Artigo baseado na palestra dada por Pe. Patrick de Laubier sobre a “Escatologia” no SMME
Pedro Ravazzano
O mundo ateu e secularizado, partindo de uma visão distorcida do saber racional, é incapaz de, mediante uma abertura à transcendência, compreender a realidade do homem enquanto um ser fundamentado em Deus. Obviamente, e cabe a análise feita por Pe. Leonel Franca, a crise do mundo moderno é uma crise metafísica. A realidade atual é entendida como o tempo do progresso, da ciência e da técnica. Entretanto, apenas em Cristo é possível erigir a Civilização do Amor.
A técnica e a ciência são como a magia da modernidade, isto é, a gnose, portanto pseudo-teológica, que se coloca não apenas na antípoda da religião como em sua substituição. O homem científico é aquele que faz e, assim, opõem-se ao homem religioso, aquele que recebe. Não obstante, mediante o saber filosófico, uma conversação baseada na reflexão racional a respeito da realidade, faz-se possível o combate a esta gnose.
A cidade humana, onde há o constante combate entre a Jerusalém e a Babilônia, é justamente a complexa e dinâmica relação do homem moderno que, preso a uma realidade imanente, encontra-se impossibilitado de contemplar a transcendência ainda que, por meio do seu próprio ser, busque algo que se encontra além dos limites impostos.
Entretanto, o cristianismo ao romper com toda a tradição hinduísta, grega, egípcia, do tempo cíclico, do constante retorno ao tempo mítico – in illo tempore – permite ao homem, na Igreja, encontrar a Cristo no hoje. O kronós – Χρόνος -, o tempo ordinário, é completado pelo tempo profético, o kairós - καιρό, que extrapola as restrições e que abarca a totalidade do real. Nesse tocante, a Igreja na história deve ser entendida como uma analogia perfeita à vida de Jesus. A perseguição do Rei Herodes e o massacre dos santos inocentes e os primeiros mártires da nascente comunidade cristã; o jovem Jesus pregando no templo e os Padres da Igreja até o séc. IV; a vida pública e a expansão do cristianismo por todo o orbe, etc.
Quando Cristo entra glorioso em Jerusalém, onde a sua humanidade é exaltada – “Hosana ao Filho de David” – ao mesmo tempo em que reconhecem a sua divindade – “no mais alto dos céus” – inicia-se a caminhada que terá como fim a redentora crucifixão - trinta anos de vida íntima, três anos de vida pública, três horas de via crucis, três dias para a Ressurreição! A Eucaristia, também no mesmo sentido, pode ser entendida como analogia ao tempo de Cristo: Kyrie e Santos Inocentes, Glória e Nascimento, Liturgia da Palavra e Vida Pública, Santo e Entrada de Cristo em Jerusalém, Consagração e Paixão, Presença de Cristo e Ressurreição.
Ora, se a Igreja na história caminha com os passos de Nosso Senhor, em qual altura da estrada nós estamos? Como disse Pe. Patrick de Laubier a resposta é pessoal, tendo em vista que a hora, como a Sagrada Escritura coloca, não fora determinada. Não obstante os sinais se fazem presentes. Vemos a apostasia e os precursores do anticristo. Vale destacar, outrossim, que o anticristo não pode ser entendido como um líder de batalha, mas sim um líder espiritual. Como colocara o destacado sacerdote francês “Uma heresia é pior do que uma invasão militar”. Destarte, as duas bestas do Apocalipse – da terra e do mar – são a força da febre ideológica que se forma a partir de uma reflexão pretensiosamente racional – Marx e Lênin, Nietzsche e Hitler, por exemplo.
Ora, ainda que os tempos modernos nos mostrem uma realidade de caos, de crescente ascensão do espírito do ateísmo, de forte secularização, a Igreja sempre se mostrou, ao longo da história, como radiante e vigorosa, ainda nas contrariedades. Isso me recorda o que Chesterton, analisando a história do cristianismo ao longo dos tempos, comentara: “Pelo menos cinco vezes, com os arianos e os albigenses, com os céticos humanistas, depois de Voltaire e depois de Darwin, a Fé ao que tudo indica foi atirada aos cães. Mas em cada um dos cinco casos os cães é que morreram”
A resposta do Cristianismo só é possível através do surgimento da Civilização do Amor, como colocou o Papa Paulo VI em 1975, no auge da crise pós-conciliar. A sua construção não ocorrerá baseada em idéias, ideais radiantes ou em ideologias, mas sim em Jesus Cristo, mediante a experiência íntima com Ele, a pessoa de Cristo! Assim, o problema do mundo moderno, por mais análises que sejam feitas, não se encontra no secularismo, no islamismo, no comunismo, etc, mas sim nos católicos, que, como dissera Pe. Patrick de Laubier, ainda que pareçam piedosos, não conhecem a pessoa de Jesus. Os cristãos não devem se fiar em pessimismos ou otimismos, mas na Fé! Apenas pelo conhecimento íntimo de Nosso Senhor será possível combater os erros do mundo moderno e construir a Civilização do Amor.
Por fim, o presbítero francês nos colocou uma imagem sublime. Nas quarenta horas passadas entre a morte na Cruz e a Ressurreição, o corpo morto de Cristo encontrou-se unido, agarrado, junto ao colo da Virgem Maria. O seu Imaculado Coração, nesse instante, bateu no lugar do Sagrado Coração de Seu Filho, que ali se encontrava em silêncio, por toda a Igreja nascente, para que desse modo, enquanto Jesus ia aos infernos, pudesse, em sua volta, bater para toda a eternidade.

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