sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Conflito na Palestina; Sangue, Fé e Ideologia

Pedro Ravazzano
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Eu não sei se sou eu que ando me impressionando com facilidade, ou se é o mundo que não mais se impressiona com nada. Acho que é a segunda opção! É engraçado como em todas as marchas em protesto contra a ofensiva israelense a Gaza sempre encontramos, tremulando com força, bandeiras com a Foice e Martelo, a flor socialista, até mesmo a bandeira do movimento homossexual. Isso, desde já, atesta o fato de que essa causa, dita humanitária, já se inebriou com a passional ideologia. Ou seja, não há fidelidade para com a verdade, não há a mínima sintonia ou concordância. Vejamos!

Em países como o Irã, tradicionalmente islâmico – diferentemente de nações moderninhas como Jordânia e Turquia -, os grupos comunistas locais são perseguidos, não tem participação no cenário político nacional. A pouco tempo houve uma comemoração, na Universidade de Teerã, onde foi celebrado o 40º aniversário da morte de Che Guevara, além do "brinde" pelo aumento das relações entre o regime iraniano e o socialismo bolivariano de Chavez. O mais engraçado desse irônico festejo foi o discurso de Hajj Saeed Qassemi, coordenador da Associação dos Voluntários Mártires-Suicidas, que afirmou que Ernesto Guevara era um homem religioso, submerso no sublime amor de Deus. Os filhos do Carniceiro de La Cabaña, que estavam presentes, imediatamente se opuseram a essa, mentirosa, afirmação; “Ele nunca conheceu Deus”, protestou Aleida Guevara com razão, onde já se viu um revolucionário comunista teísta? Resultado? Rapidamente foram deixados de lado pela organização do encontro, saindo do estrelato para o total anonimato em pleno evento dedicado ao seu pai.

Até mesmo nas nações islâmicas modernas, para não dizer modernistas, como a Turquia, os grupos esquerdistas locais sofrem com entraves, não gozam de uma total autonomia política. Inclusive Atatürk, o fundador da República Turca, aquele que proibiu os trajes típicos e perseguiu as mulheres que usavam véu, o responsável pela mudança do alfabeto de caracteres árabes para latinos, o promotor da aproximação da Turquia com a política e cultura européia, até mesmo ele passou a rechaçar os comunistas depois do florescimento da progressista nação turca.

A amistosa relação entre o esquerdismo e a causa Palestina, no Ocidente, nasce de uma identificação de Israel com os EUA e com o capitalismo, além do mais, com muita força, o desenvolvimento do conflito na região criou um cenário muito propício para análises desde socialistas panfletárias até marxistas mais puras. De todo o modo essa aliança não se fundamenta apenas numa experiência ocidental. Muitos palestinos, líderes das causas nacionais, eram comunistas e lançavam mão de um discurso dialético para identificar em Israel a personificação não só da opressão religiosa e cultural, mas também econômica e política. O Fatah, a maior facção da OLP, sempre nutriu características seculares, nacionalistas e centro-esquerdistas; é membro consultor da Internacional Socialista. Gozou de amplo apoio das frentes comunistas, recebendo armas e treinamento da URSS e dos países do Leste europeu. Ademais, vale frisar, dentro da Organização pela Libertação da Palestina, que tem o Fatah como maior denominação, se encontram diversos grupos de clara formação marxista e socialista, inclusive alguns com um histórico de terrorismo; Frente Popular pela Libertação da Palestina (segunda maior facção da OLP) – assassinou o Ministro do Turismo de Israel, em 2001, além de reivindicar três atentados -, Frente Democrática para a Libertação da Palestina (terceira maior facção da OLP) – responsável pelo Massacre de Ma'alot onde crianças e professores secundaristas foram seqüestrados e assassinados -, Partido do Povo Palestino – antigo Partido Comunista Palestino, comparsa da URSS no financiamento armado de militantes na região -, União Democrática Palestina, Frente de Luta Popular Palestina, Frente de Libertação da Palestina – responsável pelo ataque ao cruzeiro Achille Lauro e as praias israelenses de Nitzanim e Eliat. Além dessas ainda existem facções que faziam parte da OLP e que, como as outras sobreditas, partem dos mesmos princípios; Frente Popular pela Libertação da Palestina-Comando Geral – responsável por ataques suicidas contra civis e militares, ainda coopera com o Hezbollah em ataques a Israel, no sul do Líbano -, Frente Revolucionária Popular pela Libertação da Palestina – formada pela ala mais esquerdista da Frente Popular pela Libertação da Palestina. Hoje é insignificante.

O mais perigoso é que esse ethos socializante, com uma tradicional presença em certos núcleos judaicos liberais – os judeus ateus foram peças fundamentais na revolução bolchevique -, atinge de forma direta a identidade do Estado de Israel. Se Karl Marx concebia o Estado como reflexo da sociedade civil, ou seja, da contradição de classes, sendo um poder opressor da classe dominante, o Estado de Israel vai além, ele é a identificação imediata de um povo, ao menos surgiu com esse destacado objetivo; era o representante dos israelitas fugidos da Europa pós-guerra, a esmagadora maioria formada por judeus errantes, sem propriedade e espoliados pelos nazistas, não haviam, a priori, interesses de classe – por isso muitos judeus marxistas eram sionistas. O Estado de Israel surgiu, assim, com uma clara função paternalista, para não dizer salvífica; a esperança de liberdade para os judeus de todo o mundo.

Judeus embriagados com o discurso esquerdista, ao difundir essa argumentação, colocam em questão a existência do Estado de Israel porque, até então, sua nação esteve atrelada aos interesses do povo judaico. Desse modo, separado do seu objetivo basilar, com a deformação do sentido histórico da nação israelense, se possibilita uma nova leitura; Israel seria apenas mais um Estado onde os interesses da burguesia, classe economicamente privilegiada, reinam de forma absoluta. Ou seja, dentro de uma ótica marxista, se instaura uma hermenêutica dialética; a burguesia, representada nos judeus israelenses, e o proletariado, com a função revolucionária, na figura do palestino oprimido. Vamos além, essa interpretação se encaixa como uma luva dentro da análise histórica marxista, não necessariamente ortodoxa. A existência do Estado de Israel estimulou o crescimento dos meios de produção, o aprimoramento das forças produtivas – É só ver os índices de crescimento de Israel, além do mais, a Terra Santa se tornou um pólo de diversas indústrias, como a de informática e de tecnologia -, os conflitos e as guerras travadas acentuaram as contradições; a riqueza e progresso de um lado, a miséria e pobreza do outro. Os palestinos estavam privados de tudo; terra, bens, identidade, nacionalidade, estavam e estão alienados. Desse modo, se pensando como etnia explorada, se organizando enquanto tal, se pensa com vontade revolucionária, assim, por um processo dialético, os que estavam privados de tudo, de tudo poderão se apropriar; Israel e sua riqueza. Nessa inversão, a classe despojada de toda a humanidade particular, destruída pela alienação, carrega a missão de, através da revolução, resgatar a humanidade da humanidade, perdida às custas do progresso do capitalismo. Claro que Marx identificava o proletariado como apátridas, cidadãos do mundo, e aqui falamos de uma causa étnica, nacional. Para tanto, dentro de uma ótica heterodoxa, seguindo uma linha marxiana, é possível fazer essa leitura do conflito Israel-Palestino.

Entretanto, é importante lembrar, a ofensiva israelense contra Gaza se fundamenta nos contínuos ataques do Hamas contra as cidades do sul do país, mesmo durante o período de trégua. Nada justifica a morte de civis, palestinos e israelenses, mas devemos constatar que a incursão israelense é legítima e justa. O Estado de Israel tem o direito de existir, assim como os palestinos tem o direito de construir uma nação sólida e institucionalmente estruturada. A Palestina é uma realidade histórica, mesmo que certos pró-Israel insistam em sustentar uma argumentação falaciosa pautada em critérios políticos e econômicos – quando na verdade deve-se usar bases antropológicas -, como se a falta de uma moeda ou capital palestina, no período anterior a criação da Israel – um Estado, de fato, artificial -, atestasse a inexistência de identidade entre os Philistines.

Os palestinos estão sufocados no próprio sangue; em Gaza são governados pelo Hamas, uma organização que conseguiu desbancar a supremacia da OLP, com suas diversas facções internas, tomando a frente num espaço que era controlado por denominações politicamente ativas e ideologicamente formadas. Os grupos terroristas islâmicos ficavam a margem, servindo apenas para incitar o terror psicológico. Já o Fatah, que governa a Cisjordânia, experiente no cenário diplomático e político, se vê enfraquecido com a ascensão do Hamas, sem sustentação na população palestina, apenas servindo como um braço mais capacitado para negociações e acordos. Ademais, ambas as regiões se encontram isoladas e esquecidas; o bloqueio de segurança israelense, ao mesmo tempo que impede o acesso de armas e explosivos, assim como a entrada de palestinos em Israel (essas políticas, de fato, diminuíram radicalmente os atentados no país), impossibilita a entrada de alimentos, medicamentos, nas regiões. Alem disso, tanto a Cisjordânia quanto a Faixa de Gaza, sofrem com a falta de um Estado organizado, o que prejudica mortalmente o desenvolvimento do serviço público; é a barbárie instaurada, não há ordem. Entretanto, o que diferencia as ofensivas israelenses e os ataques do Hamas é que no primeiro caso existe o sincero interesse de minar a organização terrorista e suas bases, enquanto que os foguetes palestinos se dirigem propositalmente aos centros urbanos, alvos civis.

Israel, quer queira quer não, tem um nome a zelar se quiser o respeito internacional, ainda mais quando percebe a expansão do espírito pró-palestino.

Israel precisa se justificar perante todos os países da ONU, o Hamas não...

4 comentários:

Edson Carlos de Oliveira disse...

Comentário aparte do artigo: Se você colocasse a palavra "ethos" como uma tag em todos os seus artigos em que você utiliza essa palavra grega, é certo que ela estaria no top dos marcadores!!!

Anônimo disse...

Excelente texto, mostrou muito conhecimento, erudição, e bom senso.

Ricardo disse...

Está tudo virado de cabeça para baixo.
Hamas ataca civis em Israel por meses, anos a fio, e ninguém em nossa mídia faz tanto estardalhaço como quando agora Israel revida os ataques.
Ora, que hipocrisia. A cobertura deveria ser justa e imparcial, mas não é.
Qualquer país tem o direito de defender sua população de ataques militares e/ou terroristas!

Fabrício Oliveira Soares disse...

Impressionante seu artigo, caro Ravazzano.
Você realmente tem uma cultura admirável, vai além de religião e economia; não é só questão de fazer uma análise sensata, o que é o caso, veja só o tanto de dados que você nos mostra, que erudição... Parabéns.

PS: Ah, mais uma coisa: "A Palestina é uma realidade histórica, mesmo que certos pró-Israel insistam em sustentar uma argumentação falaciosa pautada em critérios políticos e econômicos – quando na verdade deve-se usar bases antropológicas"; excelente, é uma posição muito inteligente e equilibrada, bem diferente de pessoas que, em resposta a uma idéia estapafúrdia, cai num extremismo como aqueles que, devido aos ataques da esquerda à Israel, defendem tudo que Israel faça em sua política; ao ler um artigo como esse, a minha sensação é que o seu partido é o partido da verdade, tão somente.
Recomendo!