Dentro das fronteiras do Paquistão se reproduz o choque entre secularistas, minorias e fundamentalistas que ocorre há décadas em grande parte do mundo islâmico. Os dois grandes atores dessa tragédia são o fraco e corrupto governo paquistanês e o Taliban. Entretanto, um fator curioso é que por detrás de cada personagem há duas emblemáticas forças ideológicas, os Estados Unidos e a Arábia Saudita. Em terras paquistanesas o radicalismo saudita tomou forma e hoje se dissemina com uma rapidez assustadora, tornando as minorias religiosas, especialmente os xiitas e os cristãos, em alvos constantes dos radicais.
O moderno Estado do Paquistão nasceu em 14 de agosto de 1947, com a independência da Índia seguida da separação do seu território. A criação de duas nações, uma de maioria islâmica e outra de maioria hinduísta, gerou um grande fluxo imigratório: muçulmanos indianos indo para o Paquistão e hindus e sikhs paquistaneses indo para a Índia. Em 1971, com a guerra de independência do Paquistão Oriental, surgiu a terceira nação da fragmentação da antiga Índia Britânica, Bangladesh.
Historicamente já havia no país um forte discurso radical, principalmente instigado pela escola sunita Deobandi, fundada ainda no tempo colonial e como reação a uma pretensa deformação do islamismo. Este espírito de retorno às “origens” de Muhammad, em total sintonia com o movimento ainda mais antigo que surgiu na península arábica, o wahabismo, logo possibilitou o nascimento de diversos partidos e grupos terroristas, muitos desses últimos dedicados a erradicar o islamismo xiita que era muito forte no norte do país. O wahabismo só se disseminou com força depois do incremento das relações entre o Paquistão e a Arábia Saudita, contudo, já em 1880 é conhecida a chegada à Índia Britânica de pregadores wahabitas. Os deobandis nada mais são do que filhos espirituais dessas pregações.
Historicamente já havia no país um forte discurso radical, principalmente instigado pela escola sunita Deobandi, fundada ainda no tempo colonial e como reação a uma pretensa deformação do islamismo. Este espírito de retorno às “origens” de Muhammad, em total sintonia com o movimento ainda mais antigo que surgiu na península arábica, o wahabismo, logo possibilitou o nascimento de diversos partidos e grupos terroristas, muitos desses últimos dedicados a erradicar o islamismo xiita que era muito forte no norte do país. O wahabismo só se disseminou com força depois do incremento das relações entre o Paquistão e a Arábia Saudita, contudo, já em 1880 é conhecida a chegada à Índia Britânica de pregadores wahabitas. Os deobandis nada mais são do que filhos espirituais dessas pregações.
Com a invasão soviética ao Afeganistão a aliança entre a Arábia Saudita e o Paquistão se tornou estratégica para a manutenção do poder islâmico na região. Os sauditas possibilitaram a chegada de recursos logísticos e financeiros para a disseminação das madrasas por toda o território paquistanês e no leste afegão. O Taliban nasce nesse contexto, alimentado ideologicamente e materialmente pelo pensamento saudita. Imitando os seus mentores wahabbitas, os radicais no Paquistão e no Afeganistão iniciaram um processo sistemático de destruição cultural, artística e religiosa: túmulos, mesquitas, livros foram destruídos, era necessário retornar também às origens puras da cultura islâmica, isto é, a forçada “arabização” de povos muçulmanos não árabes.
Um fator da equação que quase passa despercebido é a forte presença dos EUA nesse contexto. Os americanos são tradicionais aliados dos sauditas, ainda que estes sejam os mentores espirituais do terrorismo islâmico que assola o mundo. Da Chechênia até a Somália, do Marrocos até as Filipinas, a esmagadora maioria do fundamentalismo muçulmano tem a marca, direta ou indireta, do wahabismo saudita. No atual conflito sírio o wahabismo é o motor ideológico dos “rebeldes”, grande parte composta por radicais estrangeiros ansiosos para derrubar o governo de um kafir (incrédulo) – Assad é alauíta, uma religião de origem islâmica – e apoiados pela América. Os EUA já têm o costume de apoiar terroristas, como a sua aliança, através do Paquistão, com o Taliban.
Devido aos interesses capitalistas do wahabismo, a Arábia Saudita tornou-se numa ferramenta eficaz na política externa dos EUA na luta contra a influência soviética, o discurso anti-ocidental e as ideologias nacionalistas no Oriente Médio e no mundo muçulmano em geral. Como parte da sua agenda na Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram a criação de diversos grupos com fortes motivações ideológicas, como a Liga Muçulmana Mundial, em 1962, a Organização dos Países Islâmicos (OIC), em 1969, e o Banco Islâmico de Desenvolvimento, em 1976 – todos sediados na Arábia Saudita. Os Estados Unidos também favoreceram a entrada no Reino de diversos ativistas perseguidos em seus países por conta do discurso anti-secularista. O falecido rei saudita Faysal, o principal arquiteto da política pró-ocidental no Oriente Médio, fomentou a formação desses líderes na ideologia oficial saudita. Como resultado, o wahabismo foi gradualmente influenciando a política de diversos países muçulmanos, principalmente o Egito e o Paquistão.
“Nossa fé e seu aço”, foi como Ibn Saud, fundador da moderna Arábia Saudita, descreveu em 1946 para o Coronel William A. Eddy, primeiro delegado dos EUA no Reino Saudita, a relação com o governo americano. Este vínculo se mantém intacto desde então e curiosamente, ainda que o wahabismo seja uma seita de forte espírito puritano, não se vê na Arábia Saudita e no Qatar – as duas nações oficialmente salafistas – nenhum protesto popular anti-ocidental. Ademais, Riyad serve como mediadora entre Washington e Islamabad. Enquanto os EUA forneciam armas e treinamento em campos no interior do Paquistão, a Arábia Saudita abastecia o país com dinheiro e, mais importante, transportando milhares de jovens de todo o mundo, doutrinados no wahabismo e ansiosos na busca do “martírio”. O acampamento, a base – daí, em árabe, “al –Qaeda” – recebia tais voluntários que eram treinados e educados como combatentes mujahidin por homens mais instruídos na ideologia, entre eles Osama bin Laden.
“Nossa fé e seu aço”, foi como Ibn Saud, fundador da moderna Arábia Saudita, descreveu em 1946 para o Coronel William A. Eddy, primeiro delegado dos EUA no Reino Saudita, a relação com o governo americano. Este vínculo se mantém intacto desde então e curiosamente, ainda que o wahabismo seja uma seita de forte espírito puritano, não se vê na Arábia Saudita e no Qatar – as duas nações oficialmente salafistas – nenhum protesto popular anti-ocidental. Ademais, Riyad serve como mediadora entre Washington e Islamabad. Enquanto os EUA forneciam armas e treinamento em campos no interior do Paquistão, a Arábia Saudita abastecia o país com dinheiro e, mais importante, transportando milhares de jovens de todo o mundo, doutrinados no wahabismo e ansiosos na busca do “martírio”. O acampamento, a base – daí, em árabe, “al –Qaeda” – recebia tais voluntários que eram treinados e educados como combatentes mujahidin por homens mais instruídos na ideologia, entre eles Osama bin Laden.
O Paquistão se tornou refém da ingerência Saudita-Americana no Oriente Médio. De Washington e de Riyad emanam divisas imensuráveis que ajudam na manutenção de governos corruptos, material bélico vital para o fortalecimento de um enorme exército tradicionalmente mal preparado e uma forte ideologia que unifica todas as lutas contra os inimigos nacionais, entre eles os "incrédulos". Contudo, em terras paquistaneses o radicalismo tomou feições anti-ocidentais, especialmente anti-americanas, possibilitando a criação de um círculo de morte que assusta os EUA. A América hoje se preocupa com a escadala do terror por ela criado. Nas nações ricas da península arábica o wahabismo goza das benesses do mundo moderno, enquanto na periferia do mundo islâmico, no subcontinente indiano e no chife da África, a pobreza se torna num combustível que inflama ainda mais o radicalismo. O maior inimigo dos EUA na atualidade nada mais é do que o seu experimento que saiu de controle: o fundamentalismo islâmico.





