Pedro Ravazzano
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Hoje, a grande maioria dos analistas políticos, submersos na ideologia, quando olham para os EUA enxergam no Partido Republicano a encarnação de um conservadorismo doentio. Dois pontos devem ser levados em consideração; primeiramente, essa leitura parte de um princípio dialético que busca compreender a história como um processo de constante conflito existente na sociedade, desse modo, como o Partido Democrata – desde a década de 50 – passou a adotar um espírito muito mais progressista – na versão mais depreciativa do termo – sobrou para os Republicanos o papel dos representantes da opressão e retrocesso. Em segundo lugar, e não menos importante, vale frisar que o GOP (Grand Old Party) foi criado sustentado em princípios considerados eternos e intrínsecos a própria existência humana. Claro que o modus operandi se transforma ao longo do tempo, entretanto, quando há uma sólida base moral, ética, filosófica, que sustenta uma grande construção, não é de se estranhar que não haja grandes diferenças entre o que é crido por um Republicano atual – excluindo os inebriados com o mais radical neoconservadorismo – e um Republicano da época da fundação do partido, como Abraham Lincoln e John Fremont. O mundo adotou uma postura relativista, de rompimento com os princípios morais e existenciais que externamente atrelavam os homens a um fundamento cristão, não obstante, aqueles que criticam os tais "reacionários" e "antiguados" esquecem que toda a idéia de Ocidente e sua concepção de direito, valores, humanidade, justiça, universalidade, refletem o próprio cristianismo.
O amadurecimento espiritual foi essencial para o desenvolvimento de uma percepção política cada vez mais libertária em essência. Claro que com isso não queremos afirmar que todos os homens que se engajaram na luta da Liberdade, nos EUA, tenham sido religiosos conscientes, entretanto, e isso é inegável, o espírito, o ethos que norteava desde os atos corriqueiros até as mais elaboradas discussões filosóficas, na América, era sim fundamentado sobre um forte princípio cristão, daí que Tocqueville falasse que a primeira instituição política dos Estados Unidos fosse a religião. A própria questão escravista, nos EUA, era discussão também religiosa; sulistas e nortistas baseavam as suas defesas em passagens bíblicas e no conhecimento teológico. Os quacres – famosos cristãos pacifistas e filantropos que quando perseguidos pela Igreja Anglicana emigraram em massa para os EUA e fundaram a colônia da Pensilvânia - foram os primeiros que se opuseram a escravidão, seguidos dos protestantes evangélicos das igrejas do noroeste do país. Como disse Dinesh D’Souza “o que é notável é um grupo se opor à escravidão em princípio”, ou seja, não havia, por detrás desse feroz discurso abolicionista, um interesse secular, muitos sequer tinham tido contato com negros, mas lutavam contra a escravidão por conta da sua formação moral, ética e filosófica. O movimento anti-escravista tomou força com o Segundo Grande Despertar – uma onda de avivamento religioso, de grande efervescência da fé – encabeçado pelo advogado presbiteriano Charles Finney, que desaguou no “novo nascimento da liberdade”
Aqueles cidadãos que lutavam contra a expansão da escravidão, vindos de uma diversidade partidária e política, se reuniram em encontros organizados em Ripon - Wisconsin e Jackson - Michigan. Entre eles havia um forte desejo de criar um novo partido político, com um novo nome, congregando whigs e democratas ressentidos, mas que, acima de tudo, trouxesse em sua essência um radical espírito de liberdade. Todos reunidos sob uma única bandeira; “todos cooperaremos e seremos conhecidos como republicanos”. Oficialmente, em convenções realizadas em Wisconsin e Vermont, foi adotado o nome de Republicanos.
O Partido Republicano nasceu congregando ex-democratas – revoltados com a Lei de Nebraska – know-nothings [1] e free soilers [2]. Entretanto, quem mais fortaleceu as fileiras republicanas foram os membros do Partido Whig, fundado por Henry Clay, em alusão ao Partido Whig inglês; um partido conservador em princípios – o que era comum a todos os partidos americanos – mas liberal em métodos – dividido internamente entre os Old Whigs e New Whigs, os últimos mais próximos de uma visão francesa do liberalismo. Um grande nome do old wingism foi Edmund Burke. Enquanto Democratas não só defendiam a escravidão como insuflavam a sua extensão, whigs, e mais tarde republicanos, lutavam ardorosamente em defesa da Liberdade.
A Lei de Kansas-Nebraska, apoiada amplamente pelo Senador Democrata Stephen Douglas, de Illinois, regulava sobre a criação de dois novos estados americanos. Entretanto, esse Act tornou-se responsável por disseminar uma discussão que acelerou a crise interna na sociedade americana; anti-escravistas X pró-escravistas. Como esclarecido pelo Compromisso de Missouri, que procurando instaurar um equilíbrio entre os estados escravocratas e livres, determinou, em 1820, que os novos territórios, criados com a aquisição da Louisiana, ao norte do paralelo 36 o 30 ‘ seriam abolicionistas e os ao sul escravistas; Kansas e Nebraska deveriam ser estados livres, ou seja, anti-escravistas, não obstante, a proximidade com regiões escravocratas, assim como a própria articulação política de Douglas, que procurava não se indispor com os sulistas, fez com que a legalidade da escravidão fosse definida por um processo democrático, onde a “soberania popular” seria exercida. Com essa Lei o Compromisso de Missouri foi anulado e, mesmo o Kansas não se tornando escravista, mas sim livre – Nebraska só entrou na União como Estado depois da Guerra Civil – conseguiu acirrar os ânimos e aumentar o choque entre o Norte e o Sul; “Vamos a caminho de ver esse pais de jactanciosa liberdade convertido realmente em terra de escravidão”, dizia Lincoln. Infelizmente, durante todo o processo, se instaurou no Kansas um verdadeiro banditismo escravista, com constantes ataques a cidadãos e a propriedades de homens que defendiam a abolição, tudo muito bem orquestrado pelos senhores do estado “sulista” do Missouri; bem antes da Guerra Civil se iniciar sangue de americanos já era derramado.
Aqui vale uma breve análise; a democracia não é o fim, mas o meio. Ainda que seja supervalorizada, a democracia não passa de um “instrumental utilitário para salvaguardar a paz interna e a liberdade" (Hayek). O processo democrático não é perfeito, muito menos infalível. Na discussão escravista, os Republicanos argumentavam que a escravidão não era um tema meramente terceiro, muito menos era um assunto que só cabia a própria individualidade do cidadão americano – protegida pelas leis dos Estados escravocratas –, afinal a liberdade do homem branco se esbarrava na própria humanidade do homem negro que se encontrava tolhida. A escravidão sequer se encontraria dentro da esfera de decisões dos Estados da Federação; por ser uma imoralidade tamanha deveria ser extirpada de toda a nação, simplesmente afrontava os princípios libertários que fizeram os Estados Unidos e fizeram dos Estados unidos. Não havia, por parte dos anti-escravistas, nada mais do que uma legítima posição liberal; a soberania popular não transformaria a perversidade escravocrata em lícita e legal. Como disse Hayek “É injustificado supor que, enquanto o poder for conferido pelo processo democrático, ele não poderá ser arbitrário” e como falou Lincoln “Não importa de que maneira se apresente, quer saía dos lábios de um rei que intente subjugar seu próprio povo e viver de fruto de seu trabalho, quer de uma raça de homens, como desculpa para escravizar a outra, é sempre o mesmo princípio tirânico”
1 - Os know-nothings, que compunham o American Party, eram anti-escravistas e extremamente nativistas. Faziam radical oposição a presença estrangeira no país e, principalmente, aos católicos na política. Tinham influência na articulação nacional, mas não ao ponto de manter um partido político com vida longa, a grande maioria dos know-nothings foi absorvida no Partido Republicano.
2 - Os membros do Free Soil Party faziam radical oposição a expansão da escravidão nos novos territórios do Oeste. Diziam que um sistema com homens livres num solo livre era moralmente e economicamente superior ao escravocrata. Além da luta abolicionista, seus membros se engajaram na derrubada de leis que discriminavam os negros libertos. Foram rapidamente integrados ao Partido Republicano.
O amadurecimento espiritual foi essencial para o desenvolvimento de uma percepção política cada vez mais libertária em essência. Claro que com isso não queremos afirmar que todos os homens que se engajaram na luta da Liberdade, nos EUA, tenham sido religiosos conscientes, entretanto, e isso é inegável, o espírito, o ethos que norteava desde os atos corriqueiros até as mais elaboradas discussões filosóficas, na América, era sim fundamentado sobre um forte princípio cristão, daí que Tocqueville falasse que a primeira instituição política dos Estados Unidos fosse a religião. A própria questão escravista, nos EUA, era discussão também religiosa; sulistas e nortistas baseavam as suas defesas em passagens bíblicas e no conhecimento teológico. Os quacres – famosos cristãos pacifistas e filantropos que quando perseguidos pela Igreja Anglicana emigraram em massa para os EUA e fundaram a colônia da Pensilvânia - foram os primeiros que se opuseram a escravidão, seguidos dos protestantes evangélicos das igrejas do noroeste do país. Como disse Dinesh D’Souza “o que é notável é um grupo se opor à escravidão em princípio”, ou seja, não havia, por detrás desse feroz discurso abolicionista, um interesse secular, muitos sequer tinham tido contato com negros, mas lutavam contra a escravidão por conta da sua formação moral, ética e filosófica. O movimento anti-escravista tomou força com o Segundo Grande Despertar – uma onda de avivamento religioso, de grande efervescência da fé – encabeçado pelo advogado presbiteriano Charles Finney, que desaguou no “novo nascimento da liberdade”
Aqueles cidadãos que lutavam contra a expansão da escravidão, vindos de uma diversidade partidária e política, se reuniram em encontros organizados em Ripon - Wisconsin e Jackson - Michigan. Entre eles havia um forte desejo de criar um novo partido político, com um novo nome, congregando whigs e democratas ressentidos, mas que, acima de tudo, trouxesse em sua essência um radical espírito de liberdade. Todos reunidos sob uma única bandeira; “todos cooperaremos e seremos conhecidos como republicanos”. Oficialmente, em convenções realizadas em Wisconsin e Vermont, foi adotado o nome de Republicanos.
O Partido Republicano nasceu congregando ex-democratas – revoltados com a Lei de Nebraska – know-nothings [1] e free soilers [2]. Entretanto, quem mais fortaleceu as fileiras republicanas foram os membros do Partido Whig, fundado por Henry Clay, em alusão ao Partido Whig inglês; um partido conservador em princípios – o que era comum a todos os partidos americanos – mas liberal em métodos – dividido internamente entre os Old Whigs e New Whigs, os últimos mais próximos de uma visão francesa do liberalismo. Um grande nome do old wingism foi Edmund Burke. Enquanto Democratas não só defendiam a escravidão como insuflavam a sua extensão, whigs, e mais tarde republicanos, lutavam ardorosamente em defesa da Liberdade.
A Lei de Kansas-Nebraska, apoiada amplamente pelo Senador Democrata Stephen Douglas, de Illinois, regulava sobre a criação de dois novos estados americanos. Entretanto, esse Act tornou-se responsável por disseminar uma discussão que acelerou a crise interna na sociedade americana; anti-escravistas X pró-escravistas. Como esclarecido pelo Compromisso de Missouri, que procurando instaurar um equilíbrio entre os estados escravocratas e livres, determinou, em 1820, que os novos territórios, criados com a aquisição da Louisiana, ao norte do paralelo 36 o 30 ‘ seriam abolicionistas e os ao sul escravistas; Kansas e Nebraska deveriam ser estados livres, ou seja, anti-escravistas, não obstante, a proximidade com regiões escravocratas, assim como a própria articulação política de Douglas, que procurava não se indispor com os sulistas, fez com que a legalidade da escravidão fosse definida por um processo democrático, onde a “soberania popular” seria exercida. Com essa Lei o Compromisso de Missouri foi anulado e, mesmo o Kansas não se tornando escravista, mas sim livre – Nebraska só entrou na União como Estado depois da Guerra Civil – conseguiu acirrar os ânimos e aumentar o choque entre o Norte e o Sul; “Vamos a caminho de ver esse pais de jactanciosa liberdade convertido realmente em terra de escravidão”, dizia Lincoln. Infelizmente, durante todo o processo, se instaurou no Kansas um verdadeiro banditismo escravista, com constantes ataques a cidadãos e a propriedades de homens que defendiam a abolição, tudo muito bem orquestrado pelos senhores do estado “sulista” do Missouri; bem antes da Guerra Civil se iniciar sangue de americanos já era derramado.
Aqui vale uma breve análise; a democracia não é o fim, mas o meio. Ainda que seja supervalorizada, a democracia não passa de um “instrumental utilitário para salvaguardar a paz interna e a liberdade" (Hayek). O processo democrático não é perfeito, muito menos infalível. Na discussão escravista, os Republicanos argumentavam que a escravidão não era um tema meramente terceiro, muito menos era um assunto que só cabia a própria individualidade do cidadão americano – protegida pelas leis dos Estados escravocratas –, afinal a liberdade do homem branco se esbarrava na própria humanidade do homem negro que se encontrava tolhida. A escravidão sequer se encontraria dentro da esfera de decisões dos Estados da Federação; por ser uma imoralidade tamanha deveria ser extirpada de toda a nação, simplesmente afrontava os princípios libertários que fizeram os Estados Unidos e fizeram dos Estados unidos. Não havia, por parte dos anti-escravistas, nada mais do que uma legítima posição liberal; a soberania popular não transformaria a perversidade escravocrata em lícita e legal. Como disse Hayek “É injustificado supor que, enquanto o poder for conferido pelo processo democrático, ele não poderá ser arbitrário” e como falou Lincoln “Não importa de que maneira se apresente, quer saía dos lábios de um rei que intente subjugar seu próprio povo e viver de fruto de seu trabalho, quer de uma raça de homens, como desculpa para escravizar a outra, é sempre o mesmo princípio tirânico”
O Partido Republicano nasceu em defesa da Liberdade do homem negro, na radical vivência do espírito americano, o mesmo ethos que produziu os Pais Fundadores e norteou a Revolução. A grande ironia da eleição de Obama não é o fato dele ser negro, afinal os membros do GOP abriram as portas para que que um dia um afro-americano galgasse o mais alto degrau da política nacional, a piada pregada pelo Destino é fazer Barack Obama ser justamente eleito pelo partido que no passado defendeu ardorosamente a manutenção da escravidão e até pouco tempo contava com membros racistas, como os do Klu Klux Klan, dentre os seus filiados.
1 - Os know-nothings, que compunham o American Party, eram anti-escravistas e extremamente nativistas. Faziam radical oposição a presença estrangeira no país e, principalmente, aos católicos na política. Tinham influência na articulação nacional, mas não ao ponto de manter um partido político com vida longa, a grande maioria dos know-nothings foi absorvida no Partido Republicano.
2 - Os membros do Free Soil Party faziam radical oposição a expansão da escravidão nos novos territórios do Oeste. Diziam que um sistema com homens livres num solo livre era moralmente e economicamente superior ao escravocrata. Além da luta abolicionista, seus membros se engajaram na derrubada de leis que discriminavam os negros libertos. Foram rapidamente integrados ao Partido Republicano.
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