sábado, 7 de março de 2009
Roma - Where hat styles never got out fashion
sexta-feira, 6 de março de 2009
Carta de apoio a D. Aldo, Arcebispo Metropolitano da Paraíba
Excelentíssimo Senhor Arcebispo Dom Aldo di Cillo Pagotto,
PAX DOMINI,
Osculo com humildade as vossas mãos, caríssimo D. Aldo, em respeito ao vosso episcopado e àquilo que representa: um Sucessor dos Apóstolos que não só carrega a licitude e validade da sagração, mas leva na alma o mesmo espírito de fidelidade e amor para com a Verdade.
D. Aldo, eu, Pedro Ravazzano, humilde e indigno fiel da Igreja, filho da Arquidiocese de São Salvador, me regozijo com a atitude tomada pelo senhor. Como é belo e inspirador ver que no nosso país, a Terra de Santa Cruz, Bispos, seguindo de forma piedosa e exemplar os ensinamentos e os princípios católicos, fazem valer a força necessária para guiar seu rebanho. Hoje, infelizmente, existe esse ideal açucarado de sacerdócio, onde tudo fica submetido aos modos obtusos de Amor, Paz e Justiça.
D. Aldo, o que mais se destaca nessa história é o fato de que o senhor, pela graça de Deus, tomou uma atitude natural, fruto das circunstâncias. Como é triste perceber que em nosso país as noções mais básicas da fé católica, como a não adesão ao socialismo e à cultura de morte foram, não só deixadas de lado, mas valorizadas e incentivadas por certos membros do clero. Atualmente, a mídia e a comunidade se espantam quando Bispos se comportam como...Bispos. O problema, obviamente, não se encontra na vossa louvável atitude - afastar um Sacerdote que defende a bandeira de um partido abortista e adepto de políticas de claro cunho socializante -, mas sim na de Pe. Luiz Couto que, desobedecendo os ensinamentos da Igreja, abraçou uma causa não só distante dos princípios católicos, mas oposta ao catolicismo em sua verdadeira identidade – não esse “catolicismo” vermelho, fruto das deformações relativistas de alguns.
O Pe. Luiz Couto afirma que tem o apoio do presidente da Câmara Federal, Michel Temer, do presidente Nacional do PT, Ricardo Berzoini e do bispo emérito de Goiás, Dom Tomás Balduíno. Sinceramente? Eu teria vergonha de ser apoiado por esses homens. Assumo que o que mais me assusta é a concordância, e proteção, de D. Balduíno a esse espírito averso a toda a verdadeira catolicidade, minando, pouco a pouco, o ethos cristão que fundamenta as atitudes desse povo e incita, em todos nós, a busca pela vivência, cada vez mais sincera, da fé!
Como dói ver, inclusive, que alguns setores da CNBB saem em defesa de um Sacerdote que se opôs, claramente, aos ensinamentos da Igreja. O que é o catolicismo? Não é também seguir o Magistério da Igreja construída por Cristo? Por que, afinal, a desobediência é estimulada e aplaudida por homens e mulheres que professam a fé católica - livremente, diga-se de passagem? Infelizmente, em terras brasileiras, mais uma vez, a fidelidade e honestidade são atacadas e vilipendiadas. Falam muito da corrupção em Brasília, mas não percebem que essa religião que eles seguem não passa do resultado de uma também corrupção, proposital e pessoal, dos ensinamentos católicos!
Aplaudo a atitude do senhor, reverencio o vosso comportamento e espero, sinceramente, que Deus te conceda a força necessária para cada vez mais fazer valer nessa nação a bandeira de Cristo e o amor ao Papa!
Que Nossa Senhora das Neves, a Padroeira da vossa Arquidiocese, venerada na Basílica de Santa Maria Maior, que resplandece toda a dignidade e formosura da nossa fé católica, abençoe o vosso episcopado, cobrindo de graças o senhor e o protegendo dos ataques dos inimigos.
In Jesu et Maria
Pedro Ravazzano
PAX DOMINI,
Osculo com humildade as vossas mãos, caríssimo D. Aldo, em respeito ao vosso episcopado e àquilo que representa: um Sucessor dos Apóstolos que não só carrega a licitude e validade da sagração, mas leva na alma o mesmo espírito de fidelidade e amor para com a Verdade.
D. Aldo, eu, Pedro Ravazzano, humilde e indigno fiel da Igreja, filho da Arquidiocese de São Salvador, me regozijo com a atitude tomada pelo senhor. Como é belo e inspirador ver que no nosso país, a Terra de Santa Cruz, Bispos, seguindo de forma piedosa e exemplar os ensinamentos e os princípios católicos, fazem valer a força necessária para guiar seu rebanho. Hoje, infelizmente, existe esse ideal açucarado de sacerdócio, onde tudo fica submetido aos modos obtusos de Amor, Paz e Justiça.
D. Aldo, o que mais se destaca nessa história é o fato de que o senhor, pela graça de Deus, tomou uma atitude natural, fruto das circunstâncias. Como é triste perceber que em nosso país as noções mais básicas da fé católica, como a não adesão ao socialismo e à cultura de morte foram, não só deixadas de lado, mas valorizadas e incentivadas por certos membros do clero. Atualmente, a mídia e a comunidade se espantam quando Bispos se comportam como...Bispos. O problema, obviamente, não se encontra na vossa louvável atitude - afastar um Sacerdote que defende a bandeira de um partido abortista e adepto de políticas de claro cunho socializante -, mas sim na de Pe. Luiz Couto que, desobedecendo os ensinamentos da Igreja, abraçou uma causa não só distante dos princípios católicos, mas oposta ao catolicismo em sua verdadeira identidade – não esse “catolicismo” vermelho, fruto das deformações relativistas de alguns.
O Pe. Luiz Couto afirma que tem o apoio do presidente da Câmara Federal, Michel Temer, do presidente Nacional do PT, Ricardo Berzoini e do bispo emérito de Goiás, Dom Tomás Balduíno. Sinceramente? Eu teria vergonha de ser apoiado por esses homens. Assumo que o que mais me assusta é a concordância, e proteção, de D. Balduíno a esse espírito averso a toda a verdadeira catolicidade, minando, pouco a pouco, o ethos cristão que fundamenta as atitudes desse povo e incita, em todos nós, a busca pela vivência, cada vez mais sincera, da fé!
Como dói ver, inclusive, que alguns setores da CNBB saem em defesa de um Sacerdote que se opôs, claramente, aos ensinamentos da Igreja. O que é o catolicismo? Não é também seguir o Magistério da Igreja construída por Cristo? Por que, afinal, a desobediência é estimulada e aplaudida por homens e mulheres que professam a fé católica - livremente, diga-se de passagem? Infelizmente, em terras brasileiras, mais uma vez, a fidelidade e honestidade são atacadas e vilipendiadas. Falam muito da corrupção em Brasília, mas não percebem que essa religião que eles seguem não passa do resultado de uma também corrupção, proposital e pessoal, dos ensinamentos católicos!
Aplaudo a atitude do senhor, reverencio o vosso comportamento e espero, sinceramente, que Deus te conceda a força necessária para cada vez mais fazer valer nessa nação a bandeira de Cristo e o amor ao Papa!
Que Nossa Senhora das Neves, a Padroeira da vossa Arquidiocese, venerada na Basílica de Santa Maria Maior, que resplandece toda a dignidade e formosura da nossa fé católica, abençoe o vosso episcopado, cobrindo de graças o senhor e o protegendo dos ataques dos inimigos.
In Jesu et Maria
Pedro Ravazzano
quinta-feira, 5 de março de 2009
O Servo de Deus Inácio de São Paulo: A Conversão da Inglaterra e o Ecumenismo
por Pedro Ravazzano
***
O Servo de Deus Inácio de São Paulo (1799 – 1864) nasceu Honorável George Spencer, filho do segundo Conde Spencer. Fizera-se católico, largando o erro anglicano, em 1830. Sua história é de extrema beleza e relevância, afinal seu apostolado preconizou o verdadeiro diálogo ecumênico mais tarde adotado pela Igreja. O passionista Inácio percebera a necessidade de largar a soberba, adotar uma postura fraterna, embebida na mais genuína caridade evangélica, para que, a partir de então, se iniciasse um frutuoso diálogo visando a conversão da Inglaterra. As pretensões de Pe. Inácio eram grandiosas; ele rezava para que todo o Reino Unido saísse das trevas da heresia e abraçasse de todo o coração a Verdade cristã, em sua plenitude, o que representava a adesão formal ao credo católico.***
Esse seu empenho fez dele o “Apóstolo da Oração pela Inglaterra”. Nos primórdios da sua vida educacional George Spencer teve uma forte influência evangélica, da baixa Igreja anglicana. No Eton College ele era educado pelo Reverend Richard Godley, de clara formação protestante no sentido mais fidedigno do termo. Inconformado com essa ótica puritana, reinante nas igrejas da Low Church, mudou de colégio, se submetendo aos ensinos do Reverend Blomfield, com uma formação mais clássica e com claros contornos tradicionais; assim se preparou para receber o sacramento da confirmação – inválido e ilícito. Depois de estudar Divinity, no Trinity College, em Cambridge, George fez uma viagem pelo continente; foi o primeiro contato que ele teve com a cultura e o espírito católico. No seu país o catolicismo era discriminado, visto como uma religião de gueto, dos ignorantes e ultrapassados. Ao voltar para seu país George, o filho mais novo de uma aristocrática família, foi ordenado diácono e mais tarde padre; seu pai o presenteou com a paróquia de Brington.
A fé anglicana de George passou a ser questionada, ele não mais tinha aquela certeza clara e convicta da veracidade da Igreja da Inglaterra. Assim sendo, caminhou entre todas as possibilidades que se mostravam possíveis; foi da Baixa Igreja até a Alta Igreja, estudou o metodismo, presbiterianismo e outras correntes não-conformistas. Nada o enchia, justamente o contrário, todas essas variedades teológicas dentro de uma mesma Igreja apenas ajudavam na constatação das inerentes contradições essenciais do anglicanismo – “O resultado de todas essas discussões com diferentes seitas do protestantismo era a convicção de que nenhum de nós [protestantes] havia a correta visão do cristianismo”. Foi assim que se motivou a leitura dos escritos dos Padres da Igreja o que, naturalmente, levou a clara percepção da drástica diferença entre o pensamento católico e protestante; a Igreja Anglicana não tinha como ser protestante-católica, ou era protestante, e com isso deveria renegar boa parte dos seus ensinamentos tradicionais – que já eram rechaçados pelas alas evangélicas – ou era católica, concordando com a origem divina de certos ensinamentos romanos, mas com isso tinha que, pela lógica honestidade, aderir a todo o resto. Assim disse Pe. Spencer ao relatar sua conversão:
O princípio fundamental de todos os professos protestantes é aderir a Escritura como a única regra de fé e moral. Eu logo descobri que, na constituição da Igreja da Inglaterra, existiam muitas coisas que eu não poderia claramente defender pela simples Escritura, mas eram geralmente pontos que eu não era obrigado a declarar o meu consentimento direto, pareciam questões de disciplina: mas, finalmente, eu encontrei uma dificuldade em um dos Trinta e Nove Artigos da Religião, o qual todos os sacerdotes são obrigados a assinar, que eu não podia sinceramente responder, e por conta determinou que eu não poderia subscrever novamente. Este foi o oitavo artigo, no qual tinha que afirmar que os três credos recebidos pela Igreja da Inglaterra, isto é, o dos Apóstolos, o de Nicéia e o Atanasiano, poderiam ser claramente comprovados pela Escritura.George passou a se corresponder com sacerdotes católicos que estimulavam a sua caminhada. Foi de especial relevância Ambrose Phillipps de Lisle, um inglês convertido ao catolicismo. Depois de inúmeros encontros com Padres, onde transmitia suas dúvidas, e conversas com de Lisle, que entendia suas questões e a crise espiritual que vivia, George Spencer largou sua vida em Brington para ser recebido no seio da Santa e Una Igreja de Cristo.
O catolicismo, na Inglaterra, era repudiado por ser entendido como uma religião velha, antiga. O anglicanismo estava intimamente ligado a própria identidade britânica, os confrontos entre os protestantes e os católicos, tanto no período da Reforma com da Rainha Maria I, ou como a revolta de irlandeses contra a opressão dos escoceses calvinistas, ajudavam a modelar o espírito inglês, ajudavam a construir o ethos da Ilha. Católicos não se faziam presentes no Parlamento e nas Universidades – o que estimulava a criação da caricatura do católico estúpido. Até mesmo Lord Acton foi impedido de estudar em Cambridge por professar a fé romana. Sabendo de toda essa realidade cultural, George Spencer, depois de convertido, resolveu ir a Roma onde, além de se instruir com mais profundidade na Religião, se distanciaria da confusão instaurada depois da notícia da sua conversão: uma família de grande destaque no cenário aristocrático nacional ter um filho convertido ao catolicismo era um grande golpe. Em Roma ele estudou no Venerable English College. Na Cidade Eterna conheceu duas figuras marcantes na sua vida: Nicholas Wiseman, que o educou na fé, mais tarde Cardeal e Arcebispo de Westminster, sendo o primeiro Pastor católico em terras inglesas depois da Reforma, e Beato Domingos Barberi, um Sacerdote passionista que foi determinante na vocação de Spencer, tendo sido um dos grandes entusiastas do projeto de conversão de toda a Inglaterra. Pe. Barberi sempre se interessou pelo Movimento de Oxford, chegou a trocar muitas correspondências com John Dobree Dalgairns – mandou para ele, a pedidos, a Regra Passionista e o livro de sua autoria 'The Lament of England’ -, um homem de destaque entre os tractarianos, sendo o responsável pela tradução da Catena aurea de Santo Tomás e autor do Life of St Stephen Harding, escrito por conta do derradeiro projeto de Newman dentro do anglicanismo; Lives of the English Saints. Posteriormente, Dalgairns foi recebido na Igreja Católica pelas mãos de Domingos Barberi – depois se tornou Sacerdote e oratoriano. O mesmo Padre, hoje Beato, foi até Littlemore, a pedido de Newman, onde após ouvir sua confissão e “dispensar o caridoso ofício” fez dele um filho da Igreja de Cristo – Beato Domingos também foi responsável pela conversão da Serva de Deus Elisabete Prout, Passionista, fundadora das “Irmãs da Cruz e da Paixão”. Assim falou Newman, no seu livro, sobre Pe. Domingos CP: “É um homem simples e de grande santidade; é ademais, dotado de preciosas qualidades. Nada sabe de minhas intenções, mas, pretendo perdir-lhe que me admita no único redil de Cristo.” Pe. James Brodrick SJ no seu trabalho, “Second Spring’ of Catholicism in England”, disse:
"A segunda Primavera [do catolicismo na Inglaterra] não começa quando Newman se converte nem quando a hierarquia é restaurada. Começa em um gélido dia de outubro de 1841, quando um pequeno sacerdote comicamente trajado [Pe. Domingos era fitado com suspeita por ser um Padre católico mas, principalmente, pelo impacto testemonial que causava o seu hábito passionista], abre alas até Folkstone"Cardeal Bourne, quarto Arcebispo de Westminster, falou assim de Beato Domingos Barberi:
“De todos os pregadores da palavra divina que trabalharam para a salvação das almas, na Inglaterra, não há ninguém a quem mais devemos do que o Servo de Deus, Domingos Barberi. Eu ficaria muito feliz se tivesse o poder para dedicar toda essa diocese ao seu cuidado e proteção e consentir que fosse honrado como nosso Patrono e Padroeiro da Inglaterra.”Pe. Domingos Barberi – o primeiro Sacerdote a realizar uma procissão de Corpus Christi desde a Reforma - tornou-se, assim, um dos grandes diretores espirituais do projeto de George: a conversão da Inglaterra deveria ser fruto da cruzada de orações, mas sabiam eles que aqueles que largavam o anglicanismo para adentrar na Religião faziam após um longo itinerário intelectual, ou seja, eram conversões que vinham da mais absoluta certeza – “Porque o Catolicismo romano” na visão desses homens, no caso Newman, era “o desenvolvimento vital do Cristianismo primitivo”. O rico e nobre inglês, depois de convertido, foi ordenado diácono e posteriormente Sacerdote. Mais tarde, em 1847, George Spencer entrou na Congregação dos Passionistas, recebendo o santo hábito das mãos de Beato Domingos, adotando o nome de Inácio de São Paulo. Depois da morte do seu grande amigo Pe. Inácio tornou-se o Provincial da Bélgica e Inglaterra.
Já de volta ao Reino Unido Pe. Spencer ficou conhecido pelas suas grandiosas pregações; ele fundava escolas, dava palestras, pregava em igrejas e ainda fazia a direção espiritual de seminaristas. Não obstante, nada o distanciou do seu grande projeto, um apostolado pessoal e universal: a conversão da Inglaterra. Assim, em diálogo com o Arcebispo de Paris, propôs a "Cruzada de Oração para a conversão da Inglaterra". Ele, que já havia convertido anglicanos que se sentiam tocados ao ouvir seus sermões, agora se dedicava ao sonho de um dia ver todo o seu país na verdadeira Igreja. Muitos de seus amigos aderiram ao movimento, seu apelo sensibilizou todos os corações católicos na Europa, mas ele queria ir além. Spencer foi pioneiro no diálogo ecumênico; pretendia a participação dos anglicanos na mesma corrente de preces e orações. Para isso procurou contar com os fiéis da Igreja da Inglaterra que sinceramente se preocupavam com o problema da unidade, ou melhor, a falta da unidade do anglicanismo. Conversou, inclusive, com o famoso John Henry Newman, que relatou desse modo seu encontro com Pe. Spencer:
Este sentimento levou-me a extremos de indelicadeza para com Mr. Spencer, homem animado de zêlo e caridade, por ocasião da sua vinda a Oxford em 1840, para organizar um movimento de orações em prol da unidade. Eu mesmo, nessa época ou pouco depois, ocupava-me em promover orações nessa intenção. Foi até um dos meus primeiros pensamentos após o choque que recebera; mas, aborrecia-me demasiado a ação política dos membros da Igreja romana na Inglaterra, para desejar contato com eles.Newman aqui se referia aos embates e lutas dos católicos que buscavam resgatar o direito de cidadania numa Inglaterra solidamente anti-romana. E qual a ironia ao perceber que o Sacerdote que fez de Newman católico era nada menos que Domingos Barberi, o grande amigo de Inácio Spencer e seu irmão passionista!
Como citado por Pe. Machado da Fonseca, tradutor da Apologia Pro Vita Sua, de Card. Newman, assim comentou Maurice Nedoncelle na sua obra Les leçons spirituelles du XIXe siècle. Paris 1937:
”Deu-se no seio da nossa Igreja, de modo especial no fim do séc. XIX um crescente anseio de clareza e caridade nos trabalhos dos historiadores e no método dos homens de ação. Um convertido, Padre Inácio Spencer, desde 1832 lançara a idéia de uma cruzada de orações pela volta dos anglicanos à fé tradicional. Recebido em audiência por Pio IX pediu respeitosamente ao Papa que evitasse o termo herege na carta que solicitava em favor da sua obra.Spencer zarpou para a Irlanda, onde foi pedir a oração da céltica nação católica aos ingleses. Do mesmo modo, junto ao Papa Pio IX, recebeu as bênçãos e os louvores da Igreja a esse propósito tão cristão e católico, ainda foi apoiado por diversos Bispos e, inclusive, se reuniu com o Imperador Francisco José da Áustria. Vejam como essa atitude foi pioneira, hoje a doutrina católica ainda reconhece como herético os ensinamentos protestantes, originados de concepções pessoais, humanas, frutos do pecado e da soberba dos reformadores. Mesmo tendo a plena consciência disso – afinal dizer o contrário seria relativizar a Verdade – a Igreja vê a necessidade de não dialogar com o “triunfalismo marginalizador”, uma “soberba salvífica” muitas vezes vinda de uma interpretação reducionista da verdade do Extra Ecclesiam nulla salus. A Igreja estende a mão para ajudar a reerguer aqueles irmãos separados, que vivem nas trevas do erro. Isso em nada desmerece os ensinamentos eternos do Magistério, nem diminui a situação de pesar em que se encontra os protestantes, mas apenas se fundamenta num vocabulário ameno para que assim, por meio de encontros e conversações, os religiosos possam mostrar a profundidade e beleza da doutrina católica. Quando o Beato Pio IX autorizou que nos documentos não se fizesse referência aos anglicanos como “hereges” mas como “não-católicos” Sua Santidade não estava legitimando o erro, mas apenas dando o primeiro passo, enquanto Vigário de Cristo, para que aqueles que viviam nas sombras pudessem se aproximar da Igreja, mesmo que para um simples diálogo, sem rancor e ódio originado do anticatolicismo.
Explicou que antes da conversão não tinha consciência de estar no erro e certas palavras o teriam chocado como censuras incompreensíveis. O Papa, de inicio surpreendido por essa suplica inesperada, acabou por compreender a delicadeza da situação. Daí por diante, os documentos romanos não falam mais de hereges. Mas de não-católicos”.
O ecumenismo, como pensado pela Igreja, não perpassa pelo relativismo empobrecedor, uma abjuração de todos os ensinamentos que sempre foram cridos. Ao contrário, quanto mais se estabelece esse discurso de rompimento e cisão do comportamento ecumênico pré e pós-Conciliar, que não tem nenhum respaldo nos documentos magisteriais, mais se destaca o erro daqueles que defendem, mesmo que indiretamente, essa postura modernista frente aos eternos ensinamentos da Igreja. Esse espírito de descaso apenas favorece os grandes inimigos da fé; a imoralidade, o liberalismo, o ateísmo. S.S João Paulo II, na carta encíclica Redemptoris Missio, em 1990, disse:
“uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida, infelizmente também entre os cristãos, freqüentemente radicada em concepções teológicas incorretas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a pensar que tanto vale uma religião como outra (...) Hoje o apelo à conversão, que os missionários dirigem aos não cristãos, é posto em discussão ou facilmente deixado no silêncio.”O documento Dominus Iesus, de 2000, escrito pelo então Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, e aprovado pelo Papa João Paulo II, deixa de forma claríssima a postura da Igreja frente a diversidade religiosa e a heterogeneidade teológica. Assim declarou a Congregação para a Doutrina da Fé:
"No vivo debate contemporâneo sobre a relação entre o Cristianismo e as outras religiões, se torna cada vez mais comum a idéia de que todas as religiões sejam para os seus seguidores caminhos igualmente válidos de salvação. Trata-se de uma persuasão cada vez mais difundida, não só em ambientes teológicos, mas também em setores sempre mais vastos da opinião pública católica e não católica, especialmente aquela mais influenciada pela orientação cultural que hoje prevalece no Ocidente, que se pode definir, sem medo de ser desmentido, com a palavra: relativismo (...) deve-se crer firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada. (...) Seria obviamente contrário à fé católica considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos constituídos pelas outras religiões”Ademais, vale lembrar que, a Igreja teve o cuidado de notificar o teólogo Jacques Dupuis por conta da sua tal teologia do “pluralismo religioso”. Disse o Papa, em 2001:
“É contrário à fé católica considerar as várias religiões do mundo como vias complementares à Igreja em ordem à salvação. (...) mas não tem qualquer fundamento na teologia católica considerar estas religiões, enquanto tais, caminhos de salvação”As palavras de Dom Tarcísio Bertone, na época, 2002, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, são esplêndidas:
“Nós sublinhamos, justamente durante o ano jubilar, os problemas que nascem de uma certa concepção do pluralismo religioso em teologia, quer dizer, a passagem da afirmação de um pluralismo que existe de facto (com a pluralidade das religiões e das orientações religiosas no seio da humanidade) a um pluralismo de iure, de princípio, como se fosse a vontade de Deus que existisse diferentes religiões como meios de salvação, como dom da salvação, e que a 'religio única', a religião revelada, a 'religio vera', revelada por Deus mesmo pela encarnação de seu Filho, do Filho único de Deus, Jesus, que nos falou, depois que Deus falou tantas vezes pelos profetas, eu repito, como se a 'religio vera' não fosse senão uma entre tantas outras e como se ela não fosse 'a' religião da salvação.”E, por fim, as palavras de Cardeal Kasper no 40° aniversário do decreto conciliar Unitatis Redintegratio:
“Os princípios católicos do ecumenismo, enunciados pelo Concílio Vaticano II e mais tarde pelo Papa João Paulo II, são clara e inequivocadamente opostos a um irenismo e a um relativismo que tendem a banalizar tudo (cf. Unitatis redintegratio, 5, 11 e 24; Ut unum sint, 18, 36 e 79). O movimento ecuménico não renuncia a nada daquilo que até agora foi precioso e importante para a Igreja e na sua história; ele permanece fiel à verdade que na história é reconhecida e definida como tal, e nada lhe acrescenta de novo. O movimento ecuménico e a finalidade que ele mesmo se propõe, ou seja, a plena unidade dos discípulos de Cristo, permanecem inscritos no sulco da Tradição.”Fica mais do que claro que o ecumenismo não dialoga com o relativismo, ou seja, não se fundamenta nessa oba-oba doutrinário. Vejamos, partir da premissa de que a Igreja de Cristo se encontra dividida, que todas as religiões são plenos caminhos de salvação, são afirmações que, além de se opor aos ensinamentos da Igreja – e se alguém é católico, e o é por livre escolha, seque a Igreja por enxergar nela, a Esposa de Cristo, não só uma Instituição Invisível, mas também Visível e Estável, com o múnus divino de ensinar e guiar a humanidade até Nosso Senhor – colocam em discussão toda a noção de catolicismo. Se a Igreja se encontra dividida e todas as religiões são plenos caminhos de salvação isso indica, naturalmente, que tudo aquilo que foi ensinado pelo Magistério, durante milênios, era obtuso e enfadonho, que santos e Papas se enganaram ao crer em algo que não era para ser crido, que fiéis que seguiam tais ensinamentos na verdade viviam na ilusão. Sim, esse é o resultado prático de tal postura ecumênica, do falso ecumenismo.
O verdadeiro e real ecumenismo, que deve ser louvado e propagado, é aquele que direciona para a Igreja Católica, sem que para isso haja um espírito de petrificação ou de arqueologismo. O cristianismo santifica as culturas e se enriquece com a diversidade – diversidade essa que tem como base um fio condutor comum. Unidade cristã não significa uniformidade cristã. A própria Igreja já é a prova viva dessa rica realidade, é só reparar a variedade de ritos e espiritualidades; Maronitas, Coptas, Melquitas, Ucranianos, Etíopes, Latinos, Armenos, Croatas etc, diversas formas de vivenciar a fé cristã e de celebrar e honrar a Eucaristia mas, obviamente, tendo a mesma doutrina e seguindo a mesma Verdade. Além desses exemplos sobreditos ainda é relevante recordar o caso dos protestantes convertidos, como os anglicanos; eles voltam para a Igreja mas mantém ritos e tradições próprias, com a devida aprovação Papal depois da necessária correção dos erros contidos. Vejam como o rito de uso anglicano, seguido nas paróquias convertidas ao catolicismo, não só enriquece a catolicidade do catolicismo como se encaixa dentro da diversidade contida na Igreja?
Assim disse o Santo Padre Bento XVI:
“Contudo, esta unidade não significa aquilo a que se poderia chamar ecumenismo de volta: isto é, renegar e recusar a própria história da fé. Absolutamente não! Não significa uniformidade em todas as expressões da teologia e da espiritualidade, nas formas litúrgicas e na disciplina. Unidade na multiplicidade e multiplicidade na unidade”O Papa, de forma belíssima, mostra que os irmãos separados não precisam renunciar tudo o que construíram ao longo dos anos de dor e pesar, os séculos de cisma e heresia. Claro que isso não é uma validação do erro, ao contrário. Sabemos que as sementes do Verbo se fazem presentes em muitas crenças que estão fora da Igreja, e são essas sementes que devem ser mantidas e regadas pela Esposa de Cristo, ou seja, os elementos católicos - a Verdade se encontra em Sua plenitude na Igreja de Cristo - contidos no erro. O ecumenismo, assim como tem a busca sincera pelo triunfo da Verdade, busca, de modo honesto, acabar com preconceitos e ranços oriundos de tempos de constante desgaste e embate. O conhecimento mútuo é de imprescindível necessidade. Entretanto, é bom frisar, esse diálogo não deve ser norteado por sentimentos e vontades apaixonadas, além da oração, o cerne de toda sincera conversão, deve-se ter em conta a essencial vinculação ao saber intelectual, valorizar e colocar em destaque o itinerário teológico como base fundamental de qualquer (verdadeiro) ecumenismo. Quando nós, católicos, deixamos de lado a segurança da teologia da Igreja, do saber dogmático e do conteúdo doutrinal, não mais estamos dialogando, mas negociando a nossa fé. Nas palavras do Servo de Deus João Paulo II, na carta encíclica Ut Unum Sint: “Os elementos desta Igreja [a Igreja criada por Cristo] já realizada existem, reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais Comunidades”. Na palavras do Cardeal Kasper, no encontro do Papa Bento XVI com o Colégio Cardinalício nas Vésperas do Consistório Público Ordinário, em 2007:
“Naturalmente, ecumenismo não é sinónimo de humanismo afável, nem de relativismo eclesiológico. Ele fundamenta-se na firme consciência de que a Igreja católica tem de si mesma e nos princípios católicos, sobre os quais discorre o Decreto conciliar sobre o ecumenismo (Unitatis redintegratio, 2-4). Trata-se de um ecumenismo da verdade e da caridade; estas duas estão intimamente ligadas entre si e não podem substituir-se de forma recíproca. Em primeiro lugar, há que respeitar o diálogo da verdade.”Esse é o verdadeiro ecumenismo da Igreja, o verdadeiro ecumenismo do Servo de Deus Inácio de São Paulo. Ou seja, dialogar com as Igrejas – estas são as que possuem Sucessão Apostólica e verdadeiro episcopado, mesmo que ilícito, e que conservam a integridade do mistério eucarístico,, como a ortodoxa – e as Comunidades Eclesiais – que não têm sequer verdadeiro episcopado e graça sacramental, como as protestantes – que estão fora da plena comunhão para que assim, por meio de um caridoso e honesto debate, haja o triunfo da Verdade para o bem de todas as almas. Afinal, como disse a Congregação para a Doutrina da Fé na declaração Mysterium ecclesiae:
“Os fiéis não podem, por conseguinte, imaginar a Igreja de Cristo como se fosse a soma — diferenciada e, de certo modo, também unitária — das Igrejas e Comunidades eclesiais; nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje já não exista em parte alguma, tornando-se, assim, um mero objecto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades”Era isso em acreditava o Servo de Deus Inácio, afinal era e é isso o ensinado pela Igreja. Contrariar a Igreja é contrariar a Cristo, afinal "Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou" (Lc 10,16) Como não amar a Cristo sem servir a Sua Esposa? Como seguir os ensinamentos de Nosso Senhor sem obedecer as definições eclesiásticas? E como renegar a Igreja sem apostatar espiritualmente da fé?
Pe. Inácio Spencer morreu em 1864, foi enterrado ao lado do seu amigo e irmão passionista Domingos Barberi, na St Anne's Church, em St Helens, Inglaterra.
Assim, juntamente com Pe. Inácio de São Paulo, vamos rezar a oração composta por Cardeal Wiseman para a conversão da Inglaterra:
Ó Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa gentilíssima Rainha e Mãe, ponde o vosso olhar com misericórdia sobre a Inglaterra, vosso “dote”, e sobre nós todos que esperamos e confiamos firmemente em vós. Por vós é que Jesus, nosso Salvador, e também nossa esperança foram dados ao mundo, e Ele vos deu a nós para que possamos ter ainda mais esperança. Rogai por nós, vossos filhos, a quem recebestes e aceitastes ao pé da cruz, ò Mãe dolorosa. Intercedei por nossos irmãos separados, que possam ser unidos conosco, em único verdadeiro cercado, ao Pastor supremo, o Vigário de Vosso Filho. Rogai por nós todos, querida Mãe, para que pela fé frutificada em boas obras possamos todos merecer ver e louvar a Deus, junto convosco, em nosso lar celestial. Amém.
[O BLESSED Virgin Mary, Mother of God and our most gentle Queen and Mother, look down in mercy upon England thy “Dowry” and upon us all who greatly hope and trust in thee. By thee it was that Jesus our Saviour and our hope was given unto the world; and He has given thee to us that we might hope still more. Plead for us thy children, whom thou didst receive and accept at the foot of the Cross, O sorrowful Mother. Intercede for our separated brethren, that with us in the one true fold they may be united to the supreme Shepherd, the Vicar of thy Son. Pray for us all, dear Mother, that by faith fruitful in good works we may all deserve to see and praise God, together with thee, in our heavenly home. Amen.]
quarta-feira, 4 de março de 2009
Menina de 4 anos que vivia com “casal” gay é violentada
Julio Severo
O cabeleireiro Orani Fogari Redondo, de 28 anos, foi preso na noite de 31 de outubro de 2008, em Araraquara, interior de São Paulo, suspeito de estuprar uma menina de 4 anos. A criança morava com ele e com o tio, um homossexual de 54 anos.
Redondo e o tio da menina moravam juntos há quase 10 anos e, há cerca de um ano e meio, o tio ficou com a guarda definitiva da garota porque os pais dela foram presos, condenados por tráfico de drogas.
Uma denúncia anônima levou a polícia até o cabeleireiro. Em sua defesa, o tio, que é enfermeiro aposentado, disse que deixou a sobrinha com o parceiro para ir ao médico e quando voltou viu sangue escorrendo pelas pernas da menina.
Segundo o noticiário da Record de 1 de novembro de 2008, a menininha precisou passar por uma cirurgia por causa da gravidade da agressão e continuará sob acompanhamento médico.
Pressionado pela polícia, o tio confessou que não foi a primeira vez que seu parceiro havia abusado da menina. Em entrevista, a polícia destacou que o rapaz tem outras passagens pela polícia pelo mesmo crime de abuso sexual de crianças.
Pelo fato de que o tio é portador do vírus HIV, existe agora a suspeita de que seu amante mais jovem possa também estar infectado, o que aumenta a probabilidade de a menina ter sido contaminada.
A pedido do tio, a imprensa ocultou seu nome. Aliás, ocultou muito mais — em nenhuma das notícias sobre o caso a palavra “homossexual” ou “homossexualidade” foi utilizada para se referir ao tio e seu relacionamento com um homem mais jovem. Um código “moral” anti-discriminação politicamente correto está pressionando a mídia brasileira a não expor o homossexualismo em notícias desfavoráveis aos interesses da agenda gay, porém dando-lhe tratamento totalmente inverso quando as notícias lhe são favoráveis.
A meta parece ser incomodar o menos possível os homossexuais e seu comportamento, e esse pode ser o motivo por que nenhum assistente social estatal — que são notoriamente xeretas e intrometidos — se interessou em “xeretar” a ficha suja do amante do tio durante o processo de transferência da guarda da menininha. Mas é ao custo da saúde e vida dos inocentes que o homossexualismo recebe tal acobertamento.
As perguntas que não querem calar são:
Qual foi o órgão estatal que entregou a guarda da menininha a um homossexual vivendo com outro homem durante vários anos?
Se o estuprador já tinha passagens pela polícia por crimes sexuais contra crianças, o que ele estava fazendo solto?
O caso está cheirando a um horrendo escândalo de negligência estatal…
Fonte: www.juliosevero.com
domingo, 1 de março de 2009
Terere as a way of life - lo and behold!
Por Júlio Lemos
O que é mais perigoso em qualquer tipo de tradicionalismo é o acomodamento.
Um sinal lateral disso é o próprio uso da palavra 'tradição': em épocas históricas em que as pessoas naturalmente valorizam a entrega dos valores e 'modos de estar-no-mundo' às próximas gerações (a idéia é de um filósofo basco), ninguém menciona a 'tradição' e nem funda movimentos tradicionalistas. É algo natural. A tradição é apenas uma das características da civilização, e por isso não deve ser defendida como um valor desencarnado, esteticamente aprazível.
Por isso, parte do tradicionalismo é movido exclusivamente pela vaidade. As pessoas se sentem como que revolucionárias, partidárias de um novo modo de vida, e aquela coisa toda. O mero tradicionalismo religioso é uma forma decadente, exterior, de relação com Deus. Aqui, é mais 'católico' quem mais fala da Tradição, quem mais tem cara de reacionário, quem parece mais piedoso, andando por aí com terços à mão e com cara de beato, pissing around holy water. É decadência pura. A solidez não tem lugar num esquema estético desse tipo. Nesse sentido, os vitorianos eram grandes tradicionalistas, fariseus que usavam casacas e fumavam cachimbo e ficavam escandalizados.
Qualquer tradição só se afirma quando é implícita em um discurso e está ligada a um comportamento autêntico, não estereotipado e não nostálgico, aberto ao mundo, ao diálogo, ao intercâmbio, como ocorre com as boas tradições (culinárias, esportivas, tecnológicas, científicas, filosóficas, etc).
O perigo do acomodamento está mais diretamente ligado à idéia de que basta aderir a uma tradição e tudo está resolvido. Que nada. Se se trata, por exemplo, da ética das virtudes, aderir a ela é apenas um começo, que não garante absolutamente nada. O cristianismo, da mesma forma, abomina o acomodamento, a passividade, o pessimismo "nós versus o mundo corrompido", a 'humildade' do camponês que fica na sua terrinha e não alimenta nenhuma ambição. As tradições autênticas são modos de estar-no-mundo inseparáveis do heroísmo, inimigos da mediocridade.
O tradicionalismo faz capelinhas, grupinhos, panelas. Transforma pessoas naturalmente modestas em pedantes que não querem falar com ninguém que esteja 'de fora', a não ser que seja para convertê-los (em que? em tomadores de tereré?).
Bem, mas isso não é novidade, esse to be, and not just appear to be. Leiam Chesterton e deixem esse escândalo de lado.
* * *
Para algo completamente diferente, eu digo que existem múmias.
Publicado em: http://julio-lemos.blogspot.com/2009/02/terere-as-way-of-life-lo-and-behold.html
O que é mais perigoso em qualquer tipo de tradicionalismo é o acomodamento.
Um sinal lateral disso é o próprio uso da palavra 'tradição': em épocas históricas em que as pessoas naturalmente valorizam a entrega dos valores e 'modos de estar-no-mundo' às próximas gerações (a idéia é de um filósofo basco), ninguém menciona a 'tradição' e nem funda movimentos tradicionalistas. É algo natural. A tradição é apenas uma das características da civilização, e por isso não deve ser defendida como um valor desencarnado, esteticamente aprazível.
Por isso, parte do tradicionalismo é movido exclusivamente pela vaidade. As pessoas se sentem como que revolucionárias, partidárias de um novo modo de vida, e aquela coisa toda. O mero tradicionalismo religioso é uma forma decadente, exterior, de relação com Deus. Aqui, é mais 'católico' quem mais fala da Tradição, quem mais tem cara de reacionário, quem parece mais piedoso, andando por aí com terços à mão e com cara de beato, pissing around holy water. É decadência pura. A solidez não tem lugar num esquema estético desse tipo. Nesse sentido, os vitorianos eram grandes tradicionalistas, fariseus que usavam casacas e fumavam cachimbo e ficavam escandalizados.
Qualquer tradição só se afirma quando é implícita em um discurso e está ligada a um comportamento autêntico, não estereotipado e não nostálgico, aberto ao mundo, ao diálogo, ao intercâmbio, como ocorre com as boas tradições (culinárias, esportivas, tecnológicas, científicas, filosóficas, etc).
O perigo do acomodamento está mais diretamente ligado à idéia de que basta aderir a uma tradição e tudo está resolvido. Que nada. Se se trata, por exemplo, da ética das virtudes, aderir a ela é apenas um começo, que não garante absolutamente nada. O cristianismo, da mesma forma, abomina o acomodamento, a passividade, o pessimismo "nós versus o mundo corrompido", a 'humildade' do camponês que fica na sua terrinha e não alimenta nenhuma ambição. As tradições autênticas são modos de estar-no-mundo inseparáveis do heroísmo, inimigos da mediocridade.
O tradicionalismo faz capelinhas, grupinhos, panelas. Transforma pessoas naturalmente modestas em pedantes que não querem falar com ninguém que esteja 'de fora', a não ser que seja para convertê-los (em que? em tomadores de tereré?).
Bem, mas isso não é novidade, esse to be, and not just appear to be. Leiam Chesterton e deixem esse escândalo de lado.
* * *
Para algo completamente diferente, eu digo que existem múmias.
Publicado em: http://julio-lemos.blogspot.com/2009/02/terere-as-way-of-life-lo-and-behold.html
sábado, 28 de fevereiro de 2009
A Alta Igreja e o Luteranismo

Pedro Ravazzano
A Igreja Luterana tem uma unidade muito mais acentuada que a Comunhão Anglicana, vários fatores influenciam, mas destaco o fato de ter nascido com um novo paradigma doutrinário, essencialmente vinculada a uma forma de entender a fé. A Igreja da Inglaterra, diferentemente, sabia que era reformada mas não sabia o que significava aderir à Reforma. Desse modo era campo aberto para a influência da teologia calvinista, luterana e até mesmo católica – afinal muitos Bispos só entendiam o rompimento do Reino britânico com Roma como uma aversão ao papado e não, necessariamente, à doutrina romana. Por isso, através dessa falta de produção de uma teologia anglicana própria ou, ao menos, sem uma definição clara dos propósitos reformistas na Inglaterra, o nascente anglicanismo tornou-se um ambiente propício ao desenvolvimento de concepções distintas de entender o ethos (natureza característica) reformado. A unidade – ou menos heterogeneidade – do luteranismo se deve à forte centralização doutrinária ao redor do Livro de Concórdia que contém a essência da profissão de fé luterana. Os documentos reunidos no Livro são: o Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano, a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, os Artigos de Esmalcalde, o Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa, o Catecismo Menor e o Catecismo Maior de Lutero e a Fórmula de Concórdia. Os dois primeiros credos foram escritos por Padres da Igreja, reunidos em Concílio, para manter imaculada a sã doutrina que vinha sendo atacada pela heresia. O terceiro credo foi escrito por Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria (para mais informações a respeito SUGIRO VISITAR O LINK: http://www.veritatis.com.br/article/5536/simbolo-atanasiano-quicumque) – o mais irônico de tudo isso é que os Santos Padres reconheciam a Unidade da Igreja, a legitimidade e origem divina da Tradição, além de acatarem a devoção aos santos, a adoração de Jesus-Hóstia etc. Os Catecismos e os Artigos de Esmalcalde vieram da pena de Lutero; servem para aprofundar e fundamentar a fé cristã luterana. Os outros escritos são de Filipe Melâncton, a não ser a Fórmula de Concórdia, redigida por um apanhado de teólogos luteranos. A nascente Igreja Luterana, então, se enxergava como legitimamente católica e não, necessariamente, protestante – “Somos tanto evangélicos quanto católicos, ao ponto de muitos luteranos chamarem-se de "evangélicos católicos". De fato, o assunto básico da Confissão de Augsburgo é que o real católico é luterano! Mas acima de tudo, não somos protestantes.”, disse no seu artigo “Luteranos não são protestantes” Dare. E. Paul
Assim definiu a Igreja Luterana – Sínodo de Missouri:
Se, no entanto (como é frequentemente o caso hoje em dia), o termo "protestantismo" é vagamente e simplesmente associado a diversas visões teológicas Reformadas, Anabatistas ou “Fundamentalistas”, muitas das quais não correspondem ao que os luteranos acreditam e ensinam, então, obviamente, o termo não seria apropriado ou corretamente aplicado aos luteranos.O que deve ser levado em conta é que com a forte expansão da teologia calvinista – que foi amplamente usada por grande parte das denominações reformadas – essa, inevitavelmente, se chocou com o luteranismo no sul da Alemanha. Os calvinistas tinham uma posição muito mais radical em relação à condenação da Tradição, da Presença Real (do corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo nas espécies eucarísticas pão e vinho consagrados), da manutenção de tradições de devoção e adoração Os luteranos, por sua vez, mesmo defendendo a Sola Scriptura, levavam em conta, ao menos na nascente igreja, a relevância do desenvolvimento doutrinário ao longo dos tempos, daí que aceitassem algumas heranças católicas. Desse modo, os adeptos de Calvino diziam que a Igreja Luterana deveria se livrar desse ranço papal que ainda persistia nas suas fileiras.
Lutero já havia tido uma controvérsia com os Sacramentários, ou seja, os adeptos das teorias de Zwinglio e Ecolampádio que negavam não só a Transubstanciação defendida pela Igreja Católica como a União Sacramental defendida pela Igreja Luterana:
"Cremos, ensinamos e confessamos que o corpo e o sangue de Cristo são recebidos, em virtude da união sacramental, com o pão e o vinho não só espiritualmente, pela fé, mas também oralmente, não, porém, de modo cafarnaítico, mas de maneira sobrenatural, celeste" (FC, Epítorne VII, 15)Além desses conflitos desde o nascimento do luteranismo, outras problemáticas teológicas se estruturaram desde os primórdios do desenvolvimento doutrinário do pensamento luterano. Depois da morte de Lutero, seu principal amigo, Felipe Melâncton, tornou-se o grande líder da teologia nascente. Entretanto, talvez devido a sua flexibilidade em busca da unidade com outras confissões reformadas, fez concessões que foram vistas como conseqüências do seu cripto-calvinismo: rejeitou a doutrina da ubiqüidade e fez mudanças no ensino de questões como o livre-arbítrio, predestinação e a ceia do Senhor, se distanciando da ortodoxia luterana – partindo da premissa de que a ortodoxia se encontra em Lutero. Vejamos a edição da Confissão de Augsburgo, preparada por Felipe Melâncton, de 1530:
Da ceia do Senhor ensinam que o corpo e sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes e são distribuídos aos que comungam na ceia do Senhor. E desaprovam os que ensinam de maneira diferente.Na edição Variata, de 1540, já dizia:
Da ceia do Senhor ensinam que com o pão e o vinho estão verdadeiramente expostos o sangue e o corpo de Cristo aos que comungam na ceia do Senhor.A reformulação é muito clara, há uma diferença essencial na forma de enxergar a Presença Real de Cristo na Ceia. Se a concepção luterana já era imperfeita, depois dessas mudanças adotadas por Melâncton ela se distanciava ainda mais da ortodoxia tradicional, ou seja, ficava mais longe dos ensinamentos cristãos que chegavam até nós por meio da Escritura e da Tradição, sendo corados com os belos e profundos escritos dos Padres da Igreja. Por meio dessa atenuação dos ensinamentos luteranos dois grandes grupos se formaram dentro da igreja; os filipistas, adeptos das novidades de Melâncton, e os gnesioluteranos, que se diziam fiéis aos ensinamentos do Reformador. O foco do nosso artigo não é a controvérsia dentro do luteranismo nascente, por isso vamos nos distanciar dessa abordagem.
Se a Igreja Luterana já trazia essa polaridade, mesmo que não explicita, no séc. XVII a presença calvinista se fortaleceu através da expansão do pietismo. Esse se caracterizava por se opor ao cristianismo teológico, defendia a praticidade cristã, uma fé bastante individualizada, onde a estrutura hierárquica era totalmente descartada ou, ao menos, subvalorizada. A forte defesa da práxis religiosa tornava o pietismo deveras empobrecido o que, somada a sua destacada oposição à disputa teológica, fazia dele a porta de entrada do pentecostalismo. Desse modo, por meio do triunfo do espírito pietista e racionalista dentro do luteranismo, houve uma simplificação, um empobrecimento, as vezes até mesmo eliminação, dos elementos tradicionais que dignificavam as cerimônias, os momentos de oração e, principalmente, glorificavam a celebração da Ceia do Senhor. A difusão do ethos pietista, em oposição ao que se considerava ortodoxia luterana, o esvaecimento do que restava da Tradição nos ambientes reformados, chegou a ponto de lançar ao segundo plano a própria Eucaristia; não mais era celebrada com freqüência, ficando restrita a momentos específicos. A análise feita por Jonh Henry Newman, no seu livro Apologia Pro Vita Sua, em relação ao forte peso do pensamento evangélico e puritano na Igreja Anglicana, também serve, por conta do mesmo contexto, ao passado pela Igreja Luterana:
Analisando, porém, o que eu chamava religião evangélica ou puritanismo, confesso que tinha maiores razões para temer. Por esse motivo, fazia notar qual era a sua organização. Mas, em compensação, faltava-lhe uma base intelectual, uma idéia interna, um princípio de unidade; em uma palavra carecia de uma teologia. "Seus aderentes, dizia eu, separam-se uns dos outros e fundem-se como os montículos de neve. Não há uma opinião franca sobre nada que eles ensinam. Para disfarçar tanta pobreza vestem-se de palavras.”O que tem acendido nos ambientes luteranos a vontade de reforma – uma reforma da reforma, ou seja, reformando o pietismo que reformou o luteranismo – é o desejo de reavivar a discussão teológica, trazendo a tona a ortodoxia luterana, os clássicos do pensamento reformado, para que assim, por meio de um sincero embate, haja produção e aprofundamento na doutrina da fé. Do mesmo modo, há um forte clamor eclesiológico; desde o triunfo do pietismo a Igreja Luterana perdeu sua identidade institucional, sendo levada pela concepção puritana e calvinista trazida por Spener. Assim como o Movimento de Oxford os desejos da Alta Igreja Luterana também perpassam, muitas vezes, pela dissociação da religião do Estado. As Igrejas nacionais, como reflexo da burocracia política, apenas refletem as vontades dos governantes, dessa maneira, como conseqüência imediata, tornam-se meios de propagação das decadências e imoralidades ratificadas pelas autoridades estatais.
Claro que a idéia de Alta Igreja, dentro do luteranismo, não se define com tanta particularidade como no anglicanismo. Além de ser alvo de muitas críticas – consideram a definição de “Alta Igreja” como uma forma de rompimento com a tradição luterana – muitos teólogos acreditam que as suas práticas são opostas às compreendidas nos documentos essenciais do luteranismo – Confissão de Augsburgo, Apologia da Confissão de Augsburgo, Artigos de Esmalcalde, Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa etc. Entretanto, o que se coloca em questão é justamente se o triunfo do pietismo não teria corrompido a ortodoxa hermenêutica luterana, rejeitando tradições caras para Lutero e para os primeiros reformadores. Ademais, a Alta Igreja Luterana sofre por conta da perseguição em países com Igrejas Estatais, como a Dinamarca; nessas nações os anseios desses religiosos e fiéis são identificados como extremamente católicos, logo em regiões que são, infelizmente, tradicionalmente opostas à fé romana. Outro ponto que distancia a Alta Igreja da grande massa luterana é a onda de relativismo que assola a sua comunidade; a ordenação de mulheres ao sacerdócio e episcopado é mais um motivo que aumenta, radicalmente, as diferenças entre a igreja aceita – liberal, “baixa” – e a igreja “reacionária” – tradicional, “alta”. Daí, por exemplo, o surgimento da Igreja Católica Nórdica – de confissão luterana, que declara aderir à fé ortodoxa e católica da indivisa Igreja -, formada por Bispos que se separaram da Igreja da Noruega por não concordarem com essas novidades anti-tradicionais e anti-bíblicas acatadas pelo establishment religioso. Surgiu com a ajuda da Igreja Católica Nacional Polonesa, um cisma católico que ocorreu nos EUA. Dentro da Alta Igreja Luterana, ou ao menos nos movimentos que vivem sob seu espírito – afinal, como já foi dito, não há uma estruturação individual, como na High Church inglesa – ainda há a preocupação em relação à perda da noção do episcopado e, para piorar, à crise na Sucessão Apostólica. Além disso, outro fator que a impulsiona é o desejo pela sacra estética; paramentos e belas cerimônias. Assim se expressou Dare. E. Paul – mais tarde convertido ao catolicismo:
A intenção de Martinho Lutero e daqueles que estão escritos na Confissão de Augsburgo era de Reformar, não Rejeitar, a Igreja como ele a tinha achado. À parte as adições hiperbólicas de sentimentos anti-católicos por parte dos contemporâneos de Lutero, estes seguiram Lutero partilhando muitas práticas e pontos teológicos com Roma. Lutero travou batalhas intensas contra os "entusiastas" e "sacramentarianos" que recusavam o batismo infantil e a validade de um ministério ordenado, rejeitando a Real Presença de Cristo na Eucaristia, e de fato rejeitando todos os sacramentos como significado da graça de Deus.Dentro do luteranismo existem concepções distintas acerca do episcopado e da noção do mandato divino da Igreja. Na “Comunhão de Porvoo” Igrejas Anglicanas da Inglaterra, Escócia, Irlanda, País de Gales, Portugal e Espanha celebraram a Eucaristia com Igrejas Luteranas da Finlândia, Islândia, Noruega, Suécia, Estônia e Lituânia. Entre elas há a mesma estrutura episcopal, todavia, não entram em consenso quando o assunto é a definição doutrinária sobre o poder sobrenatural do Pastor. As seis igrejas luteranas que participaram do encontro defendem e acreditam na sua Sucessão Apostólica. Do mesmo modo, dentro do luteranismo, existem maneiras diversas no governo eclesiástico; desde o Sínodo de Missouri – Missouri Synod, segunda maior denominação luterana dos EUA - que centraliza o poder na Congregação, passando pela Igreja Evangélica Luterana na América – maior denominação luterana dos EUA, é a união da Igreja Luterana na América, Igreja Luterana Americana e Associação das Igrejas Evangélicas Luteranas – que elege um Presidente-Bispo por seis anos e, por fim, a Igreja Católica Anglo-Luterana que tem uma rigorosa estrutura episcopal composta por um sínodo de Bispos e um Metropolita e que, buscando a Sucessão Apostólica, ordenou e (re)ordenou diáconos, padres e bispos usando o Ordinal católico para exprimir a plenitude da intenção sacerdotal e sacrificial da ordenação, com cerimônias presididas por Bispos cismáticos vindos do Vétero-Catolicismo ou de outras Igrejas fora da plena comunhão – a principal linhagem da Sucessão Apostólica dos anglo-luteranos deriva de Carlos Duarte da Costa, o fundador da ICAB (Igreja Católica Apostólica Brasileira). Ademais, vale frisar, é uma denominação bem “particular”; ao mesmo tempo que segue os Catecismos de Lutero, a Confissão de Augsburgo, o Livro de Concórdia etc, aprecia o ‘Livro de Oração Comum’ e os ’39 Artigos’ interpretados por Newman e, além disso, os ensinamentos do Magistério Católico e do nosso Catecismo.
A entrada do liberalismo na Igreja Luterana apenas tem acentuado a necessidade da aproximação com a Tradição católica. Bem sabemos que a teologia liberal nasce como conseqüência natural do espírito da própria reforma. Assim percebeu teólogos luteranos destacados como Richard John Neuhaus e Reinhard Hütter, convertidos ao catolicismo – o primeiro era pastor e depois tornou-se sacerdote – e Jaroslav Pelikan que se converteu à ortodoxia. Gunnar Rosendal, em “The Catholic Movement in the Swedish Church”, aborda a crise na Igreja Sueca. A sua análise vale para todas as igrejas de confissão luterana:
Na época do Iluminismo, no século XVIII, muitas das características católicas na Igreja da Suécia foram negligenciadas. A Igreja como tal as havia preservado, ainda que os clérigos as negligenciassem e, muitas vezes, as utilizassem com a sua própria interpretação. E assim verificou-se que a liturgia sueca, no início do século XIX, se tornou mais pobre na sua expressão e a teologia sueca, na segunda década deste século, chegou ao seu mais baixo volume (nível). A vida sacramental da Igreja sueca se tornou mais pobre em todo o mundo, as igrejas fechadas, exceto para os serviços, o espírito de oração comum extinto, os serviços estéreis e enfadonhos. Mas foi até o momento do reavivamento evangélico de intensa piedade. Estes foram os principais sinais de vida na Igreja Sueca. Tivemos alguns proeminentes nomes na Alta Igreja, mas eles foram mais diplomáticos e políticos do que hierárquicos nos seus pontos de vista. Eles nunca expressaram o espírito da Alta Igreja nas liturgias, vida sacramental, ou doutrina do ministério, mas conservaram uma profunda veneração pelos episcopado e sacerdócio.Os “evangélicos católicos” no luteranismo buscam se apropriar das tradições perdidas quando da invasão pietista, puritana e até mesmo iluminista na Igreja. O resgate do legado litúrgico, devocional e doutrinário, para esses religiosos, se encontra na perfeita continuidade histórica com a indivisa Igreja de Cristo: católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos. Essa concepção, mesmo que heterodoxa – afinal a Igreja é Una desde sempre – resgata, ao menos, a Tradição que existia na nascente igreja luterana. A valorização da teologia dogmática e sacramental vem dessa linha, em oposição ao simplismo instaurado. Do mesmo modo a revisão da própria visão institucional, através da recuperação da hierarquia, do episcopado e do sacerdócio. Assim disse Reverendo Rolf Preus, Pastor Luterano do Sínodo de Missouri, na National Conference on Worship, Music & the Arts:
As pessoas esperam, quando vão à igreja, que certas coisas devam acontecer. Certas palavras devam ser ditas. Certas ações devam ser seguidas. Estou falando de coisas como a confissão e a absolvição, o canto do Kyrie, seguido do Gloria in Excelsis, ouvindo os ensinamentos, e confessando o Credo. Isto é o que aconteceu e é isto que pessoas esperam que aconteça. Hinos serão cantados. Um homem vestindo uma túnica e estando no púlpito irá pregar um sermão baseado em um texto da Bíblia. Você irá cantar os familires Salmos e Cânticos da igreja, rezar a Oração do Senhor, ajoelhar no altar do Senhor e comer e beber o corpo e o sangue de Cristo. Você não irá sair antes de ouvir as palavras da Benção de Aarão que irão garantir que Deus, que o serviu com a Sua Santa Palavra e Sacramento, agora dá-lhe Sua paz. O que ocorre no Domingo de manhã vai fazer você se sentir em casa (...) Você falou com Deus e ouviu Ele falar com você. Isso é o que está procurando. É por isso que você vai à igreja.Esses luteranos buscaram, desse modo, resgatar os escritos e os trabalhos de grandes nomes da sua religião e que foram, com o tempo, rechaçados ou colocados de lado. Se os anglo-católicos restauraram William Laud, Herbert Thorndike etc, os similares luteranos trouxeram a tona Johann Gerhard, os gnesiosluteranos etc. Foi desse renascimento que surgiu, por exemplo, o “Kyrklig förnyelse", um manifesto composto por Gunnar Rosendal onde se defende a renovação litúrgica na igreja da suécia, assim como o resgate da Eucaristia como o cerne da vida cristã, além da revitalização do episcopado, da vivência da fé por meio da graça sacramental e do sacerdócio. Rosendal ainda pontuou que sem essa restauração tradicional os fiéis iriam buscar a Igreja de Cristo, sem o liberalismo e o relativismo que começavam a assolar o luteranismo, na Igreja de Roma, assim sendo, via essa reforma como uma necessidade essencial para a própria existência do protestantismo – o que se mostrou verdade depois da crise na Igreja da Suécia que acabou aumentando o número de convertidos ao catolicismo. Sustentada nesse manifesto nasceu a Arbetsgemenskapen Kyrklig Förnyelse, a União Sueca, a Alta Igreja no luteranismo da Suécia. Essa denominação tem relações estreitas com ramos similares, anglo-católicos e evangélicos-católicos, na Igreja da Inglaterra, Noruega, Alemanha e Dinamarca, onde eles mantém bispos e sacerdotes. Na nação germânica foi redigido o Stimuli et clavi, escrito pelo pastor Heinrich Hansen; consiste em 95 teses, clara referência às 95 teses de Lutero, em defesa da restauração do luteranismo alemão. Inspirada nessa obra brotou a União da Alta Igreja da Confissão de Augsburgo. Ela foi muito influenciada por Friedrich Heiler, teólogo alemão convertido ao luteranismo – era católico – que enxergava a Igreja Luterana como a verdadeira Via Média – não o anglicanismo – por conta do zelo doutrinário e sacramental, assim como a manutenção das tradições litúrgicas. Heiler lançou mão de uma concepção modernista para perseverar em algumas doutrinas católicas ao mesmo tempo em que adotava o luteranismo, chegando a afirmar que a Igreja incluía todos os não-cristãos, esperançoso de uma síntese entre todas as religiões do mundo.
E agora você vai à igreja e tudo é diferente. Vai com a expectativa de encontrar algo que já não existe. Talvez seja o canto do Kyrie. Ou talvez o Credo que seja substituído por uma versão caseira que não é realmente muito boa. Em vez de um sermão, há uma espécie de prebistério dramático. Os cânticos familiares sumiram. Os corais luteranos deram lugar às rasas e repetitivas músicas de “louvor”. A bênção é substituída por uma extensa e longa exortação de como ser cristão de qualquer tipo que esteja em voga na temporada. Vocês não querem criticar. Querem saber se as suas expectativas foram um pouco exageradas. Afinal, deve haver muitas maneiras diferentes de adorar a Deus. A Bíblia, na verdade, não define para a igreja do Novo Testamento as instruções detalhadas sobre o que fazer num domingo de manhã. E, se tais instruções não estão previstas nas Escrituras, e se as Escrituras por si só têm de ser para nós a norma e juiza de todas as doutrinas e práticas na igreja, por isso você deve se lamentar se você deve sofrer mudanças? Talvez você esteja apenas sendo antiquado. Mesmo assim, você tem a sensação de que algo definitivo foi e é importante e que você quer de volta. A Igreja já não é a sua casa ".
Desse modo, através do resgate tradicional, nasceu, na Igreja Luterana, o anseio pela restauração dessas práticas litúrgicas e, principalmente, um maior aprofundamento doutrinário. Esses movimentos, mesmo que sem nenhuma organização comum, lutam pelo mesmo ideal; tornar o luteranismo mais próximo da plenitude da fé cristã, para isso buscam a centralidade não na Bíblia, mas sim na Eucaristia, no sentido sacrificial da Missa:
Na Ordem da Igreja [Luterana da Suécia] lemos: "Não é proibido chamar este Sacramento de Sacrifício, como tem sido sempre feito na cristandade, porque o sacrifício de Cristo, que foi oferecido pelo nosso Senhor na cruz, é oferecido na missa" Essas palavras na Ordem sueca foram escritas pelo arcebispo Laurentius Petri (1499 – 1573), o primeiro arcebispo, após a reforma. Ele escreveu uma Dialogus acerca da Santíssima Eucaristia, onde diz que pode chamar a missa de sacrifício, porque "significa ou representa o sacrifício de nosso Senhor na cruz" e porque "o padre e a congregação o oferece (o Sacramento, isto é, o Corpo e Sangue), entre os nossos pecados e a ira de Deus. " É evidente que temos aqui uma completa e explícita doutrina do Sacrifício da Missa. Isso também implica que o sacerdote ordenado para a oferta desse sacrifício é um verdadeiro sacerdote, vindo do mesmo Sacerdócio de nosso Senhor, o celestial Sumo-Sacerdote. Esta doutrina sempre tem sido a doutrina da Igreja e os sacerdotes suecos sempre foram ordenados para executá-la. O Movimento Católico fará essa doutrina vivida, amada, e conhecida em sermões e na vida devocional da Igreja.Além disso procuram dignificar os momentos de oração, usando do rico simbolismo sacro como uma ponte de santificação do mundo. Esse resgate vai das coisas simples até as mais complexas; desde o retorno dos atos cotidianos, como um sinal da cruz ou uma genuflexão, até a minuciosa defesa da Presença Real ou a revisão do sentido do episcopado. Os movimentos tradicionais que pululam nas denominações protestantes nascem como a conseqüência do entendimento, mesmo que inconsciente, das contradições que povoam toda a fundamentação da fé reformada. Como entender a Escritura sem a Tradição? Como entender a fé cristã imaculada sem os Concílios Ecumênicos? Como seguir os Concílios sem acatar os Padres da Igreja? E como ler os Santos Padres sem enxergar a riqueza mariológica, eucarística, eclesiológica, dogmática, contida nas suas palavras?
A crise no protestantismo, com o triunfo do relativismo e do liberalismo, na verdade é inerente à própria estruturação da sua crença. A Sola Scriptura abre o espaço para o subjetivismo hermenêutico, um individualismo que de tão acentuado modifica a fé cristã, a rebaixando aos desejos próprios; não é o indivíduo, enquanto crente, que se santifica através da penitência, oração e mortificação, mas a própria Revelação que parte das premissas particulares do fiel para então se encaixar num cristianismo feito à encomenda. Claro que não acredito que tenha essa sido a idéia clara de Lutero, mas é inegável que foi o que se tornou a “Somente a Escritura” e todo o protestantismo. O círculo vicioso é tão forte que não há nenhuma autoridade que lance anátemas e condene o erro. As heresias na religião reformada surgem de hermenêuticas corrompidas, formas heterodoxas de interpretar a Bíblia. Mas como saber se é heterodoxia se a própria Escritura, no protestantismo, além de auto-autenticável pode ser interpretada pessoalmente? A noção de heterodoxia só existe por conta da noção de ortodoxia, e como saber qual é a ortodoxia bíblica se a própria Bíblia se encontra submissa à Sola Scripitura? Ora, se não existe uma interpretação única e absoluta todas as interpretações tornam-se licitas e genuínas. Entretanto como pode haver Deus onde há contradição? Como um Livro inspirado pode ser base para entendimentos tão distintos e contraditórios? Existe sim uma Única hermenêutica, assim como existe um Uno Deus e uma Una Igreja.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Igreja Anglicana: Católica, Via Média ou Protestante?
Pedro Ravazzano
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Hoje é muito comum encontrar o discurso do tal cristianismo primitivo na boca de protestantes, assim como o combate às tradições e à idéia de um cristianismo paganizado desde os primeiros séculos. Na verdade essas teorias não encontram fundamento nem mesmo entre as críticas da Reforma. Boa parte dos reformadores, quando pensava em "Igreja primitiva", levava em conta os quatro primeiros Concílios, ou seja, não enxergava no primitivismo eclesiológico a visão puritana e pentecostal que hoje reina. A própria Igreja Anglicana não só reconhece os Concílios como corrobora o trabalho dos Padres da Igreja, os reverenciando como santos e doutores. Só mais tarde, com a consolidação do setor evangélico dentro do anglicanismo – não por mesmo essa invasão se deu com a estruturação do liberalismo dentro da Igreja – que essas tradições foram deixadas de lado ou, no mínimo, passaram a ser subvalorizadas.
A Igreja Anglicana, em especial, não surgiu como essencialmente oposta ao papado enquanto doutrina, mas sim ao poder que o Santo Padre exercia nos seus domínios. Daí o famoso Ato de Supremacia – em 1534 o Parlamento inglês declarou Henrique VIII "Senhor da Igreja da Inglaterra". Com isso houve um levante de soldados invadindo mosteiros, tomando paróquias e confiscando os bens da Igreja que, a partir de então, passaram a ser do Estado. São Tomás Moro - Chanceler do Reino - e São João Fisher – Cardeal e Bispo de Rochester - foram martirizados por se recusarem a obedecer ao decreto, persistindo na fidelidade à Igreja de Cristo. Posteriormente, esse Ato de Supremacia foi substituído por outro ratificado por Elisabete I, a principal responsável pela consolidação da reforma protestante na Inglaterra. Com isso a dita cuja dominava, através da força, a massa católica que ainda lutava fortemente no reino e, principalmente, revertia e destruía o que tinha sido feito pela verdadeira Rainha da Inglaterra, Maria I, que tentou resgatar a fé genuína no seu país. Ademais, instituiu um "Juramento de Supremacia" onde se declarava total fidelidade à monarquia, opondo-se a qualquer interferência externa, reverenciando a Rainha como "única governadora suprema deste reino e de todos os outros domínios e países de sua Alteza, assim como em todas as coisas ou causas espirituais, eclesiásticas ou temporais". Com isso os católicos que lutavam em meio à aristocracia se viam obrigados ou a apostatar da fé, para manter seus títulos, ou renegar a glória do mundo, em defesa da Religião. Hillaire Belloc, no seu livro, Characters of the Reformation, disse:
Os Trinta e Nove Artigos foram estabelecidos em 1563, por meio deles a doutrina anglicana se definiu, tomando uma visão própria frente a doutrina calvinista, luterana e católica. As duas primeiras gozavam de ampla defesa em setores anti-romanos, defendidas por religiosos que buscavam na adesão teológica aos princípios reformados a genuína oposição ao atolicismo, principalmente de cunho político. Os Trinta e Nova Artigos surgiram de uma revisão dos Quarenta e Dois Artigos publicados em 1553, mas revogados pela Rainha Maria, a Católica. De forma geral os Artigos adotam uma postura mais próxima ao luteranismo do que ao calvinismo, mas mantendo uma forma católica, zelando por certas tradições, preservando a estrutura hierárquica dos tempos romanos.
No artigo XXXV se diz:
Esse método, juntamente com o resgate de tradições perdidas com a entrada do pensamento protestante no anglicanismo, foi responsável pela tentativa da retomada da Sucessão Apostólica na Igreja da Inglaterra – a Igreja Católica ainda não reconhece a apostolicidade desse clero anglicano. A forma e a intenção dessas sagrações merecem ser examinadas, mas de todo o modo existem Bispos e Padres sagrados e ordenados a partir de uma linha legítima vinda dos Vétero-Católicos, desse modo reivindicam a validade da Sucessão.
Infelizmente a ativa "ordenação" sacerdotal e "sagração" episcopal de mulheres e homossexuais evidenciou, novamente, a total invalidade da hierarquia anglicana que, mais uma vez, rompeu com a Tradição Apostólica e, conseqüentemente, aumentou em grandes proporções as diferenças da Igreja da Inglaterra em relação a todas aquelas que vivem respaldadas na Tradição.
A preocupação da Igreja a respeito da validade da Sucessão Apostólica dentro do anglicanismo levou S.S Leão XIII, de eterna memória, a convocar um grupo de teólogos para estudar o problema inglês; o fruto dessa minuciosa e sincera análise resultou na Bula Apostolicae Curae. O Papa afirma categoricamente que as ordens anglicanas são "absolutamente nulas e completamente vazias" ["Absolutely Null and Utterly Void"]. Leão XIII afirmava que o novo Ordinale transparecia uma “nativa indoles ac spiritus”, ou seja, um caráter inato e um espírito natural que vinha com a proposital omissão a toda e qualquer referência aos sentidos da compreensão católica da natureza do sacerdócio cristão. Além do triunfo do Ordinale do Rei Eduardo VI que, como já foi dito, deformou a intenção - não havia referência ao sentido sacrificial e sacerdotal - e, posteriormente, a forma, outro ponto foi levado em grande consideração; como bem se sabe um Sacramento não pode ser ministrado duas vezes, já que, se houve validade, imprime uma caráter eterno na alma. Entretanto, desde o séc. XVI, a Igreja ordenava os Padres convertidos que vinham do anglicanismo. Devemos destacar, principalmente, as instruções dos Papas Júlio III e Paulo IV ao Cardeal Reginald Pole, no período da restauração católica com a Rainha Maria I, que afirmavam explicitamente a necessidade da (re)ordenação dos Sacerdotes e Bispos cismáticos. Ora, se havia validade sacramental não teria motivo para ordenar, novamente, o Padre. Ou seja, a própria Igreja, já nos períodos passados, não reconhecia a Sucessão Apostólica e a validade dos Sacramentos ministrados dentro do anglicanismo. Assim se pronunciou o D. Basil Cardeal Hume, Arcebispo de Westminster:
A resposta da Santa Sé veio com a confirmação da Apostolicae Curae, chamando a Igreja Anglicana para um sadio estudo doutrinal. Assim ocorreu nas conversações de Malinas, na Bélgica, entre 1921 e 1925, uma conferência mista entre anglicanos e católicos dirigida pelo Cardeal Mercier. O mais impressionante desse encontro foi a concordância anglicana, mesmo que informal, a Primazia de Honra do Papa, a presença real de Cristo na Eucaristia, a crença de que o Sacrifício Eucarístico é um verdadeiro Sacrifício, não um mero simbolismo e, por fim, a compreensão do mandato divino da Igreja e do episcopado.
Toda esse explicação gira em torno do que se denomina Alta Igreja (High Church). A High Church se caracteriza por se opor aos princípios essencialmente reformados, esse setor do anglicanismo aprecia o legado tradicional católico, pré-reforma, indo além ao pensar a Igreja com uma autoridade divinamente instituída, uma hierarquia que remonta aos Apóstolos, com Sacramentos que representam sinais visíveis da graça divina. A Alta Igreja não compreende o rompimento da Inglaterra com Roma como um atestado de condenação aos ensinamentos católicos, desse modo aceitam e louvam a Tradição e os Padres da Igreja. Os setores dessa ala se distanciam da idéia protestante de Igreja, para eles o anglicanismo é a via média, de fato. A High Church tem uma postura mais dogmática do que qualquer denominação protestante. Ainda vale frisar que a Alta Igreja carrega um espírito crítico a dependência da Igreja Anglicana ao Estado, se aproximando, mais uma vez, dos princípios católicos de mandato divino da Igreja. Os anglo-católicos, um quase sinônimo para os fiéis da High Church depois do Movimento de Oxford, compreendem a palavra "Católica" como a designação do nome da Igreja construída por Cristo, postura bem diferente da tomada pelos anglicanos da Baixa Igreja (Low Church).
A Low Church já tem uma pensamento essencialmente protestante, se enxergando como, de fato, uma Igreja reformada. Ela é herdeira das mais tradicionais heranças puritanas e calvinistas, e dela vinha os não-conformistas [2]. Desse modo subvalorizam o Episcopado, o Sacerdócio, os Sacramentos, o sentido sacrificial das ordens. Como já foi dito ao longo do artigo, o espírito anti-católico, dentro da Igreja Anglicana, levou ao fortalecimento dos setores protestantes que apreciavam a entrada da teologia reformada na Inglaterra como forma de minar a influência do ethos católico que ainda perdurava. Os evangélicos, como ficaram conhecidos os fiéis da Baixa Igreja, tem uma postura protestante. Existe, entre eles, uma radical defesa do primado da Escritura e da salvação unicamente pela fé, centralizando toda a sua espiritualidade em torno da Bíblia. A estruturação da Sola Scriptura contrastou com o próprio reconhecimento que o anglicanismo fazia não só da Tradição, mas também dos primeiros Concílios e dos escritos dos Santos Padres. A Sucessão Apostólica, a priori, era defendida por ambas as igrejas – afinal era comumente citada nos principais textos da Comunhão Anglicana -, entrentanto uma questão se colocava: como um Bispo evangélico poderia se pensar herdeiro dos Apóstolos se se opunha à própria tradição de origem apostólica? Desse modo, com esse distanciamento não só doutrinal mas estrutural da idéia de Igreja – para eles a Igreja só era "Católica" enquanto "Universal" – houve a perda do sentido real da idéia do episcopado.
Ademais, ainda existe a Broad Church, Larga Igreja, com uma pensamento liberal – modernista para ser mais claro – de entender a fé cristã. Assim sendo tenta enxergar os ensinamentos da religião de forma ampla, alargada, levando em conta toda a realidade contextual, uma adaptação da Verdade aos tempos modernos.
O que os anglicanos relativistas enxergam como sadias maneiras de compreender a fé cristã na verdade não passam do produto dos eternos paradoxos da Reforma Protestante. Dentro da Igreja Anglicana existem grupos que valorizam a Tradição e a consideram essencial no conhecimento da Verdade, vão além ao reverenciar a doutrina e a forma dogmática, acreditando na Sucessão Apostólica e na sua origem essencialmente Cristã. Além disso têm um entendimento dos Sacramentos e do Episcopado bem próximos da ótica católica. Do outro lado estão os setores que não só rejeitam a Tradição – além dos Concílios e da Patrística – como têm um comportamento verdadeiramente reformado ao aderir formalmente ao modo protestante de pensar o cristianismo, ou seja, Somente a Escritura. Ademais, subvalorizam o episcopado e seu fundamento apostólico, deixando também de lado a importância dos Sacramentos enquanto sinais visíveis da graça de Deus. O mais irônico de tudo isso é que ambas as alas seguem e se fundamentam na mesma fé, crença que gira em torno do Livro de Oração Comum, dos Trinta e Nove Artigos da Religião e das Homílias Anglicanas. Na verdade o anglicanismo sempre nutriu, desde as suas origens, uma terrível tensão interna; de um lado existiam aqueles que rejeitavam qualquer ensinamento que remontasse ao catolicismo, desse modo abraçavam a teologia reformada, do outro tinham religiosos que, de fato, recusavam a obediência ao Santo Padre, mas não confundiam o anti-papado com anti-catolicismo, como se tudo que viesse de Roma tivesse um base anti-cristã. O equilíbrio conquistado se deu por meio de um rodízio de hegemonia dentro da estrutura anglicana. As antíteses coexistiam, e como? Através do desenvolvimento da descentralização do poder e da autonomia dada aos bispos. Desse modo cada diocese vivia uma espiritualidade e uma fé. Um fiel que saísse da Cantuária de William Laud e fosse para alguma diocese escocesa calvinista provavelmente não reconheceria a mesma Igreja.
Vejamos, por exemplo, a fórmula de absolvição impressa no 'Prayer Book', livro síntese da fé anglicana, que é usada tanto por evangélicos, liberais e membros da Alta Igreja:
De todo o modo vemos, mais uma vez, o resultado das contradições essenciais do protestantismo. Dentro da própria Igreja Anglicana coexistem três óticas que compreendem a fé e a estrutura da religião de maneiras não só diversas, mas até contraditórias. Os setores da Alta Igreja e, especialmente, os anglo-católicos têm uma postura muito mais realista, desse modo não interpretam essa diversidade como uma riqueza cristã, mas como o sintoma de uma problemática encrustada no âmago do anglicanismo. O surgimento de movimentos e comunhões tradicionais, desde o séc. XIX, como o de Oxford [3] e a Comunhão Anglicana Tradicional [4], apenas foi o resultado do alto grau de decadência, com o fortalecimento dos setores liberais e evangélicos, que acentuou as contradições da Igreja da Inglaterra. Qualquer homem comprometido com Cristo enxerga com claridade essas antíteses na religião e, levando em conta a Unidade da Verdade, as interpreta como o atestado da falta de vivência sincera da fé – se existe contradição não existe Deus, já que Deus é a Verdade e a Verdade não se contradiz.
Com qual Igreja nós católicos dialogamos? Com a Igreja Anglicana que renega a Tradição e a Sucessão Apostólica, que nem sequer valoriza os Sacramentos, ou com a Igreja Anglicana que crê na Tradição e no mandato divino da Igreja e do episcopado, indo além ao enxergar na Missa um verdadeio Sacrifício? Se nem eles se entendem como nós iremos entendê-los?
[1] – "Statement of Cardinal Hume on the Ordination of Anglican Bishop Leonard as a Roman Catholic Priest" (in English). The Catholic Resource Network (Trinity Communications). 1994. http://www.ewtn.com/library/ISSUES/LEONARD.TXT. Retrieved on 11 October 2007.
[2] – Os não-conformistas eram protestantes ingleses que estavam insatisfeitos com o desfecho da reforma no Reino. Eram contrários à intervenção do Estado nos assuntos da Igreja e faziam radical oposição à manuntenção da hierarquia institucionalizada. Os grupos não-conformistas mais famosos foram os puritanos, quakers, batistas, presbiterianos, congregacionalistas e metodistas.
[3] – O Movimento de Oxford ou Tractarianismo (por causa dos seus escritos, os Tracts Times) foi um grupo formado na Alta Igreja basicamente por membros da Universidade de Oxford. Entre eles havia a sincera pretensão de demonstrar que a Igreja da Inglaterra descendia, diretamente, da mesma instituição criada por Cristo e guiada pelos Apóstolos. Os dois principais atores desse Movimento foram John Henry Neman e Edward Bouverie Pusey – daí que os fiéis filiados a proposta tractariana também fossem chamados de newmanites ou puseyites.
A forte secularização da Igreja, assim como a entrada do pensamento liberal e o fortalecimento do partido evangélico, foram os motivos que impulsionaram a estruturação do Movimento. Os líderes tractarianos buscaram aprofundar o conhecimento nas origens cristãs do anglicanismo, desse modo se aproximaram do catolicismo como forma de conhecer com mais intensidade a Tradição. Mesmo assim quase todos tinham uma postura radical anti-papado – menos Pusey. A Teoria dos Ramos se desenvolveu no seio do Movimento de Oxford, nela dizia que o catolicismo, o anglicanismo e a ortodoxia eram as ramificações da mesma Igreja – o que já é um erro, mas depois os modernistas pioraram colocando na “árvore” qualquer denominação dita cristã. Foi a partir do Movimento de Oxford que houve o renascimento das ordens religiosas na Igreja Anglicana, assim como o surgimento de um belo Movimento Litúrgico. Os “puseyites” centralizaram toda a vida espiritual e devocional ao redor da Eucaristia, e ainda tomaram certas tradições católicas. Os tractarianos faziam uma clara distinção entre os ensinamentos católicos dos primeiros séculos, aceitando-os integralmente, as crenças medievais, costumes e devoções populares corroboradas por Roma, rechaçadas por considerarem exageros e deformações da verdadeira doutrina, e o dogmatismo romano, que a depender de quem olhasse poderia ser apreciado com simpatia ou repudiado com escárnio. Newman, que não nutria a mínima simpatia por Trento, acabou não só reverenciando o Concílio como se convertendo ao catolicismo. Além do futuro Cardeal Newman vários outros membros do Movimento se converteram, entre eles; Henry Edward Manning, mais tarde o Cardeal Arcebispo de Westminster, Mons. Robert Hugh Benson, filho do arcebispo anglicano de Cantuária, Augusta Theodosia Drane, escritora e abadessa dominicana etc.
[4] - A Comunhão Anglicana Tradicional – Traditional Anglican Communion (TAC) – reúne igrejas anglicanas que juntas se separararam da Comunhão Anglicana sob o pastoreio do Arcebispo de Cantuária. A TAC corrobora a Declaração de St. Louis – Congresso convocado depois que a Igreja Episcopal dos EUA aprovou a ordenação de mulheres e fez uma radical reforma no ‘Livro de Oração Comum’ – e segue uma hermenêutica tradicional dos Trinta e Nove Artigos – vale frisar que tradicionalmente é uma interpretação legítima, afinal os religiosos da Baixa Igreja já partem de uma ótica calvinista ao ler os Artigos, mesmo eles não tendo essa conotação.A Comunhão Anglicana Tradicional não desassocia a Escritura da Tradição, além disso valoriza a teologia dogmática e o decoro litúrgico. Ademais, a TAC mantém um colégio de Bispos que é responsável pela eleição do Primaz.
A saída desses Bispos da Comunhão Anglicana foi motivada pela permissão da ordenação de mulheres e aceitação do homossexualismo, assim como a subvalorização da Tradição e a reforma litúrgica. Desse modo, esses pastores da Igreja da Inglaterra reconheciam que, por meio dessas mudanças, o anglicanismo rompia com todo o tradicionalismo apostólico.
Em 2007 a Comunhão Anglicana Tradicional, em nome de todos seus Bispos, religiosos e fiéis, pediu admissão na Igreja Católica. Assim disse arcebispo Hepworth, Primaz da TAC:
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Hoje é muito comum encontrar o discurso do tal cristianismo primitivo na boca de protestantes, assim como o combate às tradições e à idéia de um cristianismo paganizado desde os primeiros séculos. Na verdade essas teorias não encontram fundamento nem mesmo entre as críticas da Reforma. Boa parte dos reformadores, quando pensava em "Igreja primitiva", levava em conta os quatro primeiros Concílios, ou seja, não enxergava no primitivismo eclesiológico a visão puritana e pentecostal que hoje reina. A própria Igreja Anglicana não só reconhece os Concílios como corrobora o trabalho dos Padres da Igreja, os reverenciando como santos e doutores. Só mais tarde, com a consolidação do setor evangélico dentro do anglicanismo – não por mesmo essa invasão se deu com a estruturação do liberalismo dentro da Igreja – que essas tradições foram deixadas de lado ou, no mínimo, passaram a ser subvalorizadas.
A Igreja Anglicana, em especial, não surgiu como essencialmente oposta ao papado enquanto doutrina, mas sim ao poder que o Santo Padre exercia nos seus domínios. Daí o famoso Ato de Supremacia – em 1534 o Parlamento inglês declarou Henrique VIII "Senhor da Igreja da Inglaterra". Com isso houve um levante de soldados invadindo mosteiros, tomando paróquias e confiscando os bens da Igreja que, a partir de então, passaram a ser do Estado. São Tomás Moro - Chanceler do Reino - e São João Fisher – Cardeal e Bispo de Rochester - foram martirizados por se recusarem a obedecer ao decreto, persistindo na fidelidade à Igreja de Cristo. Posteriormente, esse Ato de Supremacia foi substituído por outro ratificado por Elisabete I, a principal responsável pela consolidação da reforma protestante na Inglaterra. Com isso a dita cuja dominava, através da força, a massa católica que ainda lutava fortemente no reino e, principalmente, revertia e destruía o que tinha sido feito pela verdadeira Rainha da Inglaterra, Maria I, que tentou resgatar a fé genuína no seu país. Ademais, instituiu um "Juramento de Supremacia" onde se declarava total fidelidade à monarquia, opondo-se a qualquer interferência externa, reverenciando a Rainha como "única governadora suprema deste reino e de todos os outros domínios e países de sua Alteza, assim como em todas as coisas ou causas espirituais, eclesiásticas ou temporais". Com isso os católicos que lutavam em meio à aristocracia se viam obrigados ou a apostatar da fé, para manter seus títulos, ou renegar a glória do mundo, em defesa da Religião. Hillaire Belloc, no seu livro, Characters of the Reformation, disse:
A Igreja Anglicana foi imposta em definitivo na Inglaterra por razões econômicas, já que esta nova religião permitiu a nova nobreza ascender e ficar com a grande riqueza da Igreja Católica que Henrique VIII e seus sucessores lhes deram em recompensa aos seus serviços. Isso tornaria impossível restaurar a antiga religião, já que significaria a restituição das terras.O diálogo Anglicano X Católico por muito tempo esteve fadado ao fracasso por conta do ranço anti-católico na Inglaterra que levava os seus clérigos a acreditarem que toda e qualquer doutrina e dogma oriundo de Roma era essencialmente anti-cristão, ou seja, não enxergavam a base fundamental da reforma anglicana, a política, e não percebiam que, mesmo sem saber, a Igreja da Inglaterra, ao menos antes de ser tomada pelos evangélicos (Baixa Igreja), tinha muitas crenças em perfeita sintonia com os ensinamentos romanos.
Os Trinta e Nove Artigos foram estabelecidos em 1563, por meio deles a doutrina anglicana se definiu, tomando uma visão própria frente a doutrina calvinista, luterana e católica. As duas primeiras gozavam de ampla defesa em setores anti-romanos, defendidas por religiosos que buscavam na adesão teológica aos princípios reformados a genuína oposição ao atolicismo, principalmente de cunho político. Os Trinta e Nova Artigos surgiram de uma revisão dos Quarenta e Dois Artigos publicados em 1553, mas revogados pela Rainha Maria, a Católica. De forma geral os Artigos adotam uma postura mais próxima ao luteranismo do que ao calvinismo, mas mantendo uma forma católica, zelando por certas tradições, preservando a estrutura hierárquica dos tempos romanos.
No artigo XXXV se diz:
O Segundo livro das Homilias (...) contém doutrina pia, saudável e necessária para estes tempos, como também o primeiro livro das Homilias, publicado ao tempo de Eduardo VI; e portanto julgamos que devem ser lidas pelos ministros, diligente e distintamente nas igrejas, para que sejam entendidas pelo povo." [The second Book of Homilie (…) doth contain a godly and wholesome Doctrine, and necessary for these times, as doth the former Book of Homilies, which were set forth in the time of Edward the Sixth; and therefore we judge them to be read in Churches by the Ministers, diligently and distinctly, that they may be understanded of the people.]As Homílias Anglicanas são dois livros com trinta e três sermões que aprofundam o conhecimento da doutrina anglicana, auxiliando no entendimento de pontos específicos da crença da Igreja da Inglaterra. Usadas pelo clero paroquial, são instruções metódicas que se aproximam em muito do método pedagógico do Catecismo Católico. Os discursos contidos nas Homilias estão baseados na Vulgata e na Septuaginta (versão rejeitada pelos protestantes que preferiram seguir o cânon do AT definido por fariseus anti-cristãos no Sínodo de Jâmnia, no ano 100 d.C). Nas Homilias se diz que a Igreja primitiva se manteve absolutamente pura durante 700 anos (ainda não havia aquele papo de Constantino criador do catolicismo e paganizador da Igreja), acatando os quatro primeiros Concílios, além disso aderem aos Padres da Igreja dos oito primeiros séculos, os reverenciando como santos e doutores, reconhecendo a inspiração divina dos seus escritos. Afirmam que o Corpo e o Sangue são recebidos sob a forma de pão e vinho, considerando a Carne do Santíssimo Sacramento como uma substância espiritual. Atestam o matrimônio e ordenação como sacramentos e louvam os jejuns, as esmolas, os atos de misericórdia. As Homilias, melhores comentários dos Artigos, não procuram aderir formalmente ao protestantismo como forma de consolidar sua posição anti-católica, ao contrário, buscam se livrar daquilo que eles consideravam os erros dominantes do catolicismo, ou seja, crenças medievais, costumes e devoções populares corroboradas por Roma. O que eles entendiam como os ensinamentos católicos dos primeiros séculos era aceito na construção daquilo que chamavam de Igreja primitiva e até mesmo a evolução doutrinal e dogmática católica, com o aprofundamento no saber religioso contido em Concílios e pronunciamentos Papais, não era, a priori, rechaçada por completo. Card. Newman, no seu grande livro Apologia Pro Vita Sua, relembrando a sua história de conversão, disse:
Eu (...) considerava Roma em repouso e Roma em atividade como duas coisas completamente distintas. Opunha seu credo à sua doutrina comum, ao seu tom de controvérsia, à sua influência política e social, às suas crenças e às suas práticas populares. Com essa distinção entre os decretos e as tradições de Roma, fazia, paralelamente, uma outra entre o Anglicanismo em repouso e o Anglicanismo em ação, No seu credo formal, o Anglicanismo não estava à grande distância de Roma. Mas, a coisa muda de figura quando se considera no Anglicanismo seu espírito insular, suas tradições de Igreja estabelecida, suas características histórica, seus rancores na controvérsia e seus juízos privados.As Igrejas da Comunhão Anglicana reclamam validade da sua Sucessão Apostólica. Quando a Igreja da Inglaterra rompeu com Roma, no séc. XVI, manteve a estrutura episcopal por meio de sagrações válidas, mesmo que ilícitas. Até então a nascente Igreja Anglicana continuava aderindo as normas doutrinais e litúrgicas católicas. Não obstante, graças ao fortalecimento do espírito anti-romano, que abria espaço, propositalmente, a teologia protestante, a Igreja da Inglaterra entrou num processo de declínio e empobrecimento Tradicional. No reinado do Rei Eduardo VI mudanças radicais foram feitas na sagração episcopal. Com a estruturação do "Edwardian ordinal" – louvado por clérigos que eram simpáticos à compreensão protestante de ministério - a Igreja da Inglaterra perdeu a validade da sua sucessão apostólica, já que a houve a corrupção da forma e da intenção sacramental. O novo Ordinale pretendia conferir a graça sacramental por meio da expressão "receive the Holy Spirit" apenas. Não havia qualquer referência ao sacerdócio, sacrifício, ou a consagração das sagradas espécies. Ficava característica a ausência do sentido Sacerdotal da ordem - Sacerdos in æternum – e do sacerdócio sacrificante. Posteriormente, um século depois, lideranças conservadoras dentro do anglicanismo, preocupadas com a deficiência da forma, reformaram o Ordinale, acrescentando a expressão "for the office and work of a priest". De todo o modo já era tarde, todos os Bispos válidos já tinham saído de cena, a partir desse momento o problema não era só de forma e intenção, mas também de ministro; só restavam Pastores, e também Sacerdotes, com sagrações, e ordenações, sem qualquer legítima validade. Entretanto, vale frisar que, desde os anos 30, Bispos Vétero-Católicos – que têm a Sucessão Apostólica reconhecida por Roma – participaram ativamente das cerimônias de sagração episcopal anglicanas, as concelebrando. Os anglicanos e os Velhos Católicos rapidamente se viram como aliados naturais contra o que eles consideravam as invencionices da supremacia papal. Assim, em 1879, um Bispo católico que aderiu aos erros desse cisma, Herzog, celebrou a ordenação sacerdotal de alguns anglicanos, em Paris, para a diocese de Edimburgo.
Esse método, juntamente com o resgate de tradições perdidas com a entrada do pensamento protestante no anglicanismo, foi responsável pela tentativa da retomada da Sucessão Apostólica na Igreja da Inglaterra – a Igreja Católica ainda não reconhece a apostolicidade desse clero anglicano. A forma e a intenção dessas sagrações merecem ser examinadas, mas de todo o modo existem Bispos e Padres sagrados e ordenados a partir de uma linha legítima vinda dos Vétero-Católicos, desse modo reivindicam a validade da Sucessão.
Infelizmente a ativa "ordenação" sacerdotal e "sagração" episcopal de mulheres e homossexuais evidenciou, novamente, a total invalidade da hierarquia anglicana que, mais uma vez, rompeu com a Tradição Apostólica e, conseqüentemente, aumentou em grandes proporções as diferenças da Igreja da Inglaterra em relação a todas aquelas que vivem respaldadas na Tradição.
A preocupação da Igreja a respeito da validade da Sucessão Apostólica dentro do anglicanismo levou S.S Leão XIII, de eterna memória, a convocar um grupo de teólogos para estudar o problema inglês; o fruto dessa minuciosa e sincera análise resultou na Bula Apostolicae Curae. O Papa afirma categoricamente que as ordens anglicanas são "absolutamente nulas e completamente vazias" ["Absolutely Null and Utterly Void"]. Leão XIII afirmava que o novo Ordinale transparecia uma “nativa indoles ac spiritus”, ou seja, um caráter inato e um espírito natural que vinha com a proposital omissão a toda e qualquer referência aos sentidos da compreensão católica da natureza do sacerdócio cristão. Além do triunfo do Ordinale do Rei Eduardo VI que, como já foi dito, deformou a intenção - não havia referência ao sentido sacrificial e sacerdotal - e, posteriormente, a forma, outro ponto foi levado em grande consideração; como bem se sabe um Sacramento não pode ser ministrado duas vezes, já que, se houve validade, imprime uma caráter eterno na alma. Entretanto, desde o séc. XVI, a Igreja ordenava os Padres convertidos que vinham do anglicanismo. Devemos destacar, principalmente, as instruções dos Papas Júlio III e Paulo IV ao Cardeal Reginald Pole, no período da restauração católica com a Rainha Maria I, que afirmavam explicitamente a necessidade da (re)ordenação dos Sacerdotes e Bispos cismáticos. Ora, se havia validade sacramental não teria motivo para ordenar, novamente, o Padre. Ou seja, a própria Igreja, já nos períodos passados, não reconhecia a Sucessão Apostólica e a validade dos Sacramentos ministrados dentro do anglicanismo. Assim se pronunciou o D. Basil Cardeal Hume, Arcebispo de Westminster:
Embora reafirmando o julgamento da Apostolicae Curae de que as ordens anglicanas são inválidas, a Igreja Católica tem em conta o envolvimento, em sagrações episcopais da Igreja da Inglaterra, de bispos da Velha Igreja Católica da União de Utrecht que são validamente ordenados. Em particular, e provavelmente em raros casos, as autoridades em Roma admitiram existir uma "prudente dúvida" sobre a nulidade da ordenação sacerdotal de ministros anglicanos vindos dessa linha de sucessão. (...) Existem muitos complexos fatores que precisam ser verificados em cada caso. [1]Ainda é pertinente frisar que, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Card. Ratzinger, na carta apostólica Ad Tuendam Fidem de S.S João Paulo II, que normatiza o Código de Direito Canônico e Código dos Cânones das Igrejas Orientais, listou a Bula Apostolicae Curae como um dos ensinamentos definitivos que pedem firme assentimento de fé por se encontrar intimamente ligado a própria doutrina revelada. O Bispo anglicano de Huron, no Canadá, George Luxton, em carta ao Papa Paulo VI, pediu a revisão das ordens anglicanas, a revogação da excomunhão a Rainha Elisabete, decretada por São Pio V e, por final, um projeto de união entre anglicanos e outros cristãos. Sua Santidade respondeu, simplesmente, que a Bula de Leão XIII foi uma “declaração definitiva”, ou seja, de essencial seguimento para toda a Igreja. É de grande relevância as palavras do Papa na canonização dos quarenta mártires católicos mortos pelos reformadores na Inglaterra e no País de Gales:
Não haverá nenhum desejo de diminuir o legítimo prestígio e o valoroso patrimônio de piedade e costumes próprios da Igreja Anglicana, quando a Igreja Romana – esta humilde serva dos servos de Deus – puder abraçar sua bem-amada irmã na única comunhão autêntica da família de Cristo, uma comunhão de origem e de fé, uma comunhão de sacerdócio e de preceito, uma comunhão de santos na liberdade de amor do Espírito de Jesus. Talvez tenhamos que esperar vigilantes na oração, a fim de merecer esse dia abençoado. Mas somos desde já fortalecidos nesta esperança pela amizade celestial dos 40 mártires da Inglaterra e País de Gales que são canonizados hoje.Em resposta ao documento de Leão XIII os Arcebispos de Cantuária e Iorque escreveram uma carta, endereçada ao “nosso venerável irmão”, o Papa, em nome da Comunhão Anglicana e de todos os bispos da cristandade – haja hipérbole - chamada Saepius Officio, O Dever da Defesa. No texto, os dois religiosos anglicanos, num irônico esforço – afinal renegam o papado mas pretendem se justificar frente ao Santo Padre – defendem que a intenção da Ordem na Igreja da Inglaterra tem sim um caráter sacerdotal oriundo do único sacerdócio de Cristo. Vão além ao afirmar que o anglicanismo ensina e propaga a doutrina do sacrifício eucarístico e da realidade mística da Missa – “Estamos acostumados a chamar toda a Ação de Sacrifício Eucarístico”. E, ainda, na tentativa de validar o Ordinale anglicano, partem da argumentação de que nos ritos romanos mais antigos não havia menção a todos os sentidos do sacerdócio.
A resposta da Santa Sé veio com a confirmação da Apostolicae Curae, chamando a Igreja Anglicana para um sadio estudo doutrinal. Assim ocorreu nas conversações de Malinas, na Bélgica, entre 1921 e 1925, uma conferência mista entre anglicanos e católicos dirigida pelo Cardeal Mercier. O mais impressionante desse encontro foi a concordância anglicana, mesmo que informal, a Primazia de Honra do Papa, a presença real de Cristo na Eucaristia, a crença de que o Sacrifício Eucarístico é um verdadeiro Sacrifício, não um mero simbolismo e, por fim, a compreensão do mandato divino da Igreja e do episcopado.
Toda esse explicação gira em torno do que se denomina Alta Igreja (High Church). A High Church se caracteriza por se opor aos princípios essencialmente reformados, esse setor do anglicanismo aprecia o legado tradicional católico, pré-reforma, indo além ao pensar a Igreja com uma autoridade divinamente instituída, uma hierarquia que remonta aos Apóstolos, com Sacramentos que representam sinais visíveis da graça divina. A Alta Igreja não compreende o rompimento da Inglaterra com Roma como um atestado de condenação aos ensinamentos católicos, desse modo aceitam e louvam a Tradição e os Padres da Igreja. Os setores dessa ala se distanciam da idéia protestante de Igreja, para eles o anglicanismo é a via média, de fato. A High Church tem uma postura mais dogmática do que qualquer denominação protestante. Ainda vale frisar que a Alta Igreja carrega um espírito crítico a dependência da Igreja Anglicana ao Estado, se aproximando, mais uma vez, dos princípios católicos de mandato divino da Igreja. Os anglo-católicos, um quase sinônimo para os fiéis da High Church depois do Movimento de Oxford, compreendem a palavra "Católica" como a designação do nome da Igreja construída por Cristo, postura bem diferente da tomada pelos anglicanos da Baixa Igreja (Low Church).
A Low Church já tem uma pensamento essencialmente protestante, se enxergando como, de fato, uma Igreja reformada. Ela é herdeira das mais tradicionais heranças puritanas e calvinistas, e dela vinha os não-conformistas [2]. Desse modo subvalorizam o Episcopado, o Sacerdócio, os Sacramentos, o sentido sacrificial das ordens. Como já foi dito ao longo do artigo, o espírito anti-católico, dentro da Igreja Anglicana, levou ao fortalecimento dos setores protestantes que apreciavam a entrada da teologia reformada na Inglaterra como forma de minar a influência do ethos católico que ainda perdurava. Os evangélicos, como ficaram conhecidos os fiéis da Baixa Igreja, tem uma postura protestante. Existe, entre eles, uma radical defesa do primado da Escritura e da salvação unicamente pela fé, centralizando toda a sua espiritualidade em torno da Bíblia. A estruturação da Sola Scriptura contrastou com o próprio reconhecimento que o anglicanismo fazia não só da Tradição, mas também dos primeiros Concílios e dos escritos dos Santos Padres. A Sucessão Apostólica, a priori, era defendida por ambas as igrejas – afinal era comumente citada nos principais textos da Comunhão Anglicana -, entrentanto uma questão se colocava: como um Bispo evangélico poderia se pensar herdeiro dos Apóstolos se se opunha à própria tradição de origem apostólica? Desse modo, com esse distanciamento não só doutrinal mas estrutural da idéia de Igreja – para eles a Igreja só era "Católica" enquanto "Universal" – houve a perda do sentido real da idéia do episcopado.
Ademais, ainda existe a Broad Church, Larga Igreja, com uma pensamento liberal – modernista para ser mais claro – de entender a fé cristã. Assim sendo tenta enxergar os ensinamentos da religião de forma ampla, alargada, levando em conta toda a realidade contextual, uma adaptação da Verdade aos tempos modernos.
O que os anglicanos relativistas enxergam como sadias maneiras de compreender a fé cristã na verdade não passam do produto dos eternos paradoxos da Reforma Protestante. Dentro da Igreja Anglicana existem grupos que valorizam a Tradição e a consideram essencial no conhecimento da Verdade, vão além ao reverenciar a doutrina e a forma dogmática, acreditando na Sucessão Apostólica e na sua origem essencialmente Cristã. Além disso têm um entendimento dos Sacramentos e do Episcopado bem próximos da ótica católica. Do outro lado estão os setores que não só rejeitam a Tradição – além dos Concílios e da Patrística – como têm um comportamento verdadeiramente reformado ao aderir formalmente ao modo protestante de pensar o cristianismo, ou seja, Somente a Escritura. Ademais, subvalorizam o episcopado e seu fundamento apostólico, deixando também de lado a importância dos Sacramentos enquanto sinais visíveis da graça de Deus. O mais irônico de tudo isso é que ambas as alas seguem e se fundamentam na mesma fé, crença que gira em torno do Livro de Oração Comum, dos Trinta e Nove Artigos da Religião e das Homílias Anglicanas. Na verdade o anglicanismo sempre nutriu, desde as suas origens, uma terrível tensão interna; de um lado existiam aqueles que rejeitavam qualquer ensinamento que remontasse ao catolicismo, desse modo abraçavam a teologia reformada, do outro tinham religiosos que, de fato, recusavam a obediência ao Santo Padre, mas não confundiam o anti-papado com anti-catolicismo, como se tudo que viesse de Roma tivesse um base anti-cristã. O equilíbrio conquistado se deu por meio de um rodízio de hegemonia dentro da estrutura anglicana. As antíteses coexistiam, e como? Através do desenvolvimento da descentralização do poder e da autonomia dada aos bispos. Desse modo cada diocese vivia uma espiritualidade e uma fé. Um fiel que saísse da Cantuária de William Laud e fosse para alguma diocese escocesa calvinista provavelmente não reconheceria a mesma Igreja.
Vejamos, por exemplo, a fórmula de absolvição impressa no 'Prayer Book', livro síntese da fé anglicana, que é usada tanto por evangélicos, liberais e membros da Alta Igreja:
Nosso Senhor Jesus Cristo que deu à sua Igreja o poder de absolver qualquer pecador que sinceramente se arrepende e nele crê, perdoa as tuas ofensas pela sua grande misericórdia; e pela autoridade que me confiou, eu te absolvo de todos os teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.Essa fórmula não se distancia em nada da forma católica. Fica claro que ela entende a Igreja como uma estrutura divinamente pensada e o Sacerdote como fazendo as vezes do próprio Cristo- in persona Christi – origem de todo o sacerdócio.
De todo o modo vemos, mais uma vez, o resultado das contradições essenciais do protestantismo. Dentro da própria Igreja Anglicana coexistem três óticas que compreendem a fé e a estrutura da religião de maneiras não só diversas, mas até contraditórias. Os setores da Alta Igreja e, especialmente, os anglo-católicos têm uma postura muito mais realista, desse modo não interpretam essa diversidade como uma riqueza cristã, mas como o sintoma de uma problemática encrustada no âmago do anglicanismo. O surgimento de movimentos e comunhões tradicionais, desde o séc. XIX, como o de Oxford [3] e a Comunhão Anglicana Tradicional [4], apenas foi o resultado do alto grau de decadência, com o fortalecimento dos setores liberais e evangélicos, que acentuou as contradições da Igreja da Inglaterra. Qualquer homem comprometido com Cristo enxerga com claridade essas antíteses na religião e, levando em conta a Unidade da Verdade, as interpreta como o atestado da falta de vivência sincera da fé – se existe contradição não existe Deus, já que Deus é a Verdade e a Verdade não se contradiz.
Com qual Igreja nós católicos dialogamos? Com a Igreja Anglicana que renega a Tradição e a Sucessão Apostólica, que nem sequer valoriza os Sacramentos, ou com a Igreja Anglicana que crê na Tradição e no mandato divino da Igreja e do episcopado, indo além ao enxergar na Missa um verdadeio Sacrifício? Se nem eles se entendem como nós iremos entendê-los?
[1] – "Statement of Cardinal Hume on the Ordination of Anglican Bishop Leonard as a Roman Catholic Priest" (in English). The Catholic Resource Network (Trinity Communications). 1994. http://www.ewtn.com/library/ISSUES/LEONARD.TXT. Retrieved on 11 October 2007.
[2] – Os não-conformistas eram protestantes ingleses que estavam insatisfeitos com o desfecho da reforma no Reino. Eram contrários à intervenção do Estado nos assuntos da Igreja e faziam radical oposição à manuntenção da hierarquia institucionalizada. Os grupos não-conformistas mais famosos foram os puritanos, quakers, batistas, presbiterianos, congregacionalistas e metodistas.
[3] – O Movimento de Oxford ou Tractarianismo (por causa dos seus escritos, os Tracts Times) foi um grupo formado na Alta Igreja basicamente por membros da Universidade de Oxford. Entre eles havia a sincera pretensão de demonstrar que a Igreja da Inglaterra descendia, diretamente, da mesma instituição criada por Cristo e guiada pelos Apóstolos. Os dois principais atores desse Movimento foram John Henry Neman e Edward Bouverie Pusey – daí que os fiéis filiados a proposta tractariana também fossem chamados de newmanites ou puseyites.
A forte secularização da Igreja, assim como a entrada do pensamento liberal e o fortalecimento do partido evangélico, foram os motivos que impulsionaram a estruturação do Movimento. Os líderes tractarianos buscaram aprofundar o conhecimento nas origens cristãs do anglicanismo, desse modo se aproximaram do catolicismo como forma de conhecer com mais intensidade a Tradição. Mesmo assim quase todos tinham uma postura radical anti-papado – menos Pusey. A Teoria dos Ramos se desenvolveu no seio do Movimento de Oxford, nela dizia que o catolicismo, o anglicanismo e a ortodoxia eram as ramificações da mesma Igreja – o que já é um erro, mas depois os modernistas pioraram colocando na “árvore” qualquer denominação dita cristã. Foi a partir do Movimento de Oxford que houve o renascimento das ordens religiosas na Igreja Anglicana, assim como o surgimento de um belo Movimento Litúrgico. Os “puseyites” centralizaram toda a vida espiritual e devocional ao redor da Eucaristia, e ainda tomaram certas tradições católicas. Os tractarianos faziam uma clara distinção entre os ensinamentos católicos dos primeiros séculos, aceitando-os integralmente, as crenças medievais, costumes e devoções populares corroboradas por Roma, rechaçadas por considerarem exageros e deformações da verdadeira doutrina, e o dogmatismo romano, que a depender de quem olhasse poderia ser apreciado com simpatia ou repudiado com escárnio. Newman, que não nutria a mínima simpatia por Trento, acabou não só reverenciando o Concílio como se convertendo ao catolicismo. Além do futuro Cardeal Newman vários outros membros do Movimento se converteram, entre eles; Henry Edward Manning, mais tarde o Cardeal Arcebispo de Westminster, Mons. Robert Hugh Benson, filho do arcebispo anglicano de Cantuária, Augusta Theodosia Drane, escritora e abadessa dominicana etc.
[4] - A Comunhão Anglicana Tradicional – Traditional Anglican Communion (TAC) – reúne igrejas anglicanas que juntas se separararam da Comunhão Anglicana sob o pastoreio do Arcebispo de Cantuária. A TAC corrobora a Declaração de St. Louis – Congresso convocado depois que a Igreja Episcopal dos EUA aprovou a ordenação de mulheres e fez uma radical reforma no ‘Livro de Oração Comum’ – e segue uma hermenêutica tradicional dos Trinta e Nove Artigos – vale frisar que tradicionalmente é uma interpretação legítima, afinal os religiosos da Baixa Igreja já partem de uma ótica calvinista ao ler os Artigos, mesmo eles não tendo essa conotação.A Comunhão Anglicana Tradicional não desassocia a Escritura da Tradição, além disso valoriza a teologia dogmática e o decoro litúrgico. Ademais, a TAC mantém um colégio de Bispos que é responsável pela eleição do Primaz.
A saída desses Bispos da Comunhão Anglicana foi motivada pela permissão da ordenação de mulheres e aceitação do homossexualismo, assim como a subvalorização da Tradição e a reforma litúrgica. Desse modo, esses pastores da Igreja da Inglaterra reconheciam que, por meio dessas mudanças, o anglicanismo rompia com todo o tradicionalismo apostólico.
Em 2007 a Comunhão Anglicana Tradicional, em nome de todos seus Bispos, religiosos e fiéis, pediu admissão na Igreja Católica. Assim disse arcebispo Hepworth, Primaz da TAC:
O Colégio dos Bispos da Comunhão Anglicana Tradicional (TAC), se reuniu em sessão plenária, em Portsmouth, Inglaterra, na primeira semana de outubro de 2007. Os Bispos e Vigários-Gerais aprovaram por unanimidade o texto de uma carta à Sé de Roma buscando plena e sacramental união. A carta foi assinada solenemente por todo o Colégio e confiada ao Primaz e a dois bispos escolhidos pelo colégio para ser apresentada à Santa Sé. A carta foi cordialmente recebida pela Congregação para a Doutrina da Fé. O Primaz da TAC definiu que nenhum membro do Colégio dará entrevistas até que a Santa Sé tenha considerado a carta e respondidoA resposta da Igreja veio em 2008, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, que se mostrou solícita e pronta para analisar a questão. Sabemos que não é um acontecimento de pequenas proporções, estamos falando de uma Comunhão que congrega mais de 400 mil pessoas em todo o mundo. O processo de conversão deve ser cuidadoso, afinal as particularidades e riquezas tradicionais, presentes na TAC, herdadas dos tempos católicos, devem ser levadas em conta. Por isso, talvez, a resposta mais saudável para a Comunhão Anglicana Tradicional seja a criação de uma Prelazia Pessoal onde mesmo professando a fé católica em toda a sua plenitude manteriam a sua estrutura e sua individualidade litúrgica e espiritual.
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