domingo, 5 de agosto de 2012

A nova ordem e o Cavaleiro das Trevas

O novo filme de Batman é marcadamente influenciado por uma visão muito peculiar da realidade. Obviamente, como qualquer obra artística, esta não se engessa numa única leitura possível. Entretanto, seria no mínimo inocente excluir uma hermenêutica que lança mão daquilo que se chama "imaginação moral". O filme, portanto, usando de um microcosmo, reflete a crise profunda da própria Civilização Ocidental.

A tenebrosa Gotham City, muito antes do surgimento de Bane, já caminhava rumo à terra devastada; "O inverno nos agasalhava, envolvendo/ A terra em neve deslembrada, nutrindo/ Com secos tubérculos o que ainda restava de vida." (A Terra Devastada, T. S Eliot) . A imoralidade e a perversão dos habitantes da cidade refletiam a derrocada do próprio espírito do homem. Uma crise tão profunda que minara sistematicamente a vivacidade mesma do Cavaleiro das Trevas. Batman não era mais bem vindo num local que sequer compreendia a luta pela moralidade. Ele era Peregrino em sua cidade.

Entretanto, se Gotham já estava destinada ao seu fracasso moral, Bane surge como um arauto da Terra Devastada. Ele era o cadáver - "O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim/
Já começou a brotar? Dará flores este ano?" (A Terra Devastada, T. S Eliot)-, o novo homem sem herança e totalmente apaixonado pela causa da reconstrução. Ainda que a leitura feita por ele não fosse totalmente errada, isto é, a corrupção moral das elites e a fraqueza espiritual do povo já estavam estabelecidas de modo estrutural, a solução escolhida era totalmente brutal. Nesse sentido Bane encarna fielmente o espírito ideológico e o ardor gnóstico das revoluções. A nova ordem deveria ser construída sobre as ruínas do passado.

Assim, portanto, a destruição imediata de Gotham era necessária para que fosse edificada a nova realidade horizontal de homens livres. Tal liberdade, contudo, só seria possível por meio da destruição das heranças herdadas, das tradições transmitidas, da imaginação moral que brota da alma. Por isso se entende a razão pela qual apenas depois da superação da apatia do espírito Batman conseguira sair do profundo do poço.

A redenção sem a alma era querida por Bane, a redenção através da alma fora feita por Batman. O auto-sacrifício, muito mais do que uma ação altruísta, era, isto sim, o sinal do mais alto grau de desprendimento, clara amostra da abnegação de si pelo bem objetivo do povo de Gotham. Batman precisava existir, afirmou o Comissário, não apenas como o herói, mas como a representação do espírito de heroísmo que se faz tanto nas aventuras do homem mascarado como no cotidiano do policial. Essa descoberta, esse reconhecimento, só é possível numa cidade, numa civilização, que se faz mediante a imaginação moral.

Um comentário:

Marcella disse...

Quando assisti ao filme logo identifiquei as aspirações revolucionárias de Bane e seu grupo, o modo de agir, as palavras utilizadas... Batman, por fim, trouxe consigo a figura do mártir, tão esquecida nestes tempos.