terça-feira, 27 de março de 2012

Quando Stálin louvou a "liberdade de expressão"


Pedro Ravazzano

A discussão a respeito do secularismo da PUC-SP está em alta e cresceu em proporção por conta do pronunciamento do Bispo emérito de Garulhos, Dom Luiz Bergonzini. Este defendeu que a Universidade, por ser católica, deve se fundamentar nos princípios cristãos. Não poucos foram os arautos da “liberdade” que se levantaram contra aquilo que consideraram a fala totalitária e anti-reflexiva do Prelado.

Para compreender as nuances e a profundidade dessa discussão devemos nos livrar do típico preconceito secularista que, direta ou indiretamente, toma conta da consciência do homem moderno. Antes de atentarmos para a famigerada “liberdade de expressão”, é crucial reconhecer que, de modo coerente, o catolicismo é parte integral e fundante da PUC. Assim, pois, como alguém em sã consciência pretende criticá-la por querer ser católica?

A liberdade de expressão não é “unidirecional”, do contrário estaríamos falando do sonho dos totalitários, ou seja, da liberdade de alguns poucos se pronunciarem enquanto muitos outros são sistematicamente taxados de “reacionários”, “fascistas”, “medievais” etc. Que qualquer homem comum goza de liberdade para defender o aborto, o casamento homossexual, eutanásia, é algo óbvio e cristalino. Não obstante, a realidade mostra-se terrivelmente deformada quando tais propostas não apenas são defendidas dentro de uma Universidade Católica como quando os seus defensores se sentem no direito de atentar contra a coerência mesma da Instituição. E tudo em nome da liberdade.

Em um dos artigos do estatuto da PUC-SP se diz que o cumprimento da sua missão “orienta-se, fundamentalmente, pelos princípios da doutrina e moral cristãs” e que “dentro desse espírito, assegura a liberdade de investigação, de ensino e de manifestação de pensamento, objetivando sempre a realização de sua função social, considerada a natureza e o interesse público de suas atividades.” Ora, estamos falando, portanto, de uma instituição católica e que se alicerça em claros paradigmas cristãos. Vale frisar, contudo, que o que é proposto não é a transformação da sacralidade acadêmica numa aula de catequese paroquial, mas sim que o ethos que sustenta a vida universitária é, obviamente, cristão.

Os revoltosos secularistas afirmam que se a PUC aderisse ao que a ela é pedido se distanciaria da essencial liberdade de expressão. Entretanto, a PUC-SP não é a única Universidade do mundo e, ao que me consta, ninguém ingressou nela sem saber o que representam as letras “P” e “C” que aparecem na sua sigla. Ademais, nunca haverá um ambiente universitário livre de influências externas, sejam elas políticas, religiosas, ideológicas – as nossas Universidades Federais que o digam. Assim, é natural que os homens que constroem as Academias – não, elas não caem do céu e nem brotam por partenogênese – estejam unidos por um projeto comum. Foi assim que surgiram as Universidades historicamente – criadas pela Igreja, diga-se de passagem – e foi assim que nasceram diversas instituições acadêmicas das mais variadas matizes; comunistas, luteranas, católicas, liberais, umbandistas etc.

Destarte, é assustador perceber como um grande número de jovens e pensadores não percebe a gravidade de tamanha incoerência. Tal grupo advoga o direito de estudar e lecionar numa instituição católica e de defender uma agenda moral que vai de encontro com aquilo que é defendido, racionalmente, pela Igreja, mas sequer aceita o direito da mesma instituição católica de querer ser católica e de se posicionar no mesmo aspecto. Trata-se, então, de uma liberdade de expressão enviesada e assustadoramente ideologizada. Devemos, entretanto, buscar viver realisticamente, só assim será possível nos afastar do desejo idealista que sempre ronda o coração.

Um comentário:

Anônimo disse...

Dom Odilo Scherer falou que está tudo normal ahahaha, acho que para levantar o "espírito" Católico da PUC novamente , terá que começar pelos estudantes. Belo post!