quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Ela tinha que ser Presidente [2]

Obama tem que melhorar seus argumentos anti-republicanos. Primeiro ele diz que McCain será um péssimo Presidente porque não sabe quantas casas tem, agora ataca Palin dizendo, pasmem, que o redator do seu discurso na convenção republicana foi o mesmo de Bush. Para melhorar, os Democratas insistem em querer desmoralizar a Vice-Presidente dizendo que sua filha de 17 anos ficou grávida (vai se casar com o namorado, talvez o que entristeça os membros do Partido do Burrinho, acho que preferiam um aborto e a total depressão da garota). Convenhamos, quem são eles para falar de moral? Democratas por acaso tem cacife para acusar alguém de imoralidade? Também descobriram outra sombra negra na história da Governadora do Alasca; ela demitiu o ex-marido da sua irmã, um homem agressivo que se embebedava em plena hora de trabalho. Realmente, isso é atestado de incompetência administrativa.

OBS: Foi até engraçado ver os protestos contra a convenção republicana, estava quase se parecendo com revolta anti-capitalista, aquela com direito a faixa anti-yankees, caricatura de Bush e palavra de ordem. Continuando assim os Democratas não vão dever nada para um PT da vida.

OBS²: Como nem tudo é perfeito, a defesa que Palin faz da Guerra do Iraque é no mínimo assustadora. Só espero que não continue com as políticas econômicas de Bush, eu não, o bolso e a liberdade dos americanos...

Pedro Ravazzano

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Idiotas Úteis

Pedro Ravazzano

Ela tinha que ser Presidente

WASHINGTON, D.C., 29 de agosto de 2008 (LifeSiteNews.com) — Numa virada inesperada que deixou os conservadores sociais exultantes, um elevado representante da campanha presidencial de McCain confirmou que McCain logo anunciará sua escolha da governadora do Alaska, Sarah Palin, para concorrer na chapa de vice.

A governadora Palin, a primeira mulher eleita como governadora do Alaska, é famosa por sua postura forte e pública em questões de vida e família. Palin, que é cristã, é antiga membra de Feministas pela Vida e mãe de cinco filhos.

A escolha da extremamente popular governadora de 44 anos e ex-rainha da beleza para vice veio como uma surpresa para a maioria das pessoas, já que a atenção em recentes dias estava na maior parte concentrada em possibilidades mais proeminentes como Mitt Romney, o governador de Minnesota Tim Pawlenty e o Senador Joseph Lieberman.

Marjorie Dannenfelser, presidente da Lista Susan B. Anthony, um comitê de ação política que ajuda mulheres pró-vida a ganharem eleições para o Congresso, acolheu com entusiasmo a escolha de McCain. "Sarah Palin completa a chapa", disse ela. "Não poderia haver melhor escolha para vice-presidente".

"As eleitoras estão eletrificadas, e Sarah é alguém que está verdadeiramente em harmonia com o real modo como as americanas pensam. Ela é uma mulher de mentalidade reformista que dará a todos os americanos, nascidos e em gestação, a autêntica liderança que eles merecem… Ao escolher a ousadamente pró-vida Sarah Palin como vice, John McCain assumiu sua postura como uma chapa verdadeira e autenticamente pró-vida".

Palin provou suas credenciais pró-vida de um modo muito forte no começo deste ano quando deu a luz seu quinto filho, nascido com a síndrome de Down, apesar de receber pressões dos médicos para abortar. Numa época em que a vasta maioria dos bebês com síndrome de Down são abortados, Palin de forma veemente defendeu sua escolha de trazer ao mundo seu filho Trig.

"Trig é belo e nós já a adoramos", disse Palin no dia seguinte ao nascimento de sua filha. "Sabíamos por meio de testes iniciais que ela enfrentaria desafios especiais, e nos sentimos privilegiados que Deus colocaria debaixo da nossa responsabilidade este presente e nos permitiria experimentar alegrias inexprimíveis quando ela entrou em nossas vidas. Temos fé que todo bebê é criado para um bom propósito e tem o potencial de tornar este mundo um lugar melhor. Fomos verdadeiramente abençoados".

Em novembro de 2007, LifeSiteNews noticiou que Palin havia desaprovado uma decisão do Supremo Tribunal Federal que permitia que meninas menores de idade obtivessem abortos sem o consentimento dos pais. Palin chamou a decisão de "escandalosa" e instruiu o promotor geral Talis Colberg a entrar com uma ação pedindo nova audiência.

Palin se opõe ao "casamento" homossexual, embora ela tenha dito no passado que tem amigos homossexuais e entende as preocupações deles acerca da discriminação. Contudo, ela também disse que apoiaria um referendo para impedir beneficiamentos aos homossexuais. "Creio que o que é importante é honrar a estrutura da família", disse ela em 2006.

Fonte: LifeSiteNews

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Tá bom que é neoconservadora, mas ao menos é pró-vida!

Vamos esperar que ela e McCain se distanciem dos métodos neoconservadores de governo, não aumentem a centralização do poder, nem a regulamentação de setores, e é claro, não iniciem mais uma guerra falida. (Óbvio que entre Republicanos neocons e Democratas socializantes ficamos com os primeiros.)

Pedro Ravazzano

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Reflexão: Pedras portuguesas e Idiotas Úteis

“Enquanto em Dubai se constroe um prédio no formato do Pão de Açúcar, em Salvador se discute as pedras portuguesas da Barra.”
Patrick Laurent, meu colega

Essa frase resume com grande precisão um certo ethos, um espírito que norteia a mentalidade brasileira. Por essas bandas existe um simplismo tamanho, uma tentativa de estagnar o desenvolvimento e empacar o progresso. Na verdade a justiça me obriga a dizer que essa forma de agir não se resume ao nosso país, bom seria se fosse, mas tem sua influência presente em grande parte do globo.

Alguns marxistas não concordam com essa abordagem que fazem de Gramsci, mas de uma forma ou de outra o teórico italiano foi de extrema visão, quase profético, ao perceber a necessidade de uma mudança de método, uma transformação no modo de agir, uma modernização do discurso revolucionário adaptando-se às realidade ocidentais. O foco tornou-se a derrubada dos pilares que sustentavam a nossa civilização; a filosofia grega, o direito romano e a moral cristã. Posteriormente, de forma também brilhante, a Escola de Frankfurt, principalmente com Marcuse, selou uma das uniões mais frutíferas do séc. XX; o casamento de Marx com Freud. Pronto, estava sendimentada as novas estruturas do modo de ser do ocidental médio.

Os movimentos de esquerda adotaram um discurso muito mais conciliatório, não menos comunista, sendo que nas suas fileiras internas ainda se debatia com franqueza os projetos revolucionários e/ou a utilização de certos meios para conquistar certos fins. Desse modo, os partidos socialistas, e agora socializantes, aliaram-se, para não dizer aliciaram, àquelas tendências sociais marginalizadas, aderindo a um discurso reparatório, igualitarista, como fachada para a manobra das massas, fachada para o fortalecimento do Estado através dessas causas; homossexual, femina, negra, minorias étnicas, ambiental etc. Não mais se falava em pegar em armas, levantar barreiras e incendiar pneus de carros nas ruas, agora a palavra de ordem era se aliar ao lobby gayzista, feminista e por aí vai. Só uma observação, se engana, e se engana de verde-e-amarelo, quem acha que esse conluio se resumia aos países subdesenvolvidos, muitíssimo ao contrário, tudo isso começou no Velho Continente, na “vanguarda” da Europa, depois foi para os EUA onde ganhou o apoio de grandes Fundações, como a Ford e Rockfeller, e supercapitalistas como George Soros. Isso mesmo, quem financia o aborto, movimentos sociais rurais, esses como forte apoio da União Européia e Coroa Britânica, ecochatos, Forum Social Mundial (o encontro esquerdista que movimenta todo estudante que sonha com momentos idílicos de pura “consciência coletiva”) etc, são multimilionários “servos do capital”, não bons samaritanos que juntam um dinheirinho suado para financiar causas socias. Ainda vale lembrar das O(N)Gs, que de Não-Governamentais só tem o nome, que servem como braços do governo e de agitadores das massas, com o único fim de desestabilizar a sociedade (e gastar o dinheiro do povo, ou quem você acha que financia esse oba-oba?) abrindo as brechas para a instauração de políticas socializantes.

Como disse meu grande colega Patrick, nós nos preocupamos com pedras portuguesas (quem mandou ideologizar políticas culturais? Até pedra portuguesa fabricada em escala industrial virou causal social) porque somos doutrinados para isso, educados para pensar baixo, acatar e obedecer, não perceber o quanto estamos sendo ludibriados e vivendo um grande engodo, onde todos esses movimentos (ditos) sociais só servem como joguetes, idiotas úteis, para a restrição de liberdade e engrandecimento do Estado. A democracia caminha para virar uma farsa, uma grande mentira onde os atores já foram escolhidos.

Pedro Ravazzano

Batman e Von Mises






Batman salvando a biblioteca de Von Mises!

Pedro Ravazzano

Girard: A Revolução

por Olavo de Carvalho

O nome de René Girard não é desconhecido nesta parte do mundo. De vez em quando aparece citado, de passagem, em alguma tese universitária. Seu livro mais famoso, La Violence et le Sacré (1972), foi traduzido pela Vozes e a edição está esgotada.

O que espanta não é que após tal sucesso nenhum editor brasileiro se interessasse em publicar Le Bouc Émissaire (1982), La Route Antique des Hommes Pervers (1985) e outras obras memoráveis do mesmo autor. O fenômeno pode refletir apenas a intermitência do stop and go, típica das economias subdesenvolvidas. O que espanta é a capacidade que o nosso meio universitário teve de absorver em discreto silêncio algo de um pensamento tão explosivo, continuando em seguida confortavelmente instalado nas suas convicções dominantes, como se ele não as houvesse abalado em nada.

Entre a insensibilidade pétrea e o fingimento puro e simples, algum fator desconhecido parece ter imunizado essa gente contra qualquer advertência de que o leão escapou da jaula. Mas não custa repetir o aviso: René Girard está à solta. O que ele vem fazendo - preparem-se - pode-se resumir na fórmula única de um plano supremamente maligno: destruir a quaternidade sagrada positivismo-marxismo-estruturalismo-freudismo que domina o horizonte das ciências humanas, e colocar em seu lugar nada menos que o bom e velho cristianismo.

Mesmo no Velho Mundo, onde o sacerdócio do culto estabelecido se sente mais fortinho ao ponto de não querer deixar sem resposta uma provocação desse calibre, as reações tomaram apenas a forma de imprecações e rosnados, seguidos de um silêncio amuado. “Fantasias!”, protestou Claude Lévi-Strauss - e mais não disse nem lhe foi perguntado. Nenhuma objeção detalhada o bastante para passar por séria elevou-se contra o empreendimento girardiano, que vai exercendo uma influência cada vez maior nos terrenos mesmos onde a exclusão do cristianismo desfrutava do prestígio de uma exigência metodológica primeira.

O mais irônico da história é que Girard é homem alheio à agitação intelectual parisiense, vivendo há quase meio século em Stanford, Califórnia, e publicando em inglês boa parte de sua obra.

Mas onde, precisamente, ataca Girard o templo do academicismo? “Não se vence realmente senão aquilo que se substitui”, dizia Nietzsche. Girard não perde tempo criticando teorias e escolas: oferece uma explicação melhor para os fenômenos sobre os quais elas reinavam soberanas, e ei-las desprovidas de razão de ser, pairando no ar como inúteis flocos de espuma.

A substituição é global e repentina. Onde cada uma dessas escolas, além de ter lá suas fragilidades intrínsecas, não conseguia abranger senão um grupo especializado de fenômenos, deixando os outros às vizinhas que não raro a contradiziam na base, o sistema Girard, como veio a ser chamado, reúne tudo num bloco - leis, instituições, costumes, mitologias, valores, obras de arte - e submete o conjunto a um mesmo princípio explicativo, simples e poderosamente convincente. A nova chave das ciências humanas demite, de um só golpe, o complexo de Édipo e a luta de classes, as estruturas do parentesco e todos os demais ícones teóricos, que só conservam seu antigo prestígio em longínquas terras do Terceiro Mundo ainda não abaladas pelos ecos da revolução girardiana.

O princípio encontrado por Girard pode-se resumir em um parágrafo. Todas as instituições humanas têm origem ritual, e o ritual resume-se no sacrifício. O sacrifício consiste em descarregar sobre um bode expiatório, vítima inocente e indefesa, os ódios e tensões acumulados que ameaçavam romper a unidade social. Estes ódios e tensões, por sua vez, surgem da impossibilidade de conciliar os desejos humanos. A razão desta impossibilidade reside no caráter mimético do desejo: cada homem não deseja isto ou aquilo simplesmente porque sim, porque é bonito, porque é gostoso, porque satisfaz alguma necessidade, mas sim porque é desejado também por outro ser humano, cujo prestígio cobre de encantos, aos olhos do primeiro, um objeto que em si pode ser inócuo, ruim, feio ou prejudicial. O mimetismo é o tema dominante da literatura, assim como o sacrifício do bode expiatório é o tema dominante, se não único, da mitologia universal e do complexo sistema de ritos sobre o qual se ergue, aos poucos, o edifício político e judiciário. A vítima é escolhida entre as criaturas isoladas, inermes, cuja morte não ofenderá uma família, grupo ou facção: ela não tem vingadores, sua morte portanto detém o ciclo da retaliação mútua. Mas a paz é provisória. Por um tempo, a recordação do sacrifício basta para restabelecê-la. Nesta fase a vítima sacrificial se torna retroativamente objeto de culto, como divindade ou herói cultural. Ritualizado, o sacrifício tende a despejar-se sobre vítimas simbólicas ou de substituição: um carneiro, um boi. Quando o sistema ritual perde sua força apaziguante, renascem as tensões, espalha-se a violência que, se não encontrar novas vítimas sacrificiais, leverá tudo ao caos e à ruína. A sociedade humana ergue-se assim sobre uma violência originária, que o rito ao mesmo tempo encobre e reproduz.

Mas essa violência funda-se, essencialmente, numa ilusão. O sacrifício não tem, por si, o poder de gerar efeitos benéficos. Se estes acabam por se produzir, é por intermédio da crença generalizada que despeja os ódios sociais no inocente e aplaca uma sede de vingança irracional que a sociedade atribui a um deus, mas que vem dela mesma. Esta crença, por sua vez, vem do desejo mimético, que, se escolhe por objeto uma miragem, pode se satisfazer igualmente com uma miragem de causa quando se trata de explicar a origem dos males humanos.

Assim fecha-se o sistema: o mimetismo causa a insatisfação, a insatisfação causa os ódios, os ódios ameaçam a ordem social, a ordem social se restaura mediante o sacrifício do inocente, que então vira mais um deus no panteão do engano universal.

O ciclo sacrificial só é rompido uma única vez na História, com o advento do cristianismo. Cristo proclama a inocência das vítimas, a inocuidade dos sacrifícios, a falsidade dos deuses vingativos: “Todos os que vieram antes de Mim são ladrões.” Ele substitui a vingança social pelo arrependimento individual, restabelecendo o nexo racional entre os atos e as conseqüências, antes nublado pela mitologia sacrificial. Da desmistificação do sistema antigo nasce não somente a consciência moral autônoma, mas a possibilidade do conhecimento objetivo da natureza: Cristo inaugura a primeira civilização - a nossa - que sabe haver mais justiça no perdão do que na vingança, mais verdade no nexo impessoal de causas e efeitos do que na atribuição de um poder maligno àqueles que desejamos matar.

A massa de documentos que Girard, paleógrafo de formação, submeteu a meticulosas análises de texto para comprovar sua teoria é impressionante: vai das primeiras mitologias indo-arianas às obras de Proust.

Não menos impressionante é a mudança de perspectiva que, sob o impacto da teoria girardiana, sofre a nossa visão das idéias e conflitos contemporâneos. O totalitarismo, por exemplo, aparece como o estado fatal a que caminha um mundo que, tendo rejeitado o antigo sistema mitológico sacrificial, não deseja pôr em seu lugar o cristianismo: não há saída senão voltar à matança de vítimas humanas, sob os nomes de “burguesia”, “judeus”, “reacionários”, “negros impuros”, “políticos corruptos”, etc. O nazismo surge, a essa luz, como uma oposição frontal ao cristianismo, preconizada por Nietzsche em páginas que defendem, abertamente, o retorno aos sacrifícios humanos. O socialismo, em contrapartida, é o simulacro que pretende substituir o cristianismo, sugando as energias cristãs para colocá-las a serviço da caça ao bode expiatório. Nas democracias capitalistas, o mais temível forma de anticristianismo é o “politicamente correto”, onde cada grupo, divinizando a própria autovitimização, se nomeia o sacerdote de novas vinganças sacrificiais.

Girard não diz isto em parte alguma, mas é altamente corroborador de suas interpretações o fato de que, de todos os povos discriminados e perseguidos, o único que não explora seus sofrimentos como meio para a conquista do poder de vingança é justamente aquele que mais vítimas forneceu à violência do século XX: o povo cristão, do qual pereceram pelo menos trinta milhões de membros no altar da perseguição religiosa - o jamais mencionado holocausto cristão.

Girard também não cita, entre seus precursores, certamente porque o desconhece, o nome do psiquiatra húngaro Lipot Szondi. Mas não é possível pensar em fenômenos como o desejo mimético e o bode expiatório sem lembrar a teoria do “complexo de Caim” que esse grande sábio colocou no lugar do artificioso “complexo de Édipo” freudiano, já na década de 20. Mas Szondi foi, ele próprio, um bode expiatório: ao lado dessa teoria, defendia também a raiz genética das doenças mentais, o que na época era considerado puro nazismo pela escola culturalista dominante (que preferia culpar “a educação”, “os pais” etc.). Não ficava bem chamar Szondi de nazista, porque ele era judeu; mas, tão logo saiu do campo de concentração onde o haviam posto os nazistas, foi colocado na geladeira do esquecimento pelos democratas e socialistas.

(Publicado na revista Bravo! de junho de 1998)

Pedro Ravazzano

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sobre o "Direito à Satisfação Sexual", e outros "direitos" que não o são.

Edgard Freitas
Advogado

Vivemos a era da multiplicação miraculosa dos direitos. E não temos melhor prova deste período do que a notícia recente de que a Constituinte “bolivariana” do Equador pode recepcionar, na sua parte destinada aos Direitos e Garantias Fundamentais, o direito da mulher (somente da mulher) à satisfação sexual. Isso mesmo: a satisfação sexual como direito humano.

Est modus in rebus. A proposta não é só risível (qual seria o meio de garantir este direito? Ação por Descumprimento de Preceito Fundamental?), mas, acima de tudo, preocupante. Preocupante, sim, pois a proposta vem sendo discutida a sério, e a julgar pela correlação de forças naquela Constituinte, é bem capaz que o orgasmo vire mesmo assunto de Estado.

O fato de tal idéia não ter sido rejeitada in limine como absurda demonstra que se estabeleceu uma zona nebulosa entre o público e o privado, em que as pessoas já não vêem nenhum absurdo implícito em se sugerir que o Estado possa se meter – perdoem o trocadilho – na vida íntima das pessoas em troca de conferir o status de direitos a meros desejos.

Das primeiras declarações de direitos, que basicamente se limitavam a reconhecer aqueles direitos humanos autoevidentes derivados da liberdade: direito à vida, ao tratamento isonômico, à propriedade, à busca pela felicidade, os sistemas legais têm crescido e contemplado direitos tais como à moradia, à dignidade, à alimentação, à educação, além de gerar direitos específicos para grupos abstratos, como gays, negros, índios, proletários das mais diversas estirpes e, agora no Equador, também as frígidas e mal-amadas.

Perdeu-se de vista aquela noção, oriunda da tradição romana, de que o direito é, antes de tudo, uma relação entre homens, uma arte (ars juris) que tinha por objetivo a justa mensuração das relações a partir dos conflitos. Hoje, o simples fato de ser humano já nos torna credores de direitos. Mas qual o custo dos direitos?

É fato que todo direito tem um custo. Por mais que ignoremos as lições romanas, só podemos afirmar que existe um direito prevendo que a alguém recairá algum dever: Ao direito à liberdade corresponde o dever de não oprimir; ao direito à propriedade, o dever de protegê-la do esbulho; Ao direito à alimentação, o dever de alimentar. E qual dever corresponde ao direito à satisfação sexual? E a quem compete este dever? Sob que pena?

Nos preocupamos em proclamar direitos sem nos preocupar se são ou não exeqüíveis. Como na cena clássica do filme “A Vida de Brian”
, em que um grupo de militantes, apoiando o apelo do Camarada Stan, vulgo “Loretta”, decide proclamar que todo homem tem o direito inalienável de ser mãe. Para eles, contradizer este direito é de uma opressão reacionária sexista inconcebível.

Os tempos modernos, constatou Eric Voegelin (“A Nova Ciência da Política”. Ed. UnB, 1982), são os tempos de uma luta gnóstica contra a estrutura da realidade. Dentro da esfera legislativa, e também do ativismo judicial, este pensamento gnóstico é também presente, encarnado na idéia de que se pode (e se deve) transformar a realidade somente editando leis, aniquilando os costumes imemoriais para a imposição pela via legislativa de outros. O fetiche de fazer tudo peloa partir do povo, a crença de que as Assembléias possuem um fiat lux.

Como dissemos, tudo tem seu preço. O preço do protecionismo do cidadão é a sua tutela pelo Estado. É comum que os ideólogos dos direitos proclamem igualmente direitos de liberdade (os ditos de primeira geração) e os de igualdade e solidariedade (de segunda e terceira). É o caso, somente para citar, de John Rawls, que crê ser possível um Estado que seja laisser-faire quanto aos nossos objetivos de vida, mas seja garantista dos meios para a consecução dos nossos objetivos.

Por isso que é muito comum, inclusive e principalmente nas Faculdades de Direito, reclamações sobre a ineficácia de direitos previstos e garantidos pela CF88 e pelo ECA, invariavelmente seguidos da cantilena de que “faltam políticas públicas” (como se o Estado brasileiro fosse pequeno...). Mas a realidade é cruel, e não se curva ao nosso querer. O resultado de tal proposição é como o do cruzamento da vaca com o jumento: O Estado cada vez maior tolhe a liberdade e a autonomia das pessoas, ao mesmo tempo em que torna a economia menos eficiente, tornando mais pessoas dependentes. Ou seja, não dá leite e nem puxa carga.

Que fazer? Primeiro, lembrar da lição de Bastiat sobre a fraternidade forçada: “O Sr. De Lamartine escreveu-me certa vez o seguinte: ‘sua doutrina é somente metade do meu programa; você parou na Liberdade, eu já estou na Fraternidade’. Eu lhe respondi: ‘a segunda metade de seu programa destruirá a primeira’”.(Frédéric Bastiat. “A Lei”. 2 ed. Ed. Instituto Liberal, 1991. p. 17).

Em seguida, basta que nos convençamos de uma coisa: Desejos não são direitos, e nem estes caem do céu ou nascem em árvores. Positivar direitos que não são, prever direitos sem estabelecer deveres, ou editar uma série de direitos contraditórios só torna as leis mais e mais inúteis e desligadas da realidade, gerando frustração e descrença na própria democracia. E não consta, ao menos na história humana, saída para os direitos humanos fora da democracia. Estejamos atentos, pois, para o risco que estes novos e muitos direitos trazem para aqueles nossos direitos realmente autoevidentes, básicos e elementares.