sexta-feira, 13 de maio de 2011

Introdução aos principais conceitos usados por René Girard

Pedro Ravazzano

Desejo Mimético - “A expressão ‘desejo mimético’ refere-se apenas ao desejo que é sugerido por um modelo. Para mim, o desejo mimético é o desejo ‘real’ (…) a presença do modelo é o elemento decisivo na decisão do desejo mimético” . Ainda que o desejo seja potencialmente o provocador da crise, ele não é em si mesmo mal. O desejo mimético, particularidade do ser humano, é o desejo ele mesmo. Assim, é próprio do desejo que não seja próprio. Caso o desejo não fosse mimético – desejar o desejo dos outro – o homem estaria preso fixamente a objetos predeterminados.

Rivalidade Mimética – Na mediação interna, quando o modelo do desejo se encontra próximo o bastante do sujeito - imitador, o objeto do desejo torna-se motivo de um conflito, ambos desejam o mesmo objeto, criando uma reciprocidade violenta. O desejo transcende a posse do objeto. Os duplos surgem quando existe a indiferenciação. O objeto some e os rivais tornam-se idênticos. O modelo passa a imitar seu próprio desejo por meio do discípulo ao descobrir no objeto o alvo da tensão mimética. Assim, se o discípulo passa a ser o modelo do desejo do seu modelo, este se transforma em discípulo do seu discípulo. O modelo é transformado em antimodelo e cria-se um ciclo de imitação e ódio retroalimentado.

Crise Mimética – O modelo torna-se rival automaticamente e cada rival toma o outro como modelo de seus desejos. O objeto disputado na rivalidade mimética passa a ser alvo da cobiça e da atratividade mimética por parte da comunidade de indivíduos. O objeto é dilacerado em meio ao conflito mimético generalizado, quando o contágio já está alastrado. Cria-se uma tensão de antagonismo que apenas se acumula como numa febre que se alastra rapidamente.

Bode Expiatório – O bode expiatório é a canalização da violência social contra um único membro da comunidade escolhido arbitrariamente. A vítima inocente se transforma no inimigo comum que encarna todos os males, tensões e problemas emanados durante a crise mimética

Ordem Cultural – Com a morte do bode expiatório - a vítima sacrificial escolhida arbitrariamente - a paz é instaurada. Ainda que seja vista como encarnação do mal, as conseqüências positivas do sacrifício da vítima acabam por divinizá-la na estrutura mítica. Desse sacrifício nasce a ordem cultural: mitos, interditos, ritos, instituições.

A morte do bode expiatório apazigua as tensões que, caso se prolongassem, causariam o fim da comunidade - “Um deles, chamado Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano, disse-lhes: Vós não entendeis nada! Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação.” (São João 11, 49-50)

O cristianismo subverte essa ordem mitológica por revelar o que “estava oculto desde a fundação do mundo”. Jesus Cristo, o bode expiatório por excelência – Cordeiro de Deus – é a vítima escolhida em meio a uma tensão mimética generalizada onde até os seus discípulos o negam e fogem - “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.” (São João 1, 5). Entretanto, se na estrutura mítica a inocência da vítima é acobertada e inconscientemente desconhecida e a vitimização dos acusadores compreendida como real, nos Evangelhos a inocência da vítima é anunciada assim como o verdadeiro teor da febre odiosa dos acusadores. O cristianismo revela o funcionamento dos mitos e a Cruz escancara o sentido real do sacrifício - “Ai de vós, que edificais sepulcros para os profetas que vossos pais mataram [Referência às estruturas brotadas do sacrifício da vítima expiatório aqui representadas e perpetuadas pelas figuras do fariseus] .Vós servis assim de testemunhas das obras de vossos pais e as aprovais, porque em verdade eles os mataram, mas vós lhes edificais os sepulcros. [Referência ao primeiro sacrifício com o conseqüente desenvolvimento das instituições, interditos e ritos. Numa realidade mítica o ato de revelar essa estrutura cultural é impensável. Apenas Jesus Cristo arranca o véu que encobre a morte inocente e vitimaria e revela o verdadeiro sentido do sacrifício] Por isso, também disse a sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, mas eles darão a morte a uns e perseguirão a outros. E assim se pedirá conta a esta geração do sangue de todos os profetas derramado desde a criação do mundo.” (São Lucas 11, 47-50)

Mediação Externa – Quando há uma distância no espaço, no tempo, na ordem social e no prestígio entre o sujeito e o modelo mediador. Os objetos são desejados porque antes são desejados pelo modelo, assumindo propriedades que não possuem. Essa mediação não necessariamente gera conflito mimético pela distância do mediador. Ocorre, apenas, a transfiguração dos objetos pela mão do mediador. Cristo para os cristãos, Amadis de Gaula para Dom Quixote.

Medição Interna – A mediação não mais se encontra separado do seu imitador seja no tempo ou no espaço. Logo, ao desejar o mesmo, ambos criam uma identidade de desejos tornando-se rivais, duplos. Nesse esforço de obter o objeto desejado o outro é visto como o único obstáculo para a concretização da posse. Assim, diferentemente da mediação externa, a mediação interna sempre se destina ao confronto por se basear numa mímesis conflitiva.Os sistemas sociais e a ordem cultural brotam daí.

Um comentário:

Anônimo disse...

Faço um pedido ao acarajé conservador,peço que façam um artigo que defenda a verdadeira religião,um artigo com respostas a essas perguntas, :

existem tantas religiões,por que apenas uma seria a verdadeira?

por que o "catolicismo" é verdadeiro?

O que diferencia o "catolicismo" das outras religiões?

quais as "provas" de que o "catolicismo" é verdadeiro?

pensei em um artigo destinado não só aos católicos,mas a todos, principalmente a aqueles que crêem em Deus mas não tem religião.
Espero que possam fazer esse artigo,seria de grande utilidade não acham?fiquem com Deus!e desde já agradeço!