domingo, 7 de dezembro de 2008

A Festa na Sefaz

Quem mora em Salvador possivelmente tem acompanhado, mesmo que por alto, o embate que anda ocorrendo entre os Agentes de Tributos e os Auditores Fiscais. Muitas pessoas não sabem, mas não é apenas um projeto, inconstitucional vale frisar, de reestruturação da carreira do fisco, mas sim uma minuciosa estratégia de ideologização do governo e partidarização das estruturais estatais.

De forma sucinta, o Secretário Estadual da Fazenda, Carlos Martins, aquele que foi tesoureiro da campanha de Wagner, defende uma proposta que desconstrói a função de Auditor Fiscal, dando poderes e incumbências próprias para os Agentes de Tributos de nível médio. Dessa forma esse projeto se coloca em total oposição àquilo que foi recomendado formalmente pelo Ministério Público Estadual.

Os Auditores Fiscais se uniram em defesa dos seus cargos e funções. Não é para menos. Estamos quase vivendo um conto de fadas. Aqui na Bahia 1.224 pessoas vão dormir Agentes de Tributos ou Auxiliares de Fiscalização de Auditores Fiscais e vão acordar Auditores Fiscais. Na verdade não vão se tornar Auditores Fiscais essencialmente, já que não passaram pelo único método legal e lícito de aprovação; o concurso, entretanto, de fato, em terras petistas o poder do Estado e a necessidade basilar de absolutizar um projeto ideológico de governo se colocam a frente de leis, normas, éditos, funções.

A tentativa do PT de partidarizar a Sefaz é clara. Na verdade esse projeto do governo Wagner não é nada assustador para aqueles que já conhecem os métodos do atual Partidão. A invasão das estruturais estatais, a partidarização do serviço público, a criação de um exército de devedores ao PT, entre outras estratégias, massificam um projeto ideológico, possibilitam uma soberania política. Quem precisa da maioria na Assembléia, por exemplo, se justamente os órgãos, secretarias, os braços do Estado estão tomados por agentes petistas?

Com esse projeto sorrateiro o PT instaurou um clima de tensão na Sefaz. Onde antes havia eficiência, rapidez, serviço de qualidade, hoje reina a discussão política, picuinha partidária, divisão, retrocesso. Uma Divisão de Classes? Não, uma "Divisão de Cargos", entretanto, pelo jeito, o PT, relembrando seu passado escancaradamente socialista, ainda sabe a eficiência da ideologização e disseminação da "paixão panfletária". Se a Divisão de Classes era associada à divisão do trabalho, com a burguesia representando seus interesses no modo de produção por ela criado, hoje já se ouve nas ruas o discurso de que os Auditores Fiscais são ricos-esbanjadores-egoístas que querem impedir o acesso dos Agentes de Tributos a melhores cargos e salários. Esse embate não é um choque de classes, não se trata de um problema social, mas, para o PT, é interessante estimular o fogo politiqueiro já que desse modo inflama as massas por ele controladas; os bons e velhos “idiotas úteis”. Não por menos (ironia do destino?) o sindicato dos Agentes de Tributos é coordenado pelo PC do B, aliado do PT na eleição de Wagner.

Que eles estudem, façam concurso e ganhem um salário proporcional ao esforço que tiveram. Entretanto, como estamos falando de um governo petista, nada melhor do que coroá-los com prerrogativas, sem motivo algum, com uma simples alteração de lei.

Mostre sua indignação:

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Pedro Ravazzano

Estado, Governo e Liberdade II

por Pedro Ravazzano, Patrick Rohrer e Thiago Benevides

3. Estado, Governo e Liberdade


Adotando a linha seguida pela vasta maioria dos pensadores, podemos definir o Estado como a pessoa jurídica formada por um grupo de indivíduos que habitam um mesmo território e que estão subordinados a um mesmo governo. Distinguimos três elementos fundamentais nesse conceito; o elemento humano, o elemento material e o elemento formal; o povo, o território e o governo. Desses pontos, é importante recordar que o governo se caracteriza fundamentalmente pela soberania, é o elemento formal do Estado.

O Estado liberal, de acordo com o prof. Jorge Reis Novais em Contributo para uma Teoria do Estado de Direito (p. 51), pode ser definido através da “separação entre política e economia, segundo a qual o Estado se deve limitar a garantir a segurança e a propriedade dos cidadãos, deixando a vida econômica entregue a uma dinâmica de auto-regulação pelo mercado.” (NOVAIS, 2006, p. 51). O economista austríaco Friederich Hayek definiu a relação do Estado com os indivíduos desse modo:

O Estado deve limitar-se a estabelecer normas aplicáveis a situações gerais deixando os indivíduos livres em tudo que depende das circunstâncias de tempo e lugar, porque só os indivíduos poderão conhecer plenamente as circunstâncias relativas a cada caso e a elas adaptar suas ações, Para que o indivíduo possa empregar com eficácia seus conhecimentos na elaboração de planos, deve estar em condições de prever as ações do Estado que podem afetar esses planos. (HAYEK, 1990, p. 99)

Assim, como vimos, a caracterização do Estado Liberal se faz através de três dimensões, sejam; separação do Estado frente a Moral, a Economia e a Sociedade Civil, esta última separação como corolário dos dois primeiros axiomas liberais.

O objetivo basilar do Estado é de natureza jurídica. Podemos pontuar entre as suas principais funções;

I – A defesa do território nacional e a manutenção da independência do Estado;
II – A proteção da ordem pública e a radical defesa da segurança nas relações sociais.

Para tanto, o Estado lança mão, como ferramentas intermediárias, das forças armadas, da polícia e do poder judiciário. Ademais, sua finalidade perpassa na promoção do bem-estar social e, como conseqüência imediata, interfere na ordem social, econômica e jurídica para, desse modo, estimular o progresso. O sucesso de um governo constitucional está atrelado ao anseio dos indivíduos de aceitarem e se sentirem obrigados pelas legítimas decisões governamentais. Dentro da visão liberal;

O Estado existe para beneficio das pessoas, o ser humano não existe para beneficio do Estado. O governo deve ter, pois, só o poder suficiente para preservar a liberdade das pessoas e da propriedade privada (SIEGAN, 1993, 5 p.)

O Estado, enquanto personalidade jurídica, tem finalidades próprias, uma organização de pessoas e bens, com capacidade de direitos. Dessa forma, é uma unidade distinta do povo, do território e do governo, elementos que o constituem. Alguns pontos são bastante relevantes; diferentemente do que se pretende passar, a vontade do Estado não é formada pela soma das vontades individuais, mas é resultado de uma vontade autônoma que, de certa forma, transcende a vontade e propósito dos indivíduos. Com o mesmo raciocínio, os interesses realizados pelo Estado podem ser expressos como a síntese dos fins individuais. O povo, o território e o governo, elementos que formam o Estado, são unificados por ele que, por sua vez, se encontra acima das mudanças desses elementos. Não obstante, um numero significativo de tratadistas, como o famoso Kelsen, negam a personalidade jurídica do Estado.

Na compreensão do economista e pensador austríaco Ludwig von Mises,

Para preservar um estado de coisas onde haja proteção do indivíduo contra a ilimitada tirania dos mais fortes e mais hábeis, é necessária uma instituição que reprima a atividade anti-social. A paz – ausência de luta permanente de todos contra todos – só pode ser alcançada pelo estabelecimento de um sistema no qual o poder de recorrer à ação violenta é monopolizado por um aparato social de compulsão e coerção, e a aplicação deste poder em qualquer caso individual é regulada por um conjunto de regras – as leis feitas pelo homem, distintas tanto das leis da natureza como das leis da praxeologia. O que caracteriza um sistema social é a existência desse aparato, comumente chamado de governo. (MISES, 1995, p. 281)

De fato, existem dois mecanismos que alocam recursos diversos e repassam para os consumidores: O mercado e o Estado. No mercado, por se fundamentar em conhecimentos difusos e descentralizados, os recursos produtivos são alocados pelos proprietários e o consumo se origina de interações que partem de impulsos individuais. Do mesmo modo, o Estado aloca e distribui, entretanto, taxa e transfere, assim como regula os custos e benefícios relativos. Nas palavras do marxista Adam Przeworsky, “Há no capitalismo uma tensão permanente entre o mercado e o Estado”. De acordo com Vladimir Lênin;

O Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de submisso de uma classe por outra; é a criação de uma "ordem" que legalize e consolide essa submissão, amortecendo a colisão das classes. Para os políticos da pequena burguesia, ao contrário, a ordem é precisamente a conciliação das classes e não a submissão de uma classe por outra; atenuar a colisão significa conciliar, e não arrancar às classes oprimidas os meios e processos de luta contra os opressores a cuja derrocada elas aspiram. (...) O Estado é o produto e a manisfestação do antagonismo inconciliável das classes. O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classes são inconciliáveis. (LÊNIN, 1983, p. 9)

As funções do Estado são essenciais para o andamento da economia, através delas se regulará ou se sedimentará juridicamente o não intervencionismo. Entre suas funções básicas podemos citar a elaboração de normas gerais e abstratas que regulam a estrutura estatal, as relações do Estado com os indivíduos e as relações dos indivíduos entre si – função legislativa. O Estado também tem a incumbência de aplicar as normas aos casos concretos – função judiciária. Por fim, através da realização de serviços públicos com a intenção de zelar e manter a ordem interna assim como a defesa da soberania nacional e a promoção do bem comum, o Estado realiza a função executiva.

Constitucionalmente, os princípios fundamentais que norteiam e elucidam a liberdade econômica asseguram o desenvolvimento nacional e a justiça social. Assim se expressa o artigo. 160 da Constituição Federal:

“A Ordem Econômica tem por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social, com base nos seguintes princípios”:

“I – Liberdade de iniciativa;
“II – Valorização do trabalho como condição da dignidade humana;
“III – Função social da propriedade;
“IV – Harmonia e solidariedade entre os fatores de produção;
“V – Repressão ao abuso do poder econômico, caracterizado pelo domínio dos mercados, a eliminação da concorrência e o aumento arbitrário dos lucros;
“VI – Expansão das oportunidades de emprego lucrativo”.

O ordenamento jurídico brasileiro utiliza o principio da subsidiariedade que, em tese, é influência da Doutrina Social da Igreja. Do mesmo modo, a liberdade de iniciativa é contemplada, ainda que haja a clara alusão ao papel do Estado enquanto promotor do desenvolvimento. No art. 170 se afirma: “Às empresas privadas compete, preferencialmente, com o estimulo e apoio do Estado, organizar e explorar as atividades econômicas”.

Pautada na legalidade constitucional, a intervenção do Estado é permitida nas seguintes hipóteses:

I. Reprimir o “abuso do poder econômico caracterizado pelo domínio dos mercados, a eliminação da concorrência e o aumento arbitrário dos lucros”. Essa disposição no n.V do art. 160, regulamentado pela lei n.4137, de 10.9.1962, tem como objetivo amparar e resguardar a concorrência no interesse da comunidade nacional. Para tanto, a norma sobredita criou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica que, entre suas funções estão; a de evitar a concorrência desleal, verificar se não há abuso na concorrência, sendo o CADE uma agência reguladora tida como uma autarquia especial.

II. O Estado ainda pode desenvolver algum setor da economia nacional quando no regime de competição e de liberdade de iniciativa não há capacidade para tal. Esse caráter se encontra disposto no § 1º do art. 170.

III. Quando alguma industria ou atividade é de fundamental importância para a segurança nacional e o bem-estar social, não apenas a intervenção é legal como o monopólio estatal tem sustentabilidade constitucional (art. 163.).

Não obstante, é de extrema importância frisar que todas as intervenções devem respeitar os “direitos e garantias individuais” (art. 163.).

A regulação econômica emana principalmente de duas fontes diferentes. A primeira fonte são aquelas pessoas que demandam a aprovação de leis para solucionar o que eles identificam como problemas no sistema econômico. As mesmas estão motivadas por razões ideológicas.

A segunda fonte de regulação econômica são aqueles indivíduos, ou sociedades, que buscam a regulação para seu próprio interesse. A maioria dos que integram esse grupo são empresários, comerciantes e profissionais. Eles procuram a regulação para que esta, ao limitar o mercado e a concorrência, se reverta em maiores receitas.

Os grupos reformistas, aqueles que rechaçam ou desconfiam dos mecanismos de mercado, e os empresários que, por sua vez, buscam eliminar a concorrência, tem uma considerável oportunidade de lograr seus objetivos juntos.

Uma economia de mercado requer uma forte mas não absoluta proteção legal contra o controle governamental. Numa economia de mercado existem três maneiras pelas quais o Estado pode apoderar-se da propriedade privada ou dos direitos de propriedade das pessoas sem seu consentimento; expropriação, regulação e tributação.

A faculdade de tributação deve ser aplicada de forma eqüitativa e de maneira tal que não esteja voltada a confiscar a propriedade, inibir a criatividade ou impor controles que, de outro modo, possam implicar numa proibição sobre os negócios.

Até mesmo os investidores reconhecem a faculdade de expropriação do governo, uma capacidade inerente. A aceitação desse princípio se faz mediante a condição de que o Estado aplique seus poderes em concordância com as limitações necessárias para um sadio progresso e desenvolvimento econômico.

O governo também invoca seu poder regulatório na economia para obter controles sobre bens ou empresas privadas. O objetivo do governo é proteger o público de certos prejuízos e não de proibir a produção, a competência ou a criatividade dos indivíduos. Os controles governamentais devem coibir as atividades privadas que verdadeiramente violam e restringem os direitos dos demais.

Para proteger a liberdade e maximizar as oportunidades o governo deve estar severamente limitado em seus poderes expropriatórios, regulatórios e tributários.

4. Conclusão

A busca por liberdade é uma condição natural do ser humano. Todos os homens e mulheres, de uma forma ou de outra, aspiram e sonham viver num mundo onde haja igualdade, dignidade e liberdade. Claro que a forma e o método mudam, se transformam, mas a contínua veneração do Mundo Ocidental a esse espírito, esse ethos civilizacional, nascido do âmago do legado judaico-cristão, que norteia e fundamenta a construção de países, governos e Estados, permanece.

Infelizmente a liberdade é tolhida, perseguida, ultrajada de maneira silenciosa. Hoje milhares de habitantes vivem sob o peso da opressão, sufocados por estruturas totalitárias, instituições corruptas, Estados fortemente centralizados que estimulam a política de terror, o intervencionismo militar etc.

Liberais e Marxistas, antípodas ideológicas, mesmo com princípios distintos fundamentam seus teorias no anseio por liberdade. Para os primeiros ela só existe quando há respeito as liberdades individuais, onde a criatividade impulsiona o progresso, onde qualquer ser humano tem livres condições de crescimento econômico, acreditam num Estado defensor da ordem e protetor da propriedade privada. Já os segundos acham que as liberdades individuais devem ser inicialmente mortificadas em nome da igualdade entre os homens. A “Ditadura do Proletariado”, por meio do fortalecimento do Estado e manutenção de uma política estatizante, distribuiria riqueza e justiça, uma nova justiça, já que marxistas enxergam o Direito como criação burguesa, artifício de opressão.

O Direito é peça fundamental nessa discussão, através dele homens e mulheres tem garantias, se sentem seguros e certos que qualquer maculação das suas propriedades, do seu espaço, da sua imagem etc, será julgada. Ademais, é por meio do Direito que o Estado reconhece seus limites, suas fronteiras, para que não haja restrição dos direitos individuais, totalitarismo e opressão.

O Direito consolida a justiça, consolida a Liberdade, é através dele que homens e mulheres se sentem cidadãos e, principalmente, é por meio do Direito, que só chegou até nós como hoje se encontra por ser fruto da maturação da Civilização Ocidental, que o ser humano se reconhece Livre, o Direito legitima, ou não – quando ferramenta de regimes sufocantes e ditatoriais – a liberdade intrínseca ao indivíduo, nascida com o homem, atestado da sua existência enquanto homem.

Referências bibliográficas

BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil, 1988.

DOBB, Maurice Herbert. A evolução do capitalismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do Estado. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 1985. 268 p.

FARIA, Anacleto de Oliveira. Instituições de direito. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1980. 509 p.

HAYEK, F.A., O Caminho da Servidão. 5. ed. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1990.

HUNT, E. K.; SHERMAN, Howard J. História do pensamento econômico. 16. ed. Petropolis, RJ: Vozes, 1998. 218 p.

LENIN, Vladimir Ilitch. O estado e a revolução: o que ensina o marxismo sobre o estado e o papel do proletariado na revolução. São Paulo: Hucitec, 1983. 153 p.

MADISON, J.; JAY, J.; HAMILTON, Alexander. O Federalista. Rio de Janeiro: Editora Nacional de Direito, 1959. 538 p.

MISES, Ludwig Von. Ação Humana: Um tratado de Economia. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1995. 890 p.

NOVAIS, Jorge Reis. Contributo para uma Teoria do Estado de Direito. São Paulo: Almedina, 2006. 231 p.

PRZWORSKY, Adam. Estado e economia no Capitalismo. Rio de Janeiro: Relume- Dumará, 1995
483 p.

REALE, Miguel. Filosofia do direito. 4. ed. rev. e aum. São Paulo: Saraiva, 1965. 645 p.

RIMA, I. H. História do pensamento econômico. Sao Paulo: Atlas, 1987. 597 p.

ROSSETTI, José Paschoal. Politica e programação econômicas. Sao Paulo: Atlas, 1975. 2 v

SIEGAN, Bernard H. Reforma Constitucional: Esbozando una constitución para una república que emerge a la libertad. Chicago: Univ. of Chicago Press, 1993. 170 p.

SIEGAN, Bernard H. Las Libertades Económicas y la Constitución. Chicago: Univ. of Chicago Press, 1980.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Estado, Governo e Liberdade

por Pedro Ravazzano, Patrick Rohrer e Thiago Benevides

1. Introdução

O economista, enquanto cientista econômico, visa estudar, compreender, o comportamento dos indivíduos consumidores, instituições, fenômenos econômicos e intemperanças do mercado. Desse modo, lançando mão de um arcabouço teórico, analisa as diversas formas de entender o processo econômico através de construções doutrinárias, linhas de pensamento e fundamentações ideológicas. O cientista econômico ao estudar, por exemplo, a relevância do Estado e da Liberdade no progresso da economia, logo na satisfação dos homens, se sustenta em outras ciências, teorias, escolas etc. O Direito - constitucional, econômico e, até mesmo, a visão jusnaturalista - é parte essencial da formação dos conhecimentos necessários para uma justa compreensão das estruturas da economia.

A liberdade sempre foi buscada e concorrida por homens e mulheres que se engajavam e lutavam pela prosperidade e progresso da sociedade. A economia, sustentada em alicerces de vanguarda, desenvolveu uma diversidade de correntes que buscavam compreender as estruturas econômicas envoltas no ideal libertário. Não obstante, cada escola – adotando metodologias discrepantes – empreendeu maneiras distintas de compreender a busca pela liberdade humana.

Destarte, o Direito surge como peça fundamental na construção basilar, na definição da forma dessa miscelânea teórica a respeito dos princípios econômicos.

Sob o prisma jurídico, essa noção de liberdade econômica se traduz no entendimento da necessidade, ou não, da intervenção do Estado na ordem econômica. A construção de um arcabouço juridicamente consolidado lançará uma luz sobre as funções da máquina estatal, sustentada em definições do direito constitucional, tributário, econômico, trabalhista etc.

A liberdade econômica se encontra em sintonia com as liberdades individuais, os direitos individuais. Vale frisar que essa idéia de liberdade perpassa obrigatoriamente pelo exame do conceito filosófico de liberdade, conceito esse muito controvertido e envolvido em diversas discussões. Entretanto, mesmo no sistema individualista, excluindo os anarco-capitalistas, cabe ao Estado a definição e a fixação de limites fundamentais e a manutenção da ordem por meio da defesa da propriedade privada e do livre mercado.

2. Retrospectiva Histórica da Liberdade Econômica

Os princípios de “liberdade econômica”, compreendidos como o não intervencionismo do Estado – ou seja, a não regulação, se desenvolveram a partir da maturação do pensamento econômico no período clássico, em oposição ao mercantilismo estatista. Vale frisar que até para os mais radicais individualistas, com algumas exceções, o Estado deve manter o monopólio da justiça e do poder policial com o propósito de zelar a propriedade e resguardar a liberdade individual sustentada no individualismo metodológico. A síntese feita por Charles Beudant expõe com maestria as concepções do liberalismo individualista; “O homem é fim, não meio; mestre de seus pensamentos e seus atos; faz as regras de conduta”. Desse modo, como conseqüência imediata dessa fundamentação metodológica, se consolidou a idéia de que o Estado é um mal necessário. Embora admitida a sua existência, é de crucial relevância a defesa inconteste do livre mercado e da livre iniciativa, não regulação, com a diminuta função estatal limitada ao poder jurídico e policial que sustentam a ordem pública ratificando, por sua vez, uma sadia radicalidade na defesa das liberdades individuais que corroboram o mesmo principio de liberdade na economia.

Sustentados nessa concepção, os economistas da escola clássica, smithianos e ricardianos, perceberam que a ferramenta que melhor estimulava e desenvolvia o interesse coletivo era a iniciativa individual, protegida pela ação negativa do poder Estatal.

Wilhelm von Humbold, por meio do seu Ensaio sobre os limites de ação do Estado, estabeleceu a doutrina da dimensão negativa do Estado. Conforme prof. Jorge Novais;
Humboldt considera para o Estado duas possibilidades de orientação: ‘ou uma dimensão positiva expressa na procura da felicidade e do bem geral material e moral da nação ou uma dimensão negativa limitada a evitar o mal proveniente da natureza ou provocado pelos homens’. Perante estas duas possibilidades, que a análise revelará dicotômicas, em termos de alternativa procurar o bem estar positivo ou garantir a segurança, Humboldt rejeita globalmente a atividade positiva do Estado (NOVAIS, op. cit., p. 64).


Nesse período, séculos XVIII e XIX, se estruturou o pensamento de que o Estado não poderia se intrometer nas relações comerciais entre os cidadãos e deveria estimular o aumento da riqueza material da nação a partir da livre concorrência e vivência do laissez-faire.

O laissez-faire, tão citado correntemente pelos defensores e críticos do liberalismo, significa a permissão dos “indivíduos escolherem de que maneira desejam cooperar na divisão social do trabalho (...) que os consumidores determinem o que os empresários devem produzir” (MISES, 1995, p. 735) O planejamento seria o Governo atuando em nome da sociedade, fazendo escolhas, determinando o consumo e, como conseqüência, a imposição de suas definições e ações através da estrutura estatal que, quando norteada por políticas totalitárias e restritivas, gera coerção e compulsão.

Voltando a Mises,
O termo liberdade refere-se à situação na qual um indivíduo tem a possibilidade de escolher entre modos de ação alternativos. O homem é livre na medida em que lhe seja permitido escolher os seus fins e os meios a empregar para atingi-los. A liberdade de um homem é rigidamente pelas leis da natureza, bem como pelas leis da praxeologia. (MISES, 1995, p. 389)


O pensamento de J. Locke, por sua vez, também foi de crucial importância para a formação da teoria liberal. O cerne de sua idéias é o bem-estar individual. Para ele o estado essencial do homem é a liberdade. Essa, entretanto, é limitada pelas leis naturais. Locke considerava a sujeição de um homem a outro como anti-natural, para o pensador inglês a liberdade e igualdade eram conseqüências imediatas da existência humana. Segundo Locke, uma sociedade organizada se baseia numa comunidade que define os poderes acordados ao governo, limitando sua soberania sobre os indivíduos.

A Revolução Americana, o nascimento dos Estados Unidos da América, foram eventos históricos que também marcaram a consolidação da descentralização do poder estatal. A essência do pensamento constitucional norte-americano se fundamenta no fato de que as forças de produção, conservação e a criatividade radicam principalmente nos mercados comerciais e intelectuais e não no governo. James Madison, Pai Fundador dos EUA, arauto da Constituição Americana, disse:
A acumulação de todos os poderes, legislativos, executivos e judiciais, nas mesmas mãos, sejam estas de um, de poucos ou de muitos, hereditárias, auto-nomeadas ou eletivas, pode se dizer com exatidão que constitui a própria definição da tirania (O Federalista, Rio de Janeiro: Editora Nacional de Direito, 1959, p. 196).


Abordando a compreensão da corrente socialista sobre a liberdade econômica, o direito e o Estado, percebemos como o intervencionismo estatal se faz presente em todos os domínios da atividade humana, com ênfase na economia. Essa concepção parte da premissa de que o protecionismo do Estado, o seu alto grau de intromissão nos diversos setores da sociedade, assegura a igualdade entre os homens. Vale frisar que não necessariamente se refere à igualdade jurídica, mas sim à igualdade econômica e material. A concretização dessa igualdade seria conquistada através do sacrifício dos direitos fundamentais do homem que, na concepção marxista ortodoxa, são originados no modo de produção burguês. Esse modo de produção representa a totalidade social, as superestruturas que sustentam o sistema capitalista; estrutura econômica, estrutura jurídico-política (leis, Estado, normas etc), estrutura ideológica (idéias, costumes, religião etc). Desenvolvendo a sua teoria Marx compreendeu que a estrutura jurídico-política complexa cumpria a função de dominação da classe burguesa.
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Continua posteriormente...

Leia "Tribalismo Indígena..." e entenda o que se passa com os índios




Há 30 anos, o Brasil tomava conhecimento da existência de uma corrente de missionários contrária à catequização e à civilização dos índios. Segundo sua doutrina, os silvícolas devem manter seu primitivismo, tipo humano ideal do III milênio.

Tal revelação foi feita por Plínio Corrêa de Oliveira em sua obra Tribalismo Indígena (1977) – matéria da Parte I da presente edição – que contou com sete edições, perfazendo 76 mil exemplares de tiragem.

Hoje, uma avalanche demarcatória de terras indígenas atropela o direito de propriedade através de decretos e portarias, aliás, sem nenhum amparo constitucional. O governo Lula anunciou mais 129 áreas a ser delimitadas até 2010.

Nelson Ramos Barretto e Paulo Henrique Chaves, autores da Parte II, visitaram a reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, e apontaram a ameaça à soberania nacional naquela região de fronteira.

A FUNAI, num afã demarcatório acaba de delimitar no Mato Grosso do Sul – região fronteiriça com o Paraguai – novas reservas que podem alcançar 12 milhões de hectares de terras férteis e produtivas.

Tais medidas vêm despertando reações indignadas por todo o Brasil. A questão indígena acrescida à Reforma Agrária, à Revolução Quilombola e às questões ambientais forma um quadro impressionante de coletivização das terras brasileiras.

Este livro entra no âmago da questão indígena!

Vejam no mapa o tamanho da encrenca!


Quem quer essa confusão toda para o Brasil?

Aliás, já estamos nela!

Terras indígenas = amarelo
Assentamentos = vermelho
Acampamentos da Reforma Agrária = verdes
Terras de quilombolas = azuis
Não se encontram no mapa as áreas de reservas ambientais...

Fonte do mapa: IBGE, MAPA, Conab, ABRAF, NCRA, MMA. CNA

O Conselho Indigenista Missionário, a CNBB, o governo federal, governos estrangeiros e ONGs querem fragmentar e coletivizar as terras do País. Para quê?

SOLICITE SEU EXEMPLAR AGORA. Editora Artpress, 255 páginas, ilustrado:
http://www.artpress.com.br/ De: R$ 28,70 por: R$ 25,00

(fonte: Blog GPS do Agronegócio)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Como a Fundação Ford criou os estudos da mulher

Segue abaixo uma compilação feita por mim do artigo "Como a Fundação Ford criou os Estudos da Mulher" de Kimberly Schuld. Esse artigo é bastante esclarecedor, pois mostra como os grandes projetos da esquerda são financiados por grandes corporações, as mesmas que eles dizem atacar e combater em nome da queda do "capitalismo". A grande maioria desses projetos e fóruns de discussão da esquerda tem um gordo financiamento de empresas como a Ford e Fundação Rockefeller. Confesso que para mim os jargões das feministas são muito divertidos e quase todos os trabalhos levam títulos patéticos e mentirosos como "“A Exclusão das Mulheres da Prática das Ciências: Uma Manifestação Sutil da Dominação Masculina”, de Michèle Ferrand. Como uma pessoa pode não se divertir com uma coisa dessas, não é mesmo? Eu teria de ser muitíssimo infeliz. Entender como as coisas chegaram a esse ponto é uma boa maneira de nunca levar esses estudos a sério. Para aqueles que quiserem o artigo traduzido completo, basta deixar o e-mail no comentário que eu envio - infelizmente não poderei deixar o link porque ele foi publicado no MSM há algum tempo, e hoje não consta mais no site (espero que eles coloquem todos os textos antigos o quanto antes).

Como a Fundação Ford criou os estudos da mulher

por Kimberly Schuld em 08 de fevereiro de 2006

[Artigo originalmente publicado no FrontPage Magazine]

O apoio financeiro da Fundação Ford a grupos e causas esquerdistas está bem documentado no site FrontPage Magazine e em outros como o Capital Research Center. Uma análise de Althea K. Nagai, Robert Lerner e Stanley Rothman relata que durante 1986 e 1987, a FF concedeu 262 financiamentos a projetos da esquerda, resultando em uma razão de $28 para $1 entre projetos da esquerda e projetos conservadores.

Susan M. Hartmann, professora de estudos da mulher e autora feminista, considera a FF como sendo uma força substancial que criou o movimento feminista. Na verdade, o apoio da FF a estudos da mulher e causas feministas é tão extenso que não pode ser resumido em um artigo dessa extensão. É seguro dizer que, sem a FF, o feminismo não teria tido sucesso em ganhar um apoio tão grande nas universidades e, por extensão, na política.

A FF não apenas apóia a esquerda e derrama dinheiro para os seus seguidores. Ela tem se engajado ativamente desde os anos de 1960 em criar inteiramente novas áreas de pesquisa e ativismo político. Quando perguntada como ela media o sucesso dos apoios, a presidente da FF, Susan Berresford, respondeu que há três medidas utilizadas por ela e “a principal é quando a FF auxilia pessoas a construir um campo inteiro do conhecimento – demografia no passado, estudos da mulher mais recentemente”.

Em 1971, um grupo de feministas abordou o então presidente da FF, McGeorge Bundy, pedindo que ele se envolvesse no movimento feminista da mesma maneira que havia se comprometido no movimento de direitos civis, de modo totalmente fictício. O resultado dessas discussões foi um projeto completo para financiar um pequeno número de organizações de advocacia para mulher, e também para criar um campo inteiramente novo dentro da academia conhecido com “Estudos da Mulher”. Em 1972, a FF anunciou o primeiro $1 milhão em um programa para “dissertação de pesquisa sobre o papel da mulher na sociedade e estudos da mulher em sentido amplo”. Um artigo de Heather MacDonald noticiou que esses programas receberam $36 milhões entre 1972-1992 da FF e de outras.

Nos anos de 1980, sob a direção do presidente Franklin Thomas, o foco de gênero foi colocado em todos os apoios e os analistas dos programas foram instruídos a examinar cada uma das propostas a partir de sua componente de gênero. Isso guiou o financiamento de estudos da mulher e outros empreendimentos feministas, partindo de uma categoria de apoio específica da mulher, para todas outras categorias de auxílio. Em 1985, a FF estabeleceu o Women’s Program Forum, um consórcio de doadores e executivos da FF com a tarefa de acompanhar de perto as decisões feitas mundialmente em benefício dos assuntos da mulher.

A criação da Campus Diversity Initiative em 1990 colocou a FF na direção da mudança curricular. Os financiamentos dados a essa categoria são direcionados a programas e departamentos sexualmente específicos em adição a outros grupos identificados como vítimas. Obviamente, “sexualmente específico” realmente significa estudos da mulher – nenhum executivo da FF jamais consideraria que estudantes homens brancos necessitem de algo além de “treinamento da sensibilidade”. A FF busca ativamente transformar os currículos para impor a ideologia feminista sobre todas as áreas de estudo, incluindo as hard sciences. Não somente a FF criou os estudos Afro-Americanos (inicialmente Black studies) e estudos da mulher, mas também liderou um movimento seguido por todas as fundações denominado “transformação curricular”. Este movimento busca injetar raça, gênero e consciência sexual em toda disciplina acadêmica e departamento. Ele deu origem a cursos que, por exemplo, estudaram a misoginia na Nona Sinfonia de Beethoven e os modos femininos de analisar o metabolismo celular. O conceito é de que toda disciplina, toda função administrativa e toda pedagogia foi projetada por um patriarcado opressivo e deve ser reformada.

É complicado o rastreamento dos financiamentos de estudos da mulher porque os cheques são direcionados às universidades e não aos programas individuais. A FF é a maior doadora da National Women’s Studies Association sediada na Universidade de Maryland; A Universidade de Rutgers é donatária freqüente do dinheiro da FF para estudos da mulher; O Smith College recebeu $259.000 em 2003 para preservação do arquivo dos trabalhos reunidos de Gloria Steinem e para um projeto de história oral sobre feminismo e posterior desenvolvimento de uma coleção sobre o assunto; Outras favoritas em estudos da mulher de 2003 foram a Universidade do Arizona, de Michigan, de Wisconsin em Madison, de Minnesota, Wellesley, Radcliffe (que possui três centros de estudos da mulher) e Harvard. Mais recentemente, a FF foi instrumental em estabelecer um programa desse tipo em universidades historicamente negras, Spelman e Edgar Mevers guiando o caminho. Combinar estudos da mulher com estudos étnicos é uma tentativa de solidificar sua posição no âmbito da diversidade. Em 1995, a FF doou $250.000 à Universidade de Maryland para um seminário de três anos abordando “Os significados e representações da mulher negra e o trabalho” que foi co-guiado pelo diretor do programa de estudos da mulher e diretor do programa de estudos Afro-Americanos.

Por que se preocupar?

Estudos da mulher e seus apoiadores são uma clara e presente ameaça à liberdade acadêmica. Em um artigo de 1992 para The New Republic, a autora Christina Hoff Sommers relatou o que realmente acontece quando a National Women’s Studies Association se reúne. Ela escreve:

“Chiliques e terapia coletiva são mais a regra do que exceção no feminismo acadêmico. No ano passado, em um encontro de diretores dos programas de estudos da mulher, todos se deram as mãos para formar um ‘círculo de cura’. Eles também assumem a pose de árvores experimentando enraizamento e tranqüilidade. Testemunhos de vítimas e rituais de cura New Age rotineiramente tumultuam as leituras de artigos acadêmicos nas conferências da NWSA. De aproximadamente 100 workshops e palestras nos encontros em Austin, contei não mais de 16 que podem muito generosamente serem chamados de eruditos”.

Cursos de estudos da mulher são projetados para compelir estudantes a adquirir novas revelações e colocá-las a serviço da política. Daphne Patai, outrora professora de assuntos da mulher, enfatizou a evidência convincente de que a batalha para retomar nossas universidades deve ser empenhada e vencida. Ela escreve em seu livro Heterophobia:

“minhas próprias observações de estudantes em aulas de estudos da mulher levaram-me a acreditar que anos de exposição às táticas de amedrontamento promovidas pelas feministas tiveram sucesso em imbuir muitas mulheres jovens do pressentimento de estar sob constante ameaça de homens predadores”.

A FF tem assim triturado não somente a Academia, mas vidas de mulheres jovens vítimas da esperteza de professoras feministas. Por causa de seus recursos imensos, não podemos contar com sua reforma ou mudanças nas direções políticas em resposta à opinião pública americana. O foco de luz deve ser apontado para ela de modo que todos os contribuintes que financiam as universidades públicas e pais que pagam instrução possam tomar decisões informados sobre a cultura a que eles querem que seus estudantes se submetam. O capitalismo que erigiu a fortuna da Ford e agora é tão desprezado por ela deveria ser utilizado para afastá-la de nossas escolas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Natal e o Relativismo

Natal de 2032; a decoração natalina invade as ruas, os shoppings e as casas; renas, ursos, papai noel, duendes, gnomos, neve, pinheiros, bolas e vermelho, muito vermelho. As famílias se reúnem no dia 24, fazem a ceia, comem, bebem, se divertem, trocam presentes. As crianças ficam felizes porque ganham os brinquedos que tanto queriam, os pais já gozam da tranqüilidade do final do ano.

D. Maricota, por um acidente de percurso, encontra no fundo do armário a imagem de um menino na manjedoura, ela então pensa: “Esse deve ser o tal Jesus!”. Pronto, esse é o Natal do futuro!

Esse construção hipotética não é tão impossível quanto se pensa. Hoje vivemos numa sociedade onde reina o relativismo religioso, moral, ético, cultural. A perda de tradição destrói de forma avassaladora os legados do Ocidente, e aqui me refiro as tradições familiares, religiosas e culturais. Reina de forma pujante o simplismo, o empobrecimento, o orientalismo artificial. O ethos civilizacional cristão, base fundamental de toda uma sociedade, é substituído por um espírito Nova Era, a construção de uma Nova Ordem Mundial. Ao mesmo tempo em que as heranças cristãs são destruídas, se fortalece a supervalorização caricata de “tradições” Orientais, coloco propositalmente entre aspas porque essas ditas tradições são falsas criações oriundas, justamente, do relativismo religioso ocidental; sufismo e budismo, nas formas popularmente conhecidas, feng-shui, até o espiritismo – o hinduísmo tradicional rechaça a idéia reencarnacionista do kardecismo.

Essa decadência tradicional do Ocidente abre espaço para a ascensão de um caldeirão de tendências religiosas onde reina o espírito modernista – não confundir com a sadia modernidade -, o esvaecimento e a perda de identidade, uma falta de fidelidade com a Verdade. O relativismo apenas permite a consolidação psicológica, social, desse oba-oba generalizado. As pessoas não mais se assustam, não mais se sentem estimuladas a buscar a Verdade. Essa falta de honestidade, interna (consigo mesmo) e externa (com o mundo no qual se insere), legitima atitudes, no mínimo, engraçadas. Quem não riria ao ver a Rainha da Inglaterra, soberana de um país construído sobre um sólido fundamento cristão e, para melhorar, chefe da Igreja Anglicana, omitir o nome de Cristo no seu discurso de Natal em "respeito" aos muçulmanos? Que falso respeito é esse que tolhe o próprio respeito ao povo inglês, a Inglaterra, ao Ocidente? Esse relativismo que assola essa banda do mundo já chegou nos países muçulmanos, por lá causa os mesmos estragos, é só ver a triste realidade na Turquia, Marrocos e Jordânia.

Não se trata de um choque de Civilizações, mas um vírus que invade os mundos, destrói as mentes, os costumes, a religião, a cultura, criando um espírito multicultural, híbrido, relativista, onde as positivas diferenças entre os homens se reduzem a um simplismo assustador.

Pedro Ravazzano

domingo, 30 de novembro de 2008

Católicos reclusos

Às 6 horas da manhã, uma sirene toca na chácara que abriga a Comunidade Luz da Vida, nos arredores de Goiânia. Os 37 moradores deixam suas casas e caminham para a capela. Nas duas horas seguintes, eles assistem à missa e rezam as 220 orações do rosário. A seguir, começa uma pesada maratona de missões assistenciais e de evangelização. Um grupo trata de dependentes químicos que buscam fugir do vício trabalhando no campo. Outra equipe se dedica a acompanhar mães que foram dissuadidas de abortar seus filhos. A principal tarefa levada a cabo na chácara é a produção de programas de rádio e TV com conteúdo católico. O Futebol Show, na Luz da Vida FM, combina a narração de jogos com mensagens religiosas. As atividades só terminam às 10 e meia da noite, quando todos se recolhem. Na Comunidade Luz da Vida vivem homens e mulheres que decidiram abandonar o burburinho da cidade para se dedicar integralmente à oração, ao trabalho missionário e à vida comunitária de acordo com a doutrina católica. Na chácara eles se pautam pelos princípios monásticos da pobreza, obediência, castidade e vida fraterna. Não recebem salário. Vivem do que chamam de "providência divina" – ou, em linguagem laica, doações. Até mesmo as roupas que vestem são doadas.

A Luz da Vida é uma das 450 comunidades de católicos criadas em vários estados nos últimos dez anos. Chamadas de Novas Comunidades, elas normalmente nascem de grupos de oração da Renovação Carismática Católica, o movimento que reúne elementos culturais modernos à tradição religiosa para atrair fiéis, principalmente os jovens. Estima-se que haja 12 milhões de católicos carismáticos no Brasil, que se encontram regularmente em 23 000 grupos de oração e celebram missas festivas embaladas por ritmos pop. Calcula-se que 10 000 católicos carismáticos morem nas Novas Comunidades. A pioneira delas é a Canção Nova, em Cachoeira Paulista, a 195 quilômetros de São Paulo, fundada em 1978, que reúne 1 200 fiéis. Há um mês, o papa Bento XVI concedeu o reconhecimento oficial à Canção Nova. Uma delegação da comunidade foi recebida pelo pontífice no Vaticano. No ano passado, a Comunidade Shalom, de Fortaleza, obteve a mesma distinção.

Uma vida dedicada à religião pode ter uma aura de romantismo, mas não é nada fácil. Na Comunidade Luz da Vida, apenas um de cada dez internos permanece por mais de cinco anos. As regras internas incluem submeter todas as decisões pessoais à avaliação coletiva. Um exemplo dessa interferência está nos relacionamentos amorosos. As regras variam entre as comunidades, mas, em geral, nos três primeiros anos é proibido namorar. Após esse período, dois internos que desejem iniciar um relacionamento amoroso precisam submeter sua intenção à apreciação do conselho da comunidade, formado por membros graduados. Caso seja autorizado, o namoro será casto, já que vale a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. Rafael Leal e Lílian de Castro, diretor de jornalismo e apresentadora da TV Canção Nova, esperaram quatro meses entre o pedido formal, feito por carta, e a aprovação pelo conselho. Mas, logo após a autorização para o namoro, Rafael foi transferido para atividade missionária em Israel, onde passou um ano e meio. Só depois desse período o casal pôde, enfim, ficar junto. Eles dizem não guardar mágoa pela separação imposta. "Aqui somos consagrados a Deus. Tudo o que fazemos, todo o tempo, é para Ele", diz Lílian.

Quem busca as comunidades católicas costuma se declarar farto daquilo que vê como valores efêmeros – os mais citados são a valorização da aparência e o consumismo. Antes de entrar para a Canção Nova e se tornar superintendente de eventos da entidade, Róbson Alves, de 32 anos, era líder de torcida organizada no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me preencher nas drogas, no sexo, nas baladas e na bebida. Meu time era o meu deus. Mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", ele diz. O maranhense Luciano Parga Lobo, de 28 anos, dono de uma rede de lojas e distribuidoras de material de construção e de uma fábrica de tintas, também viveu uma crise de valores. "Lá fora eu tinha apartamento à beira-mar, casa de praia, lancha, jet ski e um carro de 200 000 reais", conta. Hoje, Lobo vive na Canção Nova e se alterna com os outros moradores em tarefas como limpeza, poda da grama, plantio da horta e manutenção do chiqueiro e do galinheiro. "Eu tinha tudo e não tinha nada. A cada dia, naquela vida, sentia que ia perdendo os meus valores numa existência desregrada", ele diz.

As normas para ingressar nas comunidades católicas são rígidas e exigem renúncias. Em primeiro lugar, é preciso interromper os estudos, o trabalho e os namoros. A partir do segundo ano, o contato com a família é restrito. Nessa fase de adaptação, os chamados noviços só deixam a comunidade em alguns dias da semana, para ir à missa e ao grupo de oração. Apenas nessas ocasiões eles se encontram com os familiares. O recebimento de telefonemas é limitado a um a cada quinze dias. É permitido telefonar uma vez por mês. A opção por esse tipo de vida, que simula a dos monges reclusos, nem sempre é aceita pela família e pelos amigos dos que ingressam nas comunidades. Em 1998, aos 18 anos, a goiana Wanessa Lôbo decidiu abandonar o curso de administração de empresas e mudar para a Luz da Vida. "Minha mãe foi falar até com o bispo para que me tirassem daqui", diz ela. Para o padre Luiz Augusto Ferreira, co-fundador da Luz da Vida, o espanto com que muitas famílias vêem a opção pela vida nas comunidades católicas reflete os valores da sociedade atual. "Vivemos num tempo em que, se é para tentar a vida ilegalmente nos Estados Unidos, os pais arrumam a passagem. Se o filho quer ir para Deus, eles se escandalizam", ele pondera.

Pode parecer estranho que as Novas Comunidades floresçam no Brasil depois de duas décadas de queda acelerada no número de fiéis católicos. A explicação para isso parece estar num fenômeno maior: a atual corrente de busca pela espiritualidade. Num mundo cada vez mais complexo e repleto de desafios, e no qual a família tradicional se acha em crise, mais e mais gente encontra conforto no âmbito do transcendental. Os livros e palestras de auto-ajuda espiritual se multiplicam em velocidade espantosa. Não por acaso, Paulo Coelho se tornou o escritor mais lido do mundo com sua sabedoria de porta de igreja. "No caso das comunidades católicas, a sensação de falta de vínculos e de apoio afetivo é preenchida por essa proposta de vida fraterna", diz a socióloga Cecília Mariz, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O crescimento das comunidades é também resultado da reação da Igreja Católica diante da perda acelerada de fiéis para as igrejas evangélicas. Os sinais visíveis dessa reação estão nas missas campais para multidões, nos megatemplos católicos construídos nas últimas décadas e até nos adesivos com a frase "Sou feliz porque sou católico". A Renovação Carismática, que lidera esse movimento, recuperou também elementos do catolicismo tradicional, como a reza do rosário. Também passou a disputar fiéis com os evangélicos ao enfatizar as curas espirituais e falar com mais liberdade em milagres, algo que caíra em desuso desde o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Outras práticas populares, como a bênção da água, de velas e até de objetos pessoais – as chaves da casa e do carro, por exemplo –, foram resgatadas. Tudo isso reveste a Igreja de uma nova imagem, distante daquela que vigorou entre os anos 60 e 80, impregnada do ideário esquerdista. Diz a socióloga Brenda Carranza, da PUC de Campinas, especialista em religiões: "Nos anos 80, participar da Igreja era estar engajado em obras sociais. Hoje, é ir com mais freqüência à missa, participar de vigílias e grupos de oração. Naquela época, o padre era visto como agente de transformação social. Agora, ele é um agente de transformação pessoal e espiritual". É essa transformação que move o rebanho das novas comunidades católicas.

EM NOME DA FAMÍLIA

Em 1998, o administrador de empresas Ângelo Heitor Longhi, 34 anos, e sua esposa, Ana Paula, se mudaram para a Comunidade Oásis, no Rio Grande do Sul. Lá nasceram os três filhos do casal. Longhi acha que atualmente a família é minada por valores contrários aos do Evangelho e que a vida comunitária facilita a vivência dos princípios cristãos, como a partilha, o amor ao próximo, o perdão e a fidelidade. "Em que lugar do mundo eu teria um ambiente mais propício a viver um ideal da família cristã?", ele questiona.

OPÇÃO PELO CELIBATO

O paulista de Aparecida João Carlos do Nascimento, 25 anos, está há seis na Comunidade Shalom, em Fortaleza. Embora não pretenda ser padre, ele fez a opção pelo celibato — e, portanto, pela castidade. Seu objetivo é dedicar-se inteiramente à religião. "Descobri que Deus quer isso de mim. O celibato não é uma prisão nem um peso. Afinal, a gente não é homem apenas no contexto de um relacionamento com uma mulher", diz ele.

ADEUS, NOIVO E EMPREGO

Há cinco anos, a fonoaudióloga Weslaine Cardoso, de Goiás, tinha tudo o que uma jovem pode desejar. Ganhava até 4 000 reais por mês entre o consultório particular e um emprego público e estava prestes a ficar noiva. Uma semana antes de anunciar o noivado, resolveu abandonar tudo e se mudou para a Comunidade Luz da Vida, em Goiânia. Enfrentou forte oposição da família, mas não se arrepende da mudança. "Lá fora eu tinha muito, mas aqui dentro sinto que tenho muito mais", diz Weslaine, que trabalha como produtora na rádio Luz da Vida.

O SEXO PODE ESPERAR

Quando Rafael Leal e Lílian de Castro, ambos missionários da Canção Nova, em Cachoeira Paulista, resolveram namorar, tiveram de enviar uma carta pedindo a aprovação do conselho da comunidade. Foram quatro meses de espera até receber a aprovação. O relacionamento é casto, de acordo com a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. "É claro que sentimos atração um pelo outro, mas vivemos o amor de Deus sobre todas as coisas", diz Lílian.

FÉ NO LUGAR DAS DROGAS

O fluminense Róbson Alves, 32 anos, é superintendente de eventos no braço paulistano da Canção Nova. Antes, foi líder de torcida organizada de futebol no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me satisfazer com sexo, baladas e bebida, mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", afirma. Hoje, em vez de lotar ônibus com torcedores para ir ao Maracanã, Alves os atrai para as missas e shows católicos que promove. "Eu buscava o amor que me preencheria nas coisas erradas", diz.

MISSÃO D'ALÉM-MAR

Luísa Lima, 32 anos, e Shahir Rahemane, 21, são portugueses e descobriram a Canção Nova graças ao sinal de TV da comunidade, que chega à Europa. Ambos enfrentaram a oposição da família antes de se tornarem missionários no Brasil. "Achavam que eu estava fanatizada", conta Luísa. Rahemane teve de superar barreiras culturais. Filho de pai moçambicano e muçulmano, ele se converteu ao catolicismo. "Meu pai chorou ao se despedir de mim. Disse que preferia que eu fosse muçulmano, mas me abençoava", conta.