"Evidentemente, estas considerações não valem para a lógica aristotélico-escolástica, que não é um "mecanismo de representação", nem uma função específica das estruturas lingüísticas (como queria um R.Carnap, por exemplo). Reduzi-la a algo assim é retirar dela a sua própria essência. A lógica em Aristóteles enuncia as leis de encadeamento dos princípios supremos da realidade, os quais são por sua vez apreendidos pela intuição intelectual. Ora, a possibilidade de se dizer algo do mundo que efetivamente saia da esfera das representações subjetivas ou da mecânica da linguagem, desaparece quando cortamos o laço entre pensamento e mundo, entre alma e realidade exterior.
Decerto, este afastamento dos dois polos não foi mera obra do acaso histórico, mas tem uma bem traçada linha de desenvolvimento, cuja culminância e cintilação mais vultuosa nós hoje assistimos. Os espíritos conventuais, ainda apegados à tradição, recuam horrorizados ante a idéia de esposar esta dualidade trágica. A certeza lógica e ontológica em Aristóteles provêm da estrita homologia que é possível estabelecer entre pensamento e mundo. Sem esta homologia, a lógica nada nos diz sobre o real, mas apenas sobre as condições do discurso possível acerca do real.
Em Aristóteles, interior e exterior, mundo e discurso se interpenetram e se resolvem da unidade de uns quantos princípios comuns - eis aí a raiz e a possibilidade mesma do conhecimento, uma possibilidade que Kant não percebeu quando, movido pelo afã de tudo reduzir às representações do sujeito, esvaziou a lógica do seu alcance ontológico e com isso abriu a possibilidade para a queda no formalismo puro da lógica moderna - instrumento maravilhoso, que faríamos bem em conservar abdicando dos pressupostos epistemológicos que lhe servem de base. Mas, mesmo sem entrar em toda esta controvérsia, ainda assim você não estaria mais respaldado para concluir, como você conclui, que a validade da lógica reduz-se a uma espécie de "legitimidade" socialmente condicionada.
Ora, isto é confundir dois planos distintos. Uma coisa é falar acerca das condições históricas que tornaram este ou aquele método de conhecimento preponderante numa determinada época ou cultura. Outra, bem diferente, é especular sobre a validade de um saber considerado em sua estrutura interna. Quando dizemos que um silogismo é válido, estamos nos referindo a uma ordem de realidade que não depende em nada das "convenções" sociais ou das suposições de qualquer indivíduo, mas que depende da apreensão de certos princípios universais, que podem estar na realidade, no entendimento puro ou nas estruturas linguísticas do gênero humano. Em suma, seja derivada da natureza das coisas, seja derivada de estruturas maiores comuns a todo homem, a legitimidade da lógica não é "convencionada" arbitrariamente.
O racionalismo mitigado de Kant não entra em questão, pois ele de fato não criticou a razão em si mesma, o que seria uma pura e simples impossibilidade de acordo com o seu método. Ele criticou certas pretensões filosóficas que levavam a razão a enredar-se em controvérsias irresolvíveis. Conforme estudos mais recentes no kantismo, o que Kant propunha era uma espécie de semântica transcendental, na qual certas perguntas seriam recusadas in limine: ao notar que as questões metafísicas mais apaixonantes eram questões "sem objeto" - pois apoiavam-se em proposições sem sentido - o que Kant faz não é impor limites à razão ou coisa do tipo, mas tão só discriminar entre as questões que realmente fazem "sentido", as questões cujo objeto pode ser dado na representação, e as que não fazem. Naturalmente, a imagem que você me sugere ao falar desta crítica da lógica através da lógica, é sumamente paradoxal, mas correta. Lembra uma imagem de um filósofo analítico, não me recordo quem foi agora... Ele dizia que a epistemologia assemelhava-se a tentativa de desarmar e reconstruir um barco enquanto se está navegando.
A arte não pode demonstrar coisa alguma. Na arte não existem os mecanismos para se passar da irresolução de uma idéia à sua certeza apodítica. A arte é por essência um meio de "apreensão" - nisto você está certíssimo. Mas, se ela apreende algo - uma impressão exteriorizada, vamos supor - é precisamente porque sua natureza lhe indica a função de captar certas realidades e não de demonstrá-las. Demonstrar é revelar a necessidade de algo ser exatamente o que é. Assim, demonstramos que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa quando, por certos mecanismos apropriados, o entendimento é levado a tomar a conclusão como necessária. No entanto, se a arte nos permite captar certas realidades, estas realidades podem, evidentemente, ser diferentes do que são. Nada há nestas realidades artísticas, e na sensação de beleza que elas nos provocam, de "demonstrável", quanto mais de "demonstrado".
Mas esta é uma mudança ociosa. A distinção entre demonstração e apreensão, entre a certeza lógica e a impressão, a certeza que a arte nos provoca - uma "certeza", cum grano salis - corresponde a uma adequada diferenciação de processos de conhecimento. No caso, o excesso logicista estaria em desprezar a apreensão artística como forma de conhecimento, em considerá-la uma forma menor de saber, quando na realidade ambas as coisas, lógica e arte, são as duas faces de Jano: a arte enquadra-nos numa perspectiva simbólica, quando nos fornece certas experiências interiores sem as quais estaríamos confinados permanentemente na baixa animalidade; ao fazê-lo, a arte nos dá uma imagem em miniatura de um "mundo possível" e, portanto, nos estende um horizonte de possibilidades anímicas e sensitivas.
O acúmulo de impressões variadas desta mesma ordem se traduz no aumento progressivo da capacidade de estruturas sub-realidades com as quais, imaginativamente, reproduzimos a estrutura de um mundo possível, cujas leis sempre serão o reflexo, ainda que retorcido, das leis do nosso próprio mundo (leia-se aí o conceito da mímese aristotélica). Ora, projetar imaginativamente modelos estruturais de realidade é uma atividade artística comum à ciência, com a diferença que na ciência busca-se o real com tais modelos, enquanto que o domínio da arte é o domínio do possível. Se a arte situa-se no domínio do possível, então é um contra-senso falar em "demonstração", pois o sentido mais óbvio do termo "demonstrar", é: mostrar algo como não podendo ser senão o que é demonstrado. Daí a pertinência da distinção: a atividade científica supõe outras condições que não estão presentes na arte, as quais constituem os requisitos particulares e diferenciadores dessa atividade."
Decerto, este afastamento dos dois polos não foi mera obra do acaso histórico, mas tem uma bem traçada linha de desenvolvimento, cuja culminância e cintilação mais vultuosa nós hoje assistimos. Os espíritos conventuais, ainda apegados à tradição, recuam horrorizados ante a idéia de esposar esta dualidade trágica. A certeza lógica e ontológica em Aristóteles provêm da estrita homologia que é possível estabelecer entre pensamento e mundo. Sem esta homologia, a lógica nada nos diz sobre o real, mas apenas sobre as condições do discurso possível acerca do real.
Em Aristóteles, interior e exterior, mundo e discurso se interpenetram e se resolvem da unidade de uns quantos princípios comuns - eis aí a raiz e a possibilidade mesma do conhecimento, uma possibilidade que Kant não percebeu quando, movido pelo afã de tudo reduzir às representações do sujeito, esvaziou a lógica do seu alcance ontológico e com isso abriu a possibilidade para a queda no formalismo puro da lógica moderna - instrumento maravilhoso, que faríamos bem em conservar abdicando dos pressupostos epistemológicos que lhe servem de base. Mas, mesmo sem entrar em toda esta controvérsia, ainda assim você não estaria mais respaldado para concluir, como você conclui, que a validade da lógica reduz-se a uma espécie de "legitimidade" socialmente condicionada.
Ora, isto é confundir dois planos distintos. Uma coisa é falar acerca das condições históricas que tornaram este ou aquele método de conhecimento preponderante numa determinada época ou cultura. Outra, bem diferente, é especular sobre a validade de um saber considerado em sua estrutura interna. Quando dizemos que um silogismo é válido, estamos nos referindo a uma ordem de realidade que não depende em nada das "convenções" sociais ou das suposições de qualquer indivíduo, mas que depende da apreensão de certos princípios universais, que podem estar na realidade, no entendimento puro ou nas estruturas linguísticas do gênero humano. Em suma, seja derivada da natureza das coisas, seja derivada de estruturas maiores comuns a todo homem, a legitimidade da lógica não é "convencionada" arbitrariamente.
O racionalismo mitigado de Kant não entra em questão, pois ele de fato não criticou a razão em si mesma, o que seria uma pura e simples impossibilidade de acordo com o seu método. Ele criticou certas pretensões filosóficas que levavam a razão a enredar-se em controvérsias irresolvíveis. Conforme estudos mais recentes no kantismo, o que Kant propunha era uma espécie de semântica transcendental, na qual certas perguntas seriam recusadas in limine: ao notar que as questões metafísicas mais apaixonantes eram questões "sem objeto" - pois apoiavam-se em proposições sem sentido - o que Kant faz não é impor limites à razão ou coisa do tipo, mas tão só discriminar entre as questões que realmente fazem "sentido", as questões cujo objeto pode ser dado na representação, e as que não fazem. Naturalmente, a imagem que você me sugere ao falar desta crítica da lógica através da lógica, é sumamente paradoxal, mas correta. Lembra uma imagem de um filósofo analítico, não me recordo quem foi agora... Ele dizia que a epistemologia assemelhava-se a tentativa de desarmar e reconstruir um barco enquanto se está navegando.
A arte não pode demonstrar coisa alguma. Na arte não existem os mecanismos para se passar da irresolução de uma idéia à sua certeza apodítica. A arte é por essência um meio de "apreensão" - nisto você está certíssimo. Mas, se ela apreende algo - uma impressão exteriorizada, vamos supor - é precisamente porque sua natureza lhe indica a função de captar certas realidades e não de demonstrá-las. Demonstrar é revelar a necessidade de algo ser exatamente o que é. Assim, demonstramos que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa quando, por certos mecanismos apropriados, o entendimento é levado a tomar a conclusão como necessária. No entanto, se a arte nos permite captar certas realidades, estas realidades podem, evidentemente, ser diferentes do que são. Nada há nestas realidades artísticas, e na sensação de beleza que elas nos provocam, de "demonstrável", quanto mais de "demonstrado".
Mas esta é uma mudança ociosa. A distinção entre demonstração e apreensão, entre a certeza lógica e a impressão, a certeza que a arte nos provoca - uma "certeza", cum grano salis - corresponde a uma adequada diferenciação de processos de conhecimento. No caso, o excesso logicista estaria em desprezar a apreensão artística como forma de conhecimento, em considerá-la uma forma menor de saber, quando na realidade ambas as coisas, lógica e arte, são as duas faces de Jano: a arte enquadra-nos numa perspectiva simbólica, quando nos fornece certas experiências interiores sem as quais estaríamos confinados permanentemente na baixa animalidade; ao fazê-lo, a arte nos dá uma imagem em miniatura de um "mundo possível" e, portanto, nos estende um horizonte de possibilidades anímicas e sensitivas.
O acúmulo de impressões variadas desta mesma ordem se traduz no aumento progressivo da capacidade de estruturas sub-realidades com as quais, imaginativamente, reproduzimos a estrutura de um mundo possível, cujas leis sempre serão o reflexo, ainda que retorcido, das leis do nosso próprio mundo (leia-se aí o conceito da mímese aristotélica). Ora, projetar imaginativamente modelos estruturais de realidade é uma atividade artística comum à ciência, com a diferença que na ciência busca-se o real com tais modelos, enquanto que o domínio da arte é o domínio do possível. Se a arte situa-se no domínio do possível, então é um contra-senso falar em "demonstração", pois o sentido mais óbvio do termo "demonstrar", é: mostrar algo como não podendo ser senão o que é demonstrado. Daí a pertinência da distinção: a atividade científica supõe outras condições que não estão presentes na arte, as quais constituem os requisitos particulares e diferenciadores dessa atividade."
3 comentários:
Muito interessante o seu texto, e muito agradável de se ler, é uma dessas prosas filosóficas que poderiam comparecer aos belos livros de literatura! A única reclamação é que achei confuso esse trecho: "O acúmulo de impressões variadas desta mesma ordem se traduz no aumento progressivo da capacidade de estruturas sub-realidades com as quais, imaginativamente, reproduzimos a estrutura de um mundo possível".
Aqui cabe uma observação sobre os comentários de Carlos Rajas. Vejamos este texto: não parece diretamente relacionado a "pensamento conservador", embora esteja, sim, porque defende elementos de uma tradição filosófica que são questionados por certos críticos modernos (p.ex: "Mas, mesmo sem entrar em toda esta controvérsia, ainda assim você não estaria mais respaldado para concluir, como você conclui, que a validade da lógica reduz-se a uma espécie de "legitimidade" socialmente condicionada. ") Pelo que entendi, ao ler o blog do "Grupo de Estudos do Pensamento Conservador" - como o sr Rajas destacou - o nosso visitante esperava encontrar textos sobre o que é o "pensamento conservador", como ele se expressa em certas circunstâncias sociais de acordo com determinadas correntes e formulações etc etc. Não é isso que estamos fazendo - e, admito logo que não estou preparado para isso - mas, na verdade, não sei mais o que o nosso leitor-crítico deseja, seria melhor que ele o explicitasse diretamente.
Ah, Ricardo, excelente post; abraço.
É por isso que te amo tanto...
É por isso que te amo tanto...
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