O filme “Caçadores de Obras-Primas” é uma ode à imaginação moral, à tradição, à Civilização Ocidental, à Igreja. É um filme com claros ensinamentos, mas sem caráter panfletário. Tendo como pano de fundo uma história verídica, a produção pretende instigar nos espectadores o despertar para um mundo – tristemente – desconhecido: a cultura ocidental. Alguns talvez esperassem um filme com grandes cenas de ação. Ficarão decepcionados. A história tem até mesmo um ar “monótono”. Para falar da arte ninguém precisa de explosões e carros em alta velocidade. Uma cena na Igreja de Bruges vale mais do que milhares de tonéis em chamas.
Para alguns, “Caçadores de Obras-Primas” pode parecer apenas mais um filme tendo como temática a II Guerra Mundial. O primeiro grande erro é justamente não entender que a história ali retratada é nossa. Qualquer ocidental minimamente consciente deve se apossar dos sentimentos daqueles homens que heroicamente se ofereceram para a nobre missão. A urgência daquele projeto não atinge apenas críticos de arte, arquitetos e escultores, mas todo homem que foi formado sob a égide das instituições e valores da Civilização.
O filme, nesse ponto, é impecável. Ele está muito consciente da sua proposta “civilizatória”. A arte é apresentada não como um capricho de eruditos europeus, mas como o legado perene da humanidade. A sua universalidade é justamente o que faz dessa experiência espiritual-estética atemporal. O que está em jogo não são os museus. O que está em jogo é a identidade ocidental. Esta se mantém viva tanto nas paredes dos grandes acervos, como nas piedosas e antigas imagens que durante séculos foram alvos das fervorosas orações do povo nas igrejas do interior europeu.
Eu aprendi mais sobre a noção de “imaginação moral” lendo as poesias e as peças de T.S. Eliot do que me debruçando sobre livros teóricos (que também são importantes). Aprendi com o poeta que um soneto ou uma tela podem conter mais reflexão ontológica do que séculos de debates estéreis. Essa comunhão de almas, o “contrato da sociedade eterna” de Burke ou a “democracia dos mortos” de Chesterton, é o que possibilita a vivacidade de uma Civilização. Não me espantaria se descobrisse hoje que Eliot escreveu alguma breve poesia sobre o sequestro e recuperação da Madonna de Bruges. Ele certamente acompanhou com aflição a perversão cultural nazista.
Alguém pode se perguntar o que a destruição do “Políptico de Ghent”, pitado por Jan van Eyck, mudaria em nossas vidas. Olhando do ponto de vista puramente pragmático, e portanto com um olhar moderno, pouco importa se essa obra está inteira ou em ruínas. A nossa existência não seria atingida em nada pelas chamas que arrasariam a pintura. Contudo, quando nos entendemos como parte dessa comunhão de almas e herdeiros de uma tradição viva pelo espírito e pela carne, contemplar o fim de uma obra de arte é assistir o extermínio daquilo que de mais elevado foi produzido pelo homem. Não pelos homens, mas pelo homem, conceito universal, que abarca a todos: eu, o meu vizinho, Jan van Eyck e a senhora do interior do Piauí. Todos são sócios dessa experiência de totalidade, de eternidade.
O filme retrata justamente esse testamento espiritual que torna cada homem herdeiro daquilo que fez – e faz – de nós homens ocidentais. Ainda que uma geração inteira seja destruída, ainda será capaz de se levantar. Contudo, se a sua cultura e a sua história são aniquiladas, extingue-se a sua identidade e se incapacita o seu ressurgimento. Esta é a mensagem claramente transmitida em “Caçadores de Obras-Primas”. Ao final do filme, o ancião acompanhado do jovem se encontra diante da Madonna. Valeu a pena tanto esforço, tantos riscos e algumas mortes. Ali, na imagem esculpida pelas mãos delicadas de Michelangelo, eternizava-se o espírito do homem tocado por Deus.

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