terça-feira, 26 de abril de 2011

A ética é cristã?!


O artigo ““Se Deus não existe, tudo é permitido? NÃO”, de Renato Janine Ribeiro, faz uma exposição do desenvolvimento da idéia da ética “atéia”. O autor coloca como centro da reflexão o surgimento da um princípio de valores que transcende ao Deus punitivo que, para ele, seria o sentido fundamental da ética religiosa.

Não obstante, o autor – como o mesmo coloca no último parágrafo do artigo -, ao enfocar toda a sua exposição no pressuposto de que o medo e o inferno seriam o “vínculo preferencial” de Deus com o homem, mostra uma visão incompleta e distorcida do verdadeiro sentido da ação de Deus na história e do seu atributo de justiça.

Ainda que a ética utilitarista dos ateus perpasse pela edificação de uma sociedade justa, o princípio basilar é de faceta egoística e individualista. Claro que é passível de discussão a validade dessa ação humana que parte da busca do benefício próprio. Ademais, por ter como fundamento a liberdade e autonomia do homem, esse princípio também endossaria, outrossim, os mais atrozes feitos destes. Por isso, se faz mister constituir uma sociedade na qual, por mais autônomo que seja o indivíduo diante do outro, exista uma tênue linha que abarque a totalidade da comunidade humana. Essa ética laica, dita racional – como se a ética “religiosa” fosse fantasiosa e mítica – sustenta-se na lei natural ou numa estrutura radical da subjetividade humana que se supõe a todos os homens.

Obviamente que sem Deus há a possibilidade de ética. Entretanto, o sentido da Revelação e da mensagem cristã endossa talvez o valor mais estrutural da Civilização Ocidental: a caridade. Ademais, o autor do artigo enfoca, ao considerar a relevância do inferno, numa percepção que incidiria na idéia de que a crença em Deus alienaria os homens e que seria muito mais fruto das mãos humanas do que da sincera ação divina na história, por isso a citação do tal John Bramhall.

A Civilização Ocidental foi criada sob a égide do cristianismo. A idéia de justiça, amor, paz, ordem, como hoje compreendemos passou pelo crivo e pela transformação da fé cristã. Destarte, por mais humana que seja a ética – leia-se quanto menos “religiosa” – não há como desvencilhar desses pressupostos que, ainda que hoje entendamos como naturais aos homens, foram enfocados e exaltados apenas com o advento da mensagem de Jesus Cristo e da sua Igreja.

Um comentário:

Anônimo disse...

A ética é sempre compatível com o cristianismo, que nunca contradiz a reta razão, e vice-versa. Como tomista, penso diversamente dos filósofos convertidos da Antiguidade, que diziam que o cristianismo era a verdadeira filosofia. Filosofia está para o cristianismo como razão para fé, como expôs João Paulo II, usando a imagem de duas asas. A reta razão impede de se pensar a inexistência de Deus. E para a ética implicaria definir como fim último algo contingente, como a tese aristotélica de que a vida na "polis" seria o fim último. Infelizmente o abandono do tomismo fez com que os seminários ensinassem ética kantiana. No ambiente profano, contudo, a proposta nietzscheana de ir "além do bem e do mal" fortalece o liberalismo, que busca dar ao Estado laico de inspiração maçônica condições para os indivíduos exercerem sua vontade de poder contanto que não prejudiquem a vontade de poder dos outros, fazendo do Estado um pretenso revelador da verdade mais autorizado do que Deus. De fato, deixar de pensar sobre a moralidade de nossos atos pela supressão mental da possibilidade ética é uma "esperteza", mas nunca poderá ser sabedoria, menos ainda a amizade com esta. Diante disso, o kantismo é um mal menor, mas não pode ser um bem, visto que o imperativo categórico não é coletivo, mas só define o bem comum na decisão da coletividade, pelo mesmo processo democrático que levou à preferência de Judas a Jesus Cristo. Resumindo: sem Deus a ética é impossível, por falta do fim último supremo do agir, sendo o conjunto dos elementos éticos seguidos por um ateu uma mera "etiqueta"; sem a Revelação a ética é ela mesma; com a Revelação temos a teologia moral, baseada na ética compreendida como moral natural (sem Kant são sinônimas).