domingo, 21 de abril de 2013

A morte e a vida em Pe. Antonio Vieira e T.S. Eliot



Pedro Ravazzano

O grande pregador da língua portuguesa, Pe. Antonio Vieira (1608 – 1697), e o renomado poeta da língua inglesa, T.S. Eliot (1888 – 1965), estão separados por séculos de distância. Contudo, eles têm certas semelhanças em suas biografias: os dois, por exemplo, tornaram-se célebres no além mar. Vieira, sendo português, fez-se soteropolitano e Eliot, americano, abraçou o espírito inglês. Entretanto, ainda sendo um sacerdote jesuíta e um converso anglicano, ambos, fazendo uso da erudição das palavras, produziram uma literatura sedenta de eternidade. T.S. Eliot, com os poemas “Quarta-Feira de Cinzas” e “Quatro Quartetos”, se aproxima da experiência de Pe. Antonio Vieira no seu “Sermão de Quarta-Feira de Cinza” pregado em Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, em 15 de fevereiro de 1673. O que leva, portanto, homens distantes pelo tempo, pela cultura e, até mesmo, pela religião, a terem uma visão do real tão convergente? 

Na obra de T.S. Eliot temas como morte, vida, tempo e eternidade se repetem em uma dinâmica constante. Como já havia afirmado Russell Kirk, “Prufock”, “Gerontio”, “The Waste Land” e “The Hollow Men” são representações do inferno. “Ash Wednesday”, por sua vez, leva ao purgatório, e “Four Quartets” indica o caminho para o momento além do tempo. Outras peças como “Murder in the Cathedral”, “The Cocktail Party” abordam essa tensão entre pecado e consciência, a busca do próprio eu pela salvação e união com Deus. Destarte, na obra elioteana, assim como no sermão vieirense, a morte é abertura. O caso onde isso fica mais patente talvez seja na peça onde se narra a história de Santo Tomás Becket: a sua morte gera vida, o seu sangue é fecundo. 

“Nós te damos graças pelos Teus dons de sangue, por Tua redenção pelo sangue, porque o sangue de Teus mártires e santos/Fertilizará a terra, criará lugares sagrados”.

Em Eliot, portanto, o âmbito limitado da experiência privada nos impele a sair de nós mesmos, até dos nossos momentos mais intensos e intemporais, para o mundo dos outros e do Outro, como também dos eventos passados. Nenhum indivíduo pode ser autossuficiente, já que a vida de uma alma não consiste na contemplação de um mundo consistente, mas na dolorosa tarefa de unificar. Vale destacar, ademais, que com a sua poesia Eliot nos ensina a despojar do mundo, enquanto a sua prosa indica a necessidade de salvá-lo através de um contato renovado com os padrões que tornam a Civilização fecunda. Pode-se dizer, portanto, que a batalha de idéias aparentemente contraditórias indica que estamos falando de uma batalha entre a experiência subjetiva e a necessidade de uma manifestação da realidade.

“Quarta-Feira de Cinzas” mostra-nos, assim, a dificuldade do protagonista em tratar a experiência religiosa pessoal como auto-subsistente. Enquanto o mundo decaído e deserto de “The Waste Land” tornou-se, em “Ash-Wednesday”, uma parte da viagem para o Absoluto, o clímax do poema é repleto de ambigüidade e incerteza.

“A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma”

No momento em que chegamos à última parte do poema, a experiência pessoal do poeta da verdade transcendente parece inadequada e prestes a deslizar para fora do seu alcance, até chamando-o de volta ao mundo do tempo, o mundo que ele havia tentado, em primeiro lugar, negar e deixar para trás. Assim, em “Quarta-Feira de Cinzas”, a experiência pessoal da morte mística é colocada como uma das primeiras armas que devem ser empregadas na derrota do reino da vida, com toda a sua estéril verdade. Entretanto, apenas em “Quatro Quartetos” consegue T.S. Eliot atingir o cume da sua caminhada. 

Por ser o poema de um neoconvertido, “Quarta-Feira de Cinzas” carrega toda a tensão própria do contato primeiro com o Absoluto. T.S. Eliot, por isso, abraça uma via negativa, isto é, a negação para a conquista. 

“Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
(...)
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.”

O poeta é deixado, finalmente, "no crepúsculo encruzilhado de sonhos Entre o nascimento e a Morte", ou seja, a esfera temporal, a zona de penumbra do tempo onde não há compreensão abrangente de nada. Este é "o lugar de solidão". A última linha do poema , “And let my cry come unto Thee”, no original, é a versão inglesa do trecho latino – “Et clamor meus ad te veniat”  - da Santa Missa,  em resposta ao “Domine exaudi orationem meam” (“Senhor, ouvi meus rogos”) . Torna-se, portanto, o grito de um sujeito que descobre a finitude da experiência pessoal em face do poder do tempo. Eliot, preso no aqui e agora existencial, não é nem capaz de se conectar com a verdade transcendente, nem de dar mais sentido à esfera temporal.

A mística, entretanto, fez com que T.S. Eliot caminhasse para outra direção, rumo à plenitude da sua busca. Se, pois, o homem é o centro de tudo para o qual converge a própria criação, o homem não é parte do tempo, ele é incitado a transcendê-lo. Assim, pois, o pecado não existe diante de um Deus que não apenas é amor, mas a onipotência do Amor e que é capaz de transformar até mesmo o mal numa condição de demonstração do Seu amor: “Alle shalle be wele”, dizia Juliana de Norwich, e assim repetirá Eliot em “Four Quartets”. Cleo McNelly Kearns, no artigo “Religion, Literature, and Society in the Work of T.S. Eliot”, afirmou:

“Durante os anos de sua maturidade, o cristianismo tornou-se para Eliot a importante fonte de seu trabalho, permitindo tais brilhantes realizações como “Ash-Wednesday”,” Song of Simeon” e “Journey of the Magi”, e inovações comoMurder in the Cathedral” e “The Family Reunion”. O cristianismo também gerou “Four Quartets”, talvez a maior conquista poética de Eliot, uma experiência sustentada na poesia dialógica e meditativa que é, ao mesmo tempo, o ponto culminante de uma certa tradição ocidental e o potencial ponto de partida para uma nova forma”.

O cristianismo, portanto, com a sua noção de eternidade e santidade, construiu a ponte entre os EUA e Portugal, Inglaterra e Brasil. A fé torna Vieira um Eliot e Eliot um Vieira. Podemos dizer, de forma mais clara, que se Eliot escrevera sobre a epopéia da alma, Vieira, no alto da sua sabedoria de fé e da prática da caridade, pregara na serenidade de uma vida inteiramente consagrada. Ambos, contudo, estão juntos no despontar da eternidade. 

Pe. Antonio Vieira sobressaiu-se como missionário em terra de Santa Cruz. Ainda nascido em Portugal, chegou ao Brasil, em Salvador, muito pequeno. O São Paulo lusitano entra no rol das águias da eloquência cristã, ao lado de Bossuet e Massillon. O Papa Clemente X considerava o seu “testemunho digno de fé” devido ao seu “zelo religioso”, “pureza de vida e costumes”, como também pelos “méritos de suas virtudes” e “conhecimento dos Escritos Sagrados”. Eça de Queirós, grande nome das letras portuguesas, diz dele:

“Depois de ser confidente dos reis e dos papas, de ter conhecido as grandezas do mundo e as do alto saber, morreu com a pobreza e a simplicidade de um místico, na capital da Bahia”.

A experiência da oratória vieirense se abre para a mesma dinâmica arrebatadora da personagem poética elioteana. A negação de si em vida leva à eternidade ou, em linguaguem mais espiritual, à santidade. Obviamente que não falamos de uma via estritamente negativa, mas sim do enamoramento pelo Bem Maior que conduz, de modo natural, ao repúdio sistemático a tudo que disperça. Assim dissera o jesuíta lusitano:

"Sabeis quais são os mortos que morrem? São aqueles que acabaram a vida antes de morrer; aqueles que morreram ao mundo antes que a morte os tire do mundo: Qui prius moriuntur mundo, postea carne. Estes são os mortos que morrem; estes são os que morrem em o Senhor; estes são os que a voz do Céu canoniza por bem-aventurados: Beati mortui"

T.S. Eliot concordaria com tamanha impressão. O poeta estava consciente de que em “Four Quartes”, especialmente em “Little Gidding”, ele atingira o cume daquilo que havia começado trinta anos antes com “The Love Song of J. Alfred Prufock”. Para Eliot o tempo inclui dois aspectos: tempo, ou o temporal, que se move dentro do mundo dos fenômenos, e o intemporal, ou eternidade, que é transcendente e absoluto. Os dois aspectos do tempo existem simultaneamente. O mundo do tempo fenomenal se move horizontalmente num nível baixo, no espaço. O mundo do tempo da eternidade, noumenal, é sempre presente num alto nível, possível ao homem em momentos transcendentes. O sujeito, destarte, vive no tempo se esforçando teleologicamente para a compreensão do seu fim, buscando alcançar a harmonia e a intersecção entre o tempo e a eternidade. Nessa luta dialética se encontra a transcendência da personalidade de caráter espiritual. A morte, portanto, é o começo da vida e o fim do sofrimento, mas essa compreensão só existe na medida em que o homem, na realidade, volta-se para Deus e reconhece a sua vocação mais íntima:

“O que chamamos o começo é muitas vezes o fim
E fazer um fim é fazer um começo.
O fim é de onde nós partimos.”
E diz Vieira:

"O instante da morte não é como os instantes da vida. Os instantes da vida, ainda que não têm partes, unem-se com partes; porque unem a parte do tempo passado com a parte do futuro. O instante da morte é um instante que se desata do tempo que foi, e não se ata com o tempo que há-de ser, porque já não há-de haver tempo."

O “acabar a vida antes que a vida se acabe” de Pe. Antonio Vieira é como o fim que se torna começo de T.S Eliot em “Four Quartets”. Eles não estão aqui fazendo apologia ao suicídio ou à negação da carne, mas, outrossim, exaltando a existência voltada para o Bem, este “caminho do despojamento” dito por Eliot em explícita alusão ao seu estimado São João da Cruz., onde o que “possuis é o que não possuis”. A morte, como desfecho da vida terrena, torna-se porta de entrada para a eternidade. Entretanto, a morte em vida, a via da santidade apontada por Vieira e a senda da mística indicada pelo poeta, já nos faz experimentar o antegozo daquilo que se terá na glória.

“Nossa saúde é tão-só nossa doença
Se contentarmos a enfermeira à morte
Que jamais em desenfastiar-nos pensa
Mas lembrar-nos da nossa, e de Adão, sorte,
Que há-de o mal, para saramos, ser mais forte.”

E completaria Pe. Antonio Vieira dizendo:

"Este é o único antídoto contra o veneno da morte este é o único e só eficaz remédio contra todos seus perigos e dificuldades: acabar a vida antes que a vida se acabe. Se a morte é terrível por ser uma, com esta prevenção serão duras; se é terrível por ser incerta, com esta prevenção será certa; se é terrível por ser momentânea, com esta prevenção será tempo, e dará tempo. Desta maneira faremos da mesma víbora a triaga, e o mesmo pó que somos, será o correctivo do pó que havemos de ser: Pulvis es, in pulverem reverteris." 

Ao final, em “Little Gidding”, Eliot afirma que “nascemos com os mortos”. Obviamente aqui a referência primeira é ao caráter atemporal do funcionamento da comunidade de almas, como a “democracia dos mortos” chestertoniana. Contudo, sabendo da primazia da mística em seu pensamento, especialmente na sua poesia mais madura, é lícito ler essa passagem à luz da noção vieirense da morte. Esse patamar, isto é, quando chegamos “ao ponto de onde partimos”,  é descrito na poesia elioteana como o olhar profundo e simples da própria realidade, “uma condição de completa simplicidade”, contemplando “as crianças na macieira”. Em tal experiência, e aqui entram as palavras da Beata Juliana de Norwich, “alle shalle be wele – tudo sairá bem”. Só assim, como diz Eliot, “o fogo e a rosa” serão um fazendo com que “por benefício do pó que somos não temeremos o pó que havemos de ser”, completa Vieira.

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