Afinal, para que converter?

