O Concílio Vaticano II talvez seja um dos temas mais debatidos no cenário eclesiástico atual. De fato, a realidade espiritual que vivemos é fruto, direta ou indiretamente, desse grande acontecimento. Não obstante, o Concílio é alvo de severas críticas por parte de alas radicais-tradicionalistas que enxergam nele o rompimento formal com 1960 anos de Igreja, de doutrina, de Tradição. Destarte, vale pontuar desde já que tradicionais e progressistas vivem uma relação de mútua dependência; os primeiros necessitam das teorias dos liberais para respaldar o seu radicalismo enquanto os segundos urgem pela mentalidade obscurantista dos “medievais” para justificar a mudança de postura por parte da Igreja.
Dentro desse cenário falar que a virtude está no meio não é clichê. Certamente, as duas posições têm um certo sentido, não obstante erram na forma e no meio. Os radicais-tradicionalistas tomam uma atitude legítima ao defender a Tradição da Igreja e os legados milenares que sempre subsistiram no seio da Esposa de Cristo. Por outro lado, os progressistas acertam quando destacam a importância de modernizar a ação pastoral e a linguagem. Entretanto, tanto uns como os outros se perdem na radicalidade das posições que abraçam com tanta paixão.
Tipo de argumento visual usado pelos "radicais-tradicionalistas"; terrivelmente falacioso e simplista.Antes que alguém alegue que a dita “hermenêutica da continuidade” é invenção de S.S Bento XVI se faz mister destacar que, mesmo que não houvesse uma unidade em torno dessa questão, já havia por parte de muitos teólogos, Cardeais, Bispos, a clara noção da problemática pós-conciliar fundamentada na indevida interpretação do Concílio. Nesse sentido, friso a obra do Mons. Francisco Bastos “Abusos e Erros sobre a fé à sombra do Vaticano II” a qual o ilustre sacerdote paulistano de feliz memória aborda toda a complexidade das discussões conciliares, destacando, com sabedoria, a ação orquestrada de ala progressista, centralizada na “Aliança Européia”, na sua apaixonada tentativa de fazer aprovar as insanidades pensadas nas mentes modernistas dos teológicos que a dava assistência. Além do relato histórico de grande valor – Mons. Francisco Bastos participou como observador do Concílio a pedido do Cardeal Motta – é interessante como o autor jamais coloca em questão a legitimidade do Vaticano II e a autoridade do Beato João XXIII e de S.S Paulo VI ao longo das sessões. Concretamente, ao presenciar cenas lamentáveis e deprimentes, como a do Cardeal Ottaviani, o mais poderoso Cardeal da Cúria romana, ser boicotado ao ter o seu microfone desligado pelo Cardeal Alfrink, a pedido do Cardeal Tisserant, deão dos presidentes do Concílio, debaixo dos aplausos e gargalhadas de muitos dos Padres Conciliares, depois de intervir em oposição às propostas de total descaracterização do rito romano, Mons. Francisco Bastos teria todos os motivos e razões para desacreditar no Concílio e nas suas definições.
O que foi o Concílio para os progressistas.Não obstante, em oposição a atitude “esperada” o autor mostra o espírito de amor à Igreja e obediência ao Sumo Pontífice. Ademais, destaca que, mesmo com as mais ferozes iniciativas modernistas, os documentos do Concílio, ainda que deixando algumas janelas abertas, jamais romperam com a doutrina da Igreja e nem sancionaram as teorias progressistas com a autoridade conciliar. O autor, assim, pontua a sapiência dos Papas – João XXIII e Paulo VI – ao longo das sessões e das aulas conciliares.
Além de Mons. Francisco Bastos recordo-me da posição do grande salesiano Cardeal Stickler, de feliz memória, que mesmo fazendo críticas à reforma litúrgica pós-conciliar, de S.S Paulo VI, defendia o Concílio Vaticano II alegando que este não rompeu com a Tradição milenar da Igreja; “O Concílio solicitou repetidas vezes que a reforma aderisse à tradição.”
As duas atitudes citadas nos são modelos de amor filial à Igreja e de respeito ao Vigário de Cristo. Infelizmente, muitos são os católicos – leigos, consagrados, seminaristas, sacerdotes etc – que embriagados com o discurso envolvente do radical-tradicionalismo incidem numa desobediência formal, quando não num sedevacantismo prático. Não podemos cair em leituras simplistas da realidade, quase sempre norteadas pela paixão. Dessa ação surgem os casos esdrúxulos de católicos que pretendem viver a “verdadeira” catolicidade no fundo de seus quartos, nos blogues, orkuts da vida, no máximo em algum grupo que se considera mais fiel e tradicional do que a Santa Sé, com líderes que alegam amar o Santo Padre mas rasgam o seu Magistério sempre que se recusam a obedecê-lo.

11 comentários:
Eu gostaria de divulgar seu blog, portanto visite o blog:
http://irmandadedosblogscatolicos.blogspot.com
e me autorize a divulgar seu blog.
Peço que seja um seguidor para me ajudar na divulgação.
Abraços
Jorge
Muito bom o texto.
Saudações
Bom texto amigo, não ligue para os insultos que fazem a sua pessoa;São pessoas baixas que dão o que mais tem, porcarias!
No fim, as coisas entram nos eixos, a Igreja sempre triunfa e no próximo triunfo, muitos esconderão as cabeças na terra, como fazem os avestruzes!
Força, Dignidade, Bom ânimo e Combatividade.
Viva Cristo Rei!
Viva a Contra-Revolução!
Viva a Igreja Católica!
Abraços
Irmão,
Parabéns pelo texto. Já estava na hora de alguém na blogosfera abrir a boca pra falar sobre essa encreca abusada entre conservadores radicais e progressistas do "pode-tudo".
Eu como jovem, e com 3 anos de caminhada na Igreja, ainda tenho muito o que aprender sobre ela. Essa briga extremista e infrutífera desses dois lados me deixavam muito confuso. Quase sempre eu só via argumentos de um extremo ou de outro.
Claro que me incomodo com os abusos contra a liturgia, mas tenho que admitir que me incomoda muito mais uma certa falácia, afobada por paixões, frequentemente presente no discurso ultra-conservador e o que é pior: uma contraditória obediência à tradicão que é capaz de desobedecer a própria Igreja -- se opondo (sem admitirem) à infalibilidade papal, por exemplo.
Não vejo nos discursos de quem eles próprios tanto citam o radicalismo que defendem. Chesterton era conservador, mas estava longe da chatice deles. Bento XVI tem um discurso esplendidamente sábio, sem a violência dos conservadores radicalistas e do secularismo dos progressistas. Essas ovelhas só precisam olhar mais para o pastor, só precisam ouvi-lo, ao invés de ficar encrencando no caminho.
Realmente, o Veritatis Splendor, além de reabilitar a palavra "falácia", criou uma nova vertente na discussão conservadores X progressistas, que bate muito nos primeiros e tenta agradar aos últimos. Condescendente demais. De fato, a foto do texto demonstra muito mais do que apenas o aspecto de sacralidade na missa, mas isso só pode ser percebido se levarmos o argumento para fora da missa, e olharmos o mundo como um todo. Ou começaremos a entoar, como Fábio de Melo, "O hábito não faz o monge".
A briga dos "ultra-conservadores" acaba caindo no ridículo não porque eles não tenham razão em muitos pontos com relação à missa, mas porque eles ficam apenas nela (a missa). Então, temos esses rad-trajs que ouvem heavy-metal pesado, que frequentam boates, que vivem com os costumes totalmente invertidos. Só enxergam que a missa perdeu a sacralidade, mas não olham como o mundo está.
Por outro lado, é realmente irritante ver como o VS criou uma maneira de "argumentar" que adjetiva mais do que expõe; que procura nomear tudo com adjetivozinhos que denigrem de tal forma a pessoa direcionada, que quem lê se sente quase que impelido a ir concordando, de tal forma o alvo atingido vai sendo desmoralizado. Não é a toa que quando um dos membros do VS foi falar do Moda e Modéstia, acabou nos chamando de "neo-catáros".
Gostaria realmente que você pudesse rever essa forma de argumentar, para que os textos não virarem um manual de adjetvos, o que é bastante vicioso. Aliás, está bem na hora de arrumarem um apelido para essa posição "radical-moderada", os rad-mods.
Luciana,
Você está se referindo a mim?! Primeiramente, você sabendo melhor do que ninguém que minha análise da situação atual da Civilização não se reduz aos simplismos adotados por certos críticos. Em segundo lugar, não faço mais parte do VS, já que este, na figura do seu fundador, passou a adotar uma postura distinta da defendida pelo Magistério.
Se você se sentiu atacada ou referida na definição de "rad-trad" é porque não entendeu o cerne do texto. A questão principal é destacar o espírito revolucionário fortemente presente em ambos os segmentos, entretanto, entre os que se proclamam "defensores da Tradição" a desobediência é justificada como sendo Contra-Revolução, por isso mais perigosa.
Os progressistas defendem abertamente a "modernização a qualquer custo" da Igreja, por isso encontramos Padres que defendem abertamente heresias e erros. Enquanto isso, aqueles que se levantam na defesa aparente da Tradição, mas difundem uma arraigada mentalidade protestante, ao impor o livre exame do Magistério, prestam um desserviço àqueles que querem restaurar o que foi perdido. Os frutos são visíveis! Muitos Bispos nutrem verdadeira resistência à forma extraordinária, por exemplo, porque acham que todos os seus defensores são anti-CVII, anti-Novus Ordo etc.
Ademais, o radical-tradicionalismo cresce no mundo virtual, com a adesão de jovens que, em seus orkuts e blogs, criam uma sucursal da Congregação para a Doutrina da Fé e reduzem toda a complexa realidade eclesiológica a uma simplicidade de dar inveja a Calvino.
Em Cristo,
Sem. Pedro Ravazzano
Saudações
Este blog é muito instrutivo, vou acompanhá-lo melhor e quem sabe, aprender algo!
Só espero que minhas passagens por aqui resultem em amizades e edificações mútuas.
Com elevados préstimos de respeito,
Abraços
Parabéns ! Ótimo texto !
Sempre gostei dos posts do Ravanazzo, mas esse destoa, não posso compreender um julgamento, este sim, simplista dos tradicionalistas.
Em suma, não sei onde encontrar sedevacantismo, nem vejo bondade no modernisto, com toda humildade creio que a Tradição seja uma força realmente renovadora, restauradora, em particular a FSSPX e a Montfort, porquê buscam a Verdade nos fatos, não nas opiniões dos teólogos do VII.
Caro Antonio,
A FSSPX acusa o falecido Fedeli de ser um sofista( Pe. Danjou http://www.fsspx-brasil.com.br/pdffiles/Pe_Joel_Danjou_Acautelai-vos_dos_homens.pdf), já o falecido acusava a FSSPX de ter " rota romana " paralelo. Depois de um tempo o falecido tentou agradar a FSSPX ,na ocasião do levantamento das excomunhões dos quatro bispos ordnados sem mandato da Santa Sé, dizendo que as exomunhões foram nulas ...
Enquanto a FSSPX não estiver em plena comunhão ( palavra bonita para cismático) vã será sua "luta". Ja a montfort o que dizer...mal o defunto esfriou e estão pedindo R$ 20 mil para montar um escritõrio e organizar seu "trabalho" tá parecendo a igreja do "bispo" Pedir Maiscedo. Ai,ai se a Tradição depender deles...
Prezados,
Vejam o texto do CV II, e conciliem com os ensinamentos da Tradição de 1960 anos:
“Por isso, as Igrejas (19) e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica.”
1) Se este texto da UNITATIS REDINTEGRATIO, CV II, está correto e conforme a Tradição da Igreja, então:
Tradicionalistas, permaneçam firmes em nossas comunidades, pois elas possuem os meios de salvação que precisamos.
2) Mas, se o texto acima, do CV II não está correto sob a ótica da Tradição da Igreja, então:
Permaneçam mais firmes ainda, pois o CV II criou nova doutrina, em desacordo com a Tradição e ensinamentos da Igreja.
E nós da tradição ainda largamos na frente em relação as seitas, pois cremos em Maria, na Santa Eucaristia, no poder Papal, etc…
LEMBREM-SE DO DOGMA CATÓLICO:
“Fora da Igreja não há salvação” (exceto por ignorância invencível, que não cabe a mim julgar). Entretanto, a partir do CV II já tornou-se possível um cristão não-católico salvar-se, mesmo não estando em ignorância invencível.
Outra curiosidade:
Na época do CV II, eram poucas as seitas protestantes e olha o que foi escrito no proêmio:
“O Senhor dos séculos, porém, prossegue sábia e pacientemente o plano de sua graça a favor de nós pecadores. Começou ultimamente a infundir de modo mais abundante nos cristãos separados entre si a compunção de coração e o desejo de união. Por toda a parte, muitos homens sentiram o impulso desta graça. Também surgiu entre os nossos irmãos separados, por moção da graça do Espirito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos. Este movimento de unidade é chamado ecuménico.”
Hoje, o número de seitas cristãs já passam de 30 mil , só no Brasil, e me pergunto: Esse é o desejo de unidade dos “irmãos separados”? Será que foi o Espírito Santo quem previu este desejo “ardente” de união dos cristãos?
O Espírito Santo parou de inspirar nos cristãos o desejo de unidade?
Observação: Maria deve ser um “calo” para alguns lideres católicos que promovem o ecumenismo barato, ela deve “atrapalhar” muito. Se for este tipo de ecumenismo que vejo, te peço Santa Maria, “atrapalhe” cada vez mais.
Atenciosamente.
Francsico Jr.
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