domingo, 23 de agosto de 2009

A degeneração da música: um aspecto da crise do Ocidente

Vladimir Lachance
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Uma imagem da crise que assola o mundo ocidental é a degeneração dos princípios da estrutura musical, crise instaurada, sobretudo, pela Revolução Rock.

Dizemos Revolução Rock, pois é exatamente esta a principal característica deste gênero musical, que cria tendências desordenadas e análogas em todas as almas a ele submetidas. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, diz que “o processo revolucionário nas almas, (...), produziu nas gerações mais recentes, e especialmente nos adolescentes atuais que se hipnotizam com o “rock and roll”, um feitio de espírito que se caracteriza pela espontaneidade das reações primárias, sem o controle da inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da fantasia e das “vivências” sobre a análise metódica da realidade: fruto, tudo, em larga medida, de uma pedagogia que reduz a quase nada o papel da lógica e da verdadeira formação da vontade”[1]. Desta afirmação podemos traçar um rápido perfil do jovem sob o domínio do rock: ele tende a uma maior liberalização nos costumes, num eterno estado de revolta, contestação, insubordinação. Mas, contra o quê? Contra a própria alma: é a luta pela inversão do papel da inteligência, da vontade, e da sensibilidade, sobre a alma do homem.

O rock procura agir diretamente sobre a sensibilidade, reduzindo o papel da vontade e da inteligência. O raciocínio lógico é execrado como limitador da espontaneidade, pois, de acordo com a juventude insurreta, a inteligência deve ser vista com olhos de desconfiança, pois crêem que esta é moldada por padrões autoritários e moralistas. Coisa incrível é esta unidade de pensamento entre os “roqueiros”, como que uma identificação quase instantânea com certos ideais e slogans. Mas isto não é gratuito, nem poderia ser: percebe-se certa uniformidade de idéia, de comportamento, até de gestual e de falar, entre estes jovens; diríamos uma tendência ao Tribalismo... um fã do Metallica que vive no Japão é idêntico ao fã que mora nos Estados Unidos.

O prof. Allan Bloom, em sua obra “O Declínio da Cultura Ocidental”, resumindo as idéias sobre música do filósofo grego, Platão, diz que o ritmo e a melodia, acompanhados pela dança, são a expressão bárbara do espírito. Embora não existisse no tempo em que o filósofo escreveu esta sentença, podemos afirmar que a música de que aí se fala, é o rock, a música bárbara por excelência. No rock quem dita as regras é o ritmo, e este, de tal modo atinge a alma do ouvinte comum, que é praticamente impossível imaginá-lo sem se mexer, requebrando ao som de uma melodia pobre, que ocupa praticamente o último lugar na composição. Uma boa composição clássica prima pela beleza da melodia, sendo a harmonia e o ritmo os seus acompanhamentos, funcionando como estruturas subjacentes. A harmonia funciona como a vestimenta da melodia, seu adorno, estando submetida a ela. O ritmo dá uma estrutura à melodia, impondo-lhe certos limites. Mas, enquanto um músico não cogita estrangular sua melodia por amor ao ritmo, com o artista do rock o processo se dá de maneira inversa: por amor ao ritmo, o artista molda a melodia para encaixar-se ao tempo dado pela bateria. O ritmo funciona como uma verdadeira camisa de força da melodia; daí a pobreza das músicas de rock: a melodia acaba se tornando uma infinita repetição (nas bandas de punk rock isto se percebe muito claramente: ouvir qualquer música do Ramones), a harmonia reduz-se a um conjunto de dois a quatro acordes, e o ritmo incessante vai atropelando tudo o que passa em sua frente. Uma ilustração do que isto venha a ser nos é dada pelo Pe. Bertrand Labouche: “É claro que um poema com um ritmo perfeito, mas composto por palavras quaisquer, sem uma idéia diretora, sem “melodia”, seria um poema medíocre ou nulo. Ao contrário, uma prosa rica pela profundidade, pela pertinácia, pelo poder, pela delicadeza de pensamento adornada por expressões bem pensadas seria um texto de valor apesar de não ter cadência.” [2]

A experiência mostra que é bastante improvável que alguém que ouça rock não seja adepto também do seu estilo de vida – e aqui vale a ressalva para o que estamos querendo dizer com “ouvir rock”, isto é, não a espécie de contaminação instantânea que certamente levaria nossos leitores a nos darem exemplos de pessoas razoáveis que escutam “More than words” e se orgulham de serem ecléticas (e que estão de fato contaminadas, mas de outro modo), mas sobretudo aqueles que consomem a Revolução Rock: as centenas e milhares de músicas, roupas, acessórios, a ideologia de seu artista ou grupo, a atitude, acima de tudo. As pessoas que ouvem essas bandas não se conformam com os discos e com as músicas, elas precisam dissecar o grupo, ver a imagem, ler o que eles fazem e o que comem (e, acredite, isso é uma das coisas que mais pesam), o que lhes define, qual seus valores e crenças. E são precisamente essas informações que fornecem ao ouvinte a participação naquele mundo: não o mundo de uma banda, mas antes um arremedo de muitas, diversos fragmentos de seus discursos – o que impede, sempre, a possibilidade do ouvinte definir a si mesmo. E nesse ponto, voltamos ao estado de revolta, que é sempre o mesmo para todos, muito embora eles reivindiquem ou o comunismo, ou a anarquia, ou a causa verde, etc. Essas causas realmente não importam, pois todas são as mesmas, e todas são a Revolução.

Este texto não pretende encerrar o assunto, nem responder a todas as objeções, mas com certeza voltaremos a ele, analisando-o a partir de outras perspectivas.
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[1] Revolução e Contra-Revolução, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira

[2] Bach e Pink Floyd - Breve Estudo Comparativo Entre a Música Clássica e o Rock, Pe. Bertrand Labouche

8 comentários:

Pedro Ravazzano disse...

Muito bom!!! Vladimir, você está me saindo um digno pupilo de Dr. Plínio! Parabéns!!

Anônimo disse...

Mas os Ramones são muito legais!

Anônimo disse...

Achei muito interessante, nunca havia pensado nisso.

Francisco Luis disse...

HAHAHAHHAHAHAHAHAHA

confesso que ri lendo esse texto. =)

Max Aizner disse...

Rock é diversão.

Católicos também se divertem.

Com todo o respeito, acredito que, no texto, é possível trocar a palavra "rock" pelo nome de qualquer estilo musical, e com pequenos ajustes, o texto ficaria tão claro, coerente e sem razão quanto o original.

Claro que não devem ser apoiados os abusos que se comete em nome do rock, como a idolatria dos músicos, por exemplo. Mas, é um ritmo que agrada uns e desagrada outros, como qualquer outro tipo de música.

Não percebo argumentos sérios para apontá-lo como "anti-católico" ou coisa que o valha...

Luciana Lachance disse...

Adilson,


O que ocorre, justamente, é que você interpreta o "Rock" como sendo apenas o que convencionalmente passou a ser chamado de rock - o punk, heavy metal, hardcore, progressivo, etc.
O Vladimir, assim como os autores citados no seu texto (como Plínio Corrêa de Oliveira e Pe. Bertrand Labouche) consideram que o Rock é um princípio musical. Isso significa que os critérios que os autores usaram para definir o Rock não foram mercadológicos, mas harmônicos. Isso inclui, portanto, desde o velho rock'n'roll da década de 50 até o rap, funk, pop, e semelhantes.
Pe Labouche lembra que de cada 100 cds vendidos no mundo, 90 são de rock.
Esclarecido esse ponto, você mesmo pode fazer as substituições no texto e ver como lhe parece. Por outro lado, pode tentar também com os ritmos que não fazem parte do Rock, como música clássica, sacra, folclórica.
Visto desta maneira, para além de ser apenas uma "diversão", o rock foi e é uma Revolução nas tendências.
O autor voltará a este tema, e quem sabe esclarecer mais alguns pontos! De fato, é difícil perceber todas essas questões, se não voltarmos nossa atenção, especialmente, aos aspectos musicais, para então entendermos os aspectos sociais.
Espero ter ajudado.

Max Aizner disse...

Bem. Pela definicao do texto, uma valsa, estilo musical feito basicamente para dancar, seria uma vertente do rock.

Afinal,

- existe uma uniformidade de intencoes, de gestual, de vestimenta, entre casais dancando valsa tanto no Japao ou nos EUA,

- a valsa e` um estilo que privilegia o ritmo, com a melodia em segundo plano, mantendo sempre o mesmo 1-2-3, 1-2-3,

- seguindo a definicao de Platao, ja que a valsa e composta de ritmo e melodia, acompanhados pela danca, ela e uma `expressao barbara do espirito`.

(usando teclado sem acentos)

Karla disse...

Espero que textos mais esclarecedores possam vir, pois na minha leitura a mensagem tendeu ao puritanismo, o que logicamente não é bom. Seria o rock (todas as músicas que não são clássicas, sacras ou folclóricas) intrinsecamente mau? E dançar esse rock também?