domingo, 29 de dezembro de 2013

Facebook: Liceu e Octógono

Se o conservadorismo brasileiro depender da qualidade intelectual dos debates de facebook nós estamos fritos! A internet possibilitou a democratização do conhecimento e consequentemente, quase como efeito colateral, criou os jovens enciclopédicos, aqueles que conseguem discutir metafísica, passando por geopolítica e chegando até em teologia das religiões. Não que eu duvide da existência de pessoas capazes de reunir uma multiplicidade de saberes. O problema é outro, a transformação do conhecimento em luta de ego e a falta de um estudo dedicado. Ademais, outra face dessa mesma moeda é a "esquerdização" do conservadorismo, isto é, a sua redução a uma panfletagem política. 

Eu não costumo dar créditos a debates de facebook, não gosto de bater palma para doido dançar. Quase sempre, quando estou envolvido em alguma discussão por aquelas bandas, acabo simplesmente desistindo do "diálogo". Tenho um certo preconceito intelectual com redes sociais. As discussões sempre acabam se tornando completamente passionais e quase constantemente são acompanhadas por uma plateia que faz questão de tornar ainda mais violenta a troca de idéias - quando há troca e quando há idéias. Isso se soma ao fato de que no facebook qualquer um se transforma em qualquer coisa, capaz de forjar conhecimentos com ajuda do Google da Wikipedia. 

Entretanto, a minha recusa a debater em redes sociais não é fruto de uma prepotência, como só me sentisse digno dos louros da academia. Ao contrário, o problema é justamente o oposto. No facebook as discussões são alimentadas por jovens que têm uma visão muito fast food da vida intelectual, como se a leitura de alguns poucos artigos e de um ou outro livro já possibilitasse o debate público com tom pontifical. Destarte, o processo de estudo se torna totalmente deformado, sendo simplificado numa corrida por respostas rápidas, dada a rapidez da rede social, visando a vitória, de preferência humilhante, sobre os oponentes, quiçá inimigos.

Como consequência dessa lifestyle intelectual facebookiano surgiram dois estilos muitos recorrentes de conservadores: aqueles que debatem com a autoridade dos blogs e os panfletários que ao se ocuparem com aspectos mais práticos do discurso acabaram se transformando em guevaristas com camisetas de Burke. Nos dois grupos falta uma seriedade no estudo e na pesquisa. No primeiro caso o estudo é tomado pelos sentimentos passionais da discussão, que são ainda mais maximizados quando se reúnem dezenas de jovens num mesmo debate, quase como hordas mongóis invadindo a Europa ou como enlouquecidos torcerdores de UFC em Vegas.  No segundo caso reina um estilo mais bonachão e menos pretensioso, mas ainda preocupante quando acaba dando ao "conservadorismo" uma pauta e um discurso revolucionários. 

As redes sociais são úteis no contato com pessoas de diversas regiões e países. Eu mesmo posso testemunhar quantas figuras interessantes conheci no facebook e que me ajudaram em diversos aspectos da vida intelectual. Contudo, não tenho a pretensão de transformar o meu mural num Liceu com octógono de MMA, e por dois simples motivos, eu não sou Aristóteles e Mark Zuckerberg não é Dana White.

Grupo Olavo de Carvalho

Estou divulgando aqui, a pedidos, este grupo de fundação recente em Salvador.

"O Grupo Olavo de Carvalho e amigos de Salvador-BA é destinado para as pessoas que se interessem pelas notícias e estudos de Olavo de Carvalho e que residam em Salvador ou em cidades próximas. Aqui, principalmente, nos reunimos para eliminar a solidão de ser um conservador em Salvador e criarmos amizades verdadeiras.

Tarcísio Padilha"

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O imamato no islamismo xiita

O xiismo é certamente a seita islâmica mais desconhecida e mal compreendida no mundo ocidental. Depois do advento da Revolução Islâmica no Irã, com a ascensão dos Ayatollahs ao poder, criou-se no imaginário popular, com grande suporte da mídia, a idéia de que o islamismo xiita é sinônimo de radicalismo. Tal raciocínio simplesmente ignora o fato de que, historicamente, o xiismo é a vertente mais mística do islã e devido aos eventos históricos também se transformou na seita mais próxima aos cristãos.

O islã xiita surge na convicção de que Muhammad deixou sucessores visíveis e responsáveis pela guarda e interpretação da Revelação. Os Imames, começando com Imam Ali ibn Abu Talib, descendentes do Profeta do Islã através de sua filha Fatimah Az-Zahra, são os luminares da religião, com a incumbência de reter a Tradição (Sunnah) e manter viva a mais profunda e mística noção do Corão.

A dimensão espiritual do Alcorão, que mais tarde o xiismo designará por “haqiqa” que por sua vez traduziria um dos sentidos do termo grego “essência”, é aquela que revela a verdade das coisas, esta especial sabedoria que não é de comum conhecimento. Se o texto sagrado não tivesse um sentido verdadeiro e fundante todos os preceitos da religião positiva, “al-Sharia”, não teriam consistência autêntica e se tornariam puro legalismo. Destarte, a religião positiva islâmica é o sentido exotérico (zahir) da essência (haqiqa) que, por sua vez, é o sentido esotérico (batin) do Corão. Há, pois, uma dialética entre o símbolo (mital) e o simbolizado (mamtul). Os xiitas, graças a esta perspectiva e mediante a primazia dado aos Imames na correta leitura dos dados da Revelação, admitem o desenvolvimento orgânico do aspecto legal da religião ao longo da história, ainda que o seu sentido verdadeiro seja permanente

“Todo versículo corânico tem quatro sentidos: exotérico (zahir), esotérico (batin), o limite (hadd) e o projeto divino (muttala). O exotérico para o sentido oral; o esotérico para a meditação interior; o limite são os princípios que estabelecem a licitude; o projeto divino é o que Deus propôs fazer em cada homem através de cada versículo”

Nesse hadith do Imam Ali ibn Abi Talib fica claro como o sentido verdadeiro do Corão converte os Imames em inspirados por Deus, ou seja, homens de Deus, conhecedores e iluminados, “Mantenedores do Livro” escolhidos pelo próprio Muhammad. Finalizada a profecia (al-nabuwwa) se inicia o imamato (al-walaya), que é o desenvolvimento esotérico da profecia. O Imam, portanto, torna-se no coração da religião que vive na história. O Imamato está intimamente associado com o sentido esotérico (batin) das palavras corânicas, o sentido que lança a luz sobre o Livro. Este “segredo” é justamente a walaya que se torna o constitutivo essencial do Imamato. Portanto, os doze Imames formam uma só luz e têm uma só essência verdadeira, compõem um só corpo de autoridade e sabedoria. Ademais, como epifanias da sabedoria divina, eles se identificam com os Nomes divinos. O Imamato é o que possibilita, assim, a continuidade profética sem a qual a humanidade perderia seu sentido religioso.

Talvez pareça que o xiismo, devido a esta clara estrutura gnóstica postule algum tipo de abolição do sentido literal do Corão e a negação da religião visível e positiva, da Sharia. Entretanto, a posição xiita é aquela que não entende que a religião deva se converter numa apanhado de dogmas e leis, de uma realidade normativa desprovida de essências verdadeiras e de sentido interior. Ainda que para a maioria dos homens as luzes do verdadeiro conhecimento estejam fechadas, faz parte da missão dos Imames e daquela minoria de iniciados manter viva a dialética entre zahir e batin.


Assim como a religião possui esse duplo aspecto, a realidade profética também a tem. O Imamato (walaya) é a dimensão esotérica da profecia eterna. Diz-se, pois, que a epifania das dimensões exotérica e esotérica correspondem respectivamente a Muhammad, Profeta do Islã, e a Ali ibn Abu Talib, Primeiro Imam. Ademais, os “amigos de Deus”, os Imames, não teriam comunicação divina direta (al-wahi), mas sim inspiração (ilham) mediante o desvelamento místico (al-kasf).  Utilizando uma construção já mais pendente para o xiismo ismaelita, se diz que o Imam histórico é ao mesmo tempo o espelho e o reflexo do Eterno Imam, a Palavra (Kalimah). Um espelho não possui nada e é pobre ante o objeto que reflete. O Imam histórico - como o espelho - é o mais humilde servo de Deus (Abdull\h), o amigo de Deus (waliyyullah) e Vice-gerente de Deus (khalifatullah) entre a humanidade.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Quando o Brasil se torna num grande Esquenta!

Eu não tenho o costume de analisar festas e eventos, mas hoje vou me passar por colunista da Caras. O sorteio das chaves da Copa do Mundo foi de uma peculiaridade singularíssima. Um evento marcado por todas as notas características da brasilidade-cariocarizada, aquela mesma que está nas ruas das novelas da Globo e que tem em Regina Casé, a pomba gira dos domingos, o seu avatar.

Eu não sei que país é aquele que foi apresentado. Parece que os seus habitantes são agentes de turismo. Ok, faz parte da propaganda a criação do cenário encantado para inglês ver, mas qualquer brasileiro que pega ônibus, anda de metrô e enfrenta engarrafamento sabe que a realidade é um pouco diferente do pacote vendido. Ademais, seria menos custoso para a organização do evento se ao invés de vídeos sobre as nossas “belezas naturais e culturais” tivesse escolhido reprisar o Esquenta: samba, gente feliz, bundas, crianças super dotadas e também rebolativas etc.

Vale destacar, além disso, que esse evento foi profundamente marcado por momentos de vergonha-alheia. Até tive que colocar no mute para diminuir o constrangimento. Claro que grande parte dessa experiência foi devido ao eloquente dom retórico da nossa Presidente. Eu realmente gostei quando ela disse que o Brasil vai receber a Copa como “um único ser”. Não sei se a Sra. Dilma está estudando metafísica, mas o fato é que aquela conversinha com o marido da Fernanda Lima – da próxima vez seria bom não concentrar toda a beleza e feminilidade numa mulher só. A Presidente agradece – foi um momento mui marcante.

Contudo, se algum gringo falasse que o Brasil é a terra do bunda-lê-lê, o Domingão do Faustão way of life, haveria até pronunciamento oficial do Chanceler e protestos em redes sociais. Entretanto, quando num evento transmitido para bilhões de pessoas o próprio Brasil escolhe se apresentar como se fosse um grande Rio de Janeiro – com um bairro chamado Salvador – habitado por uma “gente bronzeada” que dança axé e tem samba no pé todos, ou quase todos, se sentem dignamente representados. Onde está a verdadeira brasilidade e a verdadeira diversidade cultural?


Já passou da hora do Brasil escolher qual imagem quer passar mundo afora. Ou sua versão carnavalesca cariocarizada, aquela que é vendida pela Globo em sua programação, cheia de gente cheirosa sambando seminua ao som das baterias das escolas de samba, ou o Brasil profundo que é composto por brasileiros reais que realmente sabem se divertir, mas que são mais que bundas com um sorriso de photoshop.

sábado, 16 de novembro de 2013

O PT de São Dirceu e São Marx

Poucas vezes eu desbravei o terreno da política partidária brasileira. Além de ser uma temática que faz aflorar os mais bizarros sentimentos humanos, é uma discussão nada frutífera. Todos os debates sobre a realidade política nacional são sustentados sobre dezenas de dados estatísticos e análises de conjuntura, mas que em nada refletem sobre as bases conceituais daquilo que norteia as concepções da filosofia política. Por isso que todas essas discussões incidem num pragmatismo diabólico. Entretanto, com as prisões dos mensaleiros petistas eu me vi diante de reações bastante sintomáticas, refletindo de modo pujante a insanidade própria que marca a (i)lógica esquerdista.

No mesmo dia em que o Brasil recordava a Proclamação da República, os brasileiros assistiram as prisões dos mensaleiros. Enquanto isso, a Presidente Dilma estava muito ocupada discursando no congresso do PCdoB. José Dirceu e José Genoíno, lançando mão de toda a falaciosa "Novilíngua" petista, onde "democracia", "justiça" e "ordem" são conceitos esvaziados de sentido, revelam o teor obsceno da consciência da esquerda: eles são vítimas de um tribunal de exceção, eles são presos políticos. Os militantes petistas protestam nas redes sociais! O PT está sendo alvo de sistemática perseguição anti-democrática.

Até então nada de absurdamente anormal. É um tanto óbvio que o Partido dos Trabalhadores, que tão veementemente negou a existência do mensalão, continuasse a se comportar- imoralmente - da mesma forma. O que se destacou nas reações de protesto contra as prisões foi o modo explícito com o qual a esquerda revelou a sua verdadeira essência, isto é, um projeto de poder que se fundamenta em parâmetros totalitários.

Escondido sob uma aparente perplexidade democrática, os petistas alegavam que o Supremo Tribunal Federal era um tribunal de exceção, que o Estado Democrático de Direito não mais vigorava em nossa nação e que as liberdades foram tolhidas. Contudo, ao mesmo tempo, a Presidente Dilma, no congresso do PCdoB, discursava ao lado de uma imensa imagem de Lênin, o pai do bolchevismo genocida, e centenas de petistas, nas redes sociais, invocavam as imagens de Karl Marx e Che Guevara como intercessores morais para os seus companheiros agora presos.

Ora, reclamar da falta de democracia enquanto acende vela para bolcheviques? Espernear que o STF é tribunal de exceção enquanto a Presidente Dilma, sem nenhum pudor moral, discursa sob o olhar atento do pai da genocida URSS com a sua justiça dos Gulags? Alegar que não houve liberdade de defesa ao mesmo tempo em que se invoca as figuras horrendas da ditadura cubana que fizeram do paredão de fuzilamento a sua corte de apelação? A esquerda revela o quanto seriamente entende esses conceitos que são tão caros para a sustentação de um regime de paz.

Destarte, sob os protestos e chororôs, os petistas, ao mesmo tempo em que criticaram a democracia brasileira por não ser democrática, igualaram os seus heróis, Dirceus e Genoínos, aos mais cruéis genocidas totalitários da história da humanidade. Qualquer pessoa com um mínimo de decência moral reconhece a gravidade de tal feito, seja pela hipocrisia gramsciana, como também pelo fetichismo sado-masoquista de ter como santos de devoção assassinos, carniceiros e corruptos.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

As viúvas-da-libertação da década de 70

Estava lendo um desses artigos que parece que foi escrito na empolgação da década de 70, mas que deve ter sido digitado num moderníssimo MacBook. Nele o autor descrevia o catolicismo do séc. XXI, tratando do papel singular que terá a Igreja na América-Latina nesse novo cenário. Entretanto, o mais interessante nem é aquele delírio já recorrente, mas, isto sim, a incapacidade de enxergar o fracasso colossal do discurso e da prática da Teologia da Libertação.

Um dos fatores mais marcantes em tais artigos é o modo como forjam uma nova realidade. Eric Voegelin não se impressiona! Toda a esquerda, seja onde for, necessita da vitimização como fator de propulsão do seu discurso. Talvez lá na década de 70, quando vivíamos sob o regime militar e ainda havia uma ampla compreensão do caráter sacramental e salvífico da missão da Igreja, talvez aí, nesse contexto, o discurso da Teologia da Libertação, fazendo um uso abundante daquilo que depois se tornaram seus chavões vazios e sua linguagem truncada, empolgassem um sem número de jovens tropicalizados. O tempo passou, essa mesma linguagem se tornou ordinária, o regime militar caiu e a esquerda, finalmente, conquistou o poder e adquiriu o controle em amplas frentes sociais. 

Tudo mudou, menos a própria Teologia da Libertação! É sintomático o fato de que grande parte dos seus adeptos, quando fazem aquelas análises conjunturais que só são lidas por militantes octogenários, ainda acreditam que vivem sob um regime autoritário e que pululam pelas paróquias do Brasil padres de batina que passam o dia opressivamente pensando na salvação das almas! Vejam só! O cenário que pintam é uma tentativa desesperada de negar o óbvio: eles se disseminaram como praga e deixaram por onde passaram a terra devastada. Agora querem apresentar a doença como o remédio, colocando na conta da Igreja "reacionária" a responsabilidade pelo buraco que deixaram.

Qual é, então, o catolicismo do séc. XXI? Aquele onde as igrejas estão vazias, os conventos mendigam vocações e os mosteiros são colocados à venda? Durante trinta anos a Teologia da Libertação foi hegemônica no Brasil e só deixou como herança a derrocada solene do catolicismo. Até mesmo os seus pobres, alvos de tantas reflexões, debates, textos, livros, mas que foram poucas vezes contemplados como a face do Cristo sofredor, debandaram para o protestantismo evangélico. Entretanto, os adeptos das mais estapafúrdias teologias progressistas insistem em cantar vitória, em louvar os seus projetos e subsídios como luzes em meio às trevas.

Resumidamente, tudo cheira a mofo. Quando me deparo com análises de conjuntura e textos que proclamam a "construção do Reino" automaticamente penso em costeletas, calças boca-de-sino e Saturday Night Fever. Ou há uma mudança de cosmovisão, buscando uma verdadeira atualização do discurso - retomando aquelas verdades eternas que foram esquecidas e que estão sendo sistematicamente redescobertas pelos jovens - ou a cúpula de uma certa instituição conferencial vai continuar falando apenas para um grupo de senhores de idade que ainda choram pela queda do muro de Berlim.

domingo, 16 de junho de 2013

Não confio em gente boazinha



As revoltas estão pululando pelo Brasil. Em todas as regiões grupos de jovens se reúnem para protestar contra o transporte público. As marchas, teoricamente pacíficas, deixam rastros de vandalismo e, para agravar, também são recebidas com violência pela PM despreparada. O movimento pode se fortalecer com o tempo, inclusive conquistando o apoio de grupos não-politizados. A verdade é que nunca vi tanta gente boazinha reunida numa mesma causa.

O motivo principal pelo qual me oponho a estes protestos é que não têm como verdadeira motivação a mudança do Brasil. Bem, na verdade falar em "mudança do Brasil" já é um amostra da generalidade que permeia o discurso retórico e utópico dos jovens que lá estão. Os protestos começaram com uma clara conotação ideológica, orquestrado pelo PSTU, PSOL, PCdoB et caterva. Agora, inflado com uma quantidade generosa de idiotas úteis, a revolta cresce e torna-se "apartidária", certo?  Os partidos de esquerdas continuam gerenciando toda a movimentação e cabe a eles, inclusive, as negociações com o governo. Se ilude quem acha que tudo não passa de uma explosão de anseio popular. A cartilha ideológica está sendo o norte de todo o gerenciamento das ações.

Amanhã mesmo os líderes em SP irão se encontrar com o governo estadual. Quem serão tais responsáveis? Seu Zé e Dna. Joana? Não! Estudantes ligados às bandeiras socialistas, mentores ideológicos das incursões pela cidade e discípulos de uma elite intelectual de esquerda que fomenta a "revolução" no alto dos seus delírios em Higienópolis. Além desta claríssima conotação política, que não há como ser negada, estas revoltas se destacam pelo seu caráter rarefeito, escorregadio. Iniciada como protesto pelo aumento das tarifas de ônibus, agora já se impulsionam com palavras de ordem bastantes amplas, como "pela saúde", "pela educação", "pelo social". Tamanho cabedal de reivindicações faz com que se atinja um número tão extenso de revoltosos que não se sabe ao certo o porque de ali estar. O fato é que estes protestos já nasceram profundamente marcados pelo imaginário de esquerda. Reclama-se do estado ao mesmo tempo em que se reivindica maior intervenção do estado na economia e na sociedade.

Entretanto, assumo, o que mais me incomoda é outra coisa, é aquela idéia, típica da esquerda, de que toda a carga de bondade se encarna em suas fileiras. Naquelas revoltas estão os brasileiros que se importam com o "social", com a "mudança do país", enquanto o resto, bem, o resto é resto, ainda que seja maioria. É a típica ditadura dos bons, dos verdadeiros engajados na transformação, daqueles que ainda não sendo povo querem ensinar ao povo a sê-lo. Ainda tenho total estranheza com movimentos de massa. Acho que numa confusão de pessoas marchando a probabilidade de isto seja apenas uma expressão passional de ideais desordenadas é altíssima. A marcha é antireflexiva, é puramente politizada - não política - no sentindo de que se encontra incapaz de reconhecer, de modo profundo, as raízes das suas ações. Se defende um ideário de sociedade totalmente difuso, respaldado em bons sentimentos, mas deformado pela prática política.

É, provavelmente sou ruim demais, mas não consigo acreditar em movimentos com tantas pessoas boas, justas e bem intencionadas reunidas num só lugar.