terça-feira, 11 de novembro de 2008

René Guénon e a Unidade Metafísica das Tradições I

A obra de René Guénon se constitui no exemplo mais perfeito de intelectualidade espiritual no Ocidente do século XX. Este juízo grandiloquente dificilmente poderia ser contestado por quem lesse a totalidade dos 27 volumes saídos da lavra do ilustre autor.

Francês de nascimento, tendo sido educado por família católica devota, Guénon desde cedo mostrou aptidões notáveis para as matemáticas. Mais tarde, quando afastado do estudo das disciplinas lógicas a que era afeiçoado e dedicando-se por completo a exposição das doutrinas tradicionais, este caráter matemático do seu espírito revelar-se-ia no estilo escolástico e complexo dos seus escritos.

Este estilo, naturalmente, tem um encanto ambíguo. Pode afastar leitores menos afeitos a intrincadas distinções e ao mesmo tempo seduzir aqueles que, a despeito das dificuldades encontradas, buscam uma fonte extremamente precisa de dados tradicionais. Pois de fato o intuito de Guénon não foi jamais destacar-se por sua originalidade, muito menos atiçar a sensibilidade de seus leitores com belas metáforas e floreados estilísticos. O rigor matemático da exposição, aliada a erudição invejável mas nunca louvada como fim em si, recomenda Guénon como o expositor por excelência da Sophia Perennis.

Por Sophia Perennis entende-se o núcleo metafísico das tradições cuja unidade essencial se atesta precisamente pela convergência neste plano: apenas no plano da Sophia Perenis pode haver identidade das tradições. Malgrado as diferenças de ritos, moral, dogmas e outras diferenças de forma, a concepção metafísica da Realidade deve necessariamente ser compartilhada pelas religiões. No plano dos princípios supremos e universais não pode haver distinção entre as várias formas tradicionais. Todas as tradições, por exemplo, seja sob véus de mitologias politeístas, seja afirmando um monoteísmo irredutível, compreendem a realidade como sendo, em última instancia, unitotalidade espiritual. A impossibilidade de um dualismo metafísico incontornável é um daqueles pontos nos quais a unidade metafísica das tradições mostra-se mais facilmente visível.

Do mesmo modo, a convergência manifesta-se quanto ao aspecto operativo dos métodos ascéticos empregados pelas distintas tradições. Existem técnicas de ascese que tem rigorosamente seus similares em diversas tradições conhecidas. Um dos métodos de iluminação mais difundidos é a repetição de um nome sagrado. Encontramos a técnica entre os místicos cristãos, em especial São Bernardino de Siena famoso por suas jaculatórias inspiradas e pelas pregações recomendando a eficácia deste método. Entre os cristãos ortodoxos lembramos a tradicional repetição do nome de Jesus, um dos métodos centrais da ascese do monte athos. Na mesma linha, o budismo Sukhavati (Terra Pura) centraliza sua devoção em torno da repetição do nome do Buda, enquando o hinduísmo traz a mesma técnica no japa yoga.

Este é apenas um exemplo entre tantos outros que podiam ser citados. O prof. W. Perry forneceu uma extensa lista de semelhanças deste tipo no seu livro Treasures of Traditional Wisdom. Em contrapartida, as diferenças entre os métodos explicam-se por caraterísticas específicas a cada tradição. Assim, nas tradições iconodúlicas[1] há uma veneranda transmissão de práticas vinculadas à contemplação dos ícones, cujo caráter sacramental é incontestável[2]; ao contrário, as religiões iconoclastas dispensaram todo aparato figurativo para a contemplação. Analogamente, enquanto o zen coloca todo o acento da sua prática nos koans e no zazen, o budismo tibetano traz os upayas e as recitações salmodiadas dos mantras unem-se a uma liturgia na qual os movimentos e os mudras (gestos simbólicos) são imprescindíveis e tradicionais.

Basta-nos dizer que as semelhanças dificilmente poderiam ser atribuídas a influências históricas recíprocas entre estas civilizações, uma vez que os métodos em questão se apresentam desde épocas remotas nas quais não havia contato registrado entre algumas destas civilizações.

A semelhança repousa, em realidade, na eficácia objetiva destes métodos espirituais. Isto significa que, ao contrário das hipóteses subjetivistas e relativistas que grassam na modernidade, as tradições têm um componente objetivo inequívoco. Este componente reside nos princípios metafísicos supremos os quais se refletem na adequação de certos métodos cuja prática servirá para alcançar a religação com a Fonte divina, seja esta religação concebida como Identidade Suprema com o Princípio (at-tawhid, yoga) ou estado Absoluto e Incondicionado (nirvana, sahaja nirvikalpa samadhi), seja a meta mais modesta dos exoterismos de matriz abraâmica: a felicidade imaculada num reino de bem-aventurança celestial.
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[1] O termo iconodúlico foi introduzido na literatura especializada ao que consta pela primeira vez pelo prof. William Stodart. Iconodúlica é uma tradição na qual os ícones são objeto de veneração.

[2] Um velho costume dos artistas ortodoxos do medievo indica significativamente o caráter sacramental dos ícones. Misturava-se na tinta em que eram pintados os ícones um pouco do pó das relíquias. Em outro contexto, e num plano menos material, por assim dizer, os textos de arte hindús salientam a necessidade do artista em dedicar-se à disciplina espirtual e à dhyana (contemplação).

Ricardo Almeida

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