Quase sempre nos círculos católicos ouvimos falar da “unidade na diversidade”. Essa idéia é boa em si mesma. Expressa a catolicidade da Igreja, a multiplicidade de carismas e espiritualidades. Contudo, quase sempre esta frase é acompanhada de um outro pressuposto. “Unidade na diversidade” se converte num modo prático de endossar o relativismo doutrinal, transformando o essencial, isto é, a fé católica naquilo que é mais constitutiva, em aspectos acidentais, passiveis de discordância. Nesse cenário, a “unidade” nada mais é do que um sentimento rarefeito, sem coesão objetiva, portanto incapaz de gerar união.
Não é do meu interesse fazer reflexões teológicas. A primeira crítica que deve ser dirigida a esse posicionamento é de cunho puramente lógico. O que faz de alguém católico? O que permite que um homem, do ponto de vista prático, se identifique como membro da Igreja Católica? Ninguém é coagido a ser católico. Se o é, o é na liberdade. A Igreja, como qualquer “organização” – destaco mais uma vez que estou excluindo toda a questão teológica – necessita de uma estrutura interna. Contudo, mais do que mera burocracia, é fundamental que tenha notas e características que permitam a consolidação de sua identidade.
O catolicismo, como qualquer outra religião, é constituído por um corpo doutrinal e moral que torna possível a unidade. Nas mais diversas variedades de culturas, a mesma fé se faz presente em sua totalidade. Entretanto, dentro do paradigma relativista, a unidade nada mais é do que um vínculo desprovido de objetividade. O que possibilita que um católico chinês e um católico brasileiro se reconhecem como irmãos de um mesmo credo? Não é a expressão dessa fé, que depende da encarnação nas culturas locais, mas sim é o corpo doutrinal, a base sobre a qual a diversidade se realiza.
Como é possível falar de “unidade na diversidade” se não há nem mesmo concepções convergentes a respeito de Cristo e de Sua Igreja? A diversidade é possível na vida de piedade, nas inculturações da fé, e não nos parâmetros fundantes da experiência religiosa. Não há unidade quando alguém acredita que a Eucaristia é simbólica e outro professa a sua crença na Presença Real. Não há unidade quando alguém acredita que a Igreja é um mal necessário e outro afirma que é o Sacramento Universal da Salvação. Não há unidade quando alguém dissocia o Jesus histórico do Cristo da fé e o outro não. Em nenhum desses casos há nada que possibilite a união. Ao contrário, as divergências entre estas posições estão mais similares aos abismos que separam a Igreja Católica, por exemplo, das centenas de denominações protestantes.
Em tal cenário, o que é a unidade? Onde está a unidade? Para que esta seja possível é necessária a convergência de fatores essenciais, deixando aos aspectos acidentais a possibilidade da diversidade. Nessa equação entra a liberdade, permitindo que aqueles que, por algum motivo, se incomodam com a crença professada pela Igreja, sintam-se livres para deixá-la. Contudo, o que presenciamos é justamente uma heterogeneidade naquilo que deveria ser basilar e unitário. Sem essa concepção, o catolicismo se torna numa Babilônia doutrinal, incapaz de professar uma mesma fé sem que esta receba recortes e adaptações em cada consciência. De certo modo experimentamos a “protestantização” da fé católica, isto é, a desconstrução da experiência comunitária da fé em prol de parâmetros individuais que alçados à dignidade de dogmas simplesmente acabam com o caráter universal da crença que professamos.
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