por Fabrício Oliveira
História de sete anos numa escola religiosa – ou, Tudo começa quando somos pequeninos...
Como a maioria dentre nós, fui batizado na Igreja Católica Apostólica Romana e fiz, com gosto, catequese na Paróquia de Brotas, onde moro a quase quinze anos, desde que minha família voltou para Salvador, depois de morarmos em Seabra. Após terminar a 4ª série na Gente Miúda, tivemos de procurar uma escola que oferecesse ensino ginasial, como se chamava o da 5ª a 8ª série. Uma das opções foi o Colégio Nossa Senhora da Conceição, possibilidade que me empolgava bastante, mas que não se cumpriu. As outras duas, que foram efetivamente as alternativas dentre as quais eu escolhi, foram o IECB (onde hoje funciona o EEMBA) e a Escola Santa Maria Eufrásia, anexa ao Instituto Bom Pastor. A primeira, a laica, próxima à minha residência, oferecia aulas de natação, o que não me atraía pouco. Eu amava piscina, amava água – me encantava ver água nos programas esportivos, só bem depois que o futebol se tornaria mais interessante aos meus olhos; era sinônimo de alegria para mim, poucas coisas representavam tão bem os sentimentos de conforto e prazer, e visitamos a escola para conhecê-la. A segunda, a religiosa, católica, “escola de freira”, mais longe de minha casa, era, porém, uma perspectiva muito, mas muito fascinante para mim; eu teria aulas de religião e me prepararia para a Primeira Eucaristia, a se realizar no final do ano. Eu era uma criança, mas, no fim das contas, esta opção foi a que mais me seduziu: aquela primeira perdeu, e escolhi, com convicção, estudar na ESME: o desejo de religião, de fé, significava muito mais. Teria aulas de religião! Faria a Primeira Comunhão! Sem ter uma consciência clara da doutrina, obedecia eu naquela circunstância, entretanto, obedecia eu naquele momento da infância, ao primeiro mandamento. Será que me dei conta disso? Acho que não, mas a minha escolha foi a que relatei, foi por Deus, foi por conhecê-Lo, por segui-Lo.
Tive de responder a um questionário – achava tratar-se de um teste para ter o privilégio de estudar lá – e algum tempo depois soube que ia me matricular. Como estava contente e satisfeito! A empolgação estava em tudo, na observação da lista de material escolar (sempre gostei disso), nas compras, em tudo que se relacionava à escola. Quanto tempo durou a lua-de-mel? Não sei ao certo, mas nos anos seguintes o desejo do divórcio iria crescer cada vez mais, mas não foi concedido; o que era escolha do livre-arbítrio e alegria se tornaria sentimentos de impotência, decepção, frustração, e a escolha deu lugar à imposição – não só a imposição de permanecer naquele ambiente, mas até a imposição de suportar quieto as violências que lá abundavam. Eu era cristão, e não Cristo! Se se me dá um tapa na cara, o meu desejo é de trucidar o ...desgraçado. Explico: lugares como escolas são espaços de hostilidades. Alunos procuram colegas que tenham características que possam servir de matéria para chacotas, e se divertem à custa do sofrimento alheio. Não é por que a escola é “religiosa” que vai ser diferente, e os alunos se guiarão pelo amor ao próximo. Bom, eu transbordava os limites da ingenuidade, facilitando os engodos e ataques contra mim. Meu temperamento me levava a perdoar facilmente, mesmo quando eu sentia que a ofensa viria de novo amanhã. No meu caso, o que era tão diferente em mim? Eu era (era?) bastante distraído, do tipo que viaja horrores ao ponto de não saber o que o professor esteve falando à sua frente, e um católico inocente demais – que melhor para um lobo do que um cordeiro inocente? Explico mais uma vez. Aqueles meninos de quinta, de sexta série, levavam pornografia para a escola (espero que estejam conseguindo imaginar o clima de imbecilidade que imperava) e eu, recusando-me a olhá-las, tornei-me um tipo ridículo na Escola Sta. Mª Eufrásia, sendo chamado de “viado”, dentre a enorme variedade de agressões que já foram dirigidas contra mim naquele lugar. Nunca fui bom em me aproximar das meninas, e lá tive a oportunidade de aprimorar essa incapacidade – que melhor para aumentar a timidez do que ser o otário da turma, e qual garota vai querer alguma coisa com o otário da turma? Elas devem querer um cara mais esperto, capaz, “miseravão” (soube na própria escola de rapazes brasileiros que transaram com namoradas, filmaram o ato sem que elas soubessem, e que colocaram o vídeo na internet mostrando aos amigos como eles são demais, à custa da imagem das meninas.) Para que menino besta? Sempre fui o besta, bobão, lerdão, conforme já fui informado tantas vezes. Desenvolvi um sentimento de afeição às meninas, via nelas vítimas inocentes de homens, mas não vou comentar esse ponto. Tenho de avançar no artigo.
Fiz a Primeira Eucaristia na 5ª série, mas não senti nada de muito forte na cerimônia – até me distraí muito durante ela. Não que eu tivesse alguma dúvida quanto a Deus; apenas me culpei pela minha falta de compenetração. Na oitava série, no entanto, tive uma grave crise em minha fé. Os pensamentos intensos e constantes a que me dedicava – razão de eu ser considerado do “mundo da lua”, de ser “Da Lua”, naquele contexto que expliquei -, em contraponto com o ensino horrendo de religião que eu tive naquela escola religiosa, me levaram a dúvidas que não conseguia sanar e me traziam grande sofrimento. Não conseguia conciliar a idéia de Deus com a de infinito [1], comecei a imaginar a morte eterna – o que se tornaria motivo de terror, pânico e desespero solitário para mim, e perdi, enfim, a fé. E no seu vácuo, irrompeu o medo, a desesperança, a tristeza pela idéia de que meu avô que morrera dois anos antes poderia ter morrido pela infinitude dos tempos. Era um conjunto de pensamentos e sentimentos novos que não constituíam uma concepção de Universo, era um proto-ateísmo, involuntário, desengajado, introspectivo, que não se apresentava como ateísmo. Mas o sofrimento que esta disposição de espírito me trazia fez com que eu voltasse a me apegar com a fé. Evidentemente, esse nova situação era muito frágil e transitória, bastando apenas as primeiras semanas do ano letivo seguinte pa ra que ela evoluísse e se tornasse uma segunda etapa de minha descrença: era, agora, o ateísmo enquanto tal, consciente de sua condição e que não desejava ser outra coisa. Isso foi no começo do 1º ano do Ensino Médio, e completará portanto oito anos em fevereiro ou março próximos. Tornei-me um “ateu clássico” – iluminista, cientificista, combatente da fé e que me envolvia em polêmicas com meus amigos religiosos procurando derrubar sua posição – justamente a coisa que não imaginava me tornar e que combatia em casa (em minha família há católicos, espíritas e ateus); a palavra “ateu” antes me gerava repulsa, e pensar que havia me tornado um me provocava uma sensação estranha devido à memória daquela repulsa que permanecia em minha mente na forma de uma impressão, de um hábito mental. Eu era algo que estava acostumado a condenar, e só com o tempo fui adequando minhas atitudes externas e internas à minha nova visão das coisas. Foi também o último ano de ensino religioso obrigatório na escola.
Há uma coisa que me esqueci de relatar. Tornei-me comunista na 6ª série. Sei, impressionante a precocidade, mas pelo menos desde a 4ª eu já repetia algumas coisas que meu pai falava. Ele foi militante do PCdoB na época em que estudava na UCSAL, durante a ditadura militar, não na sua fase mais dura mas na que sucede o Gal. Médici e que já caminhava para a abertura. Foi diretor, (alguma coisa assim) do DA de Biologia, sendo colega de curso de Moema Gramacho, atual prefeita de Lauro de Freitas, e que na época nem era envolvida com militância, segundo ele me disse. Nesse ponto, eu procurei segui-lo. Não, eu não via incompatibilidade nenhuma com o catolicismo, muito pelo contrário, achava que era uma luta por justiça e que Jesus me ajudaria nela. Encontrei na biblioteca uma coleção de livretos ao estilo “Primeiros Passos” mas que visava também o público mais jovem, a “Pergunte ao José”, e li, dentre os inúmeros exemplares que li dessa série, os volumes “Comunismo”, “Socialismo” e “Capitalismo”, além de “Poder”, “Política” e “Feminismo”. O Manifesto Comunista de Marx e Engels eu só leria todo seis anos depois, no primeiro semestre da faculdade, mas eu já torcia pelo PT e sonhava com a eleição de Lula, e tinha aversão pela TFP (da qual a única coisa que eu sabia é que era uma organização católica de Direita que combatia a reforma agrária, chefiada por Plinio Corrêa de Oliveira, também um nome que soava muito mal aos meus ouvidos; foi o que eu pude extrair lendo o livro de História de Cotrim) desde aqueles tempos de imberbe. Isso na 6ª série! Da homossexualidade eu não simpatizava não, isso aí teria de esperar a faculdade mesmo, que é onde eu adquiriria uma nova opinião e me tornaria um quase “politicamente correto”, não fosse o fato de eu ter certos problemas com a política de cotas. Eu havia avançado mais para a esquerda.
Em 2003, fiz vestibular para História na UFBA, ingressando no curso no ano seguinte. Esse período ficará para a continuação, na qual eu abordarei o que considero minha terceira etapa ateísta, e minha visão atual sobre sua relação com outros assuntos que nos interessam, como religião e conservadorismo. Mas, por ora, quero justificar a feitura desses artigos.
Justificativa
Não desejo parecer pretensioso por estar tratando de minha pessoa; sei que é muito mais importante falar de Guénon, Ortega Y Gasset, Aristóteles, Confúcio, dos escolásticos, ou de Washington e demais Pais Fundadores, ou de tantos outros que deram contribuições inestimáveis à Civilização, coisa que ela ainda espera de mim. Tampouco posso me comparar a Sto. Agostinho para supor que posso imitá-lo escrevendo confissões com o valor que teve a dele. Sei qual é o meu lugar. Porém, além de minha falta de competência para tratar de tão elevados pensadores, posso alegar uma razão positiva para compartilhar convosco a minha insignificância. Ao relatar-vos essa minha trajetória intelectual, não pretendo tratar em primeiro plano de mim mesmo, mas de assuntos que me preocupam e que são de interesse muito mais geral: creio que interessam a todos os que lêem esse blog, e até a muitos mais, que não o lêem. Li em Olavo de Carvalho textos escritos de acordo com esse método, o de abordar coisas pequenas para discutir as grandes; não que eu tenha primeiramente observado tal uso em seus escritos – ele mesmo defendeu a utilização que faz de tal procedimento, sem o qual certamente não haveria Imbecil Coletivo nenhum, assim como muitas outras coisas que ele escreveu. Ademais, creio que pode interessar aos mais próximos, aos amigos ou aos que lidam pessoalmente comigo saber um pouco mais sobre mim; e mesmo para quem não me conhece, ou nem o deseja, ou seja lá o que for, o presente tipo de relato não carece de utilidade. É só pensar que ao ler ficção, se lê sobre gente que nem existe, apesar das mensagens e informações verdadeiras que hajam nas obras de tal gênero. O leitor tem a opção de encarar esse texto como um artigo com um personagem! Espero, com tudo isto, ter despertado ou mantido o interesse de tantos quantos tenham lido (ou até, só examinado) esse post, ou, pelo menos, do máximo possível dentre esses.
Aguardem o prosseguimento desse escrito.
[1] O problema era o seguinte: quantos seres vivos poderiam existir? Se fosse possível permitir a reprodução dos seres vivos, que existem aos bilhões, indefinidamente, o processo jamais terminaria, e sempre haveriam seres por surgir. Não conseguia, então, imaginar a possibilidade, a capacidade de Deus de dar origem a toda a vida que poderia existir, pois sempre faltaria uma infinidade dela por nascer. Se Deus é conformado com isso, então ele não é tão misericordioso assim – e sim, aliás, cruel; eu, por sofrer com isso, teria muito mais misericórdia. Pior ainda era tentar imaginar que o conjunto infinito de potenciais seres a existir existisse com inteligência, como era o justo para mim. Então passei a pensar e sentir a vida – a vida como categoria absoluta sobre a qual me debrucei nesse raciocínio filosófico - como algo precário.
História de sete anos numa escola religiosa – ou, Tudo começa quando somos pequeninos...
Como a maioria dentre nós, fui batizado na Igreja Católica Apostólica Romana e fiz, com gosto, catequese na Paróquia de Brotas, onde moro a quase quinze anos, desde que minha família voltou para Salvador, depois de morarmos em Seabra. Após terminar a 4ª série na Gente Miúda, tivemos de procurar uma escola que oferecesse ensino ginasial, como se chamava o da 5ª a 8ª série. Uma das opções foi o Colégio Nossa Senhora da Conceição, possibilidade que me empolgava bastante, mas que não se cumpriu. As outras duas, que foram efetivamente as alternativas dentre as quais eu escolhi, foram o IECB (onde hoje funciona o EEMBA) e a Escola Santa Maria Eufrásia, anexa ao Instituto Bom Pastor. A primeira, a laica, próxima à minha residência, oferecia aulas de natação, o que não me atraía pouco. Eu amava piscina, amava água – me encantava ver água nos programas esportivos, só bem depois que o futebol se tornaria mais interessante aos meus olhos; era sinônimo de alegria para mim, poucas coisas representavam tão bem os sentimentos de conforto e prazer, e visitamos a escola para conhecê-la. A segunda, a religiosa, católica, “escola de freira”, mais longe de minha casa, era, porém, uma perspectiva muito, mas muito fascinante para mim; eu teria aulas de religião e me prepararia para a Primeira Eucaristia, a se realizar no final do ano. Eu era uma criança, mas, no fim das contas, esta opção foi a que mais me seduziu: aquela primeira perdeu, e escolhi, com convicção, estudar na ESME: o desejo de religião, de fé, significava muito mais. Teria aulas de religião! Faria a Primeira Comunhão! Sem ter uma consciência clara da doutrina, obedecia eu naquela circunstância, entretanto, obedecia eu naquele momento da infância, ao primeiro mandamento. Será que me dei conta disso? Acho que não, mas a minha escolha foi a que relatei, foi por Deus, foi por conhecê-Lo, por segui-Lo.
Tive de responder a um questionário – achava tratar-se de um teste para ter o privilégio de estudar lá – e algum tempo depois soube que ia me matricular. Como estava contente e satisfeito! A empolgação estava em tudo, na observação da lista de material escolar (sempre gostei disso), nas compras, em tudo que se relacionava à escola. Quanto tempo durou a lua-de-mel? Não sei ao certo, mas nos anos seguintes o desejo do divórcio iria crescer cada vez mais, mas não foi concedido; o que era escolha do livre-arbítrio e alegria se tornaria sentimentos de impotência, decepção, frustração, e a escolha deu lugar à imposição – não só a imposição de permanecer naquele ambiente, mas até a imposição de suportar quieto as violências que lá abundavam. Eu era cristão, e não Cristo! Se se me dá um tapa na cara, o meu desejo é de trucidar o ...desgraçado. Explico: lugares como escolas são espaços de hostilidades. Alunos procuram colegas que tenham características que possam servir de matéria para chacotas, e se divertem à custa do sofrimento alheio. Não é por que a escola é “religiosa” que vai ser diferente, e os alunos se guiarão pelo amor ao próximo. Bom, eu transbordava os limites da ingenuidade, facilitando os engodos e ataques contra mim. Meu temperamento me levava a perdoar facilmente, mesmo quando eu sentia que a ofensa viria de novo amanhã. No meu caso, o que era tão diferente em mim? Eu era (era?) bastante distraído, do tipo que viaja horrores ao ponto de não saber o que o professor esteve falando à sua frente, e um católico inocente demais – que melhor para um lobo do que um cordeiro inocente? Explico mais uma vez. Aqueles meninos de quinta, de sexta série, levavam pornografia para a escola (espero que estejam conseguindo imaginar o clima de imbecilidade que imperava) e eu, recusando-me a olhá-las, tornei-me um tipo ridículo na Escola Sta. Mª Eufrásia, sendo chamado de “viado”, dentre a enorme variedade de agressões que já foram dirigidas contra mim naquele lugar. Nunca fui bom em me aproximar das meninas, e lá tive a oportunidade de aprimorar essa incapacidade – que melhor para aumentar a timidez do que ser o otário da turma, e qual garota vai querer alguma coisa com o otário da turma? Elas devem querer um cara mais esperto, capaz, “miseravão” (soube na própria escola de rapazes brasileiros que transaram com namoradas, filmaram o ato sem que elas soubessem, e que colocaram o vídeo na internet mostrando aos amigos como eles são demais, à custa da imagem das meninas.) Para que menino besta? Sempre fui o besta, bobão, lerdão, conforme já fui informado tantas vezes. Desenvolvi um sentimento de afeição às meninas, via nelas vítimas inocentes de homens, mas não vou comentar esse ponto. Tenho de avançar no artigo.
Fiz a Primeira Eucaristia na 5ª série, mas não senti nada de muito forte na cerimônia – até me distraí muito durante ela. Não que eu tivesse alguma dúvida quanto a Deus; apenas me culpei pela minha falta de compenetração. Na oitava série, no entanto, tive uma grave crise em minha fé. Os pensamentos intensos e constantes a que me dedicava – razão de eu ser considerado do “mundo da lua”, de ser “Da Lua”, naquele contexto que expliquei -, em contraponto com o ensino horrendo de religião que eu tive naquela escola religiosa, me levaram a dúvidas que não conseguia sanar e me traziam grande sofrimento. Não conseguia conciliar a idéia de Deus com a de infinito [1], comecei a imaginar a morte eterna – o que se tornaria motivo de terror, pânico e desespero solitário para mim, e perdi, enfim, a fé. E no seu vácuo, irrompeu o medo, a desesperança, a tristeza pela idéia de que meu avô que morrera dois anos antes poderia ter morrido pela infinitude dos tempos. Era um conjunto de pensamentos e sentimentos novos que não constituíam uma concepção de Universo, era um proto-ateísmo, involuntário, desengajado, introspectivo, que não se apresentava como ateísmo. Mas o sofrimento que esta disposição de espírito me trazia fez com que eu voltasse a me apegar com a fé. Evidentemente, esse nova situação era muito frágil e transitória, bastando apenas as primeiras semanas do ano letivo seguinte pa ra que ela evoluísse e se tornasse uma segunda etapa de minha descrença: era, agora, o ateísmo enquanto tal, consciente de sua condição e que não desejava ser outra coisa. Isso foi no começo do 1º ano do Ensino Médio, e completará portanto oito anos em fevereiro ou março próximos. Tornei-me um “ateu clássico” – iluminista, cientificista, combatente da fé e que me envolvia em polêmicas com meus amigos religiosos procurando derrubar sua posição – justamente a coisa que não imaginava me tornar e que combatia em casa (em minha família há católicos, espíritas e ateus); a palavra “ateu” antes me gerava repulsa, e pensar que havia me tornado um me provocava uma sensação estranha devido à memória daquela repulsa que permanecia em minha mente na forma de uma impressão, de um hábito mental. Eu era algo que estava acostumado a condenar, e só com o tempo fui adequando minhas atitudes externas e internas à minha nova visão das coisas. Foi também o último ano de ensino religioso obrigatório na escola.
Há uma coisa que me esqueci de relatar. Tornei-me comunista na 6ª série. Sei, impressionante a precocidade, mas pelo menos desde a 4ª eu já repetia algumas coisas que meu pai falava. Ele foi militante do PCdoB na época em que estudava na UCSAL, durante a ditadura militar, não na sua fase mais dura mas na que sucede o Gal. Médici e que já caminhava para a abertura. Foi diretor, (alguma coisa assim) do DA de Biologia, sendo colega de curso de Moema Gramacho, atual prefeita de Lauro de Freitas, e que na época nem era envolvida com militância, segundo ele me disse. Nesse ponto, eu procurei segui-lo. Não, eu não via incompatibilidade nenhuma com o catolicismo, muito pelo contrário, achava que era uma luta por justiça e que Jesus me ajudaria nela. Encontrei na biblioteca uma coleção de livretos ao estilo “Primeiros Passos” mas que visava também o público mais jovem, a “Pergunte ao José”, e li, dentre os inúmeros exemplares que li dessa série, os volumes “Comunismo”, “Socialismo” e “Capitalismo”, além de “Poder”, “Política” e “Feminismo”. O Manifesto Comunista de Marx e Engels eu só leria todo seis anos depois, no primeiro semestre da faculdade, mas eu já torcia pelo PT e sonhava com a eleição de Lula, e tinha aversão pela TFP (da qual a única coisa que eu sabia é que era uma organização católica de Direita que combatia a reforma agrária, chefiada por Plinio Corrêa de Oliveira, também um nome que soava muito mal aos meus ouvidos; foi o que eu pude extrair lendo o livro de História de Cotrim) desde aqueles tempos de imberbe. Isso na 6ª série! Da homossexualidade eu não simpatizava não, isso aí teria de esperar a faculdade mesmo, que é onde eu adquiriria uma nova opinião e me tornaria um quase “politicamente correto”, não fosse o fato de eu ter certos problemas com a política de cotas. Eu havia avançado mais para a esquerda.
Em 2003, fiz vestibular para História na UFBA, ingressando no curso no ano seguinte. Esse período ficará para a continuação, na qual eu abordarei o que considero minha terceira etapa ateísta, e minha visão atual sobre sua relação com outros assuntos que nos interessam, como religião e conservadorismo. Mas, por ora, quero justificar a feitura desses artigos.
Justificativa
Não desejo parecer pretensioso por estar tratando de minha pessoa; sei que é muito mais importante falar de Guénon, Ortega Y Gasset, Aristóteles, Confúcio, dos escolásticos, ou de Washington e demais Pais Fundadores, ou de tantos outros que deram contribuições inestimáveis à Civilização, coisa que ela ainda espera de mim. Tampouco posso me comparar a Sto. Agostinho para supor que posso imitá-lo escrevendo confissões com o valor que teve a dele. Sei qual é o meu lugar. Porém, além de minha falta de competência para tratar de tão elevados pensadores, posso alegar uma razão positiva para compartilhar convosco a minha insignificância. Ao relatar-vos essa minha trajetória intelectual, não pretendo tratar em primeiro plano de mim mesmo, mas de assuntos que me preocupam e que são de interesse muito mais geral: creio que interessam a todos os que lêem esse blog, e até a muitos mais, que não o lêem. Li em Olavo de Carvalho textos escritos de acordo com esse método, o de abordar coisas pequenas para discutir as grandes; não que eu tenha primeiramente observado tal uso em seus escritos – ele mesmo defendeu a utilização que faz de tal procedimento, sem o qual certamente não haveria Imbecil Coletivo nenhum, assim como muitas outras coisas que ele escreveu. Ademais, creio que pode interessar aos mais próximos, aos amigos ou aos que lidam pessoalmente comigo saber um pouco mais sobre mim; e mesmo para quem não me conhece, ou nem o deseja, ou seja lá o que for, o presente tipo de relato não carece de utilidade. É só pensar que ao ler ficção, se lê sobre gente que nem existe, apesar das mensagens e informações verdadeiras que hajam nas obras de tal gênero. O leitor tem a opção de encarar esse texto como um artigo com um personagem! Espero, com tudo isto, ter despertado ou mantido o interesse de tantos quantos tenham lido (ou até, só examinado) esse post, ou, pelo menos, do máximo possível dentre esses.
Aguardem o prosseguimento desse escrito.
[1] O problema era o seguinte: quantos seres vivos poderiam existir? Se fosse possível permitir a reprodução dos seres vivos, que existem aos bilhões, indefinidamente, o processo jamais terminaria, e sempre haveriam seres por surgir. Não conseguia, então, imaginar a possibilidade, a capacidade de Deus de dar origem a toda a vida que poderia existir, pois sempre faltaria uma infinidade dela por nascer. Se Deus é conformado com isso, então ele não é tão misericordioso assim – e sim, aliás, cruel; eu, por sofrer com isso, teria muito mais misericórdia. Pior ainda era tentar imaginar que o conjunto infinito de potenciais seres a existir existisse com inteligência, como era o justo para mim. Então passei a pensar e sentir a vida – a vida como categoria absoluta sobre a qual me debrucei nesse raciocínio filosófico - como algo precário.
5 comentários:
Aguardo ansiosamente a segunda parte deste relato. Acho que se cada pessoa do grupo fizesse um relato dos principais fatos de sua vida que se ligassem á posição política veríamos como passamos por processos parecidos. Vejo muito do que aconteceu comigo no que você relatou, mas uns poucos fatos nos afastam radicalmente um do outro. Fui criado pagão, durante a infância inteira... depois numa espécia de Deísmo perenialista, e só agora, depois de muito tempo, me converti ao Catolicismo. No seu caso foi o contrário: mas não paganismo, ateísmo.
Rezo por sua reconversão meu amigo!
Olá, caro Vladimir! Vou tentar não demorar muito para escrever a 2ª parte, que é muito mais substancial; nela estará contida as reflexões mais profundas sobre o ateísmo(como eu o vejo) e suas relações com temas como moral, revolução e conservadorismo,fé-razão etc, enquanto que a parte I foi muito mais pessoal. A próxima parte é bem mais difícil, vou procurar me esforçar bastante. E muita gente que tem me perguntado às vezes sobre como vejo essas coisas terá uma ótima oportunidade para compreender meu pensamento, pois aqui eu revisarei o texto, verei se ele está expressivo e tentarei assim ser mais eloqüente do que em todas às vezes anteriores em que tentei explicar tal ou qual coisa.
Fabrício,
Você é um caso curioso que desmente a minha tese geral sobre como se formam os grandes escritores. Eu sempre pensei - e ainda hoje suponho - que uma elocução oral fina e bem estruturada contém o segredo de altos vôos literários. Parece-me haver uma ligação quase essencial entre escrever bem e ter, na expressão oral, o domínio de estruturas de expressão mais complexas. Você é uma exceção rara à minha regra. Não é um bom orador, sabemos disso, não tem este domínio que eu apontei. Mas escreve muitíssimo bem. O texto é cativante, tem ritmo, prende a atenção do leitor, e dá uma sensação acolhedora de proximidade com o autor (e não por ser autobiográfico, mas pelo estilo). Meu veredicto final: uma pequena obra-prima de bom gosto e fluência. Faço minhas as palavras de Vladimir. Aguardo ansiosamente a segunda parte do relato. E escreva logo, pois não quero morrer de ansiedade. Abraço!
Eu já me corrigi na "Parte II" deste texto, mas sinto a necessidade de fazê-lo também noutras partes onde neguei O Que não deveria ser Negado; rejeito o ateísmo como um pensamento que deve sua origem à incapacidade de entender, o que se dá em decorrência de um enfraquecimento da inteligência imersa numa cultura que transmite a religião de um modo viciado - se repasso hoje, em minha mente, as alegações que fazia contra a crença em Deus, vejo com nitidez que eram baseadas em mal-entendidos e em "conceitos religiosos" apresentados e aprrendidos de maneira a ocultar a clareza e resplendor dos ensinamentos tal como trazidos pelos profetas e mensageiros de Deus nas origens das Tradições. Enfim, quem me viu defender a descrença esqueça, defendo que todos busque a crença baseada na compreensão, pois "o conhecimento leva à presença do que é conhecido, e a presença leva ao amor do que é presenciado".
Se acaso alguém ler este artigo, por favor, vide meu comentário à sua "Parte II".
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