
Pedro Ravazzano
Um jovem alienígena marciano cai na terra e em seus tempos livres acessa a rede mundial de computadores. Lá, então, ele conhece alguns terráqueos que, ainda sendo separados por questões sociais, raciais e geográficas, se apresentam todos como cristãos católicos, membros de uma tal Igreja Católica Apostólica Romana. O nosso caríssimo E.T, que chamaremos de Zezinho para proteger o seu anonimato, como um bom estudioso dos povos atrasados de outras galáxias, resolve se inteirar a respeito do que estes católicos professam.
Em conversas com alguns jovens humanos o viajante estelar toma contato com um idioma exótico chamado latim. Ainda que a maioria dos atuais habitantes desconheça esta língua e os poucos que gostam sequer saibam usá-la, o certo é que para alguns grupos entre os católicos que conheceu este idioma exerce uma atração irresistível, ele acredita que seja reflexo de algum poder mental. Em seguida mandaram que o nosso querido E.T fosse num sebo – assim é como os atrasados humanos chamam lojas que vendem livros, algo muito rudimentar, diga-se de passagem - para arranjar um breviário, fundamental para que ele acompanhasse aquilo que os habitantes terráqueos nomeiam de Missa Tridentina. Ele ainda não entendeu o que seria propriamente isso, mas soube que tinha algo relacionado com a sua condenação, almas, fogo do inferno, redenção, sacrifício incruento da cruz e um homezinho de costas – esta última parte é muito importante para os humanos, percebera rapidamente o marciano.
Zezinho, então, continuando a sua investigação, se aproximou de outros jovens católicos, mas foi seriamente repreendido pelos primeiros que conheceu. Estes acusaram os novos amigos do extraterrestre de serem modernistas. O nosso estimado E.T não compreendeu muito bem o que seria o modernismo, concluiu que tivesse algo a ver com bom humor, calças jeans e cervejas. Mantendo a sua proximidade com os católicos, descobriu que deveria rapidamente mudar os seus indecorosos trajes extra-planetários; o seu pescoço estava exposto e poderia ser razão do pecado de delicadas moças que só saiam de suas casas às 18:20 para tomarem banho de sol acompanhadas pelos seus irmãos e esposos e vestidas com longos pedaços de tecido.
Persistindo na sua investigação e ganhando a confiança dos seus novos companheiros, Zezinho conseguiu ser iniciado nos sumos mistérios. Recebeu em suas mãos um exemplar do grande livro que os humanos denominavam de “Suma Teológica”. O seu uso pareceu um pouco esquisito. Quase todos a citavam, mas poucos eram os que de fato a conheciam. Em seguida recebeu uma cartilha de recomendações que abarcavam quase todos os aspectos do ser. Deveria tradicionalizar os seus gostos musicais, artísticos, visuais e devocionais, do contrário seria grosseiramente moderno para acompanhar os encontros em que debatiam as multifacetadas colorações douradas usadas por Fra Angelico em suas obras ou a indecorosa sensualidade contida nas telas do barroco tardio do noroeste dos Países Baixos.
O jovem E.T estava achando interessante, ainda que exótica, essa religião humana. Contudo se assustou quando descobriu que já organizavam uma “Cruzada do séc. XXI; Per Conversionem Marcianorum et Hereticorum Extraplanetaria Contritio”. Foi aí que soube que tais católicos o chamavam de herege e servo de Satanás, o que não demorou a perceber que se tratavam de adjetivos nada positivos tendo em vista as caras de repulsa que os acompanhavam quando proferiam. Zezinho, portanto, temendo a sua segurança física parte para casa acreditando que os católicos não passavam de humanos mal humorados que viviam uma religião tão chata quanto eles próprios.
Ah, quando o nosso viajante estelar estava pronto para partir, ouviu alguém gritar de longe; “Fica com Deus, que Cristo o abençoe”. Não entendeu muito bem o que essa amistosa despedida queria dizer, “seria Cristo o Deus dos humanos?!”, pensou. Acabou declinado desse mesmo pensamento, afinal convivera com os carrancudos católicos e tal nome jamais havia sido citado, muito mais de modo tão cordial.
Um comentário:
http://blog.unavocebrasil.org/2012/02/nao-podemos-perder-esta-grande-riqueza-afirma-secretario-da-congregacao-para-o-clero-sobre-o-uso-do-latim-na-igreja/
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